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24 de junho de 2012

O presidente da junta.

Depois de uma carta e dois emeiles resolvi telefonar ao presidente de junta de uma freguesia ribeirinha da região do Douro. Indagando-o sobre o assunto veiculado na carta e nos emeiles enviados há meses, respondeu-me que a junta não estava disponível para anuir ao requisitado. Agradeci e fiz notar que bastava uma linha para responder por carta ou emeile o que acabara de proferir via telefone. Fez-se agressivo e disse que não era funcionário público e que a junta em causa não era como as das freguesias urbanas, sarcasticamente fazendo notar que eu devia estar mal habituado (ao atendimento célere a que tenho direito, suponho?) O país está repleto destas criaturas iletradas e prepotentes. É óbvio que não é a régua e esquadro dos técnicos geógrafos que transformará o país num lugar melhor onde o Estado se faça representar convenientemente por representantes à altura de um país do século XXI. Mas convenhamos: um imbecil a menos é uma ajuda muito grande. Se reduzirmos o número de imbecis em centenas, só ganharemos com isso.

1 de junho de 2012

A merendola.

http://www.flickr.com/photos/mpjcoelho/5846367241/


A apetência de uma certa faixa etária de portugueses pela merendola é bem conhecida. A prova desse hábito, colhido ainda no tempo dos passeios de domingo do estado-novismo, é a quantidade de parques de merendas que juntas de freguesia e câmaras municipais distribuem generosamente pelas estradas nacionais. Aquele grande português que alguns novos e velhos ainda apreciam chamado Salazar costumava parar nas bermas para merendar com os seus ministros os produtos das hortinhas de Santa Comba, gentilmente amanhados pela D. Maria. Talvez por isso a Sonae-Continente tenha visto neste segmento um excelente nicho de mercado. Organizou uma piquenicada na Avenida da Liberdade o ano passado e agora, achando que a avenida era pouco gloriosa para o evento, desceu até ao Terreiro do Paço, a praça mais nobre da cidade. O Jonh Wolf do Ouriço acha bem e aplaude a iniciativa, sugerindo que na praça já se fez de tudo, desde autos de fé a negócios javardos e que um concerto do Tony Carreira não está longe de uns e outros. Bom, não contestando, sugiro que prossigamos então o uso lúdico do espaço com actividades semelhantes. Os autos de fé eram, ao que parece tão concorridos como um concerto de música pimba. 
Agora a sério. A culpa desta falta de sensibilidade e evidente mau gosto (sem conotações elitistas) não é dos marketeers da Sonae os quais, se soubessem que o "povo" apreciava carne humana, venderiam hambúrgueres da dita em promoções diárias. Não. Mais uma vez a culpa também não é do tal "povo" de que toda a gente fala, mas ninguém sabe muito bem onde começa e onde acaba. A culpa é, como não poderia deixar de ser dos políticos que vendem ou alugam o metro quadrado de qualquer espaço público sem que isso lhes pese na consciência ou suscite dúvidas cívicas. De resto, quem frequenta as cantinas da Assembleia ou o Tavares dificilmente será apanhado a comer uma sande coiratos regada por uma zurrapa do Dão. Os mais inocentes falam em defender os produtos nacionais, nomeadamente o toucinho cantador chamado Tony. Acho muito bem. Mas o país tem tantas colinas, chaparros e sombras. Não era melhor levar o tachinho com arroz e a chanfana de vitela até lá?

30 de novembro de 2010

O grande democrata.


Em 1967 Cavaco Silva escreveu e assinou por baixo, num documento público que estava "Integrado no actual regime político", acrescentando um reparo: "Não exerço qualquer actividade política". Estas declarações vêm firmar o que já sabíamos sobre o carácter do actual Presidente da República: é da fibra da maioria dos portugueses, daqueles que a 6 de Outubro de 1910 eram todos republicanos e que no dia 25 de Abril de 1974 juraram a sua intrínseca democracia. A história recente deste país tem sido feita por estes homens, tão versáteis como cobardes. Condições absolutamente necessárias para se ser um bom estadista.

5 de maio de 2010

Mudam-se os tempos ... (Camões estava errado)


Portugal sempre apareceu nas primeiras capas pelas piores razões. Não é de hoje. E, suspeito, não será moléstia que desaparecerá tão cedo.

1 de agosto de 2009

Fim de linha para Portugal.

Não sei se os jornalistas da sic leram as minhas crónicas de 15-6-2009 e 25-3-2009, mas a peça transmitida vem reiterar e repetir muito do que aqui escrevi. É mais uma história da vergonha portuguesa, de um país que quer investir em barragens, eólicas, TGV's e mais autoestradas (para agradar a conselhos de administração e cartéis) e encerra 500 quilómetros de linha férrea. Mesmo apesar do Protocolo de Quioto pedir a redução de CO2 e o uso de transportes públicos não poluentes! A estupidez colectiva é mais gritante quando comparamos Portugal e Espanha, onde a via férrea serve efectivamente a maioria da população. Desculpem-me o desabafo, mas é o que sinto: este é país governado por gente imbecil e por cidadãos nulos.

25 de julho de 2009

O Ministro da Cultura e as energias renováveis: uma ligação improvável?




Assisti, ontem, na RTP2, ao programa "Diga lá Excelência", em que o convidado foi o Ministro da Cultura, indíviduo pouco conhecido, governamentalmente discreto e cuja imagem de marca são os óculos "fundo de garrafa". Não sei se por miopia ideológica, por ignorância ou por lealdade ao grande líder, o Dr. Pinto Ribeiro vinha armado até aos dentes com gráficos montados sobre k-line. Vinha justificar o injustificável, ou seja, porque razão ocupava aquele cargo. Desconheço a formação de base do Ministro (dizem-me que é direito) mas o pouco que percebe de cultura compensa em teoria económica. As jornalistas, visivelmente pouco preparadas para o ataque contabilístico do "senhor 1%" (a mítica meta da percentagem do orçamento de estado dedicado à cultura que foi uma dos principais temas de conversa), viram-se confrontadas com  um propagandista. Tudo foi relativizado: a falta de planificação do ministério, a ausência de visão, o desnorte em casos como o Museu dos Coches, etc. Até os manifestos e as opiniões críticas de sectores e indivíduos ligados à cultura nacional foram reduzidos a pó pelo senhor ministro. Para ele tudo se resume a dinheiro e património. O dinheiro consegue-se com recurso a parcerias. O património, bom, esse continua a cair aos bocados, não obstante o esforço do Dr. Pinto Ribeiro em apresentar listas, números e uma carta de recomendação da Unesco. Mas o discurso ideológico, aquele que parece bebido em longas horas de lavagem cerebral frente a um vídeo com conselhos do Grande Líder, atingiu o pico quando o Ministro da Cultura começou a dissertar sobre o futuro Museu da Viagem ("da Globalização", "das Descobertas", "dos 1.ºs descobrimentos", "chamem-lhe o que quiserem"). Segundo ele, essa obra extraordinária que está para surgir vem confirmar a longa vocação dos portugueses para a utilização das energias renováveis. Sim! Isso mesmo, energias renováveis! Num rasgo de genial bestialidade o dr. Pinto Ribeiro afirmou que os Descobrimentos tinham sido realizados utilizando a água e o vento - uma "viagem democrática" que se contrapõe às viagens modernas que necessitam das energias fósseis (ao que parece, e segundo ele, "não democráticas"). Eu fiquei algum tempo a divagar sobre esta conversa absurda. Depois dei comigo a relembrar a História nacional e internacional e pensar que, talvez, me tivesse escapado algo. Não. De facto os Descobrimentos foram feitos pelo mar afora, à custa dos ventos e das marés. Se os marinheiros de então achavam este sistema ecológico e democrático, isso não sei. Afinal de contas era o único que conheciam. O senhor Ministro da Cultura, contudo, está visivelmente perturbado. Sofre de despersonalização. Talvez devesse ser Ministro do Ambiente. Todos sabemos que os ministros apenas cumprem o papel de representantes do Grande Líder, não interessa a formação que têm. É por isso que tanto podem ser ministros da saúde, presidentes de um conselho de administração, ou professores catedráticos. Chama-se a isto flexibilidade ou versatilidade e qualquer uma destas coisas os nossos políticos têm para dar e vender.

17 de julho de 2009

Já corrompeu ou foi corrompido, hoje?


O que você tem a ver com a corrupção? Um filme para as consciências (Brasil)

"Administração Pública muito permeável à corrupção". O tema percorre as notícias de jornais e de estudos de tempos a tempos. Discute-se, avalia-se a posição de Portugal em relação a outros países, em suma: um "costume", um "hábito social". Pacheco Pereira chamou-lhe o lubrificante da sociedade portuguesa - ao que eu acrescentaria um lubrificante que induz à desaceleração da máquina económica, produtiva e funcional. Porquê? Embora não estejamos habituados a associar a vulgar "cunha" à corrupção, esta pode ser uma das principais causas do atraso económico e social deste país ao admitir em lugares que exigiam mérito, indivíduos medíocres e com pouca formação que só lá chegaram por serem amigos de A ou B. E por isso o país vive, alegremente, à conta da "cunha". É natural. É daqueles alimentos que se come da mesma gamela. E enquanto a gamela estiver sempre cheia e der para uma maioria, esvaziá-la vai ser difícil, pois ninguém quererá morder a mão que o alimenta. Por todo o lado, a cunha, a conveniência, o clientelismo primário tem efeitos: colocações de novos funcionários públicos, aceleração ou desaceleração de projectos urbanísticos e arquitectónicos, etc. E agora que a educação passa para as mãos dos municípios o perigo de monopolização e manipulação das consciências é maior: "dou-te emprego se..." "arriscas-te a perder o emprego se..." O "se" é sempre a lógica partidária, é o tal lubrificante que faz mover a República Portuguesa. A mudança tem de partir que baixo. Tem que partir dos desempregados que o estão por terem sido preteridos por um amigo do vereador ou do presidente da câmara. Já me ofereceram emprego em troca de silêncio ou de um cartão partidário. Recusei, e é mesmo provável que um dia morra à fome enquanto ao meu lado, um rotundo gordo, medíocre e idiota, ensina, governa ou gere à conta de um percurso académico mais pobre do que o meu. Uma coisa é certa, posso ir para a sepultura esfomeado, mas não sem dar luta.

8 de julho de 2009

Não discutimos a Nação!



... - dizia o Senhor Presidente do Conselho da II República Portuguesa, António de Oliveira Salazar. E dizem os organizadores das festividades que comemorarão, em 2010, os 100 anos sobre a instauração do regime republicano. Não discutem a Nação que lhes passou um cheque de 10 milhões de euros em tempo de crise, nem discutem o regime que os amamenta com o saudável leite da ideologia burguesa. Ou não fosse o cabecilha desta organização um banqueiro. Artur Santos Silva preparou, aliás, um programa muito interessante para estas lautas festas que fazem lembrar, em muitos aspectos, as comemorações do Estado Novo: República e Lusofonia, Arte e Espectáculos, Jogos do Centenário, República nos Media, Edições e Exposições do Centenário, Portal Centenário da República e Georeferenciação e Fluxos de Comunicação. Se substituirmos a Lusofonia por Império, o Portal pelas luxuosas publicações editadas pelo Secretariado Nacional de Propaganda, de resto tudo, ou quase, tudo é decalcado de cérebros muito semelhantes aos da Revolução Nacional. Aliás, a formatação ideológica a partir das escolas parece ser um ponto assente no programa desta Comissão: rever, revisitar e reformatar a imagem da República de forma a servir um Estado moderno é o objectivo principal. («As actividades previstas incluem exposições, encontros científicos, roteiros municipais, jogos e concursos e actividades nas escolas», Público, 08-07-09). Num país onde a Escola já quase não tem contacto com a História, onde os estudantes não sabem situar cronologicamente os acontecimentos e as figuras que os antecederam; num país onde os museus não têm orçamento para quase nada, nem para conteúdos educativos, gastar 10 milhões em propaganda republicana é imoral e muito pouco ético. Incorrendo no risco de parecer imparcial, diria que é um crime. Mas tais coisas, que vão sendo hábito numa sociedade pouco transparente e habituada à impunidade, não espantam saindo da boca, mãos e cabeça de banqueiros. Fico realmente admirado que uma pessoa de consciência, saber e intelectualidade como a Dr. Raquel Henriques da Silva (que, mais do que ninguém, conhece o Estado da Cultura em Portugal) assine por baixo desta fantochada.

23 de junho de 2009

O Turismo em Portugal.


Imagem retirada daqui

Ontem, na RTP1, falou-se de turismo. De como esta indústria pode ser importante para a economia portuguesa (!). Pinho, o Ministro de alguma coisa, olhava para a assistência, inchado de empáfia, como o guru de uma tribo, mas a sua face deixava transparecer a ignorância. Foi talvez preciso ouvirem da boca do presidente da Organização Mundial de Turismo que esta indústria podia salvar uma economia em crise, para que todos os políticos presentes vestissem uma cara trágico-patética, de alguém que tinha acabado de inventar a roda. § Recordei então o primeiro dos arrependimentos de Sócrates, recentemente tomado por uma onda de humildade e veemência. Confessava ele estar arrependido por não ter investido mais na Cultura. Talvez algum dos seus assessores, num acesso de lucidez lhe tenha dito: "sabe, senhor engenheiro, se tivesse gasto menos em computadores Magalhães e mais em livros, exposições, na reabilitação do património ou na criação de roteiros culturais, talvez Portugal tivesse mais motivos para acreditar num futuro melhor". § Entretanto, com o seu estilo natural de político profissional, estava por lá o Presidente da Câmara de Baião que também deve já ter percebido (tem formação académica para isso, pelo menos) que as cavacas e os salpicões não atraem turistas e que Eça de Queirós (que, coitado, enfim, lá deu com os costados em Santa Cruz do Douro) serve para trazer às Serras algum dinheirito. Não sei se os seus congéneres dos municípios vizinhos de Resende e Cinfães se encontravam na plateia ou, pelo menos, assistiram - das suas pantufas - ao debate e às conclusões que saíram das profundezas da Mina de Sal-gema em Loulé. Mas espero, sinceramente, que alguém os informe das mesmas. É que cada um deles, trauliteiro político à sua maneira, mais preocupado em inaugurar parques de merendas e arranjos de jardim, tem de perceber, mais tarde ou mais cedo, que o Turismo e a Cultura são factores essenciais para a criação de emprego, dinamização económica e social e um dos pilares do progresso sustentado de que as normas europeias tanto falam. E o tal Turismo, que ontem era de sol e praia, hoje exige novos conteúdos que a paisagem, a gastronomia e o artesanato, só, não asseguram. Eu espanto-me como ainda há quem pergunte que serve a História ou para que serve o Património. Aparentemente para nada, ou para muito pouco, pelo menos em Portugal. § É claro que no resto da Europa serve para, entre muitas outras coisas, fazer dinheiro.

20 de junho de 2009

Assim se escreve a História local em Portugal.


Global, n.º 414, 19-6-2009

(clique sobre o recorte para aumentar)

Sem qualquer pejo as Câmaras Municipais alinhavam roteiros turísticos com textos académicos, sem autorização e sem ressarcir os seus autores poupando tempo e dinheiro e ganhando visibilidade em promoção. Para estes políticos de alcova o trabalho de investigação não vale nada. É carolice. Mas já que está feito vamos aproveitá-lo. O dinheiro gasto por estes panfletários dava para suprir o que falta em educação por estas terreolas afora. Novas Oportunidades para os políticos, isso sim, faz falta.

15 de junho de 2009

Crónicas de uma viagem II

Estação ferroviária de Toledo Comboio Madrid-Toledo

El Berrón - entroncamento ferroviário de linha estreita Tren del Cantábrico

Fotografias (de cima para baixo, da esquerda para a direita): 1 Estação ferroviária de Toledo (em estilo neo-árabe); 2 aspecto do interior do comboio interregional entre Madrid (Atocha) e Toledo; 3 Entroncamento ferroviário de El Bérron, onde se cruzam as linhas estreitas que servem Oviedo, Santander e Gijón, todas electrificadas; 4 O Tren del Cantábrico. É possível, desde Bilbau ou Santander apreciar os montes Cantábricos e as Astúrias num comboio-hotel que circula em via estreita. Seria o equivalente a ir do Porto a Bragança em comboio, algo que já foi possível e hoje é mera utopia.

Não é preciso ir à China, ou melhor, não é preciso ir a Espanha para ver que, tal como está projecto, o TGV não tem sentido absolutamente nenhum em Portugal. Espanha construiu e continua a construir as suas linhas de alta velocidade em tempo oportuno, seguindo as demandas do mercado. Unir Barcelona a Madrid faz sentido. Madrid-Sevilha, também. E, seguindo a tendencial força tentacular da capital da Península Ibérica, chegar a Lisboa pode, talvez, ser um bom negócio para os castelhanos (embora chegar a Sines ou a Leixões seja bastante mais vantajoso para a economia de nuestros hermanos). § Andar a brincar aos comboios num país que encerra linhas turísticas porque são uma ameaça para os seus passageiros, ou que não investe em ligações ferroviárias regionais e interregionais claramente viáveis (e refiro-me às ligações a Bragança e Viseu, por exemplo), é um perfeito dislate. Mais um, aliás, com que nos brindam os governos e os governantes da III República. Sim, por que no que concerne a politiquismo, despesismo e má governação, Sócrates não só não dá cartas, e não foi o inventor dessa fórmula que dirige este país há 30 anos. Devemos recordar o glorioso Cavaco Silva que inundou o país de cimento e asfalto, distribuiu uns quantos Range Rovers a meia dúzia de patos bravos e hoje empoleira-se na cadeira do poder como uma virgem vestal, púdica e recatada. Afinal, tudo começou durante o seu consulado: os dinheiros europeus enebriaram todos, desde o presidente da junta até ao Ministro dos Transportes e foi um corrupio. O que se vê hoje? "Prédios Coutinho", o lixo visual da cidade de Braga, o Centro Cultural de Belém e umas quantas ic's esburacadas que ligam meia dúzia de vilórias do interior. Os caminhos-de-ferro não progrediram, as estradas só servem para fugir e o ambiente aguentou com as consequências de anos e anos de más políticas (passamos das etar's para as eólicas como se nada fosse...). Bom, isto tudo para dizer que se em Espanha o TGV funciona, um comboio a circular em via estreita também. E está electrificado, coisa estranha e nunca vista em Portugal. É possível atraversar-se as Astúrias e os montes Cantábricos (Santander-Oviedo e Bilbau-Léón) em carris de ferro de bitola estreita. Em Portugal a ligação Porto-Salamanca (que mais rapidamente nos aproximava à Europa) foi fechada porque o seu rendimento não conseguia assegurar os benefícios do conselho de administração da CP. Ganharam os lobies das empresas de autocarros que, não só contribuiram para o desgaste das estradas portuguesas, promoveram o trânsito e a poluição em escala nunca antes vista e (porque ninguém pensa nisso) tornaram as estradas menos seguras. Eu nem quero alongar-me a falar da linha que liga Oviedo a Leão. A foto abaixo é apenas um vislumbre do tipo de locais por onde ela passa (ou melhor, serpenteia) - está electrificada e equivale a uma das nossas linhas suburbanas, embora no percurso sirva apenas meia dúzia de aldeolas. Parece que é rentável. § Ou os administradores da RENFE ganham menos que os da REFER/CP, ou alguém em Espanha leva o curso de engenharia até ao fim.

Vista do comboio entre Oviedo e Leão

6 de junho de 2009

Vamos todos votar. Todos os dias.

Imagem picada daqui.


Ultimamente alguns amigos e conhecidos aproveitam para me lembrar a necessidade de votar no próximo domingo. Não sei a que se deve esta necessidade eleitoralista súbita, se ao mau desempenho no actual governo, se a uma necessidade emergente de tomar consciência dos seus direitos como cidadãos. Bom, se a minha condição de cidadão se reduzir ao direito do voto, então não sou nada. Nunca poderei ser nada, como disse Fernando Pessoa. E mesmo que, eventualmente, tenha em mim todos os sonhos do mundo, o facto de ir votar não mudará o mundo. Não mudará o meu mundo, não mudará o mundo dos outros. Possivelmente mudará o mundo dos candidatos. Uns mudar-se-ão para Bruxelas, outros redecorarão a sua casa e o mundo pula e avança, com votos a menos ou a mais. § Um amigo disse-me: «é preciso é que as pessoas participem, o que me assusta é a passividade». E eu respondi que o voto é a passividade. Ir votar, voltar para casa, sentar-se no sofá e esperar que meia dúzia de políticos faça o trabalho que cada um de nós deve fazer é uma das maiores inutilidades dos tempos modernos. Vejamos o que a História nos diz: quando não havia democracia, ou quando a havia mas esta era limitada, homens e mulheres houve que do meio da massa anónima gritaram. Ousaram. Quiseram. E deixaram a sua marca de liberdade. Esse é o melhor voto, o participar exigindo, querendo, fazendo. Por isso, no próximo domingo muito embora vá votar, o meu voto será nulo. Porque a minha democracia se faz no dia a dia e não segundo um calendário eleitoral.

9 de maio de 2009

Viva a República Portuguesa! ...- Viva o quê?

Nesta imagem, a República, já maternal e composta, pede por um Estado Forte.


A Comissão para as Comemorações para o Centenário da República Portuguesa vai gastar milhões de euros (leram bem, milhões) para levar a cabo um programa de relançamento da imagem do regime. O mesmo é dizer, vai branquear a História. Soube agora, pelo Estado Sentido, que o Terreiro do Paço onde D. Carlos e o Princípe D. Luís Filipe foram assassinados por dois fervorosos republicanos será o epítome deste maravilhoso mundo novo que eclodirá do 5 de Outubro de 2010. Embora considere as comemorações, acima de tudo um roubo (mais um a que nos habitou o regime e os seus governos), não me deixam particularmente aborrecido. Porquê? Simplesmente porque tudo ficará na mesma. Ou talvez não e sirva mais ao movimento monárquico esta onda de súbito republicanismo patriótico pois afinal de contas o momento não é o melhor para comemorar o que quer que seja. Entre despedimentos, a recessão e todo o aparato económico tecido à sua volta quem é que vai querer saber da República? De mais a mais já ninguém comemora o 5 de Outubro - é só sair à rua nesse dia e ver quem é que anda com bandeiras na mão, a celebrar o heróico feito de meia dúzia de oportunistas. A D. Maria que mora num apartamento nos subúrbios de Lisboa com 4 filhos para criar e com um marido doente, que sai de casa todos os dias às seis horas da manhã para apanhar 3 autocarros e o metro - isto tudo para ganhar menos de 500 euros - quer lá saber do centenário da República. Neste país sem rei nem roque aquela senhora meia despida há quase cem anos depois está quase pútrida e não vale um tusto furado. É preciso cobri-la de ouro - ouro que os seus contribuintes e cidadãos nem podem pagar - para exibi-la ante uma plateia de desinteressados.

29 de abril de 2009

Pouca-terra, pouco-juízo.

IMGP1075

Douro, 2009 (c) N.R.

Depois de um périplo pelos restaurantes do Douro, chego mais balofo à invicta para constatar (após cinco dias sem notícias) que tudo na mesma, mais do mesmo neste país de homens de abril. Ainda agora lia uma citação de José Gil: "Em Portugal não há drama, tudo é intriga e trama!". É verdade. Desde a triste urdidura em redor da (nenhuma) representação oficial da república portuguesa ante a canonização de Nuno de Santa Maria, até à campanha pidesca da Ministra da Educação que tem já por hábito montar tribunais inquisitórios pelas escolas do país, pouca coisa espanta. Aliás, espanta tudo tão pouco, desde que de soubemos de porcos a espirrarem no México e, quem sabe, ocasionarem tremores de terra no outro lado do mundo. O efeito borboleta foi inventado em Portugal como fait-divers. Haja alegria no meio de tudo isto: as farmacêuticas já esfregam as mãos de contentes e sempre se poupa algum dinheiro por cá, em férias adiadas ou canceladas a Cancun - por todos os que contrairam empréstimos para as pagar. Tenham juízo! § Voltando ao Douro: a montanha pariu um rato. Fui ao Museu, o das parangonas da Pires de Lima e do Sócrates himself. Muito dinheiro para tão pouca uva. Salva-se a loja de recuerdos que sustém em consolo de vista o que a saleta de exposições não enche. Mas está bem, foi bem visto, começar pelo inglês basófias a quem o Camilo aplicou um daqueles insultos que mereciam o prémio nobel como defesa pela honra de uma cidade e região que o dito britânico chamava de mixórdia. Sempre se dá aos ingleses a contínua sensação de que ainda são nossos donos. E não serão? § Entretanto, ao lado do "Museu de um milhão de contos", está a linha do Douro, reduzida agora a uma espinha entre o Porto e Pocinho - mas, por quanto tempo? Valha-nos São Nuno que apesar de nos ter salvo dos espanhóis, tem menos importância e significado nacional do que um cão de água. Mas talvez seja isso que mereçamos: sermos conhecidos mundialmente por um quadrúpede, do que por um santo.
P.S. Não obstante a farta comilaina da qual me penitencio ainda para mais por ser perpetrada em época de tanta carestia, foi um agradável fim de semana na companhia de um grupo de pessoas com extraordinárias virtudes. A todos, um abraço. Contem comigo para outras andanças - menos fartas em vinhos e pitanças mas (ainda) mais ricas em cultura!

15 de janeiro de 2009

Simplex: mais simples não podia ser.

O Governo actual, através dos seus apaniguados informáticos e condutores da propaganda socialista resolveram lançar (à boa moda das votações do Estado Novo) um processo de democratização do Simplex. O cidadão, com o seu Magalhães, entra no site do dito programa para a modernização da administração pública e sugere as modificações a ocorrer para simplificar ainda mais o simplex. E tornar o país numa espécie de Portugal-for-dummies. Bom, eu, que sou crente e ainda acho que podemos contribuir para a construção democrática deste povo, lá fui dar as minhas sugestões. Mas houve quem fosse mais longe e deixasse o seguinte desabafo. De facto contra factos, não há muitos argumentos - nem os do comportamento cada vez mais nervoso do nosso Primeiro-Ministro na Assembleia da República:
Este país do faz-de-conta é cada vez mais uma anedota pegada. Ora atentem lá nesta coisa vinda no Diário da República nº 255 de 6 de Novembro 2008:
No aviso nº 11 466/2008 (2ª Série),declara-se aberto concurso no I.P.J. para um cargo de "ASSESSOR", cujo vencimento ronda os 3.500 € (700 contos).(...)" Método de selecção a utilizar é o concurso de prova públicaque consiste na … Apreciação e discussão do currículo profissional do candidato."
No Aviso simples da pág. 26922, a Câmara Municipal de Lisboa lança concurso externo de ingresso para COVEIRO, cujo vencimento anda à roda de 450 € (90 contos) mensais. (...)"Método de selecção: Prova de conhecimentos globais de natureza teórica e escrita com a duração de 90 minutos. A prova consiste no seguinte:1. - Direitos e Deveres da Função Pública e Deontologia Profissional; 2. - Regime de Férias, Faltas e Licenças; 3. - Estatuto Disciplinar dos Funcionários Públicos. Depois vem a prova de conhecimentos técnicos: Inumações, cremações, exumações, trasladações, ossários, jazigos, columbários ou cendrários. Por fim, o homem tem que perceber de transporte e remoção de restos mortais. Os cemitérios fornecem documentação para estudo. Para rematar, se o candidato tiver:- A escolaridade obrigatória somará + 16 valores;- O 11º ano de escolaridade somará + 18 valores;- O 12º ano de escolaridade somará + 20 valores. No final haverá um exame médico para aferimento das capacidades físicas e psíquicas do candidato. ISTO TUDO PARA UM VENCIMENTO DE 450 EUROS MENSAIS! Enquanto o outro, com 3,500€ Só precisa de uma cunha. Vale a pena dizer mais alguma coisa? Este regabofe do socialismo de plástico tem que ter um fim. Urge que se mostre indignação. Basta de cinismo e de hipocrisia! Há que ter moralidade! (Patrícia Carvalho).
Retirado
daqui.

20 de dezembro de 2008

O Simplex cerebral.



Muitos dias a correr para a Loja do Cidadão. Muitas horas a preencher papéis; muitos papéis para outros preencherem, - como o atestado de robustez física que é, provavelmente, o documento menos utilitário e mais irracional que o Simplex ainda mantém. Em suma, o Simplex de Sócrates funciona em pleno: mantém os cidadãos distraídos, os funcionários públicos ocupados e o país lá roda, roda, como o burro na nora. § Entretanto, num país paralelo, não sei se acima, se abaixo deste, se nas profundezas cálidas do Inferno, se nas nuvens fofas e espessas do Céu, roubam-se os bancos e os clientes, os políticos fogem à crise, sobretudo às sextas-feiras e os outros, todos nós comuns mortais (dos quais se excluem alguns futebolistas, juízes e casais McCann) lá vamos rindo e cantando. Grécia? Não, aquilo é lá com eles. Os nossos jovens sabem pouco de política. É mais playstation, Morangos com Açucar e uns copos no Bairro ou na Ribeira. Estes cerebrozinhos obesos embebidos em álcool não vão longe como os seus congéneres gregos, a não ser que, por acidente, se lhes ateie a cabeça encharcada do alcoól como um cocktail molotov Mas nunca será pelas mesmas razões. Ainda não têm fome, nem emprego (nem precisam), nem lhes falta de gasolina para o picanço, a corrida às discotecas. As lojas estão cheias e eles sempre na moda. Já há laca para cabelos de rapazes, as calças abaixo das nádegas, os brincos de prata de lei e isto quanto a eles, pois nem sequer concebo meninas de unhas vidradas a atirar pedregulhos à polícia de choque. Dizem-me: lá chegaremos. Não, não acredito. Este país de brandos costumes gosta de arder em lume brando. Apodrece e regenera. É assim há muitos anos e vais continuar a sê-lo por muitos mais. O nosso cocktail é o das festas e o molotov o do fogo de artifício do Ano Novo que se aproxima. Venha 2009. Tudo está bem quando acaba bem.

19 de novembro de 2008

Comentários a dois comentários.

Um
Relativamente ao comentário (gaffe, qual gaffe?) da Dr.ª Manuela Ferreira Leite, não vejo qual seja o espanto. Se repararem estamos em ditadura há bem mais do que seis meses.
Dois
Mais graves parecem-me as declarações do governador do Banco de Portugal sobre o carácter «generoso» (e cito) do subsídio de desemprego, - que, segundo o mesmo, propicia o desemprego de longa duração. Vindo de alguém que tem um salário pornograficamente elevado - eu diria mesmo uma quantia vergonhosamente alta para o comum dos portugueses - , fica mal fazer comentários daquele género. Continua a verificar-se uma discrepência entre o ficcional dos gabinetes de Lisboa e o que de real se verifica no quotidiano do País. A dotação atríbuída a mordomias, salários principescos e gastos excessivos e supérfluos dos altos cargos da função pública deve influir bem mais no desiquilíbrio das contas do erário nacional do que os subsídios de desempregos atribuídos por não mais que 2 ou 3 anos a quem ainda tem quem vive o drama de não conseguir emprego. Declarações destas valeriam, em países civilizados, um despedimento e um pedido de desculpas. Aqui, valerão uma promoção, com certeza.

1 de novembro de 2008

A minha terra é melhor do que a da minha vizinha (I).




As Câmaras Municipais são, como todos nós sabemos, pequenos universos onde astros gravitam em redor de micro-poderes, servindo como placa giratória de todo o tipo de favores e clientelismos. Eu sou já muito complacente com estas coisas de tanto me encherem a cabeça com expressões como "tens que fazer o jogo", "estamos em Portugal", a "cunha é património nacional", "já não há remédio", etc, etc. Contudo, a jogar por jogar, ao menos joguemos a capital e não a feijões. § Está certo que o uso da "cunha" para aceder a um lugar numa Câmara municipal significa menos um desempregado, o que é bom e cumpre o requisito dos 150000 mil novos empregos prometidos pelo nosso Sócrates. Mas cada apaniguado destes devia receber um manual de instruções à entrada do seu novo gabinete que, para além do itinerário mais rápido para o café mais próximo, incluiria esta regra: delegue. Isso mesmo, delegar - devia ser o 1º mandamento do funcionário público. Porque - está visto - quem faz a carreira pela via da "cunha", deve perceber muito pouco do ofício. Muito de relações interpessoais, com certeza - mas pouquíssimo ou praticamente nada de tudo o resto. § Delegar é importante para todos. Primeiro confere ao apaniguado a impressão de pertencer a um estatuto superior, - apenas destinado aos que mandam - e depois porque serve para que os trabalhos sejam distribuídos por indivíduos mais competentes mas que nunca chegaram a lugares de chefia por serem completos falhados nas ditas relações interpessoais ou na aplicação dos pressupostos metodológicos da cunha. E é aqui que entra o tal "capital" a que me referia atrás. Não se trata de dinheiro, mas tão-só de imaginação. O nosso funcionalismo público é cinzentão, mortiço, rabugento e indolente, naturalmente derivado da pouca vontade em empreender, em querer mais do que a rotina do pica-o-ponto. Falta-lhe em imaginação o que lhe sobra em estratégias de promoção pessoal ou política. Mircea Elíade refere que "ter imaginação - tanto para um indivíduo, como para um povo - é gozar de uma riqueza interior, de um fluxo ininterrupto e espontâneo de imagens" (ELIADE, Mircea, Imagens e Símbolos. São Paulo: Martins Fontes, 2002, p. 16) - num mundo em que fluxo tende a secar (em Portugal já quase não existe) o capital de pensamento e de acções vai definhando e, consequentemente, arrastando consigo os indivíduos para crises (como a que atravessamos agora). Se os indivíduos medíocres que abundam nos recursos humanos nas nossas câmaras e dos gabinetes de Lisboa ao menos delegassem, talvez se salvasse a honra do convento. Mas andamos a atirar fora a água do banho junto com o bebé. § Dou-vos como exemplo o vídeo acima. É um daqueles panegíricos nos quais os municípios investem, não tanto para promoção turística do concelho, mas para glorificação dos partidos e dos homens, onde o discurso alterna entre as tradições, o folclore e os monumentos. Este monólogo é tão pobre, tão fraco e pouco imaginativo que bem pode ser uma prova da decadência da Civilização tal qual a conhecemos.

19 de junho de 2008

¡Mira Mario!

Era confrangedor. Mário Soares afundado numa cadeira entre as pregas dos seu 83 anos e em frente o bem falante Hugo Chávez a debitar oratória pseudo-franciscana acerca da desigualdade dos povos, a aconselhar a Europa e a ameaçar o Bushismo. A conversa de Mário Soares ontem, em horário nobre da RTp1 tornou-se afinal um monólogo, a que o entrevistador anuia e sorria, num sinal ora de beatitude laica ("- sou um agnóstico, mas espiritual", ficamos a saber de Mário, depois de Chávez lhe ter atirado à cara com um "presidente cristão-social") ora de pré-demência a que os últimos anos do Soarismo nos habitou. Quando pensávamos que a intervenção de Mário Soares se limitava a meia dúzia de declarações infelizes nos jornais e, ocasionalmente, na televisão, eis que o senhor atravessa o Atlântico para dar tempo de antena ao nada demagógico Hugo Chávez e começar uma série de entrevistas com os Grandes do Mundo. Quem se seguirá? Fidel numa cadeira de rodas? Soares e uma médium a entrevistarem Che? O que mais me aborrece é que as romagens do sr. Dr. Mário Soares - que outrora se resumiam a visitar lugares onde pudesse montar tartarugas e elefantes - continuem a ser pagas pelo contribuinte, ou seja por nós. Viva o socialismo. Hurray.