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24 de abril de 2017

A polémica das pinturas (II)

Numa altura em que se fala de ciência, convém lembrar todo o processo e atitudes dos seus responsáveis relativas à autenticidade dos quadros expostos no MNAA durante a exposição A Cidade Global.
Numa posta anterior fiz o ponto de situação sobre o caso, que iniciou com as acusações públicas dos historiadores Diogo Ramada Curto e João José Alves Dias acerca da autenticidade iconólogica (e material) dos quadros intitulados «O chafariz d'El Rei» e a «Rua Nova dos Mercadores», ambos de colecções particulares.
Desde então (1-3-2017), registo os seguintes desenvolvimentos :

- A 6-4-2017, saem a público os exames realizados ao quadro Chafariz d'El rei. O relatório, da autoria de Sara Valadas e António Candeias, ambos do Laboratório Hércules da Universidade de Évora conclui que «“No que diz respeito à análise dos materiais constituintes e da forma como estes são aplicados esta obra terá sido executada muito provavelmente por pintor de influência ou naturalidade do norte da Europa a partir da 2ª metade do século XVI, época em que se verifica o uso generalizado do pigmento azul de esmalte e se começam a utilizar imprimaduras coradas” (Expresso, de 7-4-2017)

- No dia seguinte, a 7-4-2017, na mesma data, Diogo Ramada Curto, reage à notícia, escrevendo um artigo para o jornal Expresso, onde assinala, com violência, a violência da reacção às suas anteriores afirmações/acusações. Com inusitada agressividade (pelo menos para nós, comuns mortais que assistimos ao desenrolar da peça) Ramada Curto atira-se a Baptista Pereira, chamando-lhe «conferencista dos brincos Braganzia, trauliteiro de serviço e d’Artagnan de uma história da arte corporativa» (cremos que num aspecto se referirá a isto http://inparties.blogspot.pt/2015/02/casa-da-cultura-no-estoril-palestra.html) e sintetiza a sua aposição:
«As janelas verdes não são o Canal Caveira de triste memória, tal como o MNAA não pode servir de montra para a valorização de activos bancários – assets para utilizar a linguagem de quem gosta de finissages – , nem pode andar ao serviço de uma facção boa contra uns mauzões, filhos do demónio, com os quais fui confundido.»

Não querendo ater-me às expressões menos felizes e de carácter corporativo ou pessoal exaradas em letra de forma pelo autor, não posso deixar de sublinhar as incongruências que Ramada Curto colhe no processo de exame, nomeadamente a incongruência das datas da sua realização, em relação à presença da pintura da exposição e os erros (grosseiros, atente-se) de identificação dos tipos de madeira usados como suporte da camada pictórica.

- A 08-04-2017 o Expresso noticia que o MNAA na pessoa do seu director «não vai fazer qualquer exame às controversas pinturas da “Rua Nova dos Mercadores”, cartaz da exposição “A Cidade Global”. Alegando os custos dos exames, que ficariam a cargo do MNAA, António Filipe Pimentel descartou tal hipótese.

- No mesmo dia Vitor Serrão reage através da sua página de facebook, reiterando a autenticidade (inabalável) das pinturas e recusando as «recentes críticas sensacionalistas dos distintos historiadores Diogo Ramada Curto e João Alves Dias tentaram desvalorizar, vendo estes quadros como produto de visões ultra-nacionalistas contemporâneas (!) que visaram destacar a visão filo-fascista da História portuguesa, branqueando-a numa falsa perspectiva interclassista e adoçando-lhe o carácter esclavagista e xenófobo...»

É claro que todo o processo envida, como já referimos, de tristes irresponsabilidades que nunca serão assacadas - a principal, culturalmente habitual, a de fazer a casa pelo telhado, apresentando grandes arengas com coisa pouca, num mundo e num tempo em que não há ainda o básico.
Nesse sentido, talvez tenha razão a crítica da vernissage, de Ramada Curto, embora a violência com que irrompeu na comunicação social (ainda que se adivinhem razões de estatuto que só os palcos da inteligetzia lisboeta descortinam...) não justifique tal libelo.

No fim de tudo, os grandes e poderosos continuam firmes, nas suas assombrosas cátedras de certeza e... Joe Berardo pode dormir descansado, assim como quem supostamente lhe não vendeu gato por lebre.
No fim é isto, servimos sempre os mesmos. E gostamos de servi-los.

Adenda à posta anterior:
Comunicado de Vitor Serrão ao expresso de 5-3-2017

1 de março de 2017

A polémica das pinturas: a autenticidade ou a falsidade do discurso?

Pintura da «Society of Antiquaries of London». Via Expresso


Espero ter o tempo e o discernimento suficientes para abordar a questão das pinturas por esta altura expostas no MNAA intituladas «O chafariz d'El Rei» e a «Rua Nova dos Mercadores». Não a questão da sua autenticidade, sobre a qual não disponho de informações e conhecimentos necessários que mo permitam fazê-lo, mas sobre o caso em si, a discussão pública que se originou entre vários investigadores da História e da História da Arte.
É, aliás, o teor desta discussão que interessa  analisar e que se resume cronologicamente nos seguintes documentos:
- 18 de Fevereiro de 2017: Diogo Ramada Curto e João José Alves Dias, em artigo e entrevista ao Expresso, afirmam a possível não autenticidade dos quadros com base numa comparação entre os elementos da composição e a documentação / conhecimento social da época.
- 22 de Fevereiro (nas vésperas da inauguração da Exposição A Cidade Global: Lisboa no Renascimento) a direcção do MNAA - Museu Nacional de Arte Antiga reage à posição dos historiador lançando um comunicado escrito em que reitera a confiança nos estudos de  Annemarie Jordan e K. J. P. Lowe sobre a origem, percurso e autenticidade das pinturas, sublinhando os contributos de outros investigadores, como Henrique Leitão («Prémio Pessoa»), Fernando Baptista Pereira e Vítor Serrão.
-22 de Fevereiro: Diogo Ramada Curto escreve um novo texto para o Expresso,  debruçando-se agora mais sobre a questão da temática da exposição do que o conteúdo iconográfico e iconológico dos quadros, assinalando que «Há um Estado Cultural que quer por o MNAA a render no circuito turístico» (título do artigo, DRC, Expresso, 22-2-2017).
- 23 de Fevereiro: Fernando Baptista Pereira faz publicar nas páginas do Expresso um texto com o título «Os quadros não são falsos». Nos dias anteriores, Vitor Serrão, na rede social Facebook, afirma o mesmo. Ambos se escudam na leitura iconográfica, propondo, contudo, «novos exames materiais e técnicos« (F.B.P., Expresso, 23-2-2017) que não haviam sido pedidos, nem executados aos quadros em análise.
À parte o enquadramento político e institucional que poderá emoldurar esta polémica (e que apenas podemos entrever em algumas das linhas escritas de parte a parte), algumas questões se levantam, entre as quais esta:
- Dada a força imagética, histórica e até mediática de ambas as pinturas (uma dela, de resto já conhecida publicamente desde finais da década de 1990) não teria sido mais proveitoso investir em análises técnicas que permitissem corroborar a sua datação, antes de avançar para as conclusões que hoje se apresentam?
É óbvio pelas várias reproduções que circulam que, iconograficamente ambas as constituem um manancial de informações que os métodos à disposição da disciplina da História da Arte exploram avidamente. Mas estes não são garantes de verdade absolutas como a polémica/discussão veio demonstrar.
Para já, e mais do que assacar culpas, interessa analisar esta questão à luz do diálogo inter e multidisciplinar que o novo tempo das ciências sociais tem propugnado, mas que não acontece. Apesar de grande parte da polémica se desenrolar nas redes sociais, não há consciência de rede no trabalho científico e a oposição historiadores-historiadores de arte que se construiu ao longo desta questão veio revelar o desfasamento entre as disciplinas e os seus actores. O teor da polémica não deixa de ser, em parte semelhante ao das grandes polémicas do século XX, em que se discutiam coutadas temáticas e menos a importância do conhecimento enquanto bem público e material educativo.

P.S. Obviamente, não discuto aqui as frases soltas (e francamente dispensáveis) do Ministro da Cultura ou as posições alinhadas dos seguidores de facebook do director do MNAA. Não é útil que se ceda a unanimismos, nem servilismo, quando se trata de discutir ciência.

8 de novembro de 2011

A inveja é uma coisa feia.

Jacob de Backer (c. 1555 – c. 1585)
Alegoria à inveja


Vale a pena ler este trabalho sobre a inveja pictórica, representada geralmente como uma mulher descarnada, feia e velha, cujo olhar gasto e cansado da cobiça não pára de querer mais e mais. Pode um povo gastar-se assim?

26 de janeiro de 2010

Tesouros da cidade do Porto #1


(clique sobre a imagem para apreciar)


Tríptico do Espírito Santo
Pintura sobre carvalho do Báltico
Autor desconhecido (atrib. Van Orley)
c. 1512-1517, Antuérpia (?)
Prov. Capela do Espírito Santo de Miragaia (até 1877)
Hoje depositado na Sacristia da Igreja Paroquial de Miragaia)

20 de março de 2009

S. Paulo c. 1470-80 [Nuno Gonçalves]
óleo sobre madeira 135 x 83 cm
Museu Nacional de Arte Antiga
Lisboa, Portugal
retirado daqui

Si Dios ha hecho este mundo, yo no quisiera ser Dios. La miseria del mundo me desgarraría el corazón.
A. Shopenhauer
Todos os dias peço a Deus para que me não me deixe abrasar pelo fogo do ateísmo e das heresias, tão avassaladora é, cada vez mais, a malvadez humana. Não falo do dia-a-dia e das pequenas estratégias que marcam a pequena cupidez aflita de quem nos rodeia. Refiro-me do veneno com que a comunicação social nos inocula, todos os dias. Quantos Joseph Fritzl haverá neste mundo doentio? Não é com moralismo que o digo. É com náusea. Quero um deus justiceiro, como o Cristo medieval, que castigue com pragas severas esta humanidade patologicamente má. Quem sonha ou executa sevícias das que cruelmente nos descrevem esses agourentos arautos é a prova mais do que provada que somos intrinsecamente maus e não buscamos ser melhores. Já saldamos as dívidas entre nós. Atingimos a o grau máximo da escória. Deus, Cristo Pantocrator, São Miguel ou esse São Paulo misógino e moralista que agora se comemora: brandam a espada sobre as nossas cabeças, deixem-na cair e antecipem o juízo final. Dêem-nos paz.