Acontece a todos.
Primeiro as lembranças aquecem-nos de tal forma que exacerbam os sentidos; depois, um a um, os sentidos vão perdendo a ligação com aquelas lembranças e, finalmente, como um depósito no fundo de uma velha garrafa de Porto, ficam pequenos excertos do que fomos e do que sentimos.
De quatro anos passados em Braga, recordo-me hoje do aroma das flores das laranjeira no Largo da Senhora a Branca. Foram anos intensos e não deixa de ser estranho que se resumam a aromas, a um ou outro dia, a uma passagem, a um gesto... No entanto, no final, a única coisa verdadeira é um aroma...
Um destes dias fui a Paris, sem qualquer vontade de o fazer. Não. Risco "sem qualquer vontade de o fazer" e substituo-o por "sem que algum dia tivesse realmente vontade de o fazer". Continua a parecer forte de mais, não é que nunca quisesse ir a Paris, mas a imagem que construí de Paris não era suficientemente sólida para me obrigar ao caminho. Fui, porém.
Dessa "Paris pré-visita" havia mil preconceitos: a divisa atabalhoada da Liberdade, Igualdade e Fraternidade que tantos apregoam mas são capazes de cumprir, a sobranceria (injusta, bem sei) dos franceses e sobretudo dos parisienses, como todos os habitantes de todas as capitais, e, acima de tudo, uma cultura longe da matriz com que me edifiquei.
A primeira imagem da cidade foi de desilusão. Nunca devemos chegar a uma cidade à noite. Devemos fazê-lo preferentemente ao amanhecer, quando as pessoas despertam para um dia de rotina. Desta forma não nos sentimos estranhos. Assim que cheguei enfiei-me pelas entranhas sujas da cidade e atravessei-a em pouco menos de uma hora. Acordei no dia seguinte para uma avenida como as avenidas do meu imaginário parisiense. Fiz, então, uma sondagem arqueológica na minha mente e estava tudo lá: os plátanos, o céu cinzento, - carregado mas, ao mesmo tempo luminoso -, os telhados uniformes e a sobranceria. Mas em tudo havia um apetite voraz que não sentira antes.
Tive muita sorte de não querer para gostar verdadeiramente. E Paris fascinou-me.
Hoje, alguns dias depois do regresso, é óbvio que me lembro do gosto dos quartiers, de Notre Dame ao amanhecer, da linha de metro à superfície assente em pilares de granito e aço, da Torre, das cores e cheiros frios de Montmartre mas, acima de tudo, de algo que ficará como sedimento no fundo da memória: o negro veludo dos corvos. Estavam por todo o lado. Nos umbrais, como no poema de Poe, nas áleas do Pére Lachaise, junto aos jardins dos Inválidos.
Depois, num registo menos inconsciente e mais simbólico, ponho-me a pensar no percurso que Saint Denis terá feito, desde do monte do seu martírio (Montmartre) até ao sítio onde mais tarde repousariam os corpos de Luís XVI e da sua esposa Maria Antonieta. Une-os um comum destino fatídico: a decepação. Não é morbidez, é apenas, e talvez, uma lembrança de como os povos são incapazes de escapar à sua memória.
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29 de dezembro de 2009
Memórias destiladas.
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