Mostrar mensagens com a etiqueta Miguel Torga. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Miguel Torga. Mostrar todas as mensagens

16 de abril de 2009

Olhares da fé


N.R. (2005)
Muito antes de descobrir que Miguel Torga se interessara por este extraordinário Cristo crucificado, tive a oportunidade de lhe dedicar um breve estudo histórico e iconográfico. À sua memória acrescenta-se hoje a impressão da memória de outrem. Os objectos, e as pessoas, também se constroem com as memórias das memórias. E estas são, muitas vezes, tudo o que resta.
"Um Cristo rústico, gótico, quase em tamanho natural, de saiote e cabeleira postiça, tão humano que esteve para ser enterrado um dia destes. O povo, cansado de não encontrar sentido na presença passiva e física de uma divindade mal amanhada, resolveu liquidar o caso numa cova. Queimá-lo, era sacrílego; dá-lo para o museu, não solucionava o problema; metê-lo debaixo da terra é que tinha todas as vantagens morais e materiais. § Um homem morto, sepulta-se. Infelizmente, entrou a casuística em acção, e a escultura foi apodrecer para um canto discreto. § O bom povo, embora às cegas e aos repelões, acaba sempre por encontrar a expressão exacta dos seus sentimentos e a soma dos sete palmos de lama no final de cada conta. Mas aparece-lhe um teólogo e dá com tudo em pantanas. Por cada arrazoado que faz um desses sofistas, é mais um paradoxo do mundo. § O daqui, é este deus com pernas e braços de cavador, mas que não cava, acolhido á sombra de telhas sagradas, mas discretamente escondido no fundo de uma sacristia." Miguel Torga, Diário IV (4.ª edição), p. 93 [Arneirós, Lamego, 1 de Abril]

26 de março de 2009

«Não, não é por teimosia, nem por heroicidade, que eu me mantenho nesta dolorosa situação. É por convicção objectiva. O mal é ninguém ter ainda percebido que o problema para mim consiste em saber de que lado estão os valores da vida. Se os meus valores estivessem trocados, e eu o percebesse, seria eu o primeiro a destrocá-los. Mas não vejo que estejam. E não mudo.»

Miguel Torga, Diário IV, Coimbra, 25 de Fevereiro.

19 de março de 2009

"Creio que a vida não tem sombra de interesse, concebida e vivida em termos de mentira e de conveniência. As sociedades que já só assentam em tais fundamentos, estão por pouco."
Miguel Torga, Diário IV, [Porto, 10 de Outubro].