Mostrar mensagens com a etiqueta Lisboa. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Lisboa. Mostrar todas as mensagens

1 de março de 2017

A polémica das pinturas: a autenticidade ou a falsidade do discurso?

Pintura da «Society of Antiquaries of London». Via Expresso


Espero ter o tempo e o discernimento suficientes para abordar a questão das pinturas por esta altura expostas no MNAA intituladas «O chafariz d'El Rei» e a «Rua Nova dos Mercadores». Não a questão da sua autenticidade, sobre a qual não disponho de informações e conhecimentos necessários que mo permitam fazê-lo, mas sobre o caso em si, a discussão pública que se originou entre vários investigadores da História e da História da Arte.
É, aliás, o teor desta discussão que interessa  analisar e que se resume cronologicamente nos seguintes documentos:
- 18 de Fevereiro de 2017: Diogo Ramada Curto e João José Alves Dias, em artigo e entrevista ao Expresso, afirmam a possível não autenticidade dos quadros com base numa comparação entre os elementos da composição e a documentação / conhecimento social da época.
- 22 de Fevereiro (nas vésperas da inauguração da Exposição A Cidade Global: Lisboa no Renascimento) a direcção do MNAA - Museu Nacional de Arte Antiga reage à posição dos historiador lançando um comunicado escrito em que reitera a confiança nos estudos de  Annemarie Jordan e K. J. P. Lowe sobre a origem, percurso e autenticidade das pinturas, sublinhando os contributos de outros investigadores, como Henrique Leitão («Prémio Pessoa»), Fernando Baptista Pereira e Vítor Serrão.
-22 de Fevereiro: Diogo Ramada Curto escreve um novo texto para o Expresso,  debruçando-se agora mais sobre a questão da temática da exposição do que o conteúdo iconográfico e iconológico dos quadros, assinalando que «Há um Estado Cultural que quer por o MNAA a render no circuito turístico» (título do artigo, DRC, Expresso, 22-2-2017).
- 23 de Fevereiro: Fernando Baptista Pereira faz publicar nas páginas do Expresso um texto com o título «Os quadros não são falsos». Nos dias anteriores, Vitor Serrão, na rede social Facebook, afirma o mesmo. Ambos se escudam na leitura iconográfica, propondo, contudo, «novos exames materiais e técnicos« (F.B.P., Expresso, 23-2-2017) que não haviam sido pedidos, nem executados aos quadros em análise.
À parte o enquadramento político e institucional que poderá emoldurar esta polémica (e que apenas podemos entrever em algumas das linhas escritas de parte a parte), algumas questões se levantam, entre as quais esta:
- Dada a força imagética, histórica e até mediática de ambas as pinturas (uma dela, de resto já conhecida publicamente desde finais da década de 1990) não teria sido mais proveitoso investir em análises técnicas que permitissem corroborar a sua datação, antes de avançar para as conclusões que hoje se apresentam?
É óbvio pelas várias reproduções que circulam que, iconograficamente ambas as constituem um manancial de informações que os métodos à disposição da disciplina da História da Arte exploram avidamente. Mas estes não são garantes de verdade absolutas como a polémica/discussão veio demonstrar.
Para já, e mais do que assacar culpas, interessa analisar esta questão à luz do diálogo inter e multidisciplinar que o novo tempo das ciências sociais tem propugnado, mas que não acontece. Apesar de grande parte da polémica se desenrolar nas redes sociais, não há consciência de rede no trabalho científico e a oposição historiadores-historiadores de arte que se construiu ao longo desta questão veio revelar o desfasamento entre as disciplinas e os seus actores. O teor da polémica não deixa de ser, em parte semelhante ao das grandes polémicas do século XX, em que se discutiam coutadas temáticas e menos a importância do conhecimento enquanto bem público e material educativo.

P.S. Obviamente, não discuto aqui as frases soltas (e francamente dispensáveis) do Ministro da Cultura ou as posições alinhadas dos seguidores de facebook do director do MNAA. Não é útil que se ceda a unanimismos, nem servilismo, quando se trata de discutir ciência.

31 de maio de 2009

Cidade a ponto luz bordada

IMGP1139


Lisboa, Maio de 2009 (c) N.R.
Uma semana em Lisboa com uma média de 30 graus. O brilho da pedra a expandir a luz em todas as direcções; ruas cheias de gente; eléctricos dolentes a subir e a descer a calçada de São Vicente. Lisboa exaure. O primeiro impacto, para quem vem do norte, é a luz, que ofusca primeiro e depois amolece. A calçada polida, estreita ou subitamente larga, esguia ou aberta na encosta das colinas, demove o mais afoito investigador. Assim foi durante 5 dias: uma caminhada de passo compassado, quase arrastado, pelas ruas e avenidas da cidade. Nos Anjos um hotel com a janela do quarto virada para um pátio interior foi o oásis. Por momentos abstraí-me do movimento da Almirante Reis onde a expressão multiculturalismo atinge o verdadeiro sentido. Uma hera trepava a parede vagamente iluminada pelo sol abrasador e fazia recordar-me a letra de Ary dos Santos: Da luz que meus olhos vêem tão pura / Teus seios são as colinas, varina / Pregão que me traz à porta, ternura / Cidade a ponto luz bordada / Toalha à beira mar estendida...