"No nosso tempo, o preço que temos de pagar pela fidelidade ao Evangelho já não é ser enforcado, desconjuntado e esquartejado; é antes, e de modo frequente, ser excluído, ridicularizado ou parodiado"
Bento XVI, Hyde Park, 18 de Setembro de 2010
Mostrar mensagens com a etiqueta Igreja. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Igreja. Mostrar todas as mensagens
22 de setembro de 2010
14 de maio de 2010
A Igreja.
A situação da Igreja, hoje,lembra o diácono Lourenço que ao ser martirizado numa grelha se virou para os seus carrascos e disse:
«Deste lado estou bem assado, se quereis, mandai que me voltem.»
Assim o fizeram e já do outro lado replicou:
«Minha carne está suficientemente assada, podeis comer dela»
A Igreja arde no lume da intolerância e da ignorância.
Abutres não faltam.
«Deste lado estou bem assado, se quereis, mandai que me voltem.»
Assim o fizeram e já do outro lado replicou:
«Minha carne está suficientemente assada, podeis comer dela»
A Igreja arde no lume da intolerância e da ignorância.
Abutres não faltam.
16 de abril de 2010
... e outras metarmorfoses
Fala-se muito em sexualidade. Uns porque consideram o corpo livre, tão livre para fazer, desfazer, corromper, destruir como bem aprouver ao proprietário (mas sempre com preservativo); outros porque advogam o corpo sagrado, temente, cujos ímpetos devem ser refreados com flagelos ou cadência copulares monogâmicas. Eu advogo o respeito e o equilíbrio, ou a stasis, em que o corpo seja uma extensão da alma, ou da psiqué, e que única restrição seja o outro e não os Outros. Mas a essas sexólogas patetas e aos psicólogos de voz melíflua que gostam de advogar teorias e fábulas, eu gostava de recomendar o chat roulette. Só precisam de uma webcam. É melhor do que aulas teóricas. Está lá o mundo todo, "livre", "puro e casto" que uns e outros imaginam e outros advogam. Ah e está também a pedofilia, de uma forma bastante diferente daquela que ouvimos falar, em que a pretensa vítima é aqui o predador.
22 de setembro de 2009
Não poucas vezes a Igreja me fez sentir assim...
Nós, os vencidos do catolicismo
que não sabemos já donde a luz mana
haurimos o perdido misticismo
nos acordes dos carmina burana
Nós é que perdemos na luta da fé
não é que no mais fundo não creiamos
mas não lutamos já firmes e a pé
nem nada impomos do que duvidamos
Já nenhum garizim nos chega agora
depois de ouvir como a samaritana
que em espírito e verdade é que se adora
Deixem-me ouvir os carmina burana
Nesta vida é que nós acreditamos
e no homem que dizem que criaste
se temos o que temos o jogamos
«Meu deus meu deus porque me abandonaste?»
Ruy Belo
(«Nós os vencidos do catolicismo» é também o título de um ensaio sobre a participação/desilusão de J. Bénard da Costa como católico opositor ao Estado Novo que vale a pena ler por todas as razões, para compreender como a Igreja é composta, e felizmente, de homens que ou estão muito atrás, ou vão já muito à frente).
8 de abril de 2009
A díficil sustentabilidade da religião e do conhecimento.
(c) Blogillhas"Vou mostrar-vos o meu Cristo. Não é verdade que é muito belo? Mas, claro, falta-lhe o braço direito, o esquerdo está mal seguro no ombro e a mão partida por ter sido arrancada violentamente do cravo. Também lhe falta a perna direita, cortada por meio da coxa. Conserva a esquerda, mas colada à pressa e sem cuidado. E, além do mais, está sem cara. Partiram-lha totalmente. Cristo sem rosto. Cristo anónimo. Cristo fantasma. É, porém, muito belo, não é? Ainda que muito triste. Não me restaures. Porque não queres que te restaure? Não compreendes, Senhor, que será para mim uma constante dor ver-te partido e mutilado, cada vez que te olhar? Não compreendes que sinto dó? É isso que quero: que vendo-me partido, te lembres de tantos irmãos que convivem contigo, ignorados e distantes, e que estão, como Eu, partidos, esmagados, indigentes, oprimidos, doentes, mutilados… Sem braços, porque não têm possibilidades nem meios de trabalho; sem pés, porque lhes bloquearam os caminhos e não podem dar um passo em frente na vida; sem cara, por que lhes roubaram a honra, o mérito, o prestígio. Todos os esquecem e lhes voltam as costas… Não me restaures! Talvez que, vendo-me assim, te sirva de lição para a dor dos demais (...)", extraído de "O meu Cristo Partido" de Ramón Cué.
O que sabem as crianças de hoje sobre o Natal e a Páscoa que vá além da generosidade de um velho barbudo que vive no Pólo Norte e de uma estranha raça de coelhos poedeiros? Pouco ou nada. Cada época vai perdendo o significado litúrgico e religioso. Laicização, dirão uns, efeito de uma publicidade contundente, segundo outros. Qualquer que seja a explicação nenhuma delas substitui a educação com valores éticos e morais. Entre a Boa Nova de um nascimento que augura salvação, ou um sofrimento redentor, prefere-se o consumismo, as prendas, o ócio, a fantasia etérea de cores garridas e excitantes. Em suma: à dor humana, contrapõe-se com a satisfação fácil e os bens perenes. Explicar às crianças o verdadeiro sentido do Natal, fazê-las ver, com os olhos da alma e do corpo, o significado da Quaresma não é uma conversão à força, nem sequer um abuso maior no percurso da sua descoberta individual. É cultura, é saber. Espanta-me que um jovem não saiba reconhecer no património que está próximo de si (uma igreja, por exemplo), uma importância superior ou leia, na polissemia da diversidade histórica, algo com que possa honrar a sua geração e a das gerações futuras. Por isso me espanta que a Associação Ateísta Portuguesa se preocupe tanto com a participação de membros do Estado Português na canonização do Beato Nuno Álvares Pereira, mas ignore por completo a importância dos panoramas cultural e social decorrentes do património religioso, qualquer que ele seja, de que religião ou credo emane. São as diferenças que nos unem, não a necessidade de encontrar semelhanças, ou forçar a sua existência. Os ateus, enquanto corpo institucional, devem criar para provar a sua grandeza, não exigir, como infelizmente exigem, a destruição dos outros, os não-ateus. O atavismo é tal que um dia chegaremos ao ponto de varrer da face da terra com todos os símbolos religiosos. As novas gerações já quase os desconhecem - substituíram-nos pelos novos símbolos e novos ídolos do mediatismo e da internet. Quando compreendermos que o ser humano tem necessidade de refugiar-se no desconhecido, no mistério que hoje saceia através de teclas e de ecrãs, e que os símbolos e os deuses são imortais e apenas se transmutam - poderá não ser tarde para acalentar a ideia de sagrado e de religiosidade - mas terá com certeza passado a era das grandes criações. É que os instrumentos e os canais de hoje não estimulam a criatividade nem o pensamento. Entre um Pai Natal criado por uma marca publicitária e a história de São Nicolau de Bari, ou entre a morte e ressurreição de Cristo e as histórias fáceis de gnomos, vampiros e fadas - temas glorificados ad nauseam pela indústria cinematográfica de Hollywood, vai um abismo de conhecimento. A religião tornou-se um problema porque obriga a pensar. É demasiado complexa para as mentes light dos nossos dias. § Uma Santa Páscoa a todos e até breve.
4 de abril de 2009
Triste figura.
Não sei se por coincidência, se por provocação, um amigo enviou-me uma crónicas das que já nos habitou o senhor Miguel de Sousa Tavares. A crónica intitula-se "Tristes trópicos, triste papa" e, entre muitas coisas, diz o seguinte:
«Os Papas gostam muito de ir a África. São viagens que asseguram sempre uma grande cobertura mediática, estádios cheios de multidões com bandeirinhas que não entendem nada do que o Papa lhes vai dizer nem estão lá para isso, discursos de efeito fácil e inócuo contra a pobreza e o subdesenvolvimento que ficam sempre bem à imagem de uma Igreja preocupada com questões sociais. De caminho, os Papas não se preocupam nada ou quase nada com a caução que dão às ditaduras que visitam, à corrupção que elas praticam e à miséria que promovem.
(...)
No curto espaço de três semanas, este infausto Papa, imposto por longas manobras da cúpula 'negra' da Igreja Católica, conseguiu mostrar o pior de si mesmo. Primeiro, levantou a excomunhão contra o arcebispo nazi inglês Williamson e a sua seita anti-Vaticano II e apenas duas semanas depois de ele ter repetido que o Holocausto era uma invenção dos judeus; depois, defendeu e confirmou a excomunhão decretada pelo arcebispo de Olinda e Recife contra a mãe e os médicos que procederam ao aborto de uma menina de 9 anos (!), violada repetidamente e engravidada pelo padrasto, e que nem sequer percebeu que estava grávida e tinha deixado de estar; enfim, decretou, ao pisar África, que o preservativo não só não serve para atacar a disseminação da sida como até "a pode agravar". E isto, em nome da "vida". Que saberá o Papa da vida? Como é que algum católico, a começar por ele próprio, pode acreditar que Deus fala por ele?
(...)
Enquanto se ocupa a excomungar médicos que salvam a vida a uma criança violada pelo padrasto, Bento XVI prepara-se fatalmente para dar sequência ao que seria apenas uma anedota portuguesa, não fosse também uma vampirização da nossa História: fazer de D. Nuno Álvares Pereira santo, só porque uma senhora de Vila Franca de Xira se queimou com o óleo da cozinha, rezou ao beato e curou-se... graças aos médicos que a assistiram e às defesas do organismo. E fica em silêncio quando tantos devotos católicos e financeiros, seguidores do também beato Escrivá de Balaguer, fundador da Opus Dei, levaram o culto de vendilhões do templo a tal extremo que conduziram o mundo a uma crise global e reduziram milhões de pessoas à moderna escravidão do desemprego e da pobreza. (...)»
Eu devo dizer que gosto tanto de Ratzinger como de Miguel de Sousa Tavares. Mas enquanto me devo preocupar mais com as acções do primeiro, pois da sua importância deriva ainda muito da ordem mundial, o segundo pouco me transmite que não a sombra de uma personalidade imbecil, medíocre e arrogante que em nada, mas nada, honra o nome genial da sua mãe e o carácter vertical do pai. Para além de uma nulidade como escritor, este senhor, com uma língua bífida e viperina, enche as paragonas de jornais com dislates e ocupa tempo televisivo a insultar metade do país sem perceber que não vale absolutamente nada. § Não sei que tipo de mensagem querem fazer passar os seguidores desta mensagem de Miguel de Sousa Tavares. Ódio à Igreja Católica? um ódio dissimulado, talvez, quando provavelmente os mesmos que odeiam são capazes de beijar a mão a bispos e padres apenas para subir no escalão hierárquico da sociedade. Sim, não vou mentir e dizer que faço um balanço positivo do pontificado de Bento XVI. Não me agrada a influência da Opus Dei e já manifestei aqui o meu descontentamento quanto à questão do preservativo e da sexualidade abordada pela IC. Não tenho que fazer de advogado do Diabo ou, neste caso, do Sumo Pontífice da Igreja Católica - mas algo me diz que um dia descobriremos como não adianta colocar as culpas nos deuses e nos seus sacerdotes, quando o mal vem de dentro de nós.
29 de março de 2009
A propósito da visita papal a África: a Igreja e a Sexualidade.
A Igreja tem um papel fundamental na sociedade moderna. O papel da Igreja, enquanto instituição que zela por fundações de moral e ética, de solidariadade e fé, não pode ser ignorado, nem menorizado. A Igreja deve moralizar, deve contribuir para a construção de um mundo menos anárquico, em que as relações humanas não sejam voláteis, nem estéreis. A Igreja é um esteio indispensável do mundo contemporâneo. No entanto, a Igreja Católica não é dona da verdade, muito embora esteja assente em dogmas inabaláveis ou irrefutáveis. A Igreja deve acolher a divergência, deve debater, deve reconhecer que não tem razão quando efectivamente não tem razão. E eu, como católico, que acredita e se acolhe sobre a Igreja de Roma, tenho o direito a discordar, tenho o dever de discordar e ser ouvido sem que tal anuncie um ataque às suas orientações canónicas e teológicas. Portanto, direi antes de mais que me preocupo com uma Igreja cada vez mais assertiva em relação à sexualidade humana. Não me refiro à recente polémica do uso do preservativo - assunto que, quanto a mim, extravasa de longe os limites da compreensão e do bom senso de ambas as partes. A Igreja, pela boca do seu representante máximo, tem o direito a discordar com o uso do preservativo. Tal, visto pelo senso comum ou uma certa comunidade médica que acha que doenças como a sida ou outras dst's só se evitam pelo uso do preservativo, parece a maior das enormidades, mas não é. O que é facto é que nem o preservativo é seguro, nem constitui a arma máxima contra a propagação da doença. Não são os estados, nem Roma, nem as ONG's com o papel mais importante no combate às doenças. Quem deixa morrer tanta gente em África? É afinal o apelo do Papa "contra" o preservativo? Não. São as farmacêuticas que ganham dinheiro com a morte e com as doenças. Quem o negará? Quem, nos tempos que correm, ousa desvalorizar o papel dos lobbies das grandes empresas? § Ora, não obstante, nem a Igreja tem razão, nem os puristas e moralistas (que só o são por agressão à Igreja) que vêm clamar a favor do preservativo. Se não, vejamos: a Igreja, por razões teológicas (e não bíblicas), não concebe o desperdício do sémen. Este deve ser unica e exclusivamente aproveitado para a procriação. O acto sexual não deve envolver desejo ou concupiscência, apenas uma forma mecânica e biológicamente útil. Ou seja - sei que vou simplificar, mas vou dizê-lo - à luz da teologia o coito apenas serve a função até que seja criada vida. O acto sexual deve repetido até à fecundação. Depois disto torna-se obsoleto, dispensável e mesmo tabu, pois desde S. Paulo que a Igreja tenta refrear o desejo sexual e o matrimónio tornandos-o mero instrumento de criação. Mas a Igreja esquece-se de que matematicamente é impossível considerar uma das hipóteses, ou todo os indivíduos vivem apenas para procriar e em pouco tempo é impossível habitar este planeta, ou se sujeita o crente à abstinência e em pouco tempo extinguem-se comunidades. É bem de ver que a teologia católica não alinha com a Teoria Populacional Matlhusiana. A procriação não pode ser usada como arma de arremesso, tanto mais que exige ser cuidadosamente pensada nos dias que correm. Porque a pobreza se reproduz pelo nascimento, porque a irresponsabilidade é cada vez mais um factor de risco na criação e educação das crianças (vejam-se as recentes notícias de quase-infanticídios). § Por outro lado quem enfatiza o uso do preservativo cai num erro muito grave, que é o de tranquilizar o senso comum para um problema que é ultrapassado por uma metodologia profiláctica pouco fiável. A sida surgiu numa época em que praticamente se erradicara as doenças contagiosas mortais, graças ao desenvolvimento das penincilinas e dos antibióticos. Augurava-se uma era dourada para a vida humana e de lá para cá já se conceberam medicamentos para combater doenças 100 vezes mais perigosas que a sida, como as hepatites e outras. No entanto, ainda existem estranhas discrepâncias sobre esta mediática doença: uma franja da população, quando exposta, não é infectada, o processo de contágio não respeita os postulados de Koch e Evans, enfim, dúvidas a mais e soluções a menos para uma doença que já tem 30 anos. É perigoso reduzir-se o problema da sida ao uso do preservativo quando o que faria sentido era investir numa cura e não num fraco remendo - a não ser claro que a cura não sirva interesses económicos... § O que me deixa absolutamente revoltado é que que os moralistas que abriram a boca para condenar o Papa e a sua opinião sobre o uso do preservativo só se lembrem de África e dos seus habitantes nestas ocasiões - quando, afinal, perante a fome, a guerra e os genocídios, a sida parece ser o "menor" dos seu problemas. E por outro lado, preocupa-me que a Igreja volte a prescrutar o leito dos crentes, repescando na Idade Média e na Contra-Reforma uma certa política de confessionário que procurava saber de "acheganças por detrás", prática da molície, bestialismo e sémen derramado. Não é esse o caminho - o do sexo - para chegar ao coração dos Homens.
20 de março de 2009
óleo sobre madeira 135 x 83 cm
Museu Nacional de Arte Antiga
Lisboa, Portugal
retirado daqui
Si Dios ha hecho este mundo, yo no quisiera ser Dios. La miseria del mundo me desgarraría el corazón.
A. Shopenhauer
Todos os dias peço a Deus para que me não me deixe abrasar pelo fogo do ateísmo e das heresias, tão avassaladora é, cada vez mais, a malvadez humana. Não falo do dia-a-dia e das pequenas estratégias que marcam a pequena cupidez aflita de quem nos rodeia. Refiro-me do veneno com que a comunicação social nos inocula, todos os dias. Quantos Joseph Fritzl haverá neste mundo doentio? Não é com moralismo que o digo. É com náusea. Quero um deus justiceiro, como o Cristo medieval, que castigue com pragas severas esta humanidade patologicamente má. Quem sonha ou executa sevícias das que cruelmente nos descrevem esses agourentos arautos é a prova mais do que provada que somos intrinsecamente maus e não buscamos ser melhores. Já saldamos as dívidas entre nós. Atingimos a o grau máximo da escória. Deus, Cristo Pantocrator, São Miguel ou esse São Paulo misógino e moralista que agora se comemora: brandam a espada sobre as nossas cabeças, deixem-na cair e antecipem o juízo final. Dêem-nos paz.
17 de janeiro de 2009
A ocidente nada de novo.
Caíram, como zangões num ataque eminente, sobre o Cardeal Patriarca de Lisboa a propósito das declarações que proferiu no Casino da Figueira da Foz. Efectivamente, o que ele disse foi claramente descontextualizado pela Comunicação Social que aproveitou para atear o rastilho. Falar no Islão, hoje em dia, como todos sabemos, é provocar reacções desesperadas e esquizofrénicas, de tal forma que a banalidade de toda a intervenção ocasionou um chorrilho de notícias estrangeiras (cf. aqui). O José Adelino Maltez, refugiando-se no seu jacobinismo, aponta mais o rídiculo do que propriamente a gravidade dos ditos, algo que eu gostaria de sublinhar. Há muito que um certo sentido do decoro se perdeu em alguns sectores da Igreja Católica. Padres que esquecem a obediência ao antístite, bispos pouco "iluminados" e, pelo meio, leigos mais ou menos deseperados por ocupar o lugar de destaque da paróquia ou da diocese fazendo tudo para lá chegar. Este é o estado da arte na ICP. Excluídas Lisboa, Porto ou Braga, as outras dioceses são incapazes de catalisar ou congregar elites culturais e de pensamento social. Por isso fiquei chocado com as declarações, por virem de quem vieram. Não fiquei indignado, como os falsos moralistas da praça que vieram pedir a cabeça do Cardeal Patriarca - pretenso arauto de novas Cruzadas -, mas tão-só, e apenas, indignado. § Como é possível que alguém se apresse a criticar as afirmações de D. José Policarpo, mas viva alegremente com a consciência de milhares de mulheres silenciadas, escondidas atrás de panos e paredes apenas por caprichos masculinos que buscam num deus a desculpa para a sua apetência sem limites? É óbvio que embora impulsivas e impensadas, as declarações do Cardeal têm a sua razão e são, na generalidade, verdadeiras. Não estava na conferência e não assisti em que contexto foram proferidas, limito-me a analisar o que a imprensa me deixa analisar. A plateia riu várias vezes com os tais comentários - o riso é uma forma de escape e conivência. Mais graves foram os comentários sobre a homossexualidade (onde se viu um D. José atrapalhado e pouco à vontade) e quanto a isso muito pouco se disse - nisto está a distância e a importância aos, e de conteúdos. A comunicação social não se pauta por cumprir uma função de interesse público, se não a lógica de políticas empresariais e ideológicas. E quando os ventos correm de feição a jacobinismos primários, a Igreja é sempre o primeiro alvo a abater. § P.S. Não me cabe defender a instituição-Igreja. Sabe Deus (fina ironia) a pouca consideração que alguns homens da Igreja terão por mim e pelo meu trabalho. Mas não há dúvida que o grande passo a dar não é modernizar o aparelho, se não cultivar os homens que o regem. Foi assim que se fizeram grandes, doutos e proventura santos, Agostinho de Hipona e Teresa de Ávila. Eles e outros são o exemplo de abnegação, tolerância, interculturidade e todos os palavrões compostos que hoje se usam para justificar uniões precárias entre mundos diversos.
30 de março de 2008
"Não vim trazer paz, mas espada." Mt 10, 34
Se não é a Igreja é a Bíblia. Se não é a Bíblia, é Deus, e se Deus não existe, é a interrogação. E a interrogação nunca somos nós, é a metafísica. Se, por exemplo, há fome, guerras e iniquidade no Mundo, a culpa é das religiões. Se há pessoas mortas, violadas ou vítimas de injustiça, a culpa é da Bíblia, do Corão ou da Tora. E em Portugal a culpa do atraso económico, social e cultural é sempre, e sem dúvida alguma, da Igreja. Ainda agora, ao ler uma notícia no público sobre a reacção da Conferência episcopal ao fim do divórcio litigioso, voltei a constatar do atavismo ideológico ou pseudo-ideológico de alguns cidadãos portugueses. Para eles a igreja é «rica», «que não se devia imiscuir em assuntos laicos», que «prática religiosa são os templos, não são nem hospitais nem escolas nem quarteis», que a Igreja apenas serve para «lavagem de dinheiro das grandes negociatas de droga e armamento»! Quereis a verdade? Aí a tendes, nua e crua. A Igreja Católica é a fonte de todos os males. Está feito, nada mais há a dizer: descobrimos a raíz do mal, agora é só extirpar a planta. § Não fossem os milhões de pessoas que dependem da caridade, da missionação, e do dinheiro sujo em a Igreja é obrigada a meter as mãos para dar de comer e eu diria: acabem já com isso tudo, abandonem à sorte dos estados laicos a solidariedade e a protecção social, já que os estados laicos se importam assim tanto, não com o número de contribuinte, mas com o humano na sua plenitude, não é verdade? Estas pessoas que confudem laicidade com liberdade devem pensar que o mundo obedece ao asseptismo das constituições, que tudo se rege por leis a favor ou contra. Propunha-lhes um exercício: comecem por pensar o que o Homem criou fora das religiões. E depois numa lista de duas colunas pesassem o que de bom (A) e mau (B) as religiões trouxeram. Já está? Pois, a coluna A ficou vazia. Era o que se esperava, não era? Agora sim, podemos pegar em armas e matar todos os crentes do planeta. Depois passaremos às igrejas, à arte dos museus, e às criações imateriais. Destruiremos o Vaticano e os milhões de templos por todo o mundo, reduziremos a pó a Pietá de Miguel Ângelo, a Kaaba e Jerusalém. Secaremos as fontes do Ganges e arrasaremos o Potala do Tibete, rasgaremos as pautas e Bach e Mozart que exaltem Deus; trucidaremos os nomes de santos, divindades e deuses, eliminando qualquer prova de transcendência; aboliremos os rituais, todos os rituais, para que não haja memória de evocações ou de evolução não biológica. Faremos uma limpeza ideológica, cultural e selectiva para que, do nosso mundo, resulte só e apenas um homem novo, centro do universo, dimensão de todas as coisas, sem reverências, só e limpo. § Nunca mais haverá guerras, pois não haverá diferenças religiosas nem cultuais; nunca mais haverá fome, pois o novo homem terá sempre comida para dar ao seu semelhante, sem ter que iludi-lo com promessas e libações; nunca mais haverá sofrimento pois não havendo esperança com que sonhar cada dia é uma rígida certeza de vida. O passado passou e o futuro não existe. Este é o mundo perfeito, onde Deus não existe. Culparemos quem, depois?
10 de março de 2008
A política da Igreja.
(...)
Neste caso, o silêncio é pouco edificante. A Igreja não pode ser imparcial. Não deverá, como é óbvio, tomar partido por partidos. Ela tomará sempre partido por pessoas, por ideais, por causas, por valores.
Se ela não o fizesse não seria isenta. Estaria a tomar partido por quem explora, por quem agride. Quem cala consente. Poderá um cristão consentir a exploração, a injustiça?
A clareza é sempre importante. As pessoas têm o direito de saber de que lado estamos. Nós temos o dever de as não defraudar. Cristo foi sempre claro. «Que as vossas palavras sejam sim, sim, não, não» (Mt 5, 37).
«O cristão não pode ser apolítico», de Theosfera.
Não poderia ter dito melhor. Eu apenas acrescentaria «o cristão não deve ser apolítico». Se ao menos toda a Igreja assim pensasse. Se ao menos parte da igreja o executasse. Se, ao menos, alguns homens da Igreja ou soubessem. Se, pelo menos, um deles o quisesse...
Neste caso, o silêncio é pouco edificante. A Igreja não pode ser imparcial. Não deverá, como é óbvio, tomar partido por partidos. Ela tomará sempre partido por pessoas, por ideais, por causas, por valores.
Se ela não o fizesse não seria isenta. Estaria a tomar partido por quem explora, por quem agride. Quem cala consente. Poderá um cristão consentir a exploração, a injustiça?
A clareza é sempre importante. As pessoas têm o direito de saber de que lado estamos. Nós temos o dever de as não defraudar. Cristo foi sempre claro. «Que as vossas palavras sejam sim, sim, não, não» (Mt 5, 37).
«O cristão não pode ser apolítico», de Theosfera.
Não poderia ter dito melhor. Eu apenas acrescentaria «o cristão não deve ser apolítico». Se ao menos toda a Igreja assim pensasse. Se ao menos parte da igreja o executasse. Se, ao menos, alguns homens da Igreja ou soubessem. Se, pelo menos, um deles o quisesse...
5 de março de 2008
A igreja em Portugal.
"Os bispos e os sacerdotes devem despertar a consciência de todos os católicos a votar, a manifestar a sua opinião. Depois, cada um decidirá o que vai fazer. Mas, sendo católico, ele sabe em quem votar. Não temos necessidade de lhe dizer para votar neste ou naquele partido. Apelar à consciência dos católicos é algo que se faz em todas as partes do mundo. Antes das eleições, as conferências episcopais ou os bispos aconselham os católicos a ser parte activa no processo. O resto, eles sabem decidir."
A singela entrevista que o Monsenhor D. Manuel Monteiro de Castro, embaixador do Vaticano em Espanha, deu ao JN, chamou-me a atenção. Entre outras coisas, D. Manuel refere a vitalidade religiosa e a excelência do ensino católico em Espanha, acentuando assim a diferença entre ambos os países. Supomos, pelas suas palavras, que Portugal é, em termos de acção católica, um país apagado. Não posso esconder o meu total acordo com as consideração de D. Manuel. Já o tenho dito e reitero, a Igreja portuguesa anula-se em mesuras desnecessárias e palavras mansas. Submete-se demasiado ao poder político, até mesmo ao autárquico. E recusa politizar-se em detrimento de um silêncio que vai causar-lhe danos irreparáveis. Está aí para o aborto, mas fecha os olhos aos ataques primários de certos quadrantes da sociedade e da política portuguesa; assobia para o lado, ou vira a cara para o chão, quando não tem razão para o fazer. Acobarda-se e, não raras vezes, recusa o diálogo com os leigos. Porque o faz, quando tem a faca e o queijo na mão? Vejamos: a Igreja controla a maior parte das instituições de assistência e solidariedade social em Portugal. Bastaria abdicar da sua manutenção para fazer ruir o sistema da segurança social portuguesa. Outrossim a Igreja detém acima de 70 por cento do património histórico e cultural nacional. Pode não agradar a muitos, mas é a mais pura das realidades. Com que património acenamos aos turistas nacionais e estrangeiros? A fórmula praia e sol esgotar-se-á e depois, que futuro há para o turismo em Portugal que não passe pela cultura e pela dinamização dos espaços históricos e, nomeadamente, os edifícios religiosos? Por fim, no ensino e na comunicação social a Igreja tem traçado um caminho sólido, mas nos dias de hoje apagado. Não admira, como alguém disse, que um destes dias a Igreja volte à clandestinidade. Mas isto no caso da Igreja portuguesa por que, e não me acusem de ser iberista ou castelhanófilo, em Espanha igreja escreve-se com "i" grande, tem um aparelho bem talhado e sólidos alicerces - construíu-os a cultura e na coragem que falta à sua congénere portuguesa.
A singela entrevista que o Monsenhor D. Manuel Monteiro de Castro, embaixador do Vaticano em Espanha, deu ao JN, chamou-me a atenção. Entre outras coisas, D. Manuel refere a vitalidade religiosa e a excelência do ensino católico em Espanha, acentuando assim a diferença entre ambos os países. Supomos, pelas suas palavras, que Portugal é, em termos de acção católica, um país apagado. Não posso esconder o meu total acordo com as consideração de D. Manuel. Já o tenho dito e reitero, a Igreja portuguesa anula-se em mesuras desnecessárias e palavras mansas. Submete-se demasiado ao poder político, até mesmo ao autárquico. E recusa politizar-se em detrimento de um silêncio que vai causar-lhe danos irreparáveis. Está aí para o aborto, mas fecha os olhos aos ataques primários de certos quadrantes da sociedade e da política portuguesa; assobia para o lado, ou vira a cara para o chão, quando não tem razão para o fazer. Acobarda-se e, não raras vezes, recusa o diálogo com os leigos. Porque o faz, quando tem a faca e o queijo na mão? Vejamos: a Igreja controla a maior parte das instituições de assistência e solidariedade social em Portugal. Bastaria abdicar da sua manutenção para fazer ruir o sistema da segurança social portuguesa. Outrossim a Igreja detém acima de 70 por cento do património histórico e cultural nacional. Pode não agradar a muitos, mas é a mais pura das realidades. Com que património acenamos aos turistas nacionais e estrangeiros? A fórmula praia e sol esgotar-se-á e depois, que futuro há para o turismo em Portugal que não passe pela cultura e pela dinamização dos espaços históricos e, nomeadamente, os edifícios religiosos? Por fim, no ensino e na comunicação social a Igreja tem traçado um caminho sólido, mas nos dias de hoje apagado. Não admira, como alguém disse, que um destes dias a Igreja volte à clandestinidade. Mas isto no caso da Igreja portuguesa por que, e não me acusem de ser iberista ou castelhanófilo, em Espanha igreja escreve-se com "i" grande, tem um aparelho bem talhado e sólidos alicerces - construíu-os a cultura e na coragem que falta à sua congénere portuguesa.
Subscrever:
Mensagens (Atom)

