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1 de março de 2017

A polémica das pinturas: a autenticidade ou a falsidade do discurso?

Pintura da «Society of Antiquaries of London». Via Expresso


Espero ter o tempo e o discernimento suficientes para abordar a questão das pinturas por esta altura expostas no MNAA intituladas «O chafariz d'El Rei» e a «Rua Nova dos Mercadores». Não a questão da sua autenticidade, sobre a qual não disponho de informações e conhecimentos necessários que mo permitam fazê-lo, mas sobre o caso em si, a discussão pública que se originou entre vários investigadores da História e da História da Arte.
É, aliás, o teor desta discussão que interessa  analisar e que se resume cronologicamente nos seguintes documentos:
- 18 de Fevereiro de 2017: Diogo Ramada Curto e João José Alves Dias, em artigo e entrevista ao Expresso, afirmam a possível não autenticidade dos quadros com base numa comparação entre os elementos da composição e a documentação / conhecimento social da época.
- 22 de Fevereiro (nas vésperas da inauguração da Exposição A Cidade Global: Lisboa no Renascimento) a direcção do MNAA - Museu Nacional de Arte Antiga reage à posição dos historiador lançando um comunicado escrito em que reitera a confiança nos estudos de  Annemarie Jordan e K. J. P. Lowe sobre a origem, percurso e autenticidade das pinturas, sublinhando os contributos de outros investigadores, como Henrique Leitão («Prémio Pessoa»), Fernando Baptista Pereira e Vítor Serrão.
-22 de Fevereiro: Diogo Ramada Curto escreve um novo texto para o Expresso,  debruçando-se agora mais sobre a questão da temática da exposição do que o conteúdo iconográfico e iconológico dos quadros, assinalando que «Há um Estado Cultural que quer por o MNAA a render no circuito turístico» (título do artigo, DRC, Expresso, 22-2-2017).
- 23 de Fevereiro: Fernando Baptista Pereira faz publicar nas páginas do Expresso um texto com o título «Os quadros não são falsos». Nos dias anteriores, Vitor Serrão, na rede social Facebook, afirma o mesmo. Ambos se escudam na leitura iconográfica, propondo, contudo, «novos exames materiais e técnicos« (F.B.P., Expresso, 23-2-2017) que não haviam sido pedidos, nem executados aos quadros em análise.
À parte o enquadramento político e institucional que poderá emoldurar esta polémica (e que apenas podemos entrever em algumas das linhas escritas de parte a parte), algumas questões se levantam, entre as quais esta:
- Dada a força imagética, histórica e até mediática de ambas as pinturas (uma dela, de resto já conhecida publicamente desde finais da década de 1990) não teria sido mais proveitoso investir em análises técnicas que permitissem corroborar a sua datação, antes de avançar para as conclusões que hoje se apresentam?
É óbvio pelas várias reproduções que circulam que, iconograficamente ambas as constituem um manancial de informações que os métodos à disposição da disciplina da História da Arte exploram avidamente. Mas estes não são garantes de verdade absolutas como a polémica/discussão veio demonstrar.
Para já, e mais do que assacar culpas, interessa analisar esta questão à luz do diálogo inter e multidisciplinar que o novo tempo das ciências sociais tem propugnado, mas que não acontece. Apesar de grande parte da polémica se desenrolar nas redes sociais, não há consciência de rede no trabalho científico e a oposição historiadores-historiadores de arte que se construiu ao longo desta questão veio revelar o desfasamento entre as disciplinas e os seus actores. O teor da polémica não deixa de ser, em parte semelhante ao das grandes polémicas do século XX, em que se discutiam coutadas temáticas e menos a importância do conhecimento enquanto bem público e material educativo.

P.S. Obviamente, não discuto aqui as frases soltas (e francamente dispensáveis) do Ministro da Cultura ou as posições alinhadas dos seguidores de facebook do director do MNAA. Não é útil que se ceda a unanimismos, nem servilismo, quando se trata de discutir ciência.

4 de setembro de 2012

As pessoas decentes.

"As pessoas decentes, felizmente uma maioria, quando pegam em coisas tão sérias e graves sobre as quais não faz sentido assumir uma posição pessoal, e muito menos de "esquerda" ou "direita", fazem por ser objectivas – como Rui Ramos. E a objectividade choca e fere e nisto previne juízos e condenações categóricas sobre pessoas e episódios, da mesma forma que nos poupa ao ridículo e possibilita que, por exemplo, um António Barreto, insuspeito homem de esquerda, possa constatar, com alguma curiosidade, que o Estado Social é uma realidade que, andando frequentemente na boca de Marcelo Caetano, em Portugal nasceu, estatisticamente, de medidas tomadas entre 1970-1974. Já as outras pessoas, as que simplisticamente remetem a personagem de D. Miguel para a categoria de «os maiores facínoras da nossa história» visando, com isso, atingir na sua credibilidade um historiador que deu mais do que provas de independência e firmeza científicas, não se eximem de manipular a História e os outros, tentando fazer de todos nós e à custa de uma narrativa oficial leviana e falsa um país de gente estúpida. E gente estúpida devemos ser, de facto, pois permitimos que esta cambada continue impunemente a fazer o que faz."
 Jacinto Bettencourt, com mestria, no 31 da Armada.

22 de julho de 2012

Obituário laudatório.

Alguém como José Hermano Saraiva nunca poderia deixar este mundo sem ser notado. É um caso de amor-ódio. Ninguém lhe retira o mérito de educador ou comunicador. Mas é incontestável a sua ligação a Salazar e ao Estado Novo, que ele defendeu com uma sinceridade notória, na última entrevista perante a jornalista Fátima Campos Ferreira. Ora, quando o escudam, com unhas e dentes, fazendo-lhe desmesuradas vénias à entrada no Hades, como o João Gonçalves ou o Pinho Cardão (aqui e aqui), a coisa toma contornos desmesurados.
Lá pela Academia de História o incluir entre os seus pares, isso não faz (bem pelo contrário) o historiador que querem que ele seja. E isto só prova como aqueles e outros autores, comentadores encartados, sabem pela rama. Porque o não elogiam pelo que realmente era: homem culto e camonista encartado? Talvez porque em Portugal, o país onde Camões morreu de fome todos encham a barriga de Camões, como escreveu Almada Negreiros. A elite nacional é um misto de nada e de coisa nenhuma, como os sociólogos chamados à pressa ao estúdio de televisão para comentar um evento de massas.
De facto tresanda a bajulação servil aquilo que hostes de escrevedores - da direita à esquerda - têm feito ao falecido José Hermano Saraiva. Não partilho da choraminguice laudatória e há anos que movo esforços para explicar aos meus alunos o que é escrever história e o que é contá-la frente a uma câmara. Que Hermano Saraiva fosse um simpático ancião contador de estórias, nada contra. Mas, vamos ser realistas: aquilo que José Hermano Saraiva fazia era algo que dezenas de investigadores fizeram durante o Estado Novo: num imenso país marcado pelo pitoresco, pelo rural e pelo folclore, constituído por um auditório analfabeto ou iletrado, chamar a atenção só podia ser pelo sentimento, que a razão dificilmente assiste a esta gente. Curioso como certas elites se deixaram envolver por aquele discurso inócuo, cheio de clichés, de linguagem fácil e fluente. E afirmam que ele criou o gosto pela história! Bem pelo contrário: a História continua a ser aborrecida, cronologicamente aborrecida e inútil. O que é interessante e apelativo é saber como a padeira de Aljubarrota enfornou espanhóis, ou D. Pedro, "aqui mesmo, neste local", arrancou o coração a um dos algozes de Inês de Castro (e o espectador imagina o sangue em golfadas).
Depois, perdoem-me se pareço intolerante, mas um homem que diz abertamente que o doutor Salazar" era um "santo", ou que a polícia política foi uma ténue ilusão é ir atrás de um negacionista que através do seu carisma contribui para a já massiva adesão à supressão da democracia. E, desculpem-me mais uma vez, mas no que toca a este ponto não abro mau da minha inflexibilidade. Porque há muito tempo compreendi que o carácter de um indivíduo não é só a imagem que ele nos impinge pelo ecrã da televisão. Se aceitarmos esta premissa, então temos a porta aberta para aceitarmos que, mais tarde ou mais cedo, nos calem e amordacem. Se já nos não calaram...

P.S. entretanto, J.H.S. deixa um sucessor.

21 de julho de 2012

Sal-azar, sal-azarete, sal-azarinhos.

É verdeiramente epidémica a louvação que grassa entre a sociedade portuguesa pedindo o regresso de Salazar. Já não se trata, apenas, de uma conversa entre velhas alcoviteiras de autocarro ou reformados que jogam a bisca no jardim, mas de uma autêntica histeria que cresce massivamente de dia para dia. Salazar é que faz falta, dizem e escrevem. Impressiona como a memória não é só curta, mas ingrata. Gente que grita insultos gratuitos nos fóruns e nos jornais contra os políticos actuais, resguardando-se na figura do inviolável, casto e probo Salazar - como é possível se estes são o produto daquele?
Isto é tolice, como é óbvio. Quem viveu durante o Estado Novo sabe perfeitamente que aquilo não era mau, era péssimo. Até posso compreender a nostalgia de infância, o colorido dos brinquedos de lata, as brincadeiras junto ao lavadouro enquanto a mãe esfregava os lençóis de estopa, a qual, pobre mulher, chegando a casa encontrava provavelmente um marido analfabeto e, tendo sorte, sóbrio. A maioria que clama pelo regresso desta austeridade, queixando-se da de hoje é ainda desta geração que rapidamente esqueceu as limitações (ou então não) de um país de brutos, em que o marido olhava para o chão em frente ao patrão e a mulher pouco mais era do que um saco de batatas atilhado por uma Constituição que não lhe era nada favorável.
Por outro lado para a classe alta (aquela que bajulou Salazar até ao tutano), constituída por labregos bugueses e aristocratas falidos os tempos deviam ter sido de glória e até pode ter razões para querer o regresso daquele regime catolaico, de recato público e deboche privado. Em todo o caso, não deixa de ser uma incongruência que num mundo em que se ganha dinheiro com a exploração do cidadão do mundo, se queira fechar num país orgulhosamente só. Só posso compreendê-lo à luz do estatuto e daquela noção de respeito que faz o tópico da conversa salazarista: antes do 25 de Abril é que era!. Era o quê? Não se roubava? Ninguém morria? Não se mentia? Não havia clientelismo? A política era sã e filantrópica? Poupem-me.
Salazar era um misógino ressabiado, filho de caseiros que viveu entre hortas e quis aplicar o modelo de ordenamento daquele pedaço de terra que lavrava em Santa Comba ao resto país. Criou a ideia do doutor, formado a pulso que degenerou numa coisa sem espinha dorsal nem ossos chamada Miguel Relvas. Provinciano, achava que o país era um imenso potencial de força braçal movido a vinho. E, estupendamente beato, julgava os seus amigos pelas aparências, cumulando-os de prebendas em troca de silêncio e lealdade cínica. Salazar é o pai desta gente que construiu a 3.ª república: medíocre, saída dos bancos de escola estado novistas, do Deus, Pátria e Família, do pobrete mas alegrete. Estes dizem repudiá-lo. Muitos gritam fascismo nunca mais, mas entregue-se-lhe o poder nas mãos e verão o mesmo modus operandi, os mesmo tiques e desejos. E isto não é sequer uma questão de democracia ou ausência dela. Efectivamente não tivemos um estado fascista, mas tivemos com certeza um regime que estimulava a mediania ou a inferioridade, em troca de valores inócuos.
Uns são mais hipócritas e negá-lo-ão três vezes. Ao menos José Hermano Saraiva, nunca até ao final da sua longa existência, deixou de considerar Salazar um santo. Reconverteu-se (é só ir buscar os seus discursos pré e pós 25 de Abril) e tornou-se um simpático contador de estórias. E agora um mártir para a causa salazarista que cresce de dia para dia.
Cada país tem os historiadores que merece, como os ditadores que pede ou escolhe.
Publicado com alterações no Estado Sentido a 16-04-2014

20 de maio de 2012

Gatos e lebres.

Fui este fim de semana de visita a uma das inúmeras feiras medievais a que o país se habituou nos últimos anos, movimento que favoreceu o surgimento de pequenas empresas especializadas na organização e animação destes tipos de eventos. O local onde se realizou o mercado - outrora um burgo do Portugal medievo marcado por tensões, pactos e políticas de expansão do reino -, é hoje um parque de merendas inexpressivo, com uma placa que assinala a inauguração do mesmo por sua ex.ª o Senhor Prof. Doutor Cavaco Silva. A república a que este senhor ainda preside destruiu e submergiu (supostamente em nome do progresso) uma das pontes românicas mais importantes do país, varrendo com ela o velho burgo medieval, ligado a reis, rainhas e príncipes. Não contente, plantou quase à porta da igrejinha medieval uma etar a céu aberto. E, claro, ajardinou e ladrilhou, como convém a qualquer parque de merenda. § Hoje fez-se ali o mercado medieval, misto de feira de produtos esotéricos, com música new age e pan pipes. O mais comum dos mortais que por ali passeava não dava pela diferença entre o que podia efectivamente ter sido usado na medievalidade e o que constituía produto made in china enviado a Portugal o mês passado. Não interessa. Este tipo de iniciativas atrai. Os rapazes brincavam aos reis e vilões, as meninas às princesas e rainhas. Os pais entretinham o estômago, e os políticos - que se reconhecem perfeitamente nas visitas de fim de semana por usarem apenas fato e camisa sem gravata - colhiam os louros sobre tão vistosa iniciativa. Esta é prova de que a História rende e vende. Nem que seja gato por lebre.

11 de fevereiro de 2012

Os 80 magriços do calendário.

Primeiro hesitei: existirão, realmente, 80 historiadores em Portugal? Depois, reflecti e, embora contente com a descoberta, pensei melhor: Portugal tem apenas 80 historiadores ? Como não tinha a certeza do rácio entre historiadores e população no resto da Europa quedei-me reflexivo sobre o assunto. Não obstante este meu monólogo, discerni que a movimentação dos 80 historiadores portugueses quanto à abolição dos feriados 5 de Outubro e 1 de Dezembro só podia ser uma cartada de mau gosto neste jogo político em que o nacionalismo é o Ás de copas que estimula desde as bancadas parlamentares do Bloco ao CDS e o cidadão comum. Se existem 80 historiadores em Portugal capazes de defender algo tão puramente simbólico e bairrista como dois dias do calendário nacional, onde estavam eles quando foi necessário defender a qualidade da investigação histórica, falar alto contra a diminuição do ensino da História no plano educativo nacional ou, mais recentemente, tomar atitude enérgica contra a perda de autonomia dos Museus Portugueses que muito em breve serão entregues a comissões de gestão regionais dirigidas por bur(r)ocratas de chinelo? Enfim, onde se escondem estes 80 historiadores nos restantes 363 dias do ano?

16 de dezembro de 2011

Afinal

existem historiadores em Portugal. São quarenta, todos republicanos e de esquerda e acham que é um crime erradicar o feriado 5 de Outubro. Por uma questão de direito ao descanso. Está em causa o ataque ao lazer, antes da destruição da memória. Virá aí uma História do Lazer em Portugal? É que uma obra colectiva assinada por estes 40 historiadores podia resultar num best-seller. Estranho, estranho, é que estes doutos só saiam da pedra quando espicaçados por um líder - aquele velhinho poeta de Coimbra. Porque quando é preciso defender a classe, a disciplina ou a cidadania em geral nenhum deles deixa a catédra para vir falar à plebe que agora pretende defender.

14 de dezembro de 2011

O voyeurismo pseudo-histórico.

O voyeurismo parece ser a razão de tantas obras recentemente editadas sobre devassidão, amantes, traições, paixões e devaneios das elites. De repente nasceu uma corrente de investigação em Portugal exclusivamente para historiar o sexo. Felizmente que alguém, além de nós, se deu ao trabalho de constatar o óbvio. A história queer*, da devassidão pública ou privada sob a desculpa do facto histórico para além de cientificamente insustentável é uma perfeita estupidez, consagrada segundo um paradigma de seriedade analítica. Não é séria, bem pelo contrário. É hipócrita e abjecta, como se  interessasse a alguém os pormenores escabrosos da vida sexual e amorosa de "algumas" pessoas. Pior, como se fosse eticamente correcto fazer o coming out* de quem já não pode fazê-lo. Isto é, se realmente o desejava fazer. Não podemos, pois, deixar de assinalar o desmascarar de uma pretensiosa obra historiográfica de alcova que já referimos n'Obliviário: Homossexuais no Estado Novo, de São José Almeida, uma jornalista que se fez historiadora para provar o que já sabíamos: que em todos os tempos existem segredos. E bisbilhoteiros. Um dos autores do blogue Malomil disseca com notável destreza e ironia o discurso balofo daquele trabalho que oscila entre a noção de mau jornalismo e péssimo jornalismo. Sim, porque do foro da História "aquilo" não é com certeza.

9 de novembro de 2011

"Enfins"

Só quem não trabalha em História, quem não tem de se deparar com empregos precários, quem não sente o que é ser-se desprezado quando se apresenta a alguém com uma licenciatura que não em gestão, direito, engenharia ou medicina, enfim, só quem não vive no fio da navalha para ser reconhecido ou respeitado é que não fica indignado ou mesmo enjoado com o que foi gasto nos últimos 2 anos em propaganda ideológica a propósito do Centenário da República.
Quando, por um lado, se fecham os centros de investigação das Universidade, se reduzem bolsas de estudos e se cortam nos apoios às edições científicas e por outro se gastam somas incontáveis de dinheiro em sinecuras, edições de luxo, exposições, tudo acrescido de um design de primeira água, apresentações sumptuosas pontuadas por cocktails e brindes, é que percebemos o quanto este país se revolve em interesses de grupelhos que pretendem e atingem o poder, manejando a seu bel prazer o erário público.
Nunca fui contra as comemorações do regime, embora as considere provincianas e bacocas tal como as de 1940, quando Salazar mostrava à Europa um país pobre mas alegre e virtuoso no seu Império de pacotilha. Compreendo que Portugal de 2010 se queira por em bicos dos pés para mostrar mais do que é, pretendendo enganar as agências económicas com a ideia de uma república centenária, cheia de valores e ideais que nunca cumpriu, não cumpre, e dificilmente cumprirá. Mas não aceito que se gaste sem olhar a meios, desviando do absolutamente necessário para outra áreas o dispensável. Que se celebre o regime e que alguns se orgulhem dele, pois empregou mais gente nestes 100 anos do que empregará nos próximos. Mas que se lembre de que a História não começou em 1910 e que os historiadores são pagos para escrevê-la e torná-la inteligível e não para mascará-la. 
Quando pensava que este regabofe acabar, ei-lo em jorro diário de eventos pagos e patrocinados por organismos públicos ou se não por estes, por Fundações como a de Mário Soares, generosamente subsidiada pelo Estado.
Vamos ser sinceros: já chega. Acabou. Não há mais nada para exaltar, comemorar ou louvar. Este "enfim,a república", bem podia ser o suspiro de cansaço de um regime que, para além de falido, está perfeitamente esquecido.

30 de julho de 2011

A mentalidade "monografia".

Foto: Fachada da igreja de São Martinho, cruzeiro e residência. 
Início do séc. XX. Colecção particular (NR)
PROIBIDA A REPRODUÇÃO SEM AUTORIZAÇÃO 
«Esta espécie de torre de menagem pode ter sido primitivamente um alcácer mourisco ou posto de vigia, donde se podia fácilmente observar "a tempo e horas", a aproximação do inimigo, em épocas de ataques muçulmanos ou de reconquistadores cristãos.

Joaquim Correia Duarte, Resende e a sua História. Volume 1: o concelho, p. 169.

Vamos por partes: primeiro as igrejas não têm torres de menagem, só os castelos. Depois, as igrejas são templos, não são castelos, nem fortalezas. Portanto, porque haveria de ser aquela estrutura um alcácer mourisco se a ideia dos Reconquistadores foi expulsar os Mouros de São Martinho e só depois a igreja foi construída (os documentos atestam-no)? 
Estas monografias locais são um cancro. Os erros delas alastram de tal forma que o engano se torna verdade à força da repetição. Numa placa colocada ao lado da igreja de São Martinho de Mouros está lá esta estória do alcácer. 
Para quem lê e não pensa, como para quem escreve e não pensa também, tudo faz sentido.

7 de junho de 2011

A História não é do Povo, nem de Moscovo.

Não existe História asséptica, nem imparcial. Existe coerência, interpretação e bom senso. Infelizmente ainda não possuímos um código deontológico para Historiadores, pelo simples facto de que não existe, também, qualquer instituição que superintenda a escrita da História ou (superintender é capaz de ser inadequado) zele pela boa historiografia em Portugal. O panorama é comum a muitos países, embora em Portugal seja mais confrangedor, dado que a facilidade com que qualquer um toma para si a denominação de historiador, desacredita a boa história, a História com H grande, escrita segundo o método científico que esta disciplina exige. Por outro lado, como a História é pedagogia e a escola tornou-se um laboratório de conceitos fúteis, aplicados a pressupostos de progresso social e meta-social (o que quer que isso seja), o lugar das humanidades foi sendo substituído por «ciências» realmente «verdadeiras», por «números», por «conceitos» galicistas e anglo-saxónicos inventados por alguém, num gabinete esterilizado mas pouco ventilado, lá longe, em Bruxelas. A História tornou-se um adereço difícil de justificar. De tal forma que o Passado se torna, dia após dia, uma montra de clichés que perduram enquanto existirem a wikipédia e os humoristas.

28 de abril de 2011

O Historiador.

V. Magalhães Godinho (C) José Ventura / Expresso
 

O ofício de Historiador já foi respeitado em Portugal.
Alexandre Herculano era ouvido pelos políticos, Oliveira Martins constituiu uma espécie de decano da sabedoria oitocentista e, mais recentemente, a perda de A. H. de Oliveira Marques originou um irremediável vazio na cultura portuguesa. Bem sei que José Mattoso assume ainda o papel de uma mítica figura, a que se recorre, de quando a quando, para questionar sobre o esplendor do Passado e honrar a intelectualidade a partir da ideia do velho sábio, entretido entre alfarrábios, a compilar dados inúteis que ninguém lê ou lerá a não ser ele próprio. Mas os últimos anos têm levado o resto do valor da figura do Historiador. E agora mesmo desaparece Vitorino Magalhães Godinho, um homem inconformado, como todos o deveriam ser.
Vendo bem, o grande problema na forma como se olha para o ofício de Historiador é o de nunca o considerarmos como um inadaptado, como alguém que ousa falar contra. O Historiador, para o público comum, é um ser inerte, acomodado, bibelot decorativo de arquivos e bibliotecas. Em último caso, um animador de palestras ou de comemorações de centenários, às vezes agitador de intelectuais ou entretenimento ligeiro para telespectadores curiosos. E a culpa deste cliché acaba por ser dos próprios.
Primeiro, porque os Historiadores, aqueles que acreditam que fazem ciência, que escrevem para o desenvolvimento do conhecimento colectivo, admitem que a História seja mal tratada. Todos os dias as Câmaras Municipais publicam "monografias" redigidas a título gratuito por amadores. Desde logo, o Historiador passa a ser um estoriador, um carola que vive de ar e vento e escreve uns artiguelhos por simples diversão. Aliás, qualquer indivíduo minimamente instruído parece mais do que qualificado para escrever História, desde o comentador político ao jornalista. E para um Presidente de Câmara cujo objectivo maior é encher o seu município com rotundas, chafarizes e sinais de trânsito, e exaltar estas hediondas obras, qualquer livro com fotografias e alguns textos laudatórios é passível de constituir edição maior da História Local.
Pois nenhum historiador clama contra isto. Nem a Academia Portuguesa da História, cujo objectivo principal devia ser o de zelar pela preservação da Memória nacional é capaz de se insurgir contra esta "deseducação" massiva que alimenta bibliotecas escolares, como se fosse possível levar a sério a prosa de um médico ou de um operário só porque leram meia dúzia de verbetes no dicionários do Pinho Leal!
Depois, o Historiador escreve quase sempre de si para si.

29 de janeiro de 2011

Com papas e bolos.


Bem sei que o que vende é a estória e não a História. Mas começo a ficar um pouco farto pela forma como se trata a historiografia e os historiadores em Portugal. Somos carolas que contam lendas. Uma espécie de anciãos precoces que, a troco de nada, aparecem nas televisões, fazem umas crónicas e vivem de ar e vento. Digo-o com todo o respeito pelo Joel Cleto que é arqueólogo e devia saber o que custa afirmar-se no espaço científico. Mas assim não vamos lá. E a historiografia do Porto, que já nem escola de estudos históricos locais pode dizer que tem (ao contrário da Olisipografia), bem o sabe já que os nomes que saltam em defesa dos patrimónios da cidade são amadores que editam belos álbuns com estorietas: Germano Silva, Júlio Couto, Hélder Pacheco. Novamente, com todo o respeito, há lugar para todos. Mas um pouco de seriedade não fazia mal. Até por uma questão de educação (no sentido lato e pedagógico do termo).

15 de novembro de 2010

"Fico impressionado com o volume de pessoas que juram seu amor pela história. E acho isso muito bom. Embora seja favorável à regulamentação da profissão de historiador (não sei em que historiador é uma profissão menos especializada que corretor de imóveis, que tem sua profissão regularizada), nada tenho contra amadores que ousam adentrar no reino de Clio."

Os Historiadores e a IIGG. Um artigo de opinião, a ler.

1 de novembro de 2010

Notas à margem.


Armando Marques Guedes foi ministro das Finanças de Dezembro de 1925 a Maio de 1926. Republicano moderado, ligado ao Partido Democrático, deixou um testemunho interessante sobre os cinco meses que passou no Governo de António Maria da Silva, o das vésperas da marcha de Gomes da Costa e da Ditadura que daí adveio. A sua acção foi, como os antecessores e os que lhe sucederam, no sentido de conter a crise económica agravada pela participação de Portugal na I Grande Guerra. As suas descrições do estado das finanças públicas são flagrantemente actuais e creio até que os seus conselhos para estancar a crise em 1926 se aplicariam, em larga medida, à crise actual. Um deles, o da confiança:

Falemos francamente, como convém a quem está prestando ao seu país as contas dos seus actos e até dos seus pensamentos de governo. A crise económica do país, na sua actual fase aguda, não é difícil de conjurar. Basta restabelecer a confiança.A crise financeira do Estado quase automaticamente se elimina. O Estado tem o seu orçamento desequilibrado, é certo. Mas, com uma política de economias, ainda que tímida ; com os rendimentos normais dos impostos, pagos pelas actividades económicas que; restabelecida a calma, pudessem desenvolver com confiança as suas transacções, e com as receitas livres dos tabacos, o orçamento de 1927-28, senão mesmo o do ano económico corrente, equilibrar-se-ia. 
 E, mesmo republicano, Armando M. Guedes não oculta o trajecto económico do país desde o Ultimatum, lembrando que a recuperação económica começou na Monarquia e foi abalada durante a I República:


Será assim, a crise um facto tão mau? Seria o chumbo do Orçamento de Estado a ruína do país? Ou uma hipótese (como a de 1891) para uma recuperação pensada e sólida? E a reorganização do Estado e da Função Pública, ontem, como hoje, um problema de base, qual o seu papel na ignição do desenvolvimento do país? Curiosa a descrição que Armando Guedes faz deste problemas, aventando, aliás, a necessidade de uma reestruturação dos serviços e dos funcionários públicos, quanto a ele desajustados então para o bom funcionamento da república:

(clique para aumentar)

"Grande parte dele [funcionalismo público] foi recrutado por política." - Há, ou não, actualidade nesta afirmação? E nas soluções apontadas pelo ministro Armando Guedes? Claro que há. O problema de Portugal começa em não conhecer o seu Passado para bem preparar o seu Futuro. Vivemos presos num limbo de imediatismo, em que as soluções de recurso são repetições de erros.

9 de outubro de 2010

Tem a palavra António Sérgio.


"Fez-se então uma verdadeira República? Não se fez."

António Sérgio
Breve interpretação da História de Portugal, 11.ª edição, 1983
Livraria Sá Costa

26 de agosto de 2010

Uma discussão a retomar.



DA NECESSIDADE PREMENTE DA ORDEM DOS HISTORIADORES


A importância da História e da Arqueologia na sociedade contemporânea são por demais evidentes. Diremos mesmo que à constante agressão de uma tecnologia desumanizada e mediocremente niveladora que transforma os cidadãos em seres cinzentos, vegetativos e abúlicos, estas Ciências são mesmo capazes de dar a razão da permanência de valores humanos e o impulso necessário para a criatividade no quotidiano.


Daí a preocupação generalizada com o passado, a preservação dos seus traços materiais, o estudo do seus problemas e das suas crenças, na tentativa de responder às de hoje e às de amanhã. Contudo, do ponto de vista de organização, definição e âmbito de actuação, nenhuma classe estará tão pouco organizada, definida ou protegida como a dos historiadores. Enquanto que todos os detentores de cursos superiores têm os seus órgãos de classe, vulgarmente designados por ordens, tal não existe neste sector. Apenas algumas associações que visam divulgar o seu trabalho, mas nada mais. Não há uma entidade que os defenda no exercício das suas funções, quer públicas quer liberais. E mais: enquanto que nunca passaria pela cabeça de ninguém contratar quem não fosse médico para exercer medicina, advogado para trabalhar as leis ou engenheiro para construir pontes, há entidades públicas, para não falar das privadas, que entregam a resolução de problemas de História ou Arqueologia a médicos que nunca escreveram nada sobre medicina, a advogados que nunca especularam sobre direito, ou a outros licenciados que sobre a sua área de saber se mantêm mudos e quedos mas que se abalançam a meter foice na seara que os historiadores tão mal guardada trazem para assim ser invadida.


Sem querermos ser classistas, elitistas ou coisa que o valha, mas solidários com todo aqueles que se dedicam à investigação e divulgação da história e que se sentem muito mais historiadores do que qualquer outra coisa; com aqueles que não confundem a sua função social com a categoria de funcionário público ou com o quadro do ministério a que pertencem; com aqueles que aplicam realmente os conhecimentos que adquiriram nas Faculdades, ou que pelo menos lá foram saber como os adquirir e não apenas buscar um papel que lhes deu expediente para um modo de vida cuja problemática não lhes interessa; com aqueles que trabalham em história e arqueologia, que publicam, debatem e repensam o que escrevem; em suma, com todos os que estão fartos de pertencer a coisas que não são carne nem peixe, reclamamos a urgente criação da Ordem dos Histo¬riadores que defina quem o é ou pode ser, que intervenha na defesa dos nossos direitos e que delimite os nossos deveres para com a sociedade que os solicita. Que defina os aspectos deontológicos do historiador, que intervenha na sua preparação de base e pós-graduação, de modo a acabar com alguns pseudo-cursos de especialização que por aí pululam dando positivamente uma má imagem do nosso exercício profissional.


Este apelo e esta proposta queria deixar ficar nestas Actas das Jornadas de História Local e Regional de Vila Nova de Gaia até porque me parece que encontrarão eco naqueles que nelas participaram e porque considero que o Gabinete de História e Arqueologia de Vila Nova de Gaia é uma entidade que pode ajudar a dar corpo à Ordem dos Historiadores.


Vila Nova de Gaia, 20 de Novembro de 1983
Gonçalves Guimarães


Nota: Este texto foi publicado em 1983, na Revista Gaia, mas apenas o conheci recentemente, já muito depois de escrever isto e isto. É sempre reconfortante constatar que há quem pense como nós, sobretudo alguém da craveira do Prof. J. Gonçalves Guimarães, de quem sou amigo e fiel admirador. E é preciso retomar a discussão. Que em tempos de estórias todos querem ser historiadores.