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| Gravura publicada em G., A. P. D. - Sketches of portuguese life, manners, costume and character. Londres: [Printed for Geo. B. Whittaker], 1826. |
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31 de março de 2017
A Vida Portuguesa.
27 de junho de 2012
História à venda.
A large group of watercolours from 1912 is dedicated to the Swiss and French Alps (St. Croix, Chamonix) and includes nice views of Mont Blanc, Aig Verte, Aig Dru, Grand Charmoz, Aig du Blatcere, Aig du Plan, autumn colours of Argentière village near Chamonix and others. There are also watercolours from the trip to French Riviera (Menton and Cannes, 1921), the Estoril resort in Portugal (1924); several views of Exmouth (1916, 1924), Lake Geneva (1914, 1925), and Lake Maggiore in Italy (1926) et al.
Estas aguarelas fazem parte de um conjunto de documentos à venda, na sua maioria, livros e manuscritos oitocentistas, com grande prevalência sobre o mundo colonial e ultramarino português. Do maior interesse para a história de Portugal, como é evidente. Existem projectos sobre o porto de Macau, expedições inglesas a Àfrica, etc. Do maior interesse. Na Wayfarer's book shop, Canadá.
13 de outubro de 2011
Doze anos?
«[...] da perda de Barcelona: que toda Italia cuida ser perda de Portugal. e nos cospem nos focinhos a todos os portugueses. tendonos por gallinhas e peiores que gallinhas. pois em doze annos não fizemos hua coisa gloriosa. nem em catorze meses, mandassemos hum socorro. onde nos hia o remedio, e perguntão se he possivel que homens tão cobardes sejão nettos de homens tão valentes [...]»
Vicente Nogueira ao Marquês Almirante, carta de 30-11-1652
14 de abril de 2011
Palavras de ministro aos ministros de hoje.
Resposta que deu certo ministro a Filipe IV rei de Espanha sobre o estado de Portugal. Monteiro, A.L.- Antiguidades curiosas. Silva & Valbom, 1870
7 de abril de 2011
"Eis aqui se descobre a nobre Espanha,
como cabeça ali da Europa toda,
em cujo senhorio e glória estranha
muitas voltas tem dado a fatal roda;
mas nunca poderá, com força ou manha,
a Fortuna inquieta pôr-lhe noda
que lha não tire o esforço e ousadia
dos belicosos peitos que em si cria."
Camões, Lusíadas.
Primeiro passo para sair desta embrulhada: gostar de Portugal, gostarmos de nós, acreditarmos em nós. Em épocas de crise, o colectivo é importante. Chega de "gerações à rasca", de lamúrias e maledicência. Não basta que agências de especulação e países estrangeiros nos tratem como subalternos, ou lixo, ainda queremos contribuir para denegrir a nossa própria imagem? Não. Se temos maus políticos é porque temos acreditado que não merecemos melhor. Mas merecemos. Temos um capital humano valioso, temos um Passado que nos honra e o necessário para singrar. Mas é importante que comecemos a fazer pelas nossas mãos o que os outros têm tomado por "procuração".
10 de setembro de 2010
São as elites, senhor, são as elites.
Sou da mesma opinião que o historiador Rui Ramos, quando recentemente se manifestava desconfiado em relação às análises colectivas de um país. Daquelas tipo José Gil ou Eduardo Lourenço, não desmerecendo a capacidade filosófica e de síntese histórica de cada um. Por isso sou extremamente céptico em relação a posições como esta: «Muitos dos males que são atribuídos a Salazar vinham de trás, da República, da monarquia constitucional. No século XIX éramos um país pobre, no século XX um país pobre e continuamos a ser um país pobre. Há coisas que se calhar são inultrapassáveis.» (Filipe Ribeiro de Menezes, biógrafo de Salazar em entrevista ao i). TO João Gonçalves do Portugal dos Pequeninos [sic] toma a asserção como um estigma inevitável, um fado até, que temos arrastado como cruz até um calvário que não existe. Eu não comungo desta teoria, como se todo o país, cada um dos seus habitantes, vivesse na obscura e inultrapassável infortuna vivência há 200 anos, ou mais. A generalização impede-nos de constatar algo muito importante: isto não é um caso de verticalidade. É de horizontalidade. Ou seja, a culpa nem sempre pode ser atribuída ao regime, mesmo quando este "oferece" ao Povo (quem quer que este seja) a decisão sobre os destinos do País. A questão é mais complexa. Mas estou em crer que um estudo sobre as elítes políticas pode oferecer-nos lances de excruciante realidade. Quando as elites que governam são más, dificilmente se pode urdir um destino melhor que aquele que temos. E é assim há 200 anos. Basta ler o livro sobre os «Devoristas», de Vasco Pulido Valente. O Estado tornou-se um Monstro com o Liberalismo. É o Saturno, que todos os dias nos devora. Bom, bom seria que depois de nos deglutir, nos transformasse em mera matéria fecal. Mas não, regurgita-nos para nos comer de novo. Assim não é possível continuar.
4 de setembro de 2010
Um Auto-de-fé por dia...

À porta do tribunal, um popular comentava o Processo Casa Pia: Isto é uma festa! É uma festa de vergonha, mas é uma festa (SIC).
No séculos XVII e XVIII os autos-de-fé também eram uma festa. Não era só a nobreza e o clero que se juntava para assistir às execuções. A populaça também. E apreciava-as como qualquer momento de sociabilidade ou de expansiva manifestação.
Convém lembrar estas coisas da próxima vez que se falar em povo oprimido.
1 de agosto de 2010
8 de outubro de 2009
E a Memória, meus senhores, a Memória?

Estas «celebrações» que recentemente se levaram a cabo em Viseu foram, na sua essência, não muito diferentes das várias que, durante o Estado Novo, se repetiram colocando a Historiografia ao serviço da ideologia do regime. Contudo, não posso deixar de questionar: numa República que despreza hoje e cada vez mais a sua História, prestes a fazer 100 anos de uma soma de ignominiosos actos, qual o interesse de saber onde nasceu o primeiro rei da nação? A pertinência de tal necessidade parecer diluir-se neste tempo estranho, em que os valores da nacionalidade apenas fazem sentido para alguns e servem para enfeitar roteiros turísticos. Eu, que sou dos que acha que não se deve meter foice em seara alheia, não sendo medievalista, nem particularmente interessado em saber onde os príncípes e os reis usaram cueiros pela primeira vez, contento-me em saber onde estão os ossos de Afonso Henriques. Nesse aspecto sou pragmático como os arqueólogos: quais documentos, quais cabaças. Há cacos, há osso? Estamos conversados. Mas conhecendo relativamente a obra de Almeida Fernandes estou à vontade para manter uma conversa sobre o assunto. Este senhor, que ganhou o lugar de historiador a pulso, nasceu em Britiande, concelho de Lamego, distrito de Viseu. Viveu o Estado Novo como cultor dos Homens e dos seus Feitos, sobretudo daqueles que lhe eram mais próximos em pensamento e em espaço. Dedicou-se à toponímia mas, tanto quanto sei e posso aquilatar da leituras dos seus trabalhos de minuciosa analítica, pouco saía de casa para perscrutar o espírito dos topónimos que dissecava no seu gabinete. A sua obra, incomensurável e de indiscutível importância para a historiografia portuguesa, é, porém, uma sucessão de críticas. E quando que refiro a críticas, não falo do processo de análise histórica e heurística. Críticas pessoais, frequentes e virulentas, a historiadores que, de alguma forma, ousaram por em causa as suas palavras. O seu tempo era o da Idade Média de tal forma que todas as suas análises redundam numa medievalização do espaço: basta consultar os verbetes que redigiu para a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileiras para perceber os hiatos a nível de História da Idade Moderna e do Antigo Regime que as suas interpretações deixaram nos estudos da História Local e Regional, sobretudo nas regiões do Douro, Lamego e Viseu, para onde Almeida Fernandes dirigia o seu interesse. Ele, que se queixava da Nova História (que associava ao arqui-inimigo José Mattoso), confiava demasiado nos documentos. É na documentação que ele firma a sua interessante teoria do nascimento de Afonso Henriques. Mas toda a conjectura assenta em comparação de datas e presenças nunca verdadeiramente comprováveis. Tanto quanto sabemos dos seus trabalhos, D. Afonso Henriques até pode ter nascido na beira de uma estrada, algo que não seria estranho a uma «corte» itinerante. Podia ser entre Coimbra e Viseu, entre Viseu e Lamego, nos arredores desta cidade, no meio de uma serra ou mesmo numa aldeia da Beira Alta. Vir Almeida Fernandes, e hoje o seu genro, anunciar ao mundo um novo bezerro de ouro (que muitos foram venerar a Viseu), reivindicando mudanças nos manuais de história e na mitografia nacional é tão absurdo como inexequível. Os manuais de história já quase não existem e a Memória dos homens não se muda de um dia para o outro. Aliás, a Memória implica que eu faça esta pergunta: como é que em 900 anos, não restou um único documento que atestasse ou pudesse sugerir esta nova teoria? Como é que em vida do primeiro rei ou nas gerações imediatamente seguintes ninguém registou este dado de semelhante importância: o local do nascimento de um monarca que governou durante quase meio século, sendo a sua presença marcante na europa do século XII? Dado que Viseu não era uma aldeia nessa época, talvez o verdadeiro local onde Afonso veio ao mundo não fosse propriamente digno de um princípe e rei, de tal forma que a tradição o fez nascer em Guimarães (por todas as ligações da vila à vida do conde D. Henrique). Em qualquer dos casos nunca se pode ignorar a Memória, por muito nebulosa ou anistórica que ela seja - sempre nos conta algo que fica por contar...
20 de junho de 2009
Assim se escreve a História local em Portugal.
Global, n.º 414, 19-6-2009
(clique sobre o recorte para aumentar)
Sem qualquer pejo as Câmaras Municipais alinhavam roteiros turísticos com textos académicos, sem autorização e sem ressarcir os seus autores poupando tempo e dinheiro e ganhando visibilidade em promoção. Para estes políticos de alcova o trabalho de investigação não vale nada. É carolice. Mas já que está feito vamos aproveitá-lo. O dinheiro gasto por estes panfletários dava para suprir o que falta em educação por estas terreolas afora. Novas Oportunidades para os políticos, isso sim, faz falta.
15 de abril de 2009
A "História local": para quando uma certificação de qualidade?
Imagem picada daquiLonge vai o tempo em que ser Historiador era uma honra e estava entre os mais altos cargos da Nação. Num tempo em que, apesar de a História, enquanto ciência, não estava ainda verdadeiramente definida, o historiador era um erudito que afincadamente dissertava sobre os documentos, manejando habilmente tanto a palavra como o pensamento. Hoje, não existem historiadores verdadeiros e os que existem, ou, lamentavelmente nos vão deixando, como o grande A. H. de Oliveira Marques ou estão já numa fase crepuscular da sua vida. De resto, os académicos que leccionam nas universidades são lentamente transformados em tecnocratas que Bolonha traga em longas horas desperdiçadas em relatórios e projectos mal alivanhados para justificar números sem sentido. § Por outro lado tornou-se banal o historiador contador de histórias, uns com âmbito mais nacional e com tempo de antena, como o professor José Hermano Saraiva (cuja formação de base nem é a História) e outro, mais comum, como o historiador local que tem contribuído para a maior deseducação de que há memória em Portugal. Porquê? É simples. As Câmaras Municipais raramente patrocinam edições elaboradas por académicos, redigidas por licenciados, mestres ou doutores em História, arqueologia e, ou, arte, pois para além do preço da impressão e do grafismo, há a pagar o trabalho de investigação. Por isso qualquer um pode ser "historiador", basta munir-se de meia dúzia de estórias, lendas e mitos e declama, do alto da sua sapiência, o que sabe sobre a sua terra. § Este trabalho de "historiar" é, para muitos, uma carolice. Eu até tenho vergonha, muitas vezes, - digo-o com sinceridade - em dizer que sou historiador e que investigo. Maior parte das pessoas não compreende para que serve a História, muito menos para que diabo passa uma pessoa horas e horas metida num arquivo a prescrutar velhos documentos. Por isso, qualquer indivíduo que "perca" o seu tempo a fazê-lo, ou é tolo, ou é um desses carolas que qualquer freguesia ou município produz ao longo de gerações. § Bem sei que as monografias que estes senhores (e, embora em menor número, senhoras) redigem são por vezes fontes primárias e que eles foram, de facto, os primeiros a desbravar território inculto. Conheço, aliás, monografias excelentes redigidas por historiadores amadores. Mas não posso deixar de verificar que embora a História não seja apanágio dos académicos, estes perdem para tais "monógrafos", pois o seu trabalho é gratuito, vendido a troco de uma, quase sempre má, edição... § O resta? Maus livros, cujo conteúdo revela o pior da História local: documentos mal interpretados, leituras paleográficas deficientes, páginas e páginas de informação mal organizada, tantas vezes plagiada de obras como a de Pinho Leal - que só por si é já um manancial de incorrecções. Por desconhecerem o uso da crítica e do paciente processo heurístico, estes "historiadores de bairro" assumem qualquer documento como verdadeiro e qualquer testemunho como passível de ser verdadeiro e pertinente. § O resultado parece passar despercebido a todos nós, académicos e pedagogos, mas é cada vez mais um problema sério: as estantes das bibliotecas públicas estão cheias destes livros que quando não de luxo, são lixo (ou ambos) e malogradamente a eles recorrem os estudantes do ensino básico e secundário em busca de material para trabalhos escolares. § A Academia Portuguesa da História é o único organismo que pode fazer algo quanto a este triste panorama, uma vez que não existe (infelizmente) uma Ordem dos Historiadores. É necessário - eu diria absolutamente imperativo - certificar, com selo de qualidade, a historiografia local e regional. E dignificar o trabalho de historiador que hoje perde para o de antropólogo, sociólogo, etc. § Um povo que não consegue "ver" o passado, dificilmente conseguirá encontrar o bom caminho para o futuro...
6 de abril de 2009

Tenho consciência do muito tempo perdido a falar, aqui, de Salazar, mas não posso deixar de chamar a atenção dos leitores para um livro recentemente lançado sobre a tese de um Salazar maçon. As sociedades secretas, pelo simples facto de serem secretas (e, portanto, esconderem algo) são me totalmente não gratas. Cumprem o seu papel (quase sempre o de minar ou corromper alguma fundação, ou suster o crescimento de outra), desde sempre existiram e continuarão a existir - mas confunde-me a ideia de agremiações que se dizem democratas, liberais e pela liberdade - como a Maçonaria - quando os seus elementos e os seus rituais estão envoltos em absoluto secretismo. § Saber, portanto, (embora o livro, escrito pelo juiz José da Costa Pimenta, seja uma súmula de teses) que Salazar tenha aderido à maçonaria não me deixa surpreendido. Há muito que a ideia de um Salazar beato tinha sido posta de parte. Os seus negócios tácteis com a Igreja, a forma como estruturou uma sociedade corporativa (gremial) e como susteve a mensagem de uma nação e um Império fortes, - diversa, mas una -, corrobora a mensagem da «religião natural» praticada pelos maçons. Não sei se para a Maçonaria portuguesa, a que pertence a quase totalidade dos elementos do governo actual liderado por José Sócrates, será uma boa notícia (não sabendo eles já deste facto...). Mas não deixa de haver certas tomadas de posição, ou tiques governativos, se assim quisermos, entre a Ditadura pessoal de António de Oliveira Salazar e o XVII Governo Constitucional de Portugal (em funções desde 2005)...
[Outros dados interessantes aqui]
1 de fevereiro de 2009
O dia em que os reis morrem.
A veleidade de uns certos justos que dizem que o sangue nada significa têm pouco em conta o seu derramamento. Abater um rei, um chefe de estado é um processo meramente factual num universo de actos burocráticos. A morte de um rei, aliás, é, para esses "homens de estado", um acto de suprema libertação pois segundo eles liberta o povo das grilhetas da tradição, do costume, da desonrosa qualidade de súbditos, para ascenderem à livre condição de cidadãos. § A 1 de Fevereiro de 1908 foram assassinados o Rei e o Príncipe-real e com esta morte odiosa hipotecado o futuro de Portugal. Não é o julgamento da História que consertará o crime horrendo determinado pelos arautos da República que assim inauguraram o novo regime sobre uma poça de sangue e iniquidade. Mas quando, no presente, se preparam comemorações sobre este regime ensanguentado cujos obreiros, por puro ódio, se recusam homenagear os mortos para glorificar os homicidas, nós, monárquicos ou não monárquicos, - todos os que pedem razoabilidade, justiça e humanidade - devemos contribuir para que não caia no esquecimento tão fatídico momento da nossa história. Porque a monarquia é sentimento e é este sentimento que distingue os regimes monárquicos das Repúblicas. Estas procuram o consenso nos números, as monarquias nos laços, nas memórias. Por isso que a arma, para além do punhal ou da carabina, que a República usa para derrubar a monarquia é apontar-lhe os costumes, asseptiza-se para mostrar-se imaculada, quando todos nós sabemos - a República Portuguesa no-lo mostra diariamente - há podridão e aroma fétido neste regime.
Espero que descansem em paz as almas atormentadas de D. Carlos de Bragança e do seu filho Dom Luís Filipe e gostaria de lembrar o apelo de uma mãe que a propaganda facciosa urdiu como a mais devassa das devassas: Maria Antonieta, mulher de Luís XVI, executada sumariamente depois de vilipendiada e acusada dos mais infames crimes.
É a carta de uma mulher e de uma mãe. Como D. Amélia, que viu morrer o filho à sua frente pela única e monstruosa razão: a razão de um estado, um estado de poucos imposto a muitos.
"Ce 16 octobre, à quatre heures et demie du matin.
C’est à vous, ma soeur, que j’écris pour la dernière fois. Je viens d’être condamnée, non pas à une mort honteuse – elle ne l’est que pour les criminels, mais à aller rejoindre votre frère. Comme lui innocente j’espère montrer la même fermeté que lui dans ses derniers moments. Je suis calme comme on l’est quand la conscience ne reproche rien. J’ai un profond regret d’abandonner mes pauvres enfants. Vous savez que je n’existais que pour eux et vous, ma bonne et tendre soeur, vous qui avez par votre amitié tout sacrifié pour être avec nous, dans quelle position je vous laisse ! J’ai appris par le plaidoyer même du procès que ma fille était séparée de vous. Hélas ! la pauvre enfant, je n’ose pas lui écrire, elle ne recevrait pas ma lettre, je ne sais pas même si celle-ci vous parviendra. Recevez pour eux deux ici ma bénédiction ; j’espère qu’un jour, lorsqu’ils seront plus grands, ils pourront se réunir avec vous et jouir en entier de vos tendres soins. Qu’ils pensent tous deux à ce que je n’ai cessé de leur inspirer : que les principes et l’exécution exacte de ses devoirs sont la première base de la vie, que leur amitié et leur confiance mutuelle en fera le bonheur. Que ma fille sente qu’à l’âge qu’elle a, elle doit toujours aider son frère par les conseils que l’expérience qu’elle aura de plus que lui et son amitié pourront lui inspirer ; que mon fils, à son tour, rende à sa soeur tous les soins, les services que l'amitié peuvent inspirer ; qu’ils sentent enfin tous deux que dans quelque position où ils pourront se trouver ils ne seront vraiment heureux que par leur union ; qu’ils prennent exemple de nous. Combien, dans nos malheurs, notre amitié nous a donné de consolation ! Et dans le bonheur on jouit doublement quand on peut le partager avec un ami, et où en trouver de plus tendre, de plus uni que dans sa propre famille ? Que mon fils n’oublie jamais les derniers mots de son père que je lui répète expressément : qu’il ne cherche jamais à venger notre mort.
J’ai à vous parler d’une chose bien pénible à mon coeur. Je sais combien cet enfant doit vous avoir fait de la peine. Pardonnez-lui, ma chère soeur, pensez à l’âge qu’il a et combien il est facile de faire dire à un enfant ce qu’on veut et même ce qu’il ne comprend pas. Un jour viendra, j’espère, où il ne sentira que mieux le prix de vos bontés et de votre tendresse pour tous deux. Il me reste à vous confier encore mes dernières pensées. J’aurais voulu les écrire dès le commencement du procès, mais, outre qu’on ne me laissait pas écrire, la marche a été si rapide que je n’en aurais réellement pas eu le temps.
Je meurs dans la religion catholique, apostolique et romaine, dans celle de mes pères, dans celle où j’ai été élevée et que j’ai toujours professée, n’ayant aucune consolation spirituelle à attendre, ne sachant pas s’il existe encore ici des prêtres de cette religion, et même le lieu où je suis les exposerait trop s’ils y entraient une fois. Je demande sincèrement pardon à Dieu de toutes les fautes que j’ai pu commettre depuis que j’existe ; j’espère que, dans sa bonté, il voudra bien recevoir mes derniers voeux, ainsi que ceux que je fais depuis longtemps pour qu’il veuille bien recevoir mon âme dans sa miséricorde et sa bonté. Je demande pardon à tous ceux que je connais et à vous, ma soeur, en particulier, de toutes les peines que, sans le vouloir, j’aurais pu leur causer. Je pardonne à tous mes ennemis le mal qu’ils m’ont fait. Je dis ici adieu à mes tantes et à tous mes frères et soeurs. J’avais des amis, l’idée d’en être séparée pour jamais et leurs peines sont un des plus grands regrets que j’emporte en mourant ; qu’ils sachent du moins que, jusqu’à mon dernier moment, j’ai pensé à eux.
Adieu, ma bonne et tendre soeur ; puisse cette lettre vous arriver. Pensez toujours à moi ; je vous embrasse de tout mon coeur ainsi que ces pauvres et chers enfants. Mon Dieu, qu’il est déchirant de les quitter pour toujours ! Adieu, adieu ! je ne vais plus m’occuper que de mes devoirs spirituels. Comme je ne suis pas libre dans mes actions, on m’amènera peut-être un prêtre ; mais je proteste ici que je ne lui dirai pas un mot et que je le traiterai comme un être absolument étranger."
C’est à vous, ma soeur, que j’écris pour la dernière fois. Je viens d’être condamnée, non pas à une mort honteuse – elle ne l’est que pour les criminels, mais à aller rejoindre votre frère. Comme lui innocente j’espère montrer la même fermeté que lui dans ses derniers moments. Je suis calme comme on l’est quand la conscience ne reproche rien. J’ai un profond regret d’abandonner mes pauvres enfants. Vous savez que je n’existais que pour eux et vous, ma bonne et tendre soeur, vous qui avez par votre amitié tout sacrifié pour être avec nous, dans quelle position je vous laisse ! J’ai appris par le plaidoyer même du procès que ma fille était séparée de vous. Hélas ! la pauvre enfant, je n’ose pas lui écrire, elle ne recevrait pas ma lettre, je ne sais pas même si celle-ci vous parviendra. Recevez pour eux deux ici ma bénédiction ; j’espère qu’un jour, lorsqu’ils seront plus grands, ils pourront se réunir avec vous et jouir en entier de vos tendres soins. Qu’ils pensent tous deux à ce que je n’ai cessé de leur inspirer : que les principes et l’exécution exacte de ses devoirs sont la première base de la vie, que leur amitié et leur confiance mutuelle en fera le bonheur. Que ma fille sente qu’à l’âge qu’elle a, elle doit toujours aider son frère par les conseils que l’expérience qu’elle aura de plus que lui et son amitié pourront lui inspirer ; que mon fils, à son tour, rende à sa soeur tous les soins, les services que l'amitié peuvent inspirer ; qu’ils sentent enfin tous deux que dans quelque position où ils pourront se trouver ils ne seront vraiment heureux que par leur union ; qu’ils prennent exemple de nous. Combien, dans nos malheurs, notre amitié nous a donné de consolation ! Et dans le bonheur on jouit doublement quand on peut le partager avec un ami, et où en trouver de plus tendre, de plus uni que dans sa propre famille ? Que mon fils n’oublie jamais les derniers mots de son père que je lui répète expressément : qu’il ne cherche jamais à venger notre mort.
J’ai à vous parler d’une chose bien pénible à mon coeur. Je sais combien cet enfant doit vous avoir fait de la peine. Pardonnez-lui, ma chère soeur, pensez à l’âge qu’il a et combien il est facile de faire dire à un enfant ce qu’on veut et même ce qu’il ne comprend pas. Un jour viendra, j’espère, où il ne sentira que mieux le prix de vos bontés et de votre tendresse pour tous deux. Il me reste à vous confier encore mes dernières pensées. J’aurais voulu les écrire dès le commencement du procès, mais, outre qu’on ne me laissait pas écrire, la marche a été si rapide que je n’en aurais réellement pas eu le temps.
Je meurs dans la religion catholique, apostolique et romaine, dans celle de mes pères, dans celle où j’ai été élevée et que j’ai toujours professée, n’ayant aucune consolation spirituelle à attendre, ne sachant pas s’il existe encore ici des prêtres de cette religion, et même le lieu où je suis les exposerait trop s’ils y entraient une fois. Je demande sincèrement pardon à Dieu de toutes les fautes que j’ai pu commettre depuis que j’existe ; j’espère que, dans sa bonté, il voudra bien recevoir mes derniers voeux, ainsi que ceux que je fais depuis longtemps pour qu’il veuille bien recevoir mon âme dans sa miséricorde et sa bonté. Je demande pardon à tous ceux que je connais et à vous, ma soeur, en particulier, de toutes les peines que, sans le vouloir, j’aurais pu leur causer. Je pardonne à tous mes ennemis le mal qu’ils m’ont fait. Je dis ici adieu à mes tantes et à tous mes frères et soeurs. J’avais des amis, l’idée d’en être séparée pour jamais et leurs peines sont un des plus grands regrets que j’emporte en mourant ; qu’ils sachent du moins que, jusqu’à mon dernier moment, j’ai pensé à eux.
Adieu, ma bonne et tendre soeur ; puisse cette lettre vous arriver. Pensez toujours à moi ; je vous embrasse de tout mon coeur ainsi que ces pauvres et chers enfants. Mon Dieu, qu’il est déchirant de les quitter pour toujours ! Adieu, adieu ! je ne vais plus m’occuper que de mes devoirs spirituels. Comme je ne suis pas libre dans mes actions, on m’amènera peut-être un prêtre ; mais je proteste ici que je ne lui dirai pas un mot et que je le traiterai comme un être absolument étranger."
§
No dia em que os reis e as rainhas morrem, morre com eles uma complexidade de afectos. E os afectos não se plebiscitam, nem se contabilizam. São a soma das relações Humanas.
2 de dezembro de 2008
Depois de vós, nós

Depois de vós, nós, a divisa de D. Manuel II, rei culto, pacificador, altruísta que sintetiza bem o que ontem se comemorou: não uma independência por motivos de opressão - razões que levam muitos povos, em todos os tempos, a lutar contra tiranos - mas uma necessidade de assumir uma consciência de unidade, conseguida em poucas ocasiões da nossa história, apenas quando o rei encarnou o espírito colectivo que caracteriza o progresso (enquanto acção, desejo, motor) das nações. O 1.º de Dezembro de 1640 não é um acto fortuito, nem menor - e embora tenha sido a mão das elites a empunhar o estandarte, fê-lo consciente da vontade de todos os estados que depuseram na mão do Duque de Bragança, o símbolo do bom governo. Não foi pois um cinco de outubro em que já não os oligárquicos, mas os politicocráticos, vieram à rua com foros de liberdade como se a monarquia subjugasse os corpos e as mentes. Mas a divisa destes burocratas de Bruxelas não é, nem nunca foi, "depois de vós, nós". É arenga mais pragmática que lembra aos cidadãos que as liberdades se pagam - eles são só colectores de impostos. A seguir a um virá outro, e outro, e mais outro. Perdemos a independência da boa memória, para ganharmos a ilusão da igualdade.
25 de novembro de 2008
Quem ler até acredita que é verdade.
Ver em APH.No site da Associação de Professores de História há um link que nos remete para um sumário da História de Portugal, em inglês. A ideia, tanto quanto percebo, é permitir a um estrangeiro que visite o espaço da APH conhecer a História do nosso país em 10 minutos. Uma espécie de tudo-o-que-você-quis-saber-sobre-Portugal ou Portugal-for-dummies. Interessante é quando chegamos à parte em que cabe explicar o significado das lindas cores da bandeira republicana.
The green is the colour for hope in the future.
The red is the symbol of the courage and blood spilled by Portuguese soldiers on the battle field.
(O verde é cor da esperança no futuro. O vermelho o símbolo da coragem e do sangue derramado pelos portugueses no campo de batalha).
Eu já não acredito neste relambório Estado novista desde os bancos da primária. E pergunto: é isto que a maioria dos professores de História ensina aos seus alunos? Se é, não há dúvida que as comemoração do centenário da república levam já um grande avanço. É que as cores absolutamente díspares e aberrantes que constituem a bandeira pós-1910 têm a sua origem nas correntes socialista (vermelho) e positivista (verde) que maravilhavam a trupe republicana implicada no golpe de estado de 5 de Outubro. Não há cá esperança alguma, nem sangue dos heróis portugueses. Ou melhor, talvez o vermelho da bandeira seja a parcela branca da bandeira nacional tingida de rubro com o sangue derramado pelo D. Carlos e pelo Princípe D. Luís Filipe, quando estes foram assassinados à queima-roupa, pelas costas por dois carbonários republicanos. Nesse caso sim, poderíamos dizer que a bandeira vermelha e verde tem alguma nobreza na sua existência.
15 de junho de 2008
A nossa amiga Inglaterra.
Segundo um historiador brasileiro, pouco antes de D. João VI chegar ao Brasil, a Inglaterra chegou a pensar em invadir esta colónia portuguesa. Tudo para nos livrar do fardo de termos de administrar tão extenso território, nós, que, para os ingleses, sempre constituímos uma nação inferior.
“Isto é uma espécie de fenômeno”, teria dito um ministro inglês, por volta do ano de 1790, ao perceber que as tetas da “vaca leiteira” de seu país (Portugal, nas palavras do historiador Gomes Freire de Andrade) haviam secado.O déficit inglês foi se agravando mais e mais, chegando a 900 mil libras esterlinas no período mais crítico. “Ao analisar as causas da inversão na balança comercial, o governo britânico descobriu que produtos brasileiros - algodão e couros - reexportados por Portugal para a Inglaterra eram os fatores que mais pesavam para que os déficits ocorressem”, salienta o professor e historiador José Jobson de Andrade Arruda, autor do livro “Uma colônia entre dois impérios. A abertura dos portos brasileiros 1800-1808”.
“Isto é uma espécie de fenômeno”, teria dito um ministro inglês, por volta do ano de 1790, ao perceber que as tetas da “vaca leiteira” de seu país (Portugal, nas palavras do historiador Gomes Freire de Andrade) haviam secado.O déficit inglês foi se agravando mais e mais, chegando a 900 mil libras esterlinas no período mais crítico. “Ao analisar as causas da inversão na balança comercial, o governo britânico descobriu que produtos brasileiros - algodão e couros - reexportados por Portugal para a Inglaterra eram os fatores que mais pesavam para que os déficits ocorressem”, salienta o professor e historiador José Jobson de Andrade Arruda, autor do livro “Uma colônia entre dois impérios. A abertura dos portos brasileiros 1800-1808”.
21 de fevereiro de 2008
D. Carlos

Acabo de ler a biografia de D. Carlos, da autoria de Rui Ramos - obra de tal fôlego, como poucas que tenho lido - e só me acorre deturpar a célebre frase de Camões: «fraco rei faz fraca a forte gente». No caso de D. Carlos deve dizer-se «fraca gente fez fracassar o forte rei». Há reinos que não são deste mundo e países que os não merecem. A república, tal como a temos, herdeira dos regicidas, de Afonso Costa, de Salazar, de Soares e Cavaco Silva é o melhor regime para Portugal. Podemos até não nos conformarmos com esta conclusão, mas temos que admiti-la.
1 de fevereiro de 2008
Factos & argumentos?
D. Luís Filipe, Príncipe Real, assassinado no Terreiro do Paço,juntamente com seu pai,a 1-I-1908. Via Vidas lusófonas.
Facto 1: No dia 1 de Fevereiro de 1908 o rei D. Carlos I, chefe de estado, foi assassinado numa acção premeditada, fria e sanguinária.
Facto 2: Com ele faleceu, também assassinado, o filho, princípe herdeiro, futuro governante de Portugal;
Facto 3: Em 1908 vivia-se numa monarquia, constitucional, em regime democrático, com eleições livres (condicionadas apelas pelas imposições prescritas na Constituição e respectivos Actos adicionais) que foi conquistado em 1834 e terminou em 1910, com um golpe de estado, sendo reposto apenas a 25 de Abril de 1974.
Facto 4: Em 1908 havia partidos políticos, liberdade de associação (e até de associação criminosa, de tal forma que a Carbonária pode com à-vontade matar o chefe de Estado), sem censura instituída, nem perseguição ideológica (e repare-se que me referido ao nível ideológico, não à rede de caciques e clientelagem partidária que desde o liberalismo até aos dias de hoje caracteriza a pequena, média e alta política nacional);
Posto isto: Sem julgar a História, ou os seus intervenientes, (que, de facto, nunca foram julgados) por sermos hoje uma república, não impede se homenageiem figuras da monarquia, como alguns querem*. Afinal de contas fomos uma monarquia durante cerca de 800 anos.
A República Portuguesa e os verdadeiros republicanos (não os desorientados, nem os ignorantes que pululam na nossa intelligentzia de esquerda) saberão com certeza honrar os mortos portugueses, sejam eles de que partido ou ideologia forem. Com os outros dorme o medo. O medo e uma certa angústia de mostrar mediocridade**.
*/**E o que estes, poucos felizmente, querem, é homenagear os «mártires da liberdade», que segundo um tal Carlos Esperança «Puseram termo à vida do rei, imolando a sua. Usaram a violência contra a violência do regime, sonhando com a República sob os escombros da monarquia que agonizava e a que vibraram um golpe fatal». Este excerto é sinistro. Comparar dois assassinos com verdadeiros mártires da liberdade, como Gandhi, Martin Luther King, ou, mais perto de nós, os que tombaram nas Campanhas Peninsulares, na Guerra Civil de 1832-34, ou ainda Salgueiro Maia, Álvaro Cunhal e outros («mártires» não por que morreram em combate, mas por que ofereceram a sua vida a uma causa), é hediondo e só pode vir de alguém cujo fanatismo impede uma visão clara e com discernimento sobre a História e o tempo em que nos encontramos - o qual não é, de modo algum, propício a elegias a terroristas. Há nomes para esta gente, que foi, com cartazes e máscaras, à Praça do Comércio envergar faixas do Bloco de Esquerda. Este grupelho partidário goza de uma aura de majestade entre a nossa intelligentzia e os nossos jovens que embora não aspirem a integrar as fileiras daquela, vão agarrando como podem os momentos para contestar. O BE, com as suas causas de modas são como a colecção Primavera/Verão da nossa sempiterna silly season política e os manipansos que o gerem, como o Fernando Rosas, vão-se encostando à condição de intelectuais, professores universitários, para assim consolidar uma mensagem que não é diferente daquela que o Partido Republicano fez passar durante a monarquia: ideologia e valores filosóficos em barda, aproximação ao real, zero. Mas atenção, não descuremos estes senhores. Ouve-os atentamente o Parlamento, obedecem-lhes generais, ministros e até presidentes. Por outro lado, teremos sempre a sempre a consolação de que, porque este partido é constituído por uma amálgama de gente dificilmente homogénea - desde historiadores a trapalhões - haverá sempre o rídiculo a encobrir qualquer razão que o BE tenha, como a manifestação que juntou uma dúzia de rapazolas no Terreiro do Paço para apoiarem dois homicidas.
Como historiador, espero que a História se encontre consigo mesmo e o regicídio seja clarificado como deve ser qualquer facto histórico, seguindo a imparcialidade e usando das metodologias necessárias a tal. Como monárquico, lamento que o movimento monárquico não se tenha ainda libertado de certos fardos, e que o republicanismo português (se é que ele existe) seja encabeçado por indivíduos tão pouco humanistas e mesquinhos. De resto, paz à alma daqueles que pereceram. O sangue que derramaram não saldou dívidas, nem curou feridas. E a história continua.
Facto 2: Com ele faleceu, também assassinado, o filho, princípe herdeiro, futuro governante de Portugal;
Facto 3: Em 1908 vivia-se numa monarquia, constitucional, em regime democrático, com eleições livres (condicionadas apelas pelas imposições prescritas na Constituição e respectivos Actos adicionais) que foi conquistado em 1834 e terminou em 1910, com um golpe de estado, sendo reposto apenas a 25 de Abril de 1974.
Facto 4: Em 1908 havia partidos políticos, liberdade de associação (e até de associação criminosa, de tal forma que a Carbonária pode com à-vontade matar o chefe de Estado), sem censura instituída, nem perseguição ideológica (e repare-se que me referido ao nível ideológico, não à rede de caciques e clientelagem partidária que desde o liberalismo até aos dias de hoje caracteriza a pequena, média e alta política nacional);
Posto isto: Sem julgar a História, ou os seus intervenientes, (que, de facto, nunca foram julgados) por sermos hoje uma república, não impede se homenageiem figuras da monarquia, como alguns querem*. Afinal de contas fomos uma monarquia durante cerca de 800 anos.
A República Portuguesa e os verdadeiros republicanos (não os desorientados, nem os ignorantes que pululam na nossa intelligentzia de esquerda) saberão com certeza honrar os mortos portugueses, sejam eles de que partido ou ideologia forem. Com os outros dorme o medo. O medo e uma certa angústia de mostrar mediocridade**.
*/**E o que estes, poucos felizmente, querem, é homenagear os «mártires da liberdade», que segundo um tal Carlos Esperança «Puseram termo à vida do rei, imolando a sua. Usaram a violência contra a violência do regime, sonhando com a República sob os escombros da monarquia que agonizava e a que vibraram um golpe fatal». Este excerto é sinistro. Comparar dois assassinos com verdadeiros mártires da liberdade, como Gandhi, Martin Luther King, ou, mais perto de nós, os que tombaram nas Campanhas Peninsulares, na Guerra Civil de 1832-34, ou ainda Salgueiro Maia, Álvaro Cunhal e outros («mártires» não por que morreram em combate, mas por que ofereceram a sua vida a uma causa), é hediondo e só pode vir de alguém cujo fanatismo impede uma visão clara e com discernimento sobre a História e o tempo em que nos encontramos - o qual não é, de modo algum, propício a elegias a terroristas. Há nomes para esta gente, que foi, com cartazes e máscaras, à Praça do Comércio envergar faixas do Bloco de Esquerda. Este grupelho partidário goza de uma aura de majestade entre a nossa intelligentzia e os nossos jovens que embora não aspirem a integrar as fileiras daquela, vão agarrando como podem os momentos para contestar. O BE, com as suas causas de modas são como a colecção Primavera/Verão da nossa sempiterna silly season política e os manipansos que o gerem, como o Fernando Rosas, vão-se encostando à condição de intelectuais, professores universitários, para assim consolidar uma mensagem que não é diferente daquela que o Partido Republicano fez passar durante a monarquia: ideologia e valores filosóficos em barda, aproximação ao real, zero. Mas atenção, não descuremos estes senhores. Ouve-os atentamente o Parlamento, obedecem-lhes generais, ministros e até presidentes. Por outro lado, teremos sempre a sempre a consolação de que, porque este partido é constituído por uma amálgama de gente dificilmente homogénea - desde historiadores a trapalhões - haverá sempre o rídiculo a encobrir qualquer razão que o BE tenha, como a manifestação que juntou uma dúzia de rapazolas no Terreiro do Paço para apoiarem dois homicidas.
Como historiador, espero que a História se encontre consigo mesmo e o regicídio seja clarificado como deve ser qualquer facto histórico, seguindo a imparcialidade e usando das metodologias necessárias a tal. Como monárquico, lamento que o movimento monárquico não se tenha ainda libertado de certos fardos, e que o republicanismo português (se é que ele existe) seja encabeçado por indivíduos tão pouco humanistas e mesquinhos. De resto, paz à alma daqueles que pereceram. O sangue que derramaram não saldou dívidas, nem curou feridas. E a história continua.
6 de janeiro de 2008
Portugal. Now and then.
Há coisas que nunca mudam. O anoitecer e o amanhecer, o dia e a noite, a neve nos pólos e a incondicional e abnegada boçalidade portuguesa. É mítica, todos a conhecem, todos a sabem reconhecer e não houve escritor, pintor ou outro artista que não a reproduzisse ou a ela se referisse depois de uma passagem por Portugal. Ralph Fox, um homossexual comunista em certa altura encantado com os bigodes loiros dos marinheiros que o acompanhavam na penosa viagem a este país encantado, aportou em Lisboa em 1936 para traçar um retrato nada glorioso da nação entregue ao regenerador «Salazar» ( expressão é do Fox). Até aqui nada de novo. Mais um inglês, com poucos conhecimentos de História de Portugal (mas com vantajosos conhecimentos financeiros) traçou o retrato de uma república aniquilada por uma monarquia impopular: «o último rei, o devoto e gordinho Manuel, era famoso por uma única razão: a sua dedicação apaixonada e dispendiosa a uma conhecida bailarina francesa». Não era D. Manuel, era D. Carlos, não era bailarina, era cantora - a história está mal contada o que não espanta, vindo de alguém que de bailarinas ou cantoras pouco entenderia. Mas Ralph Fox não se insurge, apenas, contra o que de chama de «obscurantismo, a sujidade, a ignorância e a pestilência generalizada», obra, segundo ele, da Casa de Bragança - vai mais longe, dizendo que os palácios reais de portugal são «monumentos à ignorância, à estupidez e a uma quase inacreditável falta de gosto dos seus proprietários». Claro que os palácios reais portugueses não são os palácios reais ingleses, muito menos a nossa monarquia se podia comparar «à sua». Há uma coisa interessante nos ideólogos britânicos, sejam os da direita, sejam os da esquerda: o que nos outros países é péssimo, embora no Reino Unido também o seja, é sempre um ponto a favor ter-se e ser-se uma nulidade em Inglaterra. Não me espanta, nem me dói na consciência patriótica ou ideológica que D. Miguel andasse aos tiros a carneiros ingleses, como se conta por aí... Honra seja feita a D. Miguel por acertar em carneiros ingleses. Dos proteccionismos britânicos vieram sempre maus ventos e nada bons casamentos - e não de Espanha. Nós ficamos sempre sem lã, sem vinho e sem honra: enregelados, sóbrios e pasmados. Regressando a Fox e ao seu vol d'oiseau por Portugal, o que importa reter da leitura deste pequeno livro - que o autor nunca viu impresso, pois morreria nas trincheiras republicanas espanholas - é o registo paternalista, comum a tantos outros autores que cá passaram. É evidente que há coisas que nunca mudam, e a boçalidade, os vícios veniais, a sociedade apática e os políticos corruptos continuam cá - o que não impedia que metade da Europa civilizada gostasse de banhar os pés nas praias do Estoril, ou explorar os camponeses - tão pobres e tão sujos - que pulavam de Norte a Sul do país. Afinal de contas Salazar, de tão inteligente que queria parecer, acabou por ser o ditador menos respeitado e mais usado de uma Europa devoradora. E os ingleses, «nossos maiores aliados», sempre abriram a boca para dar a maior dentada. Há coisas que nunca mudam.
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