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30 de julho de 2011

A mentalidade "monografia".

Foto: Fachada da igreja de São Martinho, cruzeiro e residência. 
Início do séc. XX. Colecção particular (NR)
PROIBIDA A REPRODUÇÃO SEM AUTORIZAÇÃO 
«Esta espécie de torre de menagem pode ter sido primitivamente um alcácer mourisco ou posto de vigia, donde se podia fácilmente observar "a tempo e horas", a aproximação do inimigo, em épocas de ataques muçulmanos ou de reconquistadores cristãos.

Joaquim Correia Duarte, Resende e a sua História. Volume 1: o concelho, p. 169.

Vamos por partes: primeiro as igrejas não têm torres de menagem, só os castelos. Depois, as igrejas são templos, não são castelos, nem fortalezas. Portanto, porque haveria de ser aquela estrutura um alcácer mourisco se a ideia dos Reconquistadores foi expulsar os Mouros de São Martinho e só depois a igreja foi construída (os documentos atestam-no)? 
Estas monografias locais são um cancro. Os erros delas alastram de tal forma que o engano se torna verdade à força da repetição. Numa placa colocada ao lado da igreja de São Martinho de Mouros está lá esta estória do alcácer. 
Para quem lê e não pensa, como para quem escreve e não pensa também, tudo faz sentido.

29 de janeiro de 2011

Com papas e bolos.


Bem sei que o que vende é a estória e não a História. Mas começo a ficar um pouco farto pela forma como se trata a historiografia e os historiadores em Portugal. Somos carolas que contam lendas. Uma espécie de anciãos precoces que, a troco de nada, aparecem nas televisões, fazem umas crónicas e vivem de ar e vento. Digo-o com todo o respeito pelo Joel Cleto que é arqueólogo e devia saber o que custa afirmar-se no espaço científico. Mas assim não vamos lá. E a historiografia do Porto, que já nem escola de estudos históricos locais pode dizer que tem (ao contrário da Olisipografia), bem o sabe já que os nomes que saltam em defesa dos patrimónios da cidade são amadores que editam belos álbuns com estorietas: Germano Silva, Júlio Couto, Hélder Pacheco. Novamente, com todo o respeito, há lugar para todos. Mas um pouco de seriedade não fazia mal. Até por uma questão de educação (no sentido lato e pedagógico do termo).

16 de fevereiro de 2010

Tesourinhos deprimentes.




«Ora, se em simbolismo, a lebre representa o tesouro (Guinguand,1975:122) que outro desenho podia ser posto ante os olhos do iniciado senão uma chave com o próprio símbolo do tesouro? A chave do tesouro. Mas que tesouro? Não, por certo, o fabuloso tesouro material dos Templários, supostamente escondido algures, depois que foi extinta a sua Ordem por Filipe, o Belo, rei de França. Tesouro que alguém procurou aqui, como demonstra a recente coluna da porta principal, lado esquerdo, a substituir a original, partida pelas sacrílegas e ávidas mãos de caçadores de tesouros. Não. Não estava lá tesouro algum. E a chave reporta-se, certamente, ao tesouro do saber esotérico, do saber oculto, a chave que, pelos tempos fora, marcaria presença em tudo o que se ligasse aos Templários. Veja-se o caso de Aleister Crowley, que em pleno século XX, precisamente em 1914, ingressa na Ordem dos Templários do Oriente (OTO), a qual, para garantia dos futuros convertidos diz possuir a CHAVE que abre todos os segredos maçónicos e herméticos, nomeadamente o ensino da magia sexual, o qual explica, sem excepção, todos os segredos da Natureza, todo o simbolismo da Maçonaria Livre e todos os sistemas de religião?»

«Olhe aquele modilhão, lá bem ao pé da cornija, ao lado direito deste contraforte. E aqui nos afastamos dos mestres. Olhe aquela imagem masculina tipo ET


«Já vimos que se dividirmos 360, (o círculo, o infinito) por 5 (o homem), se obtém o número 72 e qque a sua redução teosófica é 9, isto é, pode ser obtido multiplicando o 9 (o céu) por 8 (o Cristo)»

«Desse modo, ao Mosteiro da Ermida estarão para sempre ligadas estas mortes, quiçá amaldiçoado pelas almas penadas que, sem identidade nem enterro cristão condigno, por ali pairam ainda que sobre os escombros das paredes em ruínas.
»

CARVALHO, Abílio Pereira de - Mosteiro da Ermida. Castro Daire: edição de autor, 2001.

Estas são algumas das considerações feitas por um historiador local de Castro Daire, sobre a Igreja da Ermida, uma das jóias do românico em Portugal. O livro é, na sua essência, uma monografia sem visão que tenta sumariar a História do mosteiro e igreja da Ermida, a única da ordem Premonstratense em Portugal e um verdadeiro tesouro da historiografia da arte. Mas com tamanho espólio em jogo e dada a sua importância o que surgiu foi um aglomerado de páginas de considerações e pontos de vista do escritor, registo de impressões com base em leituras de romancistas e outros redactores menos sérios. Segundo o autor, depois da sua análise, ninguém poderá olhar para as siglas da igreja da Ermida «e ver nelas apenas assinaturas de pedreiros sem ao menos submetê-las à prova dos nove do saber oculto». De facto não, tal o hermetismo das suas conclusões. O que me entristece é que o senhor é licenciado em História. E professor. Ou seja, não basta termos poucos historiadores, a maioria deles simples estoriadores
ainda somos obrigados a lidar com maus profissionais que, sem o mínimo de pejo e rigor científico, alinham e veiculam esoterismos.

Mas, como podemos obstar à seriedade tais citações, quando existe uma carta de recomendação ao referido historiador,
publicada no seu site :

«O meu querido Amigo é um Historiador e merece como poucos esse título. Todas as suas obras são metodologicamente correctas e cientificamente sólidas. Além disto, não conheço nenhuma produção sua que não seja aliciante, mesmo para o leitor leigo. O seu currículo fala por si. Depois congratulo-me que, fora dos círculos estritamente académicos, surjam provas insofismáveis de talento e de maturidade no que concerne à produção historiográfica, Ora, o meu estimado Amigo está na vanguarda desta feliz realidade. Só é pena que seja uma realidade tão rara». 
(Professor Doutor Amadeu Carvalho Homem, Coimbra)

Contra factos não há argumentos...

24 de outubro de 2009

Guimarães [*] é uma cidade com as suas curiosidades. Uma delas reside no facto de, por aqui, os "historiadores" parecerem brotar às catadupas, de onde menos se espera. Dá-se um pontapé numa pedra e saltam dois "historiadores" de baixo dela. O mais certo, é serem especialistas num dos ramos mais obscuros dos estudos históricos nacionais, a Idade Média. O que não falta por aí são "medievalistas de bancada", que nunca entraram num arquivo e que são incapazes de lerem e de interpretarem um documento medieval, por manifesta iliteracia paleográfica, mas que transluzem certezas em matérias em que os humildes historiadores profissionais apenas conseguem avançar, e muito à cautela, com dúvidas e incertezas. § Não tenho por hábito discutir medicina com médicos, nem leis com juristas, nem gáspeas com sapateiros. Do mesmo modo, não discuto história com qualquer um, pelo que há muito adoptei o hábito higiénico de ignorar as "obras" desses historiadores adventícios. E, confesso, também não tenho como argumentar com tais "eruditos", uma vez que não tenho o hábito de ler o que escrevem, por falta de interesse e de paciência. [...]

Blogue Memórias de Araduca

[Substitua-se Guimarães por qualquer município deste País. Junte-se a este excerto o que se disse aqui e o que dissemos aqui para vislumbrar o estado da História e da Historiografia local em Portugal]

16 de outubro de 2009



Nasceu um novo blogue/portal. Chama-se "História de Cinfães" e destina-se à promoção e divulgação de materiais e estudos sobre a História daquele município duriense. Um contributo para, através da internet - espaço privilegiado para a pesquisa dos nossos estudantes, - melhorar o espaço historiográfico local, tão depauperado por estoriadores e comentadores que sabem sempre mais sobre a estória da sua terra, mas muito pouco de História. E porque a História não é exclusiva é quase um dever partilhá-la e discuti-la. Porque conhecer o passado não é um favor que se faz à educação e ao conhecimento ou à cultura, mas um dever enquanto cidadãos plenos que, seguros do dia de ontem, mais confiantes construirão o amanhã.

20 de junho de 2009

Assim se escreve a História local em Portugal.


Global, n.º 414, 19-6-2009

(clique sobre o recorte para aumentar)

Sem qualquer pejo as Câmaras Municipais alinhavam roteiros turísticos com textos académicos, sem autorização e sem ressarcir os seus autores poupando tempo e dinheiro e ganhando visibilidade em promoção. Para estes políticos de alcova o trabalho de investigação não vale nada. É carolice. Mas já que está feito vamos aproveitá-lo. O dinheiro gasto por estes panfletários dava para suprir o que falta em educação por estas terreolas afora. Novas Oportunidades para os políticos, isso sim, faz falta.

23 de maio de 2009

Cinfães: o latejo da ancestralidade.

A origem do nome parece ter sido Cynfanes. A vila de Cintiles procederá de nome pessoal, no genitivo Cintilanis ou seja "Cinfilanis villa". A meio da vertente, que se empina do Montemuro ao rio Douro, surge o burgo, ufano dos seus ínclitos horizontes. Com seu ar bucólico, os cheiros campesinos e toda a sua graça campesina, com casas trajando o rio, eiras amedondadas, canastros de tabuado com pés graníticos. Castanheiros a testar a correnteza do espaço.
O terreno é retalhado por minifúndios, em que cada um possuiu o seu campo. Propriedades com a respectiva casa, riais ou menos patriarcal, o que transmite ao concelho uns latejos de ancestralidade. Quase todas as casas estão viradas para o rio Douro, e enquanto umas se apresentam com fachadas nuas, outras carregam, com dignidade os respectivos brasões. Da multiplicidade de casas, quintas e solares, destacam-se: Santa Bárbara (Sequeiro Longo). Casal (Casal de Civliies), Soalheiro (Cidadelhe), Chieira (Teixeiró), Bouças, Bouça, Paço (Travassos), Tintureiros, Fervença (vila de Cintiles), também conhecida por "Paço". Na área da freguesia aparecem topónimos que podem funcionar como interessantes pistas de pesquisa, como Contença, Travassos, Lagarelhos, Pedra Escrita (em Vila Viçosa), Pias (este talvez derivado de sepulturas abertas na rocha e, por ventura, ali existentes). Dos romanos ficaram as vilas de Cidadelhe.


Este texto, extraído do novo site da Câmara Municipal de Cinfães, multiplica-se por páginas e páginas da internet. Por ter sido colocado num espaço oficial, os leitores tomam-no por verdadeiro, e reproduzem-no. Mas não passa de lixo. O mais leigo pode considerá-lo obra literária de um erudito maior. Porém, quem tenha dois dedos de testa ao lê-lo perguntará: que algaraviada é esta? É afinal isto a história de Cinfães, meia dúzia de adjectivos e substantivos ou mal escritos ou mal aplicados: "burgo ufano dos seus ínclitos horizontes?"; "empina?"; "O terreno é retalhado por minifúndios, em que cada um possuiu o seu campo?". Quem é que escreve estas parvoíces? Ao que parece Eistein e a Bíblia teriam concordado numa coisa: o número de estúpidos é infinito. Infelizmente concentram-se mais em alguns lugares do que noutros. § Já era tempo para os governantes de certos municípios compreenderem que o turismo, outrora sustentado por clichés mal alivanhados de sol, praia e paisagem, já não convence o auditório, sedento por cultura e informação concisa, mas educativa. É isso que faz o sucesso de Serralves, que leva milhares de pessoas à feira medieval de Santa Maria da Feira, ou que atrai visitantes ao fluviário de Mora, em pleno alentejo. Agora os "latejos de ancestralidade" assustam até o mais ignorante.

17 de novembro de 2008

Monumentos de Escrita: uma exposição a recordar.



Lembrou um amigo, e bem, que passou hoje um ano sobre a inauguração desta excelente exposição resultante de um não menos excelente projecto cujos resultados pude apreciar no Museu Grão Vasco, em Viseu. É claro que coisas como esta, no nosso país, são raras e precisam quem as acalente. Vivemos uma era de pobreza cultural motivada uma crise de criatividade - em Portugal agravada por anos e anos de uma pobre cultura de sacristia e de gabinete onde, quem singra são os lisonjeadores, os bem falantes, os pobretes e alegretes, os provincianos. Porque província, em Portugal, não é sinónimo de geografia física, mas mental e quem julga que cria com a mão estendida ou esfregando os toquinhos em sinal de servilismo, lembre-se que a vida é uma roda da fortuna. Travá-la é impossível, mas abrandar ou apressar a sua rotação, só depende da criatividade humana e não da subserviência. Os meus parabéns, pois, ao autor, fazendo votos para que soma e siga em mais e melhores concretizações.

1 de novembro de 2008

A minha terra é melhor do que a da minha vizinha (I).




As Câmaras Municipais são, como todos nós sabemos, pequenos universos onde astros gravitam em redor de micro-poderes, servindo como placa giratória de todo o tipo de favores e clientelismos. Eu sou já muito complacente com estas coisas de tanto me encherem a cabeça com expressões como "tens que fazer o jogo", "estamos em Portugal", a "cunha é património nacional", "já não há remédio", etc, etc. Contudo, a jogar por jogar, ao menos joguemos a capital e não a feijões. § Está certo que o uso da "cunha" para aceder a um lugar numa Câmara municipal significa menos um desempregado, o que é bom e cumpre o requisito dos 150000 mil novos empregos prometidos pelo nosso Sócrates. Mas cada apaniguado destes devia receber um manual de instruções à entrada do seu novo gabinete que, para além do itinerário mais rápido para o café mais próximo, incluiria esta regra: delegue. Isso mesmo, delegar - devia ser o 1º mandamento do funcionário público. Porque - está visto - quem faz a carreira pela via da "cunha", deve perceber muito pouco do ofício. Muito de relações interpessoais, com certeza - mas pouquíssimo ou praticamente nada de tudo o resto. § Delegar é importante para todos. Primeiro confere ao apaniguado a impressão de pertencer a um estatuto superior, - apenas destinado aos que mandam - e depois porque serve para que os trabalhos sejam distribuídos por indivíduos mais competentes mas que nunca chegaram a lugares de chefia por serem completos falhados nas ditas relações interpessoais ou na aplicação dos pressupostos metodológicos da cunha. E é aqui que entra o tal "capital" a que me referia atrás. Não se trata de dinheiro, mas tão-só de imaginação. O nosso funcionalismo público é cinzentão, mortiço, rabugento e indolente, naturalmente derivado da pouca vontade em empreender, em querer mais do que a rotina do pica-o-ponto. Falta-lhe em imaginação o que lhe sobra em estratégias de promoção pessoal ou política. Mircea Elíade refere que "ter imaginação - tanto para um indivíduo, como para um povo - é gozar de uma riqueza interior, de um fluxo ininterrupto e espontâneo de imagens" (ELIADE, Mircea, Imagens e Símbolos. São Paulo: Martins Fontes, 2002, p. 16) - num mundo em que fluxo tende a secar (em Portugal já quase não existe) o capital de pensamento e de acções vai definhando e, consequentemente, arrastando consigo os indivíduos para crises (como a que atravessamos agora). Se os indivíduos medíocres que abundam nos recursos humanos nas nossas câmaras e dos gabinetes de Lisboa ao menos delegassem, talvez se salvasse a honra do convento. Mas andamos a atirar fora a água do banho junto com o bebé. § Dou-vos como exemplo o vídeo acima. É um daqueles panegíricos nos quais os municípios investem, não tanto para promoção turística do concelho, mas para glorificação dos partidos e dos homens, onde o discurso alterna entre as tradições, o folclore e os monumentos. Este monólogo é tão pobre, tão fraco e pouco imaginativo que bem pode ser uma prova da decadência da Civilização tal qual a conhecemos.