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9 de novembro de 2011

"Enfins"

Só quem não trabalha em História, quem não tem de se deparar com empregos precários, quem não sente o que é ser-se desprezado quando se apresenta a alguém com uma licenciatura que não em gestão, direito, engenharia ou medicina, enfim, só quem não vive no fio da navalha para ser reconhecido ou respeitado é que não fica indignado ou mesmo enjoado com o que foi gasto nos últimos 2 anos em propaganda ideológica a propósito do Centenário da República.
Quando, por um lado, se fecham os centros de investigação das Universidade, se reduzem bolsas de estudos e se cortam nos apoios às edições científicas e por outro se gastam somas incontáveis de dinheiro em sinecuras, edições de luxo, exposições, tudo acrescido de um design de primeira água, apresentações sumptuosas pontuadas por cocktails e brindes, é que percebemos o quanto este país se revolve em interesses de grupelhos que pretendem e atingem o poder, manejando a seu bel prazer o erário público.
Nunca fui contra as comemorações do regime, embora as considere provincianas e bacocas tal como as de 1940, quando Salazar mostrava à Europa um país pobre mas alegre e virtuoso no seu Império de pacotilha. Compreendo que Portugal de 2010 se queira por em bicos dos pés para mostrar mais do que é, pretendendo enganar as agências económicas com a ideia de uma república centenária, cheia de valores e ideais que nunca cumpriu, não cumpre, e dificilmente cumprirá. Mas não aceito que se gaste sem olhar a meios, desviando do absolutamente necessário para outra áreas o dispensável. Que se celebre o regime e que alguns se orgulhem dele, pois empregou mais gente nestes 100 anos do que empregará nos próximos. Mas que se lembre de que a História não começou em 1910 e que os historiadores são pagos para escrevê-la e torná-la inteligível e não para mascará-la. 
Quando pensava que este regabofe acabar, ei-lo em jorro diário de eventos pagos e patrocinados por organismos públicos ou se não por estes, por Fundações como a de Mário Soares, generosamente subsidiada pelo Estado.
Vamos ser sinceros: já chega. Acabou. Não há mais nada para exaltar, comemorar ou louvar. Este "enfim,a república", bem podia ser o suspiro de cansaço de um regime que, para além de falido, está perfeitamente esquecido.

27 de julho de 2010

Os galegos e Portugal: uma servil amizade.


Imagem picada daqui


Dado que o Obliviário tem sido visita amiúde dos nossos irmãos gémeos (separados à nascença), desse bonito rincão chamado Galiza/Galicia, não podia deixar de presenteá-los com uma das mais curiosas descrições da sua presença em Portugal oitocentista. Trata-se do testemunho de James Murphy, um britânico que de passagem pelo Porto em 1788 deixou o relato sobre a presença dos galegos nesta cidade. O texto é expressivo o suficiente sobre a condição social e profissional destes milhares de homens e mulheres e a sua relação com Portugal (veja-se hoje o caso de trabalhadores de leste e de África) dispensando comentários mais elaborados:

«Os trabalhadores com mais emprego são nativos da Galiza, província de Espanha; por isso são chamados Galegos. O seu número ronda os 8 milhares só na cidade do Porto, enquanto em todo o reino pensa-se existirem não menos de 50 mil galegos destes aventureiros industriosos. Se o meu cálculo está correcto (e não possuo autoridade para o afirmar veementemente) e se cada homem ganha, em média, 18 pence por semana, então o comércio mais lucrativo de Portugal é feito pelos Galegos, pois as suas poupanças, de acordo com estes cálculos, chega a 195 mil libras por ano, que eles mandam para a sua terra. Aqueles que testemunharam o seu modo de vida, admitiram que a soma é inferior ao calculado, pois os Galegos são os indivíduos mais poupados do Mundo. São alimentados gratuitamente à porta dos conventos, alojam-se nas caves de vinho, nos estábulos ou nos claustros, vestem os trapos em que habitualmente dormem. No entanto muitos deles possuem propriedades e casas na sua terra, para onde regressam, partindo pela família o seu salário suado, retirando-se finalmente com o suficiente para viverem independentes do seu trabalho e para passar o ocaso da vida aproveitando a felicidade doméstica. Para honra desta raça industriosa não devemos esquecer que a atracção do ganho raramente levou algum delas a cometer algum tipo de acção desonesta.»

James Murphy [1760-1814] – Travels in Portugal […]. Londres: A. Strahan, and T. Cadell and W. Davies, 1795.

3 de janeiro de 2010

A História segundo o Bloco de Esquerda: terroristas ou galinhas?

[...] Jornal I - Para todos os efeitos, a Carbonária era uma organização terrorista...
Fernando Rosas: Não lhe chamaria assim... A expressão terrorista tem hoje conotações que não se adaptam exactamente à Carbonária. Punha bombas, realment
e. [...]

Fernando Rosas consegue dar um novo significado à expressão «pôr bombas». Ora se quem põe bombas não é terrorista, ou quem é terrorista não põe bombas, há anos que andamos enganados. Não eram terroristas, afinal. Eram galinhas que punham granadas e explosivos, em vez de ovos.

12 de outubro de 2009

#Sugestões (1)

Retomando o espírito inicial deste blogue, aqui vão alguns recortes sobre assuntos ligados à História e à Cultura

#1: Uma nova visão sobre Trotsky, no Telegraph;
#2: Uma descoberta surpreendente em Guimarães: os ossos de São Gualter. Também pode ler, com mais detalhe no Araduca, um trabalho sobre todo o contexto histórico e artístico daquele culto.
#3: Um blogue interessante com materiais para a história dos cem anos da República Portuguesa;
#4: O novo site do IGESPAR (antigo IPPAR) que condensa a informação do Endovélico (IPA)
#5:«Casas e Brasões», blogue utilíssimo para aquilatar da riqueza e diversidade do nosso património heráldico e arquitectónico civil em Portugal;
#6: «Porto Antigo», um blogue que nunca me canso de consultar pois é um repositório vivo da Memória recente e mais antiga da cidade do Porto;
#7: Biblioteca Digital Mundial: um projecto planetário para constituição de uma base de dados de iconografia e cartografia de todos os países.

E, no rescaldo das eleições:

Os resultados a nível nacional das Autárquicas 2009;

6 de abril de 2009



Tenho consciência do muito tempo perdido a falar, aqui, de Salazar, mas não posso deixar de chamar a atenção dos leitores para um livro recentemente lançado sobre a tese de um Salazar maçon. As sociedades secretas, pelo simples facto de serem secretas (e, portanto, esconderem algo) são me totalmente não gratas. Cumprem o seu papel (quase sempre o de minar ou corromper alguma fundação, ou suster o crescimento de outra), desde sempre existiram e continuarão a existir - mas confunde-me a ideia de agremiações que se dizem democratas, liberais e pela liberdade - como a Maçonaria - quando os seus elementos e os seus rituais estão envoltos em absoluto secretismo. § Saber, portanto, (embora o livro, escrito pelo juiz José da Costa Pimenta, seja uma súmula de teses) que Salazar tenha aderido à maçonaria não me deixa surpreendido. Há muito que a ideia de um Salazar beato tinha sido posta de parte. Os seus negócios tácteis com a Igreja, a forma como estruturou uma sociedade corporativa (gremial) e como susteve a mensagem de uma nação e um Império fortes, - diversa, mas una -, corrobora a mensagem da «religião natural» praticada pelos maçons. Não sei se para a Maçonaria portuguesa, a que pertence a quase totalidade dos elementos do governo actual liderado por José Sócrates, será uma boa notícia (não sabendo eles já deste facto...). Mas não deixa de haver certas tomadas de posição, ou tiques governativos, se assim quisermos, entre a Ditadura pessoal de António de Oliveira Salazar e o XVII Governo Constitucional de Portugal (em funções desde 2005)...

[Outros dados interessantes aqui]

30 de março de 2009

Nuno Gonçalves (c)
No próximo dia 2 de Abril, em Lisboa, no Hotel Fénix, vai acontecer um leilão de livros, fotografia e manuscritos organizado pela Otium Cum Dignitate. Recebi o catálogo e não resisti a digitalizar esta fotografia. Integra um vasto espólio fotográfico da autoria de Sebastião Cunha sobre o funeral do senhor Doutor António Oliveira Salazar. Esta belíssima fotografia condensa meio século de ditadura e perniciosa modelação do carácter nacional: numa pomposa cama, Salazar, de capelo universitário tendo nas mãos uma enorme cruz e terço jaz em cadáver magérrimo (*) de mãos longíneas. Ao lado, uma Maria enlutada (como as mães de província choram filhos e maridos ausentes) carpe a morte do senhor doutor, velado por uma Nossa Senhora de Fátima em plástico e uma pagela de Santa Teresinha de Jesus. Eis o providencial salvador da pátria, que honrou os tamancos do pai transformando Portugal numa enorme horta regida com mãos calejadas pela enxada e pela pena.
(*) O Prof. J. Oliveira chamou-me a atenção para a forma magérrimo como forma desconhecida ou incorrecta do superlativo sintético de magro, sugerindo, em alternativa, macérrimo ou magríssimo. Contudo, como refere o site Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, «o "Moderno Dicionário da Língua Portuguesa, Michaelis" regista magérrimo como superlativo absoluto sintético de magro, embora considere este termo uma forma anormal, sendo a correcta macérrimo. Ainda regista magríssimo. A "Nova Gramática do Português Contemporâneo" de Celso Cunha e Lindley Cintra só refere macérrimo e magríssimo. O "Dicionário de Dificuldades da Língua Portuguesa" de D. P. Cegalla diz, na entrada macérrimo, o seguinte: "(...) A forma magérrimo é anormal. Prefira-se macérrimo (forma erudita) ou magríssimo (forma vulgar)."Contudo, já o conceituado "Dicionário de Questões Vernáculas" de Napoleão Mendes de Almeida só refere, para superlativo sintético de magro, as formas magérrimo e magríssimo». Conferir aqui. Assim, considerando certa as formas apontadas pelo caro amigo, e embora magérrimo não seja comum, não se considera incorrecto utilizá-la.

30 de janeiro de 2009

Sim, senhor presidente do conselho.


A sic prepara-se para colocar num ar um daqueles tele-fast-food-filmes a que já nos habituou, desta feita sobre a vida amorosa de Salazar. Bem sei que há, neste país, uma atracção mórbida sobre o senhor presidente do conselho que governou a 2ª república com mão férrea, amado por uns odiado por outros. Os documentários têm sucedido em catadupa, numa correlação directa entre poder e fascínio - ou seja, quão maior é perversidade do político, ditador ou monarca, maior é o desejo da populaça em escalpelizar cada retalho sórdido da sua vida. O que não lembra ao diabo é por Salazar a correr atrás de moças roliças ou a beberricar beijos (só a ideia enoja) da boca de jornalistas francesas em enlevos e requebros que fariam adormecer as mais afoitas leitoras da Sabrina. § De todos os ditadores que eclodiram na Europa da primeira metade do século XX, Salazar, nascido num modesta casinhota da beira, é provavelmente o mais chato, o mais incrivelmente enfadonho e o mais provinciano de todos. Por isso, e ao contrário do que o amigo Viajante diz, - que «este país é a choldra que é muito se deve à hipocrisia, ao beatismo e ao falso moralismo desse velho despota e mal resolvido», - eu não acho que se lhe deva imputar tão hercúlea tarefa. Ele é um dos nossos. Nasceu e foi amado como salvador da pátria por muitos (até por Humberto Delgado, antes da roda da fortuna mudar). Se ele fosse a causa da nossa hipocrisia, hoje, 30 anos após o 25 de Abril, já não se toleraria a "cunha" e as delações anónimas, a inveja no seu grau maior, o clientelismo e a incapacidade para assinarmos com o nosso nome em todos os nossos actos. Se se pode impor algum feito a Salazar foi de ter sabido tirar do povo que governou e tão bem o aceitou, os instrumentos e os métodos para o manter amorfo, pobrete e alegrete.
P.S. Façam o favor de me não considerar fascista. Já me basta o estigma por ser monárquico que tantos dissabores me traz. Não tenho simpatia nenhuma pelo senhor António. Felizmente nascemos em pontos opostos do distrito de Viseu - distrito e cidade que, infelizmente têm trazido a este pais maus exemplos de ausência de liberdade e de pouco humanismo.

27 de janeiro de 2009

Obviamente, concordo.

Cada vez será menor a «elite» que os possui [valores], perante o desvairo do nosso tempo em que a sede dos prazeres materiais e a dissolução dos costumes, apoiadas por uma organização industrial ad hoc, corromperam a riqueza e as suas fontes, o trabalho e as suas aplicações, a família e o seu valor social. Há no Mundo uma grande crise do idealismo, do espiritualismo de virtudes cívicas e morais, e não parece que sem eles possamos vencer as dificuldades do nosso tempo. Sem rectificarmos a série de valores com que lidamos - valores económicos e morais - , sem outro conceito diverso da civilização e do progresso humano, sem ao espírito ser dada primazia sobre a matéria e à moral sobre os instintos, a humanidade não curará os seus males e nem sequer tirará lucro do seu sofrimento.

9 de setembro de 2008

O serviço público de um Historiador. Relembrar quem nos enfiou o "barrete"

Via Historiadores republicanos


"... não creio que valha a pena preparar, oficialmente, ou mesmo em meios académicos, a celebração dum mau defunto que foi esse regime de década e meia de vigência atarantada, e que, bem feitas as contas, teve nada menos do que 47 governos que a desgovernaram por trancos e barrancos (...) de atribuladíssima e caótica duração, com muitas bernardas castrenses de permeio, sedições várias, tumultos constantes e quase sempre mais ou menos sangrentos, de atropelos à legalidade e ditaduras disfarçadas ou às escancaras, sem falar da Ditadura das Urnas, com o 'partido democrático' do dr. Afonso Costa (aquele homem de Direito que foi uma vez ao Porto, em 1902, com uma soqueira, para agredir à traição o Sampaio Bruno), mais uma participação em tudo funesta e catastrófica nos conflitos europeu e africano, e, por fim, uma degola que nos privou da Liberdade, com certa lógica fatal depois de tanta bagunça, desassossego, insensatez política e falta de implementação mínima dum regime sério de Cidadania, Educação generalizada ou Progresso material, porquanto nem se educou o povo, nem se fez de cada português um cidadão livre, nem se melhorou a vida dos portugueses"


João Medina, 2006, via "Centenário da República"



Porque a um historiador não cabe o exclusivo papel de arrumar o Passado, os Homens e as suas relações em gavetas que nunca se abrirão, se não para deleite de intelectuais. E o comum dos mortais? E a educação? E a intervenção cívica e política? Ao Historiador cabe preparar as fundações para um futuro mais culto, mais tolerante, mais justo e mais íntegro. N.R.

5 de julho de 2008

Cortar a cabeça à História?

Maria Antonieta, de Erwin Olaf.


Duas notícias recentes, a da discussão da petição contra o Museu Salazar e a cabeça de cera decepada de Hitler, trazem-me esta ideia: porque é que, em vez de recusarmos admiti-los, não enfrentamos os nossos fantasmas? A História, mau gradoo ar de hobbie que lhe tentam imprimir, serve, quanto mais não seja, para recordarmos. Lembrar o que aconteceu de bom e tudo o que de pior a humanidade legou às gerações futuras. Esconder, ignorar ou propositadamente apagar da História os maus momentos, não só é uma má política - que acidifica relações e desafia grupos ideológicos susceptíveis - como significa um retrocesso educacional. Quando, daqui a 200 anos quisermos contar o Holocausto, quem irá acreditar nele? Sem Hitler, ou sem Salazar, é impossível contar a história toda. Favorecerá (não tenho dúvidas disso), esta lavagem da memória, o aparecimento de novos ditadores sanguinários. Eu, que sou francamente monárquico, não tenho nenhum problema que se comemore ou que exista um Museu da República. Já por outro lado considero impossível existir um «Museu da Monarquia», pois é impensável confinar a um edifício a História total de um povo. Mas certos regimes, como as jovens repúblicas (que precisam firmar-se pela educação ideológica) ou as ditaduras que devem explicar o que são e o que foram - são assim «objectos» a expor. A nossa juventude, já tão desinteressada da política, essa grande porca, não precisa que lhe escondam as asneiras dos pais e dos avós. A condescendência, para um país de mentes pobres como este, é o pior lenitivo que pode haver. Ponha-se, pois, a cabeça no nazi e construa-se o museu em Santa Comba que a boa educação não passa pelas estatísticas dos resultados dos testes de matemática e português - e a nossa classe política é bem a prova disso.