«Outro se querendo navegar pola rota do seu exórdio deles, pedindo a V.A. favor & emparo, pera que minha enferma escritura não seja ferida de línguas danosas. Parece-me injusta oração pedir tão alto esteio pera tão baixo edifício, quanto mais ainda que dino foram de tão nobre emparo, tenho considerado que Cristo filho de Deus sob emparo de poderio eternal do Padre & todos os seus bem aventurados santos não passaram por esta vida tão livres, que dos malditos detratores não fossem julgadas suas divinas obras, por humanas leviandades: sua santa doctrina, por máxima ignorância; sua manifesta bondade, por falsa malícia; sua santíssima graça, por sorretício engano; sua excelsa abstinência, por vil hipocrisia; sua celeste pobreza, por terreno vício.»
Gil Vicente