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4 de abril de 2012

Na morte de Agostinho da Silva (3-4-1994)

Passou discreto o aniversário sobre a morte de Agostinho da Silva (Porto, 13-2-1906 – Lisboa, 3-4-1994) talvez porque este filósofo, ensaísta e pedagogo pretendia mudar o mundo a partir de dentro, pelo espírito e não por fora, com retórica política ou cocktails molotov. Agostinho da Silva nasceu, viveu e morreu como os da sua espécie, desde o padre António Vieira, passando por Sebastião da Gama ou Sophia de Mello Breyner: discretamente arrumados para um canto, ofuscados por conveniências do politicamente oportuno e do pretenso discurso renovador dos Espertos, essa classe transversal à sociedade portuguesa. Ele, que não era do Heterodoxo, nem do Ortodoxo, mas do Paradoxo devia estar mais perto da Certeza. Nós, humildes aprendizes ou convictos ignorantes, achamos que não. Em todo o caso, neste tempo convulsivo convém reler algumas das suas obras e reflectir sobre as suas palavras, como as que se seguem, retiradas da biografia sobre Frederick William Sanderson (1857-1922):

A revolução obriga a um dispêndio de energias que não estão de modo algum em relação com os resultados obtidos; a ilusão de todos os revolucionários da história tem sido a de que, depois do movimento, se encontrariam num mundo perfeito, absolutamente de acordo com a construção teórica ou respondendo ao impulso de generosidade que os levou à acção; o estudo da história mostra, segundo Sanderson, o contrário: depois de todo o tumulto em que os melhores se perdem, depois de toda a confusão das derrocadas, verifica-se que foi mínimo o progresso e que os homens que atingem um nível de repouso não estão na realidade, muito longe do ponto de partida.

14 de dezembro de 2009

«Se estamos todos muito bem preparados para reclamar liberdade para nós próprios, menos dispostos parecemos para reclamar sobretudo liberdade para os outros ou para lhes conceder a liberdade que está em nosso próprio poder; se conhecêssemos melhor a máquina do mundo, talvez descobríssemos que muita tirania se estabelece fora de nós como se fosse a projecção ou como sendo realmente a projecção das linhas autocráticas que temos dentro de nós; primeiro oprimimos, depois nos oprimem; no fundo, quase sempre nos queixamos dos ditadores que nós mesmos somos para os outros; e até para nós próprios, reprimindo todas as tendências que nos parecem pouco sociais ou pouco lucrativas, desejando muito que os outros nos vejam como simples, bem ajustados, facilmente etiquetáveis.»
Agostinho da Silva, Sobre as Escolhas

5 de agosto de 2009

O Desnorte.

(...)
Uma primeira característica da retórica de José Sócrates: quando inaugura uma escola, um tribunal, quando celebra as virtudes de uma iniciativa do Governo ou premeia os resultados de tal grupo da sociedade civil, uma ideia surge sempre, reiterada até à exaustão - a ideia de que aquela "é a obra necessária, que vem na hora certa para a modernização do país"; era daquilo "que nós precisávamos, e de que vamos precisar"; e que toda a acção do Governo "vai naquele sentido, porque é o sentido certo, e devemos insistir cada vez mais em acções e iniciativas daquela natureza". E assim por diante batendo sempre na mesma tecla, de tal maneira que ali, a propósito daquele pequeno acontecimento (ou grande, como a inauguração de uma barragem, por exemplo) se concentra todo o sentido da governação socialista.
(...)
Talvez seja esta uma das grandes originalidades de um discurso que, por outro lado, repete sempre as mesma ideias, quase com as mesmas frases, literalmente medíocre, lexicamente pobre, sem rasgos nem surpresas: é o que está constantemente no presente mítico, transformando a obra mais banal num acontecimento de relevância mítica, exemplar, modelar.
(...)
Rejeitando o passado degrado, integrando nele o futuro, o discurso socrático do presente dirige-se a um auditor que suspendeu as suas ideias políticas, as suas escolhas partidárias, os seus conflitos sociais, que neutralizou o seu ser ideológico para se ligar directamente ao chefe, enquanto simples cidadão abstracto.


José Gil - Em busca da identidade - o desnorte.

É realmente uma pena que poucos leiam e entendam José Gil.

29 de outubro de 2008

"Dicionário do cidadão sem medo"

Diccionari del ciudadano

SAVATER, FERNANDO - DICCIONARIO DEL CIUDADANO SIN MIEDO A SABER.
EDITORIAL ARIEL, S.A.: Barcelona, 2007. ISBN: 9788434453395


Comprei este pequeno livro (lê-se numa viagem de autocarro) em Madrid, há quase 2 anos. Ainda não foi traduzido para português, nem o tenho visto, sequer, nos escaparates das livrarias mais abrangentes. Com grave prejuízo para os leitores portugueses, quanto a mim. Fernando Savater (para quem desconhece, trata-se de um filósofo espanhol com vasta obra publicada que toca o social e o político contemporâneos) sistematiza o pensamento e a organização social actuais e todas as implicações que advêm de uma democracia ocidental em crise. Se não, vejamos: os verbetes que desenvolve no seu dicionário, são em torno da participação política e de um homem político (moribundo?): Cidadania, Constituição, Direita/Esquerda, Diálogo, Estado, Identidade, Imigração, Laicismo, Nacionalismo, Opinião pública/opinião pessoal, Parlamento, Paternalismo, Paz, Políticos, Progressista/Reaccionário, Povo, Sectarismo, Separação de poderes, Terrorismo, Tolerância. Savater oferece-se para discutir connosco problemas preementes, como o terrorismo ou a cidadania, tendo sempre presente a necessidade primeira da discussão (que dá o mote para quebrar um silêncio cada vez maior dos cidadãos com medo). «Em democracia políticos somos todos», diz. Talvez seja esta a razão fulcral do livro, penso eu, se não por que é que Savater abordaria questões como os sectarismos, a inevitável imparcialidade dos media e a formação de uma classe de «especialistas em mandar», como designa os políticos actuais? A democracia anestesiou a participação cívica. Não se trata de uma forma de censura, mas sim de uma espécie de cura pela doença que deixa no organismo vivo que é a sociedade um total desinteresse pela participação e pela cidadania (dando azo ao oportunismo de alguns que vêm no amorfo o terreno fértil para instalar o seu consulado).


P.S. Agrada-me especialmente a entrada "paternalismo". Savater define e resume bem a hipocrisia dos Estados, face aos seus cidadãos: El vicio de los goviernos y de las autoridades públicas de empeñarses en salvar a los ciudadanos del peligro que representan para sí mismos (...). los Estados suelen ofrecerse solícitamente para dispensar a los ciudadanos de la pesada carga de su autonomía. Su lema es «Yo te guiaré: confía en mi y te diré lo que debes comer comer y beber, lo que debes leer, los programas de televisión o las películas que debes ver, cuánto debes gasta en el juego, qué debes hacer com tu cuerpo, etc.» Por supuesto, semejante solicitud no es de todo inocente.