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17 de abril de 2009




Ontem à noite a Rtp2 transmitiu o filme THX 1138, um filme obscuro na carreira de George Lucas, primeiro um flop cinematográfico e hoje uma fita de culto. Confesso que a minha opinião fica entre ambos. A ideia não é nova, mas continua a ser um excelente exercício para a mente: num mundo branco, asséptico, feito de cubículos ou espaços cuja dimensão é indefinida pela luz, homens e mulheres (praticamente indistinguíveis) habitam uma existência automática e padronizada. Todos estão estão vigiados, todos vivem para uma grande entidade - o Estado-divindade - e entre eles não há se não vínculos perenes, sendo excluída e proibida qualquer manifestação de sentimento e de culto. Trinta anos depois da sua realização, a ideia de George Lucas é cada vez menos impressionante. Os Estados ditatoriais ou aqueles cuja laicização exacerbada substitui o culto religioso pelo culto cívico, são já, no fundo, pré-imagens de um estado absolutamente total, que para alguns, num futuro não muito longínquo (e graças à tecnologia), submeterá todo e qualquer indivíduo à sua vontade. Porem, em 1971, apesar de toda a cultura de ficção científica anterior, a ideia deve ter surgido espatafúrdia - afinal de contas seguiram-se duas décadas de excesso e transgressão. Mas algo que me chamou a atenção foi o facto de todos os habitantes desse mundo branco e asséptico dependerem de comprimidos para refrearem sentimentos, suprirem necessidades e assegurarem estabilidade emocional e física. Afinal de contas não se terá já cumprido esta etapa deste "maravilhoso mundo novo"? Quando muitos, em Portugal, se espantam que os médicos servem a indústria farmacêutica, THX 1138 pode ser uma pista para compreendermos o mundo moderno e as suas dependências...

2 de março de 2009

O fantástico Fantasporto: um apontamento.

Imagem via Fil review


Não sou um assíduo cultista do cartaz do Fantasporto. Por motivos que se prendem, sobretudo, com a falta de tempo. No entanto, "avisado" por uma amiga mais assídua e mais interessada, não deixo de assistir a um ou outro título, cuja sinopse realce temas ou tipos mais do meu interesse. Não gosto, particularmente de terror mórbido, puxa-me muito mais o suspense, do tipo Hitchcock. Acertei, por isso, em Eden Lake, vencedor de dois dos prémios (Melhor Realização e Melhor Actor) do Fantas que terminou ontem. § Eden lake é particularmente bem realizado, de facto, com uma lineariedade narrativa pouco comum ou difícil de obter em filmes do género (excluídos, obviamente, os da cepa de mestres como Hitchcock, Stanley Kubrick ou Stephen King) e deixa-nos colados à cadeira, numa tensão nervosa evidente durante os seus 91 minutos. § Um casal de namorados (ela professora, uma nota a reter) vão passar o fim de semana a um lago que se encontra na eminência de ser urbanizado por empreiteiros patos-bravos (o fenómeno não é só nosso, como é óbvio). A chegada à povoação é logo marcada por alguns distúrbios, onde a violência verbal entre pais e filhos e entre adultos marca já o tópico e não augura, para as personagens, uma escapada calma. Quando se instalam na beira do lago e testemunham uma cena de bullying, seguido de um "confronto" verbal entre o gangue e o casal, o espectador suspeita que vêm problemas. Uma primeira tensão explode numa cena passada à noite, na tenda. (Posso dizer que há muitos anos que um filme não me fazia saltar da cadeira). Depois, toda a sucessão de eventos desenvolve-se numa escalada de violência, pautada por uma autêntica caça ao homem (entretanto caçado e exposto às maiores humilhações e sádicas sevícias) e à mulher que resiste à tortura para sucumbir a um fim mais sinistro que o do próprio namorado. Tudo isto organizado pela mente mais ou menos doentia de um grupo de jovens - arrebatados pelo líder, esse sim, dono de uma complexa atitude e predisposição para a destruição. Não creio que seja um retrato verdadeiro da delinquência infantil e juvenil das sociedades contemporâneas, mas obriga a pensar sobre certas teorias educacionais e sobre o modelo pedagógico e social sobre o qual são moldadas as crianças de hoje. A crítica inglesa chocou-se com este filme e, como a mesma diz, não é para qualquer um (houve pessoas a sair do cinema às primeiras imagens de sangue). Mas confesso que, muito embora a crescente violência e a angústia motivada por cenas extremamente fortes graficamente (mãos amarradas com arame farpado, cortes de navalha e x-acto inflingidos pelos adolescentes no namorado - Michael Fassbender - aleatoriamente, por puro gozo, ou quando a actriz principal - Kelly Reilly - espeta, enquanto corre, um dente de ferro no pé e o tira com as próprias mãos ou ainda o momento em que o gangue rega um dos miúdos com gasolina, ateando-lhe fogo em seguida), ainda que, como dizia, tais cenas sejam extremamente violentas, todo o filme tem uma estrutura dramática consistente que alterna entre uma talvez excessiva demonstração de violência e analogias ou metáforas (mais nuances do que outra coisa) sobre uma sociedade apodrecida, sem valores e sem regras. Prós: o argumento e a realização, a caracterização e o tema. Contras: uma progressiva e excessiva demonstração de violência que inflige no espectador um certo cansaço, banalizando o suspense. Em todo o caso, vale a pena.