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7 de junho de 2009

Porque há Pessoa(s) para todas as ocasiões.


Nazaré, Portugal, 1951?. Imagem retirada daqui.
(...)


Maravilhosa gente humana que vive como cães,
Que está abaixo de todos os sistemas morais,
Para quem nenhuma religião foi feita,


Nenhuma arte criada,
Nenhuma política destinada para eles!
Como eu vos amo a todos, porque sois assim,
Nem imorais de tão baixos que sois, nem bons nem maus,
Inatingíveis por todos os progressos,
Fauna maravilhosa do fundo do mar da vida!


(Na nora do quintal da minha casa
O burro anda à roda, anda à roda,
E o mistério do mundo é do tamanho disto.
Limpa o suor com o braço, trabalhador descontente.
A luz do sol abafa o silêncio das esferas
E havemos todos de morrer,
Ó pinheirais sombrios ao crepúsculo,
Pinheirais onde a minha infância era outra coisa
Do que eu sou hoje...)

(...)


Ode Triunfal, de Álvaro de Campos.

22 de março de 2009

Alguns dos livros que compro trazem anotações, algumas de várias mãos, transformando os alfarrábios amarelados e gastos numa preciosidade maior. As notas à margem são os olhos de cada leitor e em cada página anotada há reflexões de leitores desconhecidos, estudantes nervosos facilmente reconhecidos pelos sublinhados garridos, profundos e trémulos; investigadores espantados com pequenas descobertas; críticos entediados com romances chatos, etc. A minha marca são os 3 pontos de exclamação. E uso frequentemente o sublinhado (sempre a lápis) para marcar uma passagem que deve ser lembrada. Não gosto de livros imaculados, por abrir, ou sem marca de presença. "Livros cerrados não fazem letrados", é a máxima de um livreiro cá do Porto e a que mais se acerca à minha experiência como "bibliófilo". Quanto mais um livro acumula leituras, mais rico é. Às vezes apetece-me deixá-lo num banco de uma carruagem de comboio e imaginar que percurso fará, a partir dali, como nos versos de Pessoa... Tenho livros assinados, carimbados, com datas e notas pouco ortodoxas. Mas poucas vezes me aparecem mensagens como a que encontrei na página 84 da 3ª edição dos Poemas de Alberto Caeiro (edições Ática, 1958). Do lado esquerdo destas estrofes
"Uma vez amei, julguei que me amariam,
Mas não fui amado.
Não fui amado pela única grande razão -
Porque não tinha que ser."
alguém anotou, a lápis, "reli e chorei em 24/Ag/67". Que extraordinária súmula de tristeza...que coração amargurado teria escrito esta frase? De um verso de Caeiro saímos a procurar alguém que amou e sofreu. Afinal, das grandes banalidades têm saído as obras maiores.

31 de outubro de 2008

"Neófito, não há morte" (Iniciação, F. Pessoa)


De todos os itens do legado de Fernando Pessoa que vão ser leiloados no próximo dia 13 de Novembro (no Centro Cultural de Belém) - e, infelizmente, embora não possa licitar nenhum deles - o que escolheria em primeiro lugar seria o livro que aparece aqui em parte reproduzido. Trata-se do De Secretis Libri XVII, de Johann Jacob Wecker [1528-1586], um pensador, alquímico, suíço, de quem sabe muito pouco. A única marca de F. Pessoa neste livro não é apenas a sua assinatura, é muito mais do que isso. É a busca por um conhecimento. Como tal dispensaria ser dono de qualquer um dos manuscritos do escritor - os quais devem estar sob a custódia de uma Biblioteca pública ou um museu e que, com certeza, um dia serão publicados, como é justo e devido. Mas possuir um livro lido e estudado por um dos grandes génios da Humanidade, seria o maior dos prazeres e a maior das riquezas. Como se bebêssemos directamente na nascente do Saber.