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18 de abril de 2017

Gordon Parks e Portugal.

Gordon Parks

 
Gordon Parks

Falecido há 11 anos Gordon Roger Alexander Buchanan Parks, mais conhecido por Gordon Parks esteve (como muitos) em Portugal a serviço da revista LIFE e, ao contrário dos que já cá estavam, contribuiu para equilibrar a imagem de um país pictorialista e doce.
As suas fotografias são das mais cruéis captações de uma realidade escondida à vista de todos. 
Fazendo o percurso que todos faziam, por Lisboa e pelo Estoril, conseguiu através das suas fotografias captar tanto a arrogância, como a pobreza, sem menosprezar o retratado.
Com os seus planos picados e contra-picados, transforma homens e mulheres em gigantes aproximando-se das suas expressões  e dos seus sentimentos.
A mulher pedinte está, quanto a mim, ao nível da mãe migrante, da Dorothea Lange. Mas são outros tempos e...outro lugar.

Gordon Parks

8 de abril de 2017

O sarro salazarista.


O sarro salazarista é muito difícil de tirar. Nem com a pedra pomes democrática se raspa do corpo cansado desta república portuguesa.
Se não veja-se o recente concurso das 7 Maravilhas de Portugal - Aldeias. A filosofia subjacente à escolha é semelhante ao Concurso de 1938, organizado pelo então recém criado SNI - Secretariado Nacional de Informação, obra de António Ferro para dar expressão à política do espírito acalentada por Salazar. Aí se procurava o pitoresco, o etnográfico, o popular. Hoje, os mesmos recortes, só que com mais plástico, alumínio e festas desbragadas.
Até o conceito Aldeias de Portugal promove o típico e o fachadístico e pasme-se (ou não), até o logótipo do projecto lembra a iconografia de 1938, exibida na portada do folheto em cima.
Esta coisa das aldeias bonitas, very tipical, não só é uma forma deprimente de interpretar a ideia fadística da Casa Portuguesa, pobre, humilde e honrada, como escamoteia o facto de que as aldeias são as suas pessoas. Ora, sem pessoas não há vida. Apenas paredes caiadas e de vez em quando nem um cheirinho a alecrim.
Por muitos banhos que esta gente tome, - esta, das Câmaras Municipais, das Comissões de Coordenação e dos próprios governos - dificilmente consegue tirar aquele sarro salazarista.

22 de julho de 2012

Obituário laudatório.

Alguém como José Hermano Saraiva nunca poderia deixar este mundo sem ser notado. É um caso de amor-ódio. Ninguém lhe retira o mérito de educador ou comunicador. Mas é incontestável a sua ligação a Salazar e ao Estado Novo, que ele defendeu com uma sinceridade notória, na última entrevista perante a jornalista Fátima Campos Ferreira. Ora, quando o escudam, com unhas e dentes, fazendo-lhe desmesuradas vénias à entrada no Hades, como o João Gonçalves ou o Pinho Cardão (aqui e aqui), a coisa toma contornos desmesurados.
Lá pela Academia de História o incluir entre os seus pares, isso não faz (bem pelo contrário) o historiador que querem que ele seja. E isto só prova como aqueles e outros autores, comentadores encartados, sabem pela rama. Porque o não elogiam pelo que realmente era: homem culto e camonista encartado? Talvez porque em Portugal, o país onde Camões morreu de fome todos encham a barriga de Camões, como escreveu Almada Negreiros. A elite nacional é um misto de nada e de coisa nenhuma, como os sociólogos chamados à pressa ao estúdio de televisão para comentar um evento de massas.
De facto tresanda a bajulação servil aquilo que hostes de escrevedores - da direita à esquerda - têm feito ao falecido José Hermano Saraiva. Não partilho da choraminguice laudatória e há anos que movo esforços para explicar aos meus alunos o que é escrever história e o que é contá-la frente a uma câmara. Que Hermano Saraiva fosse um simpático ancião contador de estórias, nada contra. Mas, vamos ser realistas: aquilo que José Hermano Saraiva fazia era algo que dezenas de investigadores fizeram durante o Estado Novo: num imenso país marcado pelo pitoresco, pelo rural e pelo folclore, constituído por um auditório analfabeto ou iletrado, chamar a atenção só podia ser pelo sentimento, que a razão dificilmente assiste a esta gente. Curioso como certas elites se deixaram envolver por aquele discurso inócuo, cheio de clichés, de linguagem fácil e fluente. E afirmam que ele criou o gosto pela história! Bem pelo contrário: a História continua a ser aborrecida, cronologicamente aborrecida e inútil. O que é interessante e apelativo é saber como a padeira de Aljubarrota enfornou espanhóis, ou D. Pedro, "aqui mesmo, neste local", arrancou o coração a um dos algozes de Inês de Castro (e o espectador imagina o sangue em golfadas).
Depois, perdoem-me se pareço intolerante, mas um homem que diz abertamente que o doutor Salazar" era um "santo", ou que a polícia política foi uma ténue ilusão é ir atrás de um negacionista que através do seu carisma contribui para a já massiva adesão à supressão da democracia. E, desculpem-me mais uma vez, mas no que toca a este ponto não abro mau da minha inflexibilidade. Porque há muito tempo compreendi que o carácter de um indivíduo não é só a imagem que ele nos impinge pelo ecrã da televisão. Se aceitarmos esta premissa, então temos a porta aberta para aceitarmos que, mais tarde ou mais cedo, nos calem e amordacem. Se já nos não calaram...

P.S. entretanto, J.H.S. deixa um sucessor.

21 de julho de 2012

Sal-azar, sal-azarete, sal-azarinhos.

É verdeiramente epidémica a louvação que grassa entre a sociedade portuguesa pedindo o regresso de Salazar. Já não se trata, apenas, de uma conversa entre velhas alcoviteiras de autocarro ou reformados que jogam a bisca no jardim, mas de uma autêntica histeria que cresce massivamente de dia para dia. Salazar é que faz falta, dizem e escrevem. Impressiona como a memória não é só curta, mas ingrata. Gente que grita insultos gratuitos nos fóruns e nos jornais contra os políticos actuais, resguardando-se na figura do inviolável, casto e probo Salazar - como é possível se estes são o produto daquele?
Isto é tolice, como é óbvio. Quem viveu durante o Estado Novo sabe perfeitamente que aquilo não era mau, era péssimo. Até posso compreender a nostalgia de infância, o colorido dos brinquedos de lata, as brincadeiras junto ao lavadouro enquanto a mãe esfregava os lençóis de estopa, a qual, pobre mulher, chegando a casa encontrava provavelmente um marido analfabeto e, tendo sorte, sóbrio. A maioria que clama pelo regresso desta austeridade, queixando-se da de hoje é ainda desta geração que rapidamente esqueceu as limitações (ou então não) de um país de brutos, em que o marido olhava para o chão em frente ao patrão e a mulher pouco mais era do que um saco de batatas atilhado por uma Constituição que não lhe era nada favorável.
Por outro lado para a classe alta (aquela que bajulou Salazar até ao tutano), constituída por labregos bugueses e aristocratas falidos os tempos deviam ter sido de glória e até pode ter razões para querer o regresso daquele regime catolaico, de recato público e deboche privado. Em todo o caso, não deixa de ser uma incongruência que num mundo em que se ganha dinheiro com a exploração do cidadão do mundo, se queira fechar num país orgulhosamente só. Só posso compreendê-lo à luz do estatuto e daquela noção de respeito que faz o tópico da conversa salazarista: antes do 25 de Abril é que era!. Era o quê? Não se roubava? Ninguém morria? Não se mentia? Não havia clientelismo? A política era sã e filantrópica? Poupem-me.
Salazar era um misógino ressabiado, filho de caseiros que viveu entre hortas e quis aplicar o modelo de ordenamento daquele pedaço de terra que lavrava em Santa Comba ao resto país. Criou a ideia do doutor, formado a pulso que degenerou numa coisa sem espinha dorsal nem ossos chamada Miguel Relvas. Provinciano, achava que o país era um imenso potencial de força braçal movido a vinho. E, estupendamente beato, julgava os seus amigos pelas aparências, cumulando-os de prebendas em troca de silêncio e lealdade cínica. Salazar é o pai desta gente que construiu a 3.ª república: medíocre, saída dos bancos de escola estado novistas, do Deus, Pátria e Família, do pobrete mas alegrete. Estes dizem repudiá-lo. Muitos gritam fascismo nunca mais, mas entregue-se-lhe o poder nas mãos e verão o mesmo modus operandi, os mesmo tiques e desejos. E isto não é sequer uma questão de democracia ou ausência dela. Efectivamente não tivemos um estado fascista, mas tivemos com certeza um regime que estimulava a mediania ou a inferioridade, em troca de valores inócuos.
Uns são mais hipócritas e negá-lo-ão três vezes. Ao menos José Hermano Saraiva, nunca até ao final da sua longa existência, deixou de considerar Salazar um santo. Reconverteu-se (é só ir buscar os seus discursos pré e pós 25 de Abril) e tornou-se um simpático contador de estórias. E agora um mártir para a causa salazarista que cresce de dia para dia.
Cada país tem os historiadores que merece, como os ditadores que pede ou escolhe.
Publicado com alterações no Estado Sentido a 16-04-2014