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22 de julho de 2012

Obituário laudatório.

Alguém como José Hermano Saraiva nunca poderia deixar este mundo sem ser notado. É um caso de amor-ódio. Ninguém lhe retira o mérito de educador ou comunicador. Mas é incontestável a sua ligação a Salazar e ao Estado Novo, que ele defendeu com uma sinceridade notória, na última entrevista perante a jornalista Fátima Campos Ferreira. Ora, quando o escudam, com unhas e dentes, fazendo-lhe desmesuradas vénias à entrada no Hades, como o João Gonçalves ou o Pinho Cardão (aqui e aqui), a coisa toma contornos desmesurados.
Lá pela Academia de História o incluir entre os seus pares, isso não faz (bem pelo contrário) o historiador que querem que ele seja. E isto só prova como aqueles e outros autores, comentadores encartados, sabem pela rama. Porque o não elogiam pelo que realmente era: homem culto e camonista encartado? Talvez porque em Portugal, o país onde Camões morreu de fome todos encham a barriga de Camões, como escreveu Almada Negreiros. A elite nacional é um misto de nada e de coisa nenhuma, como os sociólogos chamados à pressa ao estúdio de televisão para comentar um evento de massas.
De facto tresanda a bajulação servil aquilo que hostes de escrevedores - da direita à esquerda - têm feito ao falecido José Hermano Saraiva. Não partilho da choraminguice laudatória e há anos que movo esforços para explicar aos meus alunos o que é escrever história e o que é contá-la frente a uma câmara. Que Hermano Saraiva fosse um simpático ancião contador de estórias, nada contra. Mas, vamos ser realistas: aquilo que José Hermano Saraiva fazia era algo que dezenas de investigadores fizeram durante o Estado Novo: num imenso país marcado pelo pitoresco, pelo rural e pelo folclore, constituído por um auditório analfabeto ou iletrado, chamar a atenção só podia ser pelo sentimento, que a razão dificilmente assiste a esta gente. Curioso como certas elites se deixaram envolver por aquele discurso inócuo, cheio de clichés, de linguagem fácil e fluente. E afirmam que ele criou o gosto pela história! Bem pelo contrário: a História continua a ser aborrecida, cronologicamente aborrecida e inútil. O que é interessante e apelativo é saber como a padeira de Aljubarrota enfornou espanhóis, ou D. Pedro, "aqui mesmo, neste local", arrancou o coração a um dos algozes de Inês de Castro (e o espectador imagina o sangue em golfadas).
Depois, perdoem-me se pareço intolerante, mas um homem que diz abertamente que o doutor Salazar" era um "santo", ou que a polícia política foi uma ténue ilusão é ir atrás de um negacionista que através do seu carisma contribui para a já massiva adesão à supressão da democracia. E, desculpem-me mais uma vez, mas no que toca a este ponto não abro mau da minha inflexibilidade. Porque há muito tempo compreendi que o carácter de um indivíduo não é só a imagem que ele nos impinge pelo ecrã da televisão. Se aceitarmos esta premissa, então temos a porta aberta para aceitarmos que, mais tarde ou mais cedo, nos calem e amordacem. Se já nos não calaram...

P.S. entretanto, J.H.S. deixa um sucessor.

31 de outubro de 2010

Santificada seja a vossa República!



No último ano temos sido bombardeados com propaganda massiva sobre as vantagens de termos uma República. De como o regime, neste centénio, levou o país ao progresso, elevando Portugal, entre todas as  nações, ao modelo paradigmático de supra-desenvolvimento. E, muito embora, todos os dias a comunicação social contradiga este paradigma, certo é que muitos milhões foram gastos para refundar a ideia e a própria República passando uma esponja sobre o conflituoso e quase anárquico período de 1910 a 1926, e obliterando a memória do Estado Novo, já não considerada II República (mesmo apesar da Constituição de 1933 assim a designar), mas um triste parêntesis ditatorial de apenas ...48 anos! Talvez, se vivêssemos numa monarquia, a mesma quantia fosse gasta em exaltações. Mas para um regime que se arroga a uma sobriedade que os reinos não possuem, tais comemorações não são apenas censuráveis, são um acto criminoso.
Por outro lado, uma certa historiografia e um certo jornalismo têm colaborado nesta exaltação republicana. A RTP não faz mais do que o seu serviço. Tem-no feito desde a sua existência, ou seja agradar a quem está no poder, mais ou menos controlada politicamente pelo regime e pelos governos que por ele vão passando. Os seus funcionários são marionetas dos governantes. Nesse aspecto, as séries romanceadas que a televisão pública lançou sobre a pretensa "História" da República foram bem o testemunho da manipulação dos factos e a exaltação de alguns actores dessa épocas, ou seja, em resumo: os monárquicos eram os maus e os republicanos, claro, os bons. Segundo guionistas e alguns historiadores é impossível de fugir a esta trama. Não contentes, depois da republicanice  viral aguda que contanimou a nossa historiografia, a nossa política e os media faltava convencer-nos que a Igreja Católica era, afinal, uma peça essencial desse enorme puzzle chamado república portuguesa. Com o documentário Republicanos, graças a Deus! a RTP desembaraçou-nos, finalmente, desse pesado preconceito ideológico que opunha republicanismo a clericalismo e ficamos a saber que a separação entre a Igreja e o Estado foi uma libertação e que nunca as relações entre a Santa Sé e Portugal foram tão cordiais como depois de 1910. E obreiros do regime libertador alguns padres, quais arautos da liberdade, que odiavam o trono e urdiam desejos para beijar o barrete frígio. Isto é uma boutade, claro, para quem conhece um mínimo de História Religiosa e História Contemporânea de Portugal. Mas ainda assim, a RTP e os Rosas &; C.ª Lda., vão fazendo dos portugueses burros e de alguns pobres, vendidos. A Igreja, claro, faz como sempre fez: mudam-se os regimes, mudam-se os amigos. E talvez compreendamos que à Igreja agradasse andar de mãos dadas com a República Portuguesa. Sobretudo com a Segunda. Afinal as confiscações de 1911 foram quase todas devolvidas pelo Estado Novo e o catolicismo continua a ser largamente apoiado pelo regime. Com tão cimentada amizade talvez até um dia destes, numa eventual reforma do catecismo, venha uma nova oração ao Padre Novo, dirigido não ao Seu Reino, mas à Sua República.

25 de outubro de 2010

Salazar em pó.



Graças à visão empresarial de Catarina Portas, hoje em dia é possível encerar de novo o chão de madeira com Encerite, lavar a roupa com sabão Clarim ou escovar os dentes com pasta medicinal Couto. Estes e centenas de outros produtos vendem-se nas lojas d'A Vida Portuguesa, a preços exorbitantes, longe do valor de alguns tostões tão seriamente despendidos pelas nossas avós. Isto só é possivel porque o saudosismo é uma das melhores imagens de marca e a nossa infância é um produto tão ou mais vendável do que qualquer saco de pães acabados de sair do forno. Ora, o mais perverso nisto nem é o facto de grande parte daqueles "saudosos" produtos, cheio de cores apelativas e imagens sugestivas, terem sido em tempos bens de primeira necessidade, usados para manter um nível de decência que a economia nem sempre permitia e hoje sejam prendas para ricos. Não, o mais irónico disto é que tudo aquilo transpire a "pobrete e alegrete", a "uma casa portuguesa" e a "não é desgraça ser pobre". As imagens publicitárias das ceras, dos sabonetes, etc estão repletos de alusões ao "lugar" da Mulher na sociedade, seja a esfregar o chão ou a enfeitar-se para agradar ao marido. Já para não mencionar as desagradáveis reimpressões dos velhos livros da primária, repletos de alusões autoritárias e e ao corporativismo. De resto, toda a publicidade associada a tais produtos transporta para o Portugal actual chavões de gosto duvidoso, da lavra do período do Estado Novo. Depois espantam-se que nos autocarros, nas ruas e nas repartições públicas as pessoas clamem pelo regresso de Salazar. Naquele tempo é que era bom, porque hoje é muito mau? Não sei. Mas, se as lojas d'A Vida Portuguesa vendessem latas com o "senhor presidente do Conselho" em pó, estou em crer que se venderiam bem.

2 de agosto de 2010

Ultimatum e germanofilia (Portugal, 1941)


Adquiri recentemente este pequeno opúsculo, escrito sob um pseudónimo (Viriato d'Entremontes) datado de 1941, um ano depois de passarem 50 anos sobre o Ultimatum, episódio considerado por muitos como o turning point no percurso da monarquia constitucional representada na pessoa de D. Carlos, que se tornou o bode expiatório de um processo muito mais vasto no longo relacionamento entre Portugal e a Inglaterra. O opúsculo é particularmente enfático e crítico ao abordar as relações Luso-Britânicas, cumulando a «poderosa Albion» de epítetos como «hipócrita», «sobranceira», «arrogante», etc. O Ultimatum constituiu o aríete dos republicanos para abrir brechas irreparáveis na monarquia portuguesa, mas como todos os orgulhos nacionalistas que são transversais a partidarismos e ideologias, converteu-se, mais tarde, num sentimento abrangente em que o outro já não é o regime, mas qualquer inimigo que ousa afrontar. De resto os republicanos que a coberto do Ultimatum ou do 31 de Janeiro vociferaram contra o Reino Britânico, não hesitaram em pedir-lhe ajuda para estabelecer o novo regime ou aliar-se na inglória incursão pela I Grande Guerra. Em plena II Grande Guerra, apesar da neutralidade portuguesa, não podemos descurar a corrente germanófila, nacionalista e profundamente anti-britânica. Cremos que o autor deste opúsculo integraria as fileiras desses apoiantes, tendo aproveitado a efeméride cinquentenária do Ultimatum para manifestar uma um pensamento claro, sublinhada, aliás, pelas várias expressões anti-semitas associadas a posições de extremista repugnância em relação ao «jugo inglês». Um curioso documento sobre o Nacionalismo e da Propaganda Pró-germânica no Portugal diplomaticamente neutro de 1940.

8 de julho de 2009

Não discutimos a Nação!



... - dizia o Senhor Presidente do Conselho da II República Portuguesa, António de Oliveira Salazar. E dizem os organizadores das festividades que comemorarão, em 2010, os 100 anos sobre a instauração do regime republicano. Não discutem a Nação que lhes passou um cheque de 10 milhões de euros em tempo de crise, nem discutem o regime que os amamenta com o saudável leite da ideologia burguesa. Ou não fosse o cabecilha desta organização um banqueiro. Artur Santos Silva preparou, aliás, um programa muito interessante para estas lautas festas que fazem lembrar, em muitos aspectos, as comemorações do Estado Novo: República e Lusofonia, Arte e Espectáculos, Jogos do Centenário, República nos Media, Edições e Exposições do Centenário, Portal Centenário da República e Georeferenciação e Fluxos de Comunicação. Se substituirmos a Lusofonia por Império, o Portal pelas luxuosas publicações editadas pelo Secretariado Nacional de Propaganda, de resto tudo, ou quase, tudo é decalcado de cérebros muito semelhantes aos da Revolução Nacional. Aliás, a formatação ideológica a partir das escolas parece ser um ponto assente no programa desta Comissão: rever, revisitar e reformatar a imagem da República de forma a servir um Estado moderno é o objectivo principal. («As actividades previstas incluem exposições, encontros científicos, roteiros municipais, jogos e concursos e actividades nas escolas», Público, 08-07-09). Num país onde a Escola já quase não tem contacto com a História, onde os estudantes não sabem situar cronologicamente os acontecimentos e as figuras que os antecederam; num país onde os museus não têm orçamento para quase nada, nem para conteúdos educativos, gastar 10 milhões em propaganda republicana é imoral e muito pouco ético. Incorrendo no risco de parecer imparcial, diria que é um crime. Mas tais coisas, que vão sendo hábito numa sociedade pouco transparente e habituada à impunidade, não espantam saindo da boca, mãos e cabeça de banqueiros. Fico realmente admirado que uma pessoa de consciência, saber e intelectualidade como a Dr. Raquel Henriques da Silva (que, mais do que ninguém, conhece o Estado da Cultura em Portugal) assine por baixo desta fantochada.

30 de janeiro de 2009

Sim, senhor presidente do conselho.


A sic prepara-se para colocar num ar um daqueles tele-fast-food-filmes a que já nos habituou, desta feita sobre a vida amorosa de Salazar. Bem sei que há, neste país, uma atracção mórbida sobre o senhor presidente do conselho que governou a 2ª república com mão férrea, amado por uns odiado por outros. Os documentários têm sucedido em catadupa, numa correlação directa entre poder e fascínio - ou seja, quão maior é perversidade do político, ditador ou monarca, maior é o desejo da populaça em escalpelizar cada retalho sórdido da sua vida. O que não lembra ao diabo é por Salazar a correr atrás de moças roliças ou a beberricar beijos (só a ideia enoja) da boca de jornalistas francesas em enlevos e requebros que fariam adormecer as mais afoitas leitoras da Sabrina. § De todos os ditadores que eclodiram na Europa da primeira metade do século XX, Salazar, nascido num modesta casinhota da beira, é provavelmente o mais chato, o mais incrivelmente enfadonho e o mais provinciano de todos. Por isso, e ao contrário do que o amigo Viajante diz, - que «este país é a choldra que é muito se deve à hipocrisia, ao beatismo e ao falso moralismo desse velho despota e mal resolvido», - eu não acho que se lhe deva imputar tão hercúlea tarefa. Ele é um dos nossos. Nasceu e foi amado como salvador da pátria por muitos (até por Humberto Delgado, antes da roda da fortuna mudar). Se ele fosse a causa da nossa hipocrisia, hoje, 30 anos após o 25 de Abril, já não se toleraria a "cunha" e as delações anónimas, a inveja no seu grau maior, o clientelismo e a incapacidade para assinarmos com o nosso nome em todos os nossos actos. Se se pode impor algum feito a Salazar foi de ter sabido tirar do povo que governou e tão bem o aceitou, os instrumentos e os métodos para o manter amorfo, pobrete e alegrete.
P.S. Façam o favor de me não considerar fascista. Já me basta o estigma por ser monárquico que tantos dissabores me traz. Não tenho simpatia nenhuma pelo senhor António. Felizmente nascemos em pontos opostos do distrito de Viseu - distrito e cidade que, infelizmente têm trazido a este pais maus exemplos de ausência de liberdade e de pouco humanismo.

5 de julho de 2008

Cortar a cabeça à História?

Maria Antonieta, de Erwin Olaf.


Duas notícias recentes, a da discussão da petição contra o Museu Salazar e a cabeça de cera decepada de Hitler, trazem-me esta ideia: porque é que, em vez de recusarmos admiti-los, não enfrentamos os nossos fantasmas? A História, mau gradoo ar de hobbie que lhe tentam imprimir, serve, quanto mais não seja, para recordarmos. Lembrar o que aconteceu de bom e tudo o que de pior a humanidade legou às gerações futuras. Esconder, ignorar ou propositadamente apagar da História os maus momentos, não só é uma má política - que acidifica relações e desafia grupos ideológicos susceptíveis - como significa um retrocesso educacional. Quando, daqui a 200 anos quisermos contar o Holocausto, quem irá acreditar nele? Sem Hitler, ou sem Salazar, é impossível contar a história toda. Favorecerá (não tenho dúvidas disso), esta lavagem da memória, o aparecimento de novos ditadores sanguinários. Eu, que sou francamente monárquico, não tenho nenhum problema que se comemore ou que exista um Museu da República. Já por outro lado considero impossível existir um «Museu da Monarquia», pois é impensável confinar a um edifício a História total de um povo. Mas certos regimes, como as jovens repúblicas (que precisam firmar-se pela educação ideológica) ou as ditaduras que devem explicar o que são e o que foram - são assim «objectos» a expor. A nossa juventude, já tão desinteressada da política, essa grande porca, não precisa que lhe escondam as asneiras dos pais e dos avós. A condescendência, para um país de mentes pobres como este, é o pior lenitivo que pode haver. Ponha-se, pois, a cabeça no nazi e construa-se o museu em Santa Comba que a boa educação não passa pelas estatísticas dos resultados dos testes de matemática e português - e a nossa classe política é bem a prova disso.