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26 de fevereiro de 2012

O Caso Urdangarin.

A monarquia em Espanha, como qualquer ideologia, é um problema de nacionalismos. Sem monarquia, Espanha não existe e isso, como é óbvio, agrada a uma maioria que deseja dividir para reinar. O caso Urdangarin é um excelente exemplo de bode expiatório. Não havendo implicações directas ao rei que, como é óbvio, é o chefe de estado e a quem cabe a representação do país, o genro é o melhor rastilho pelo qual, de momento, se prepara o assalto à coroa.
Algumas centenas de manifestantes, diz a comunicação social, foram indignar-se junto ao tribunal onde o Duque de Palma foi hoje ouvido. "Manifestantes, convocados por la organización independentista Maulets, los Joves d'Esquerra Unida, Unidad Cívica por la República (UCxR) y la asamblea de estudiantes de la UIB". É justo, todos os países têm contristas - se é numa república, monárquicos, se numa monarquia republicanos. Mas é curioso que muitos dos cartazes filmados pelas televisões mostravam frases que iam além da simples manifestação: estes protestantes mais do republicanos, são antimonárquicos. Isto é bem revelador de incapacidade de diálogo destes grupos com o mainstream político e ideológico. Duvido que, para eles, a própria ideia de sistema republicano lhes sirva.
E não está em causa saber se o genro do rei é culpado ou não. Isso é o mesmo que imputar culpas ao presidente de uma república se a mulher ou a filha estiverem envolvidas em negócios ilícitos. Dever-se-ia extinguir o regime por essa causa?
Depois das acampadas, particularmente expressivas e em moda por terras de Espanha, criou-se aquela ilusão de que a partir de agora é mais fácil derrubar pessoas e regimes. Será por acaso que isto sucede no país que ensaiou a devastação da Europa nos anos 30 e 40 do século passado?
Creio que não.

27 de julho de 2010

Os galegos e Portugal: uma servil amizade.


Imagem picada daqui


Dado que o Obliviário tem sido visita amiúde dos nossos irmãos gémeos (separados à nascença), desse bonito rincão chamado Galiza/Galicia, não podia deixar de presenteá-los com uma das mais curiosas descrições da sua presença em Portugal oitocentista. Trata-se do testemunho de James Murphy, um britânico que de passagem pelo Porto em 1788 deixou o relato sobre a presença dos galegos nesta cidade. O texto é expressivo o suficiente sobre a condição social e profissional destes milhares de homens e mulheres e a sua relação com Portugal (veja-se hoje o caso de trabalhadores de leste e de África) dispensando comentários mais elaborados:

«Os trabalhadores com mais emprego são nativos da Galiza, província de Espanha; por isso são chamados Galegos. O seu número ronda os 8 milhares só na cidade do Porto, enquanto em todo o reino pensa-se existirem não menos de 50 mil galegos destes aventureiros industriosos. Se o meu cálculo está correcto (e não possuo autoridade para o afirmar veementemente) e se cada homem ganha, em média, 18 pence por semana, então o comércio mais lucrativo de Portugal é feito pelos Galegos, pois as suas poupanças, de acordo com estes cálculos, chega a 195 mil libras por ano, que eles mandam para a sua terra. Aqueles que testemunharam o seu modo de vida, admitiram que a soma é inferior ao calculado, pois os Galegos são os indivíduos mais poupados do Mundo. São alimentados gratuitamente à porta dos conventos, alojam-se nas caves de vinho, nos estábulos ou nos claustros, vestem os trapos em que habitualmente dormem. No entanto muitos deles possuem propriedades e casas na sua terra, para onde regressam, partindo pela família o seu salário suado, retirando-se finalmente com o suficiente para viverem independentes do seu trabalho e para passar o ocaso da vida aproveitando a felicidade doméstica. Para honra desta raça industriosa não devemos esquecer que a atracção do ganho raramente levou algum delas a cometer algum tipo de acção desonesta.»

James Murphy [1760-1814] – Travels in Portugal […]. Londres: A. Strahan, and T. Cadell and W. Davies, 1795.

5 de maio de 2010

O caminho...

Para vir a saborear tudo
Não queiras saborear nada.
Para vir a saber tudo
Não queiras saber nada de nada.
Para vir a possuir tudo
Não queiras ter nada de nada.
Para vir a ser tudo
Não queiras ser nada em nada.

Para chegar ao que não saboreias
Tens de ir por onde não saboreias.
Para chegara ao que não sabes
Tens de ir por onde não sabes.
Para chegar a ter o que não possuis
Tens de ir por onde não possuis.
Para chegar ao que não és
Tens de ir por onde não és.

Quando reparas em algo
Deixas de te arrojar ao tudo.
Para chegar de todo ao tudo
Hás-de perder-te de todo em tudo,
E quando o vieres de todo a ter
Hás-de tê-lo sem nada querer.

Nesta desnudez encontra o
espírito o seu descanso,
porque nada cobiçando,
nada o cansa para cima
e nada o oprime para baixo
porque está no centro da sua humildade.

São João da Cruz (1542-1591)

3 de março de 2010

Noites.


A espera...
Estação de Medina del Campo 2009 (c) NR

O mítico Sud Express foi anteontem substituído por um comboio moderno, espanhol (ao que parece, para a CP, ambas as palavras são sinónimos) que assegurará a ligação Lisboa-Hendaia. O velho percurso que vinha de 1886 já havia sido barrado na fronteira espanhola, ficando a ligação em território francês assegurada pelos comboios deste país. Morre o símbolo do século da Civilização, da Bélle Époque, dos grandes tours mas, sobretudo, da sangria que significou a Emigração Portuguesa para a Europa durante as décadas de 1960 e 70.
Tive a oportunidade fazer uma parte da viagem, no sentido Medina del Campo - Pampilhosa, no princípio do verão passado. Foi uma experiência extraordinária a de «navegar» pela meseta espanhola dentro de uma cabine escura, tendo como companheiros de viagem uma turista acidental, velhas cortinas serpenteantes e uma pequena fresta na janela de onde observava o caminho das estrelas nos seguiam. Depois de um sono pouco repousante fui alertado para o crepúsculo em Vilar Formoso, onde movimentos mais lentos faziam a substituição das automotoras.
Em Pampilhosa, à chegada, éramos um punhado de estremunhados. Falava-se uma mistura de francês e português.
Saí de Medina del Campo com uma temperatura de 25 graus por volta das 2h da manhã e cheguei a um Porto que despertava com 12 graus.
Lembrei-me da minha infância, quando todos os comboios viajavam de noite (ou seriam túneis?) e todas as cidades eram manhãs...

Outros olhares sobre o Sud Express:

15 de junho de 2009

Crónicas de uma viagem II

Estação ferroviária de Toledo Comboio Madrid-Toledo

El Berrón - entroncamento ferroviário de linha estreita Tren del Cantábrico

Fotografias (de cima para baixo, da esquerda para a direita): 1 Estação ferroviária de Toledo (em estilo neo-árabe); 2 aspecto do interior do comboio interregional entre Madrid (Atocha) e Toledo; 3 Entroncamento ferroviário de El Bérron, onde se cruzam as linhas estreitas que servem Oviedo, Santander e Gijón, todas electrificadas; 4 O Tren del Cantábrico. É possível, desde Bilbau ou Santander apreciar os montes Cantábricos e as Astúrias num comboio-hotel que circula em via estreita. Seria o equivalente a ir do Porto a Bragança em comboio, algo que já foi possível e hoje é mera utopia.

Não é preciso ir à China, ou melhor, não é preciso ir a Espanha para ver que, tal como está projecto, o TGV não tem sentido absolutamente nenhum em Portugal. Espanha construiu e continua a construir as suas linhas de alta velocidade em tempo oportuno, seguindo as demandas do mercado. Unir Barcelona a Madrid faz sentido. Madrid-Sevilha, também. E, seguindo a tendencial força tentacular da capital da Península Ibérica, chegar a Lisboa pode, talvez, ser um bom negócio para os castelhanos (embora chegar a Sines ou a Leixões seja bastante mais vantajoso para a economia de nuestros hermanos). § Andar a brincar aos comboios num país que encerra linhas turísticas porque são uma ameaça para os seus passageiros, ou que não investe em ligações ferroviárias regionais e interregionais claramente viáveis (e refiro-me às ligações a Bragança e Viseu, por exemplo), é um perfeito dislate. Mais um, aliás, com que nos brindam os governos e os governantes da III República. Sim, por que no que concerne a politiquismo, despesismo e má governação, Sócrates não só não dá cartas, e não foi o inventor dessa fórmula que dirige este país há 30 anos. Devemos recordar o glorioso Cavaco Silva que inundou o país de cimento e asfalto, distribuiu uns quantos Range Rovers a meia dúzia de patos bravos e hoje empoleira-se na cadeira do poder como uma virgem vestal, púdica e recatada. Afinal, tudo começou durante o seu consulado: os dinheiros europeus enebriaram todos, desde o presidente da junta até ao Ministro dos Transportes e foi um corrupio. O que se vê hoje? "Prédios Coutinho", o lixo visual da cidade de Braga, o Centro Cultural de Belém e umas quantas ic's esburacadas que ligam meia dúzia de vilórias do interior. Os caminhos-de-ferro não progrediram, as estradas só servem para fugir e o ambiente aguentou com as consequências de anos e anos de más políticas (passamos das etar's para as eólicas como se nada fosse...). Bom, isto tudo para dizer que se em Espanha o TGV funciona, um comboio a circular em via estreita também. E está electrificado, coisa estranha e nunca vista em Portugal. É possível atraversar-se as Astúrias e os montes Cantábricos (Santander-Oviedo e Bilbau-Léón) em carris de ferro de bitola estreita. Em Portugal a ligação Porto-Salamanca (que mais rapidamente nos aproximava à Europa) foi fechada porque o seu rendimento não conseguia assegurar os benefícios do conselho de administração da CP. Ganharam os lobies das empresas de autocarros que, não só contribuiram para o desgaste das estradas portuguesas, promoveram o trânsito e a poluição em escala nunca antes vista e (porque ninguém pensa nisso) tornaram as estradas menos seguras. Eu nem quero alongar-me a falar da linha que liga Oviedo a Leão. A foto abaixo é apenas um vislumbre do tipo de locais por onde ela passa (ou melhor, serpenteia) - está electrificada e equivale a uma das nossas linhas suburbanas, embora no percurso sirva apenas meia dúzia de aldeolas. Parece que é rentável. § Ou os administradores da RENFE ganham menos que os da REFER/CP, ou alguém em Espanha leva o curso de engenharia até ao fim.

Vista do comboio entre Oviedo e Leão

6 de junho de 2009

Crónicas de uma viagem I

El Escorial


El Escorial, 2009 (c) N.R.

Há algo de extremista em viajar sozinho. Poder saltar de comboio em comboio sem ouvir as desvantagens e poder assumir, só, as desvantagens. Contudo, há sempre uma nostalgia da presença, o não poder comentar um quadro, ou o não pedir ajuda quando a viagem nos prega as inevitáveis partidas de quem se move no desconhecido. Não obstante os contras, sou um fã das travessias solitárias, da contemplação sem pressas, do silêncio ante cenas, espaços, pedras, árvores... § Os últimos dias foram quase uma sucessão alucinante de ligações, de enganos na hora certa, de um vai e vém constante entre espaços conhecidos e por conhecer. E de imprevistos. No fim tudo resulta num somatório entre o pensado e o executado o que, assim visto, nunca resulta no pensar que viagem foi uma perda de tempo ou de recursos. E cada percurso, por muito que o vejamos destituído de utilidade espiritual não deixa de ser iniciático. Quando estamos sozinhos damo-nos conta disso, de como as viagens começam e acabam dentro dentro de nós. Perante sítios como o Escorial, ou os Picos das Astúrias, ou mesmo ante a mole frenética de Madrid, experienciamos sentimentos diversos que nos confrontam entre gostos, desejos, saudades - vêm ao de cima pessoas, lugares, tempos. Não sendo nacionalista, amo Espanha. Amo este país diverso até à raíz das suas fundações e acredito que o melhor de Portugal para lá derivou ou por lá ficou: uma capacidade histórica e inata para criar e recriar que, algures entre os séculos XVI e XVIII se perdeu deste lado e do outro prosseguiu, até aos dias de hoje. O Escorial que finalmente tive a oportunidade para apreciar (mesmo apesar de conhecer melhor Madrid do que Lisboa) é a prova dessa tenacidade castelhana para prevalecer e rentabilizar. O mosteiro serve a glória dos homens e das suas batalhas, mas como espaço de administração bastou um anexo menor de onde Felipe redigia os seus memorandos lia e coleccionava relíquias numa actividade que teria mais de fetichista do que de religiosidade. Em quase todos os cantos uma marca portuguesa: rainhas e infantes mortos a recordar uma presença que foi grande ante a Europa, passando por Espanha (grande não no sentido patrioteiro e nacionaleiro do termo, entenda-se, grande como em diálogo vertical, face a face que hoje não existe). Aqui e ali o brasão composto do império de Felipe, que incluía o Portugal herdado, comprado e conquistado, fez-me querer que aquele edifício tão austero como belo fosse nosso. Saramago bem podia ter escrito o Memorial do Escorial. Ah, não, já me esquecia. Só o que é feito pelos nossos é mau, é beato e é inútil. Afinal de contas é por isso que ele vive do lado de lá.

9 de janeiro de 2009

Aforismo # tal: Os estilos nascem dos contextos.

(cena do filme "¿Qué he hecho yo para merecer esto?!", Pedro Almodóvar. 1984)

(excerto do filme "Os Canibais", do realizador português Manoel de Oliveira, 1988)

Em 1980 vivia-se a movida madrilena, que só chegou a Portugal já os anos 90 envelheciam. Eu pedia a vossa atenção, para os textos e contextos de ambos os filmes, separados apenas por 4 anos. É evidente, pelo exposto, que Almodôvar nunca chegará aos 100 anos, nem poderia ter concebido a filmografia que concebeu tendo nascido no Porto e vivido a sua infância à sombra da imagem de crianças descalças a jogar aniki bóbó em plena marginal do Douro. Não, não estou a ser injusto para o "mestre" Manoel de Oliveira, arauto centenário do cinematógrafo luso - sou apreciador dos seus planos obsessivo-compulsivos e dos rasgos de cor. Mas é tão interessante como a representação mostra (seja a p&b, seja a cores) a luminosidade, o desembaraço (ou ausência dele) e o talento imagético de um povo.