No fim, este diletantismo é absurdo. Clamamos por ai, em botequins e livros, «que o país é uma choldra». Mas que diabo! Porque é que não trabalhamos para o refundir, o refazer ao nosso gosto e pelo molde perfeito das nossas ideias?... V. Exc.ª não conhece este país, minha senhora. É admirável! É uma pouca de cera inerte de primeira qualidade. A questão toda está em quem a trabalha. Até aqui a cera tem estado em mãos brutas, banais, toscas, reles, rotineiras... É necessário pô-la em mãos de artistas, nas nossas. Vamos fazer disto um bijou!...
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7 de janeiro de 2012
Faça-se o que Eça disse.
23 de novembro de 2011
A doutrina da má-lingua, segundo Eça.
"A pobre realeza, que a Carta tanto honra, não é mais bem sucedida. É a perpétua escarnecida. É escarnecida pelos jornais de oposição, e pelos governos demitidos. É escarnecida nos teatros, onde o tipo do Rei Bobeche teve o triunfo de um panfleto. É escarnecida nas conversações dos cafés, e na maledicência do Grémio.Segundo a Carta, a realeza é irresponsável. Mas não há partido que não lance a sua inépcia à conta da realeza. – Se não fosse o Rei! – é a desculpa invariável dos ministros que não governam, dos oradores que não falam, dos jornalistas que não escrevem, dos intrigantes que não alcançam.A realeza é acusada por tudo: pelas despesas que faz e pela pobreza em que vive; pela sua acção e pela sua inacção; por dar bailes e por não dar bailes. O público está para com ela num estado enervado, como com um importuno a quem não lhe convém dizer: vai-te embora!No entanto a opinião liberal continua a declarar que existe um trono. Existe para ela como um efeito de Quintiliano – como um movimento de eloquência para os discursos de grande gala!Apesar disso, a esta política infiel aos seus princípios, vivendo num perpétuo desmentido de si mesma, desautorizada, apupada, pede ainda, a uma multidão inumerável de simples, a salvação da coisa pública. É trágico, como se se pedisse, a um palhaço de pernas quebradas, mais uma cambalhota ou mais um chiste.O orgulho da política nacional é ser doutrinária. Ser doutrinário é ser um tanto ou quanto de todos os partidos; é ter deles por consequência o mínimo; é não ser de partido nenhum – ou ser cada um apenas do partido do seu egoísmo.De modo que todos estes monárquicos, bem no íntimo, votariam por uma república. Todos estes republicanos terminam por concordar que é indispensável a monarquia!Quer-se geralmente o prestígio da realeza e a majestade do poder; mas deseja-se que el-Rei se exiba numa sege de aluguel e que Sua Majestade a Rainha não tenha mais que dois pares de botinas.Chega-se a admirar Luís Blanc, mas prefere-se a tudo isso uma terra de semeadura obrigada à côngrua para o pároco e aos tantos por cento para a viação. A burguesia invejosa e desempregada fala na federação, na república federativa, na extinção do funcionalismo, na emancipação das classes operárias; mas entende que o País pode esperar por estes benefícios todos, se no entanto lhe derem a ela lugares de governadores civis ou de chefes de secretaria. Uma plebe ardente fala em beber o sangue da nobreza; mas ficaria satisfeita se a nobreza, em vez de oferecer a veia, mandasse abrir Cartaxo.Tanto se conciliam todos! E assim que o egoísmo domina. Cada um se abaixa avidamente sobre o seu prato.– Mas tudo se equilibra, diz a opinião constitucional, não há comoções, não há lutas!Sim, tudo se equilibra – no desprezo, por desprezo.Nas sociedades corrompidas a ordem chega assim às vezes a reinar.E a ordem pelo desdém. Outros diriam pela imbecilidade!"
Eça de Queirós, Uma campanha alegre I (1890-1891).
25 de julho de 2011
11 de junho de 2008
Mensagem de Eça a alguns clérigos incautos, devotos néscios e ateus ignorantes.
A arte é tudo porque só ela tem a duração - e tudo o resto é nada! As sociedades, os impérios são varridos da terra, com os seus costumes, as suas glórias, as suas riquezas: e se não passam da memória fugitiva dos homens, se ainda para eles se voltam piedosamente as curiosidades, é porque deles ficou algum vestígio de Arte, a coluna tombada dum palácio, ou quatro versos num pergaminho. As Religiões só sobrevivem pela arte, só ela torna os deuses verdadeiramente imortais - dando-lhes forma. A divindade só fica absolutamente divina - quando um cinzel de génio a fixa em mármore; inspira então o grande culto intelectual, que é o único desinteressado e o único consciente; já nada tem a sofrer do livre exame: entra na serena região dos Incontestáveis e só então deixa de ter ateus. O mais austero católico é ainda pagão, como se era em Cítera, diante da Vénus de Milo. E a Nossa Senhora do Céu só tem adorações unânimes e louvores sem contestação, quando é o pincel de Murillo que a ergue sobre o Orbe, loura e toucada de estrelas.
Eça de Queirós, em Notas contemporâneas.
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