Os impactos seriam desde logo a má imagem do incumprimento a que o Estado Português está obrigado a partir da altura em que ratificou a Convenção do Património Mundial, no início dos anos 80. Esse seria, claro, um dos impactos imediatos e bastante penalizadores, sobretudo na vigência de um governo que preza tanto o cumprimento dos compromissos internacionais. Não é, repito uma questão de gosto ou de acordo, é uma questão de dever, de cumprimento de regras que se aceitaram livremente. Outro impacto seria obviamente para a paisagem do Douro vinhateiro e esse seria ainda o mais grave porque se trata de facto de uma “jóia da coroa” e já não temos muitas.
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30 de janeiro de 2012
Sobre a morte do Douro.
5 de setembro de 2011
Vindimas. Régua.
De visita ao Douro é impossível não reparar na azáfama das vindimas, trabalho alegre de pobres para consolo dos ricos. Na foto: os velhos cestos substituídos pelos assépticos baldes de plástico à venda na Rua dos Camilos. Todos os direitos reservados (c) Nuno Resende.
30 de setembro de 2010
Um certo Douro em 1909.
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| MENDES, Adelino - Terras malditas. Porto: Magalhães&Moniz, 1909. |
Adelino Mendes, que J. Paulo Freire definiu, em 1924, como a «mais alta expressão do jornalismo de paysagem» (1) foi um dos repórteres da República. Nos anos conturbados imediatamente antes e depois de 5 de Outubro de 1910, A. Mendes nunca deixou de, quer nas páginas do Século, quer nas páginas d'A Capital, de debitar crónicas de um jornalismo «realista», extremamente tendencioso que pintava a cores fortes os quadros sociais, técnica tão ao agrado da luta política e ideológica daquela época. § Em Janeiro de 1909 Adelino Mendes foi encarregado de deslocar-se ao Douro para fazer uma reportagem sobre as condições de vida das gentes daquela região. O estilo posto nas descrições, pungentes relatos «em directo» de uma certa desgraça que equivaleriam hoje ao sensacionalismo de certas redacções, causou impacto em Lisboa. Entre 18 de Janeiro e 1 de Março de 1909, A. Mendes percorreu praticamente todas as freguesias de Peso da Régua e algumas freguesias de Sabrosa, Alijó, Lamego e São João da Pesqueira traçando, num melodramático e monocórdico tom de desgraça, um certo viver do Douro. O tom das suas crónicas, separadas por dias, viagens e destinos, é sempre o mesmo: dirigindo-se aos casebres mais pobres, lá encontra material para a sua análise. Segue-se uma breve entrevista. O interlocutor, seja uma mulher vestida como uma vagabunda, um petiz descalço e esfomeado ou homem velho ressequido pela indigência confessa-lhe invariavelmente o mesmo: uma vida miserabilíssima de fome e desemprego. De vez em quando um pequeno proprietário dá a voz ao entrevistador. E o discurso é, vocabular e gramaticalmente semelhante, do pobre ao morgado: a pobreza, a desgraça, a miséria. Um certo Aires, fidalgote de Lobrigos, terá mesmo afirmado: «A monarchia [...] já nada póde dar». E acrescenta, falando pelo morgado decaído: «Só tem esperança no triumpho da democracia. E se, para ella vingar, fôr preciso subir aos alcantillados cêrros da sua provincia, ele, apesar dos seus quarenta anos bem puxados, não será dos ultimos a trepar». § Apesar da fraqueza derivada da miséria, A. Mendes não hesita em imaginar o povo duriense, qual fronda armada, a ir a Lisboa para...(as reticências são o autor)e acrescenta: «a revolta que o domina [ao povo] é latente». Para o jornalista, que apenas procura a pobreza, a sociedade nem chega a ser maniqueísta. Não há ricos, apenas pobres e embora seja benevolente com o poder clerical (de salientar longa a exortação à acção do abade de Sedielos) não hesita em criticar a devoção dos pobres, ridiculizarizando os recentes «enfeites» da igreja de Favaios, douramento que custara 3 contos de réis: «Quantas casas rasoaveis se construiriam para os pobres operarios de Favaios com essa avultada somma?», questiona. § Embora farto em acusações, o texto de Adelino Mendes é menos rico em razões para a elevada taxa emigração, para o desemprego e para a fome endémica. Culpa os os caciques locais, os políticos e o governo, mas pouco diz sobre os negócios do vinho, a especulação dos preços e a conjuntura económica nacional e internacional. Em Lamego fala do crédito e das penhoras, porém, o vocabulário económico não faz parte das suas crónicas. Adelino Mendes é um repórter, mas podia ser um romancista, Realista ou Naturalista, como Abel Botelho, o republicano nascido em Tabuaço que na sua colectânea de Contos «Mulheres da Beira», traça imagens muito semelhantes de um certo Douro.
(1) FREIRE, João Paulo - Homens do meu tempo. Porto: Livraria Civilização, 1924, p. 13.
29 de abril de 2009
Pouca-terra, pouco-juízo.
Douro, 2009 (c) N.R.
Depois de um périplo pelos restaurantes do Douro, chego mais balofo à invicta para constatar (após cinco dias sem notícias) que tudo na mesma, mais do mesmo neste país de homens de abril. Ainda agora lia uma citação de José Gil: "Em Portugal não há drama, tudo é intriga e trama!". É verdade. Desde a triste urdidura em redor da (nenhuma) representação oficial da república portuguesa ante a canonização de Nuno de Santa Maria, até à campanha pidesca da Ministra da Educação que tem já por hábito montar tribunais inquisitórios pelas escolas do país, pouca coisa espanta. Aliás, espanta tudo tão pouco, desde que de soubemos de porcos a espirrarem no México e, quem sabe, ocasionarem tremores de terra no outro lado do mundo. O efeito borboleta foi inventado em Portugal como fait-divers. Haja alegria no meio de tudo isto: as farmacêuticas já esfregam as mãos de contentes e sempre se poupa algum dinheiro por cá, em férias adiadas ou canceladas a Cancun - por todos os que contrairam empréstimos para as pagar. Tenham juízo! § Voltando ao Douro: a montanha pariu um rato. Fui ao Museu, o das parangonas da Pires de Lima e do Sócrates himself. Muito dinheiro para tão pouca uva. Salva-se a loja de recuerdos que sustém em consolo de vista o que a saleta de exposições não enche. Mas está bem, foi bem visto, começar pelo inglês basófias a quem o Camilo aplicou um daqueles insultos que mereciam o prémio nobel como defesa pela honra de uma cidade e região que o dito britânico chamava de mixórdia. Sempre se dá aos ingleses a contínua sensação de que ainda são nossos donos. E não serão? § Entretanto, ao lado do "Museu de um milhão de contos", está a linha do Douro, reduzida agora a uma espinha entre o Porto e Pocinho - mas, por quanto tempo? Valha-nos São Nuno que apesar de nos ter salvo dos espanhóis, tem menos importância e significado nacional do que um cão de água. Mas talvez seja isso que mereçamos: sermos conhecidos mundialmente por um quadrúpede, do que por um santo.
P.S. Não obstante a farta comilaina da qual me penitencio ainda para mais por ser perpetrada em época de tanta carestia, foi um agradável fim de semana na companhia de um grupo de pessoas com extraordinárias virtudes. A todos, um abraço. Contem comigo para outras andanças - menos fartas em vinhos e pitanças mas (ainda) mais ricas em cultura!
25 de março de 2009
Quem pára esta gente?
(c) N.R.Acabo de saber que as empresas CP/REFER decidiram fechar o serviço ferroviário entre Livração e Amarante (Linha do Tâmega) e Régua a Vila Real (Linha do Corgo), alegadamente por razões de segurança. Não posso deixar de ficar indignado. Que país é este que vai investir de milhões de euros no TGV para servir meia dúzia de tecnocratas e esquece as populações do interior? Que enche as serras e as planícies com inestéticas e caríssimas torres para produção de energia eólica mas cede ao lobby automóvel? Rio-me quando ouço o senhor Sócrates Pinto Sousa dizer para os portugueses comprarem painéis solares e uma das empresas públicas do país não investe na electrificação da rede e fecha linhas férreas porque não são rentáveis ou não são seguras (e no entanto os seus administradores são pagos a peso de ouro). Que espécie de políticos e gestores são estes que não compreendem ou não querem compreender que as linhas férreas só são rentáveis quando nelas se investe? O que a Cp/Refer tem vindo a fazer é crime. Há anos que as empresas Cp/Refer prestam um mau serviço, não obstante os recentes esforços de modernização: o material circulante é, na sua maioria, antigo, desconfortável e obsoleto e as infraestruturas de apoio estão degradadas e inoperacionais. As vias férreas fecham a um ritmo alucinante desde os anos 80. Cidades capitais de distrito como Bragança, Vila Real, Viseu, pólos universitários e com um grau de desenvolvimento que o exigia, não têm serviço ferroviário. Aqui ao lado, em Espanha, até uma via férrea de bitola reduzida (como as transversais ao Douro) está electrificada. É óbvio que ninguém fará nada quanto a estes encerramentos. Ninguem levantará a voz. Somos um povo de indolentes amorfos. Conquanto não nos venha a casa prejudicar, nada faremos. Tendo carro e gasolina, este é apenas um problema de meia dúzia de parolos do Douro, na sua maioria velhos, crianças sujas, homens e mulheres sem formação. E de facto é verdade. Se não são dignos nem capazes de usar o TGV, não contam para os números do desenvolvimento económico.
24 de março de 2009
Tendais (ao centro a torre sineira da igreja matriz)
(c) N.R.
Nestes dias, por força do meu ofício, têm passado pelos meus olhos centenas, se não mesmo milhares, de nomes de indivíduos que outrora habitaram casas, lugares, quintas e casais de uma extensa região entre o Porto e Lamego. Nesse percurso de folhas que eu já percorri de comboio tantas vezes, de carro em incontáveis idas e voltas e em pensamento sempre que posso, ocorreu lembrar-me do meu quinto avô, Félix Pereira, que foi enjeitado na roda do Porto por volta de 1730. Calculei esta data a partir do seu casamento que ocorreu na paróquia de Santa Cristina de Tendais a 25 de Janeiro de 1762. Teria, portanto, cerca de 30 anos quando desposou Maria da Mouta, do lugarejo de Vila de Muros. Fui à procura do seu nascimento, crente que, sendo o seu nome pouco comum por terras de Cinfães, o encontraria rapidamente. Os livros da Misericórdia que eu corri durante um dia numa cave bafienta de um arquivo do Porto, foram muito claros quanto à identificação do meu longínquo avô: se Félix era nome raro nas serranias de Tendais, era-o menos no burgo portuense de setecentos. Sem uma pista concreta, apontei o nome de todos os Félix enjeitados na primeira metade do século XVIII aguardando o dia em que o acaso me traga uma pista para resgate da memória do seu nascimento. § Dentre todos os meus avós devidamente identificados, ascendentes legítimos e ilegítimos, fidalgos e plebeus, este é um dos que mais me faz pensar. Muito embora não saiba em que circunstâncias nasceu, nem quem foram os seus pais (muito menos porque foi abandonado à sorte de rodeiras e amas), sempre me perguntei por que razão, tendo ele nascido no Porto, foi terminar os seus dias a Tendais. No século XVIII, porém, a relação entre a zona ribeirinha de Cinfães e o Porto, derivada do florescente tráfego comercial, era mais evidente do que nos dias de hoje. Das margens do Douro escoava-se vinho e sumagre, castanha, carqueja e urze ou carvão feito a partir das raízes deste arbusto. A fluidez do intercâmbio comercial ditava a dinâmica das relações sociais. Não admira, pois, que entre negócios, caminhos de foros e rendas, Félix Pereira, enjeitado da roda do Porto, viesse, por vias travessas, casar com uma senhora de Tendais. E não casou mal. Num universo marginal de filhos ilegítimos, espúrios e (ou) bastardos, engeitados e órfãos, onde o estigma de não pertencer a qualquer estatuto poderia prejudicar a ascensão social, é possível encontrar muitos casos destes, de «bons» casamentos ou matrimónios morganáticos. Maria da Mouta (1742-1809) pertencia à elite da governança municipal de Tendais. Era bisneta de um Capitão-mor e descendia, dentre vários avoengos ilustres, de um tal Francisco Maldonado, por alcunha o castelhano, nobre de Salamanca cuja filha casou em Portugal. Teria sido o casamento de Félix e Maria um casamento de amor? É provável. Seja como for, Félix Pereira devia ser homem aplicado na gestão do seu património e do da sua mulher. Em três gerações os « Pereira Félix» tornaram-se maiores proprietários em Tendais, consorciando os seus filhos com «boa gente» do concelho. E «regressaram» ao Porto: um neto, José Pereira Félix, casou com Augusta de Sousa, cuja filha Vitória Augusta de Adelaide e Sousa fundou o Café Brasil, no Passeio de São Lázaro, frequentado, primeiro pela burguesia oriental da cidade e depois por republicanos e resistentes à ditadura de Salazar. O tio materno desta fora um dos Abades de Miragaia. O café passou ao sobrinho Tibúrcio de Resende e Sousa, inflamado republicano que renegara os costados paternos, repleto de miguelistas e morgados conservadores. § Ainda conheci a sua filha, prima direita do meu avô, estimada escritora e poetisa, que muito contribuiu para que pudesse conhecer estas ligações familiares tantas vezes ocultas nos documentos e pelas fotografias. § Onde o meu quinto avô me levou....as nossas memórias nem sempre se perdem por caminhos que conhecemos, mas por outros que desejamos conhecer. É por isto que gosto da genealogia, pelo seu lado humano e dinâmico do conhecimento de nós próprios e de quem nos rodeia.
24 de março de 2008
Do Douro e coisas afins.
De uma volta de 8 dias pelo Douro trago saudade comigo. Pela hospitalidade das gentes de Pereiros, pelo "baptismo" em São Salvador do Mundo, pelos amigos que me acompanharam - e pelas conversas de longas horas em redor de um belo respasto em S. João da Pesqueira. "Eça" & outras coisas que só as imagens conseguem transmitir.
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