Mas nós, que a nossa idêa e os nossos peitos novos
Trazemos sempre am ancia, á busca de outros céos,
Deixemos que os condemne a maldição dos povos,
E ergamos, toda livre, a fronte para Deus!
Narciso de Lacerda, Elles, 1878
13 de agosto de 2012
Prenda de verão.
Postais da terra #1
26 de março de 2012
23 de março de 2012
A poesia dos momentos.
O dia em que apresentei (não gosto palavra defendi) a minha tese de doutoramento, o passado dia 21 de Março, coincidiu com a data que celebra a poesia. Nesse mesmo dia morreu Tonino Guerra, poeta e cineasta.
Numa daquelas coincidências que nos deixam a pensar, abri a minha dissertação e fechei uma etapa da minha minha com um poema seu:
Eu abandono Roma
Os camponeses abandonam a terra
As andorinhas abandonam a minha aldeia
Os fiéis abandonam as igrejas
Os moleiros abandonam os moinhos
Os montanheses abandonam os montes
A graça de Deus abandona os homens
Alguém abandona tudo
Tonino Guerra, O livro das igrejas abandonadas
5 de setembro de 2011
Vindimas. Régua.
26 de agosto de 2011
Em
28 de julho de 2010
A morte-memória

Quem pensa que as paredes não sofrem a agonia da morte, nunca viajou ao interior do país. Vive a sujidade das paredes urbanas que se entranha no cidadão como um casaco confortável e quente de inverno. Nas aldeias, as paredes destelhadas, musgosas, sombrias, húmidas e comidas pelos silvados sofrem. E choram. § O processo é invariavelmente comum a todos os edifícios. Primeiro há um som de gonzos e chaves volumosas que trancam tábuas imensas de castanho já descoloradas pela chuva e pelo sol; depois, a erva cresce, as silvas vêm reclamar o seu reino e em poucos meses já o quinteiro outrora movimentado tornou-se um infindo mundo de silêncio. É a morte-memória.
10 de junho de 2010
Viva o 10 de Junho?
6 de fevereiro de 2010
A morte inútil
Ontem faleceu uma amiga minha, colhida por um condutor desorientado no seguimento de um pequeno acidente em que ela se vira envolvida devido ao piso molhado. Uma morte estúpida, como todas, em que a arbitrariedade nos faz vacilar na fé. De nada adiantaria fazer a apologia, após o óbito, realçando todas as qualidades que tinha - e não eram poucas. Transportava sempre um sorriso franco, daqueles que nos consolam o dia, contrapondo a tristeza e a má vontade de outros que não sabem bem a sorte que têm nem como a podem usar. Não éramos muito próximos, mas o facto de sermos conterrâneos dava-nos uma sensação de cumplicidade que existe entre todos os compatriotas das aldeias. Era uma pessoa boa, daquelas que não precisam de boas acções para entrarem no rol dos honestos. Estamos a perder os melhores e, olhem, não consigo entender a lógica disto...
Só sei que é angustiante.
3 de janeiro de 2010
Um editorial atrasado.
Eu não vim até aqui para ser objectivo, nem rigoroso, nem imparcial.
Este não é o blogue oficial de um partido, de uma associação ou de um grupo informal.
Este blogue sou eu e as minhas opiniões que são subjectivas, extremamente complexas e muito parciais.
Acontece que fora deste blogue eu sou eu e o meu trabalho, as minhas relações, o meu mundo racional e muito arrumado. Aí sou objectivo e extremamente rigoroso, embora - porque sou humano - nem sempre possa ser tão linear como gostaria.
Mas é só para dizer e sublinhar uma coisa importante: nós, nunca, em tempo algum, conseguiremos ser imparciais. A imparcialidade é, cada vez mais, sinónimo de incompetência, de não-sei-fazer-por-isso-não-me-pronuncio. Ou mesmo de arrogância intelectual. Ora eu que acredito, cada vez mais na democracia participativa, que os políticos somos nós e não aqueles que insistem em nos apresentar para elegermos, quase à força; eu, que acredito que é de dentro de nós que partem as revoluções (se houver necessidade delas) e que nada ou pouco se faz delegando nos outros; ora eu, nunca poderei, nem quero ser imparcial. Quero ser o paradoxo de que falava Agostinho da Silva. Nem ortodoxo, nem heterodoxo. O Paradoxo.
Por isso, e ainda mais por que, não tendo nunca escrito um editorial, quero deixar bem claro que este blogue não é de um simples espectador. É de um interveniente. E sendo de alguém que intervém, não podia ser uma folha de comunicados assépticos.
Não gosto de militâncias, mas nunca me peçam para abdicar dos meus ideais. Essa desistência é, com certeza, uma das causas da tão falada e actual Crise, pois engordámos e entregámos em meia dúzia de oportunistas os nossos direitos e os nossos deveres.
Não contem comigo para isso (*).
Tenho dito.
(*) Ainda para mais sendo 2010 o ano do Centenário da República que nos educou para acreditarmos em algo mascarado e vazio. Eu sou historiador, mas não deixo de ser cidadão e, como tal, tenho o direito e o dever de informar e a ser informado, correctamente. Se ser Historiador é escrever uns artigos, leccionar, ou fazer programas de televisão, apenas para "enfeitar" então devemos reavaliar o sentido da historiografia. História sem utilidade é apenas decoração. A História deve servir a sociedade ou, então, estaremos a dar razão a muitos alunos que não lhe encontram significado nem uso.
1 de janeiro de 2010
A statement.
29 de dezembro de 2009
Memórias destiladas.
Acontece a todos.
Primeiro as lembranças aquecem-nos de tal forma que exacerbam os sentidos; depois, um a um, os sentidos vão perdendo a ligação com aquelas lembranças e, finalmente, como um depósito no fundo de uma velha garrafa de Porto, ficam pequenos excertos do que fomos e do que sentimos.
De quatro anos passados em Braga, recordo-me hoje do aroma das flores das laranjeira no Largo da Senhora a Branca. Foram anos intensos e não deixa de ser estranho que se resumam a aromas, a um ou outro dia, a uma passagem, a um gesto... No entanto, no final, a única coisa verdadeira é um aroma...
Um destes dias fui a Paris, sem qualquer vontade de o fazer. Não. Risco "sem qualquer vontade de o fazer" e substituo-o por "sem que algum dia tivesse realmente vontade de o fazer". Continua a parecer forte de mais, não é que nunca quisesse ir a Paris, mas a imagem que construí de Paris não era suficientemente sólida para me obrigar ao caminho. Fui, porém.
Dessa "Paris pré-visita" havia mil preconceitos: a divisa atabalhoada da Liberdade, Igualdade e Fraternidade que tantos apregoam mas são capazes de cumprir, a sobranceria (injusta, bem sei) dos franceses e sobretudo dos parisienses, como todos os habitantes de todas as capitais, e, acima de tudo, uma cultura longe da matriz com que me edifiquei.
A primeira imagem da cidade foi de desilusão. Nunca devemos chegar a uma cidade à noite. Devemos fazê-lo preferentemente ao amanhecer, quando as pessoas despertam para um dia de rotina. Desta forma não nos sentimos estranhos. Assim que cheguei enfiei-me pelas entranhas sujas da cidade e atravessei-a em pouco menos de uma hora. Acordei no dia seguinte para uma avenida como as avenidas do meu imaginário parisiense. Fiz, então, uma sondagem arqueológica na minha mente e estava tudo lá: os plátanos, o céu cinzento, - carregado mas, ao mesmo tempo luminoso -, os telhados uniformes e a sobranceria. Mas em tudo havia um apetite voraz que não sentira antes.
Tive muita sorte de não querer para gostar verdadeiramente. E Paris fascinou-me.
Hoje, alguns dias depois do regresso, é óbvio que me lembro do gosto dos quartiers, de Notre Dame ao amanhecer, da linha de metro à superfície assente em pilares de granito e aço, da Torre, das cores e cheiros frios de Montmartre mas, acima de tudo, de algo que ficará como sedimento no fundo da memória: o negro veludo dos corvos. Estavam por todo o lado. Nos umbrais, como no poema de Poe, nas áleas do Pére Lachaise, junto aos jardins dos Inválidos.
Depois, num registo menos inconsciente e mais simbólico, ponho-me a pensar no percurso que Saint Denis terá feito, desde do monte do seu martírio (Montmartre) até ao sítio onde mais tarde repousariam os corpos de Luís XVI e da sua esposa Maria Antonieta. Une-os um comum destino fatídico: a decepação. Não é morbidez, é apenas, e talvez, uma lembrança de como os povos são incapazes de escapar à sua memória.
21 de dezembro de 2009
Votos.

"O Menino Jesus, Salvador do Mundo"
Josefa de Óbidos, 1630 - 1684
1673, óleo sobre tela
95 x 116,5 cm
Igreja Matriz de Cascais
As pessoas têm cada vez mais medo de assumir quem são, o que fazem e o que pensam.
Hesitam. Subterfugiam-se e, em último caso, negam.
- O que faz? -Bom, eu trabalho numa padaria, sou técnico de panificação.
Já não existem padeiros, criadas, patrões, empregados, médicos, advogados, professores, religiosos ou crentes, mulheres ou homens. Hoje somos uma amálgama de exigências: ou somos parte de uma minoria, ou esquecidos da maioria. Estamos a diluirmo-nos numa papa insensível. Já ninguém olha as coisas como elas são, se não como a maioria (ou a minoria) quer que elas sejam.
Por isso, agora, quando o Natal se aproxima, as pessoas já quase evitam dizer que gostam do Natal. Ou "não gostam", ou é-lhes "indiferente". Não é "bom", gostar-se do Natal, não é "bom" assumir-se que o Natal é uma festa religiosa. Mas é. Tenham paciência, mas é. Natal provém de Natividade e aquele que nasceu não foi um simples homem, um acidente da história anónima, se não alguém que há 2009 anos mudou a nossa existência e continua a mudar, todos os dias, queiramo-lo ou não.
Por isso, até uma certa visceralidade ter a coragem de acabar com o Natal, nomeadamente extinguindo o feriado de dia 25 de Dezembro (vamos, tenham a firmeza para exigi-lo/fazê-lo!), o Natal não é comércio, nem compras, nem brilhos eléctricos, nem materialidade. É um sentimento, é um conjunto de ideais que fazem sentido a todos - uma linguagem transversal que, é pena, não se aproveite. Independentemente de sermos católicos, muçulmanos, judeus, hindus, ateus ou agnósticos, etc. A linguagem do bem, do querer ser bom e do Amor é das poucas garantias futuras para um mundo melhor.
Por isso, com o espírito do Natal em mente, porque quero sempre ser melhor e porque desejo o melhor para todos, aqueles de quem mais gosto, aqueles de quem não gosto tanto e todos os que não conheço, venho desejar-lhes, a cada um de vós, sem excepção, um Santo Natal.
18 de dezembro de 2009
15 de outubro de 2009
18 de setembro de 2009
"Um post sem título"
3 de setembro de 2009
Carta aberta a um amigo leitor.
«A verdade é que já foram mais os que creram e muitos mais os que cumprindo mandamentos e doutrinas não ousavam pôr em causa uma ordem estabelecida pelas Instituições, que servindo-se de um deus qualquer amordaçava as consciências, tornando-as deprimidas, confusas e submissas».
«Tendais como muitas outras localidades plácidas de brandos costumes, embora de forma mais lenta, todas elas sofrerão as marcas de uma evolução que tem como epicentro a "Teoria do Conhecimento"».
Meu caro amigo prof. José Oliveira, muito obrigado pelas palavras que dirigiu ao post "apontamentos sobre uma aldeia da serra". Comecemos pelo princípio, passe a redundância.§ As doutrinas que não ousavam pôr em causa uma ordem estabelecida não morreram, estão aí, com ou sem Igreja Católica. Têm vários nomes: dinheiro, corruptibilidade, ausência de valores, em suma, a biologia humana. Ainda agora mesmo uma televisão nacional sofreu o embate da livre expressão com os ditames de um regime habituado a estratégias censórias. Sem que o Papa ou qualquer padre atirasse com indulgências ou a ameaça de anátemas. Anátema maior, nos dias de hoje, é a ignorância pois através dela se guia o Homem como marioneta presa pelos fios do medo. O caro amigo olhe à sua volta, acha que não há deprimidos, confusos e submissos, não obstante a evidente secularização dos Homens? De quem é a culpa? Da Religião que resta? Não há ateus submissos? Agnósticos deprimidos? A falta de um caminho de transcendência, de espiritualidade tem levado, pelo tal «percurso pesado, incompreendido, inquietante, mas também desafiador», à morte precoce. Lembro Antero de Quental. § Vou-lhe citar Chesterton, que leio presentemente, e cuja obra recomendo (em especial a «Ortodoxia», de onde vou transcrevendo os excertos): «O cristão admite que o universo é variado, admite mesmo que é uma miscelânea; e qualquer homem são sabe que ele próprio é um ser complexo. Eu diria mesmo que um qualquer homem sabe que tem uma parte de animal, uma parte de demónio, uma parte de santo, uma parte de cidadão; mais ainda, um homem que seja de facto são sabe que também tem uma parte de louco. Já o mundo do materialista é totalmente simples e sólido, tal como o louco tem a certeza absoluta de que está são. O materialista tem a certeza de que a história foi, pura e simplesmente, uma cadeia de causas e efeitos (...)». Ora eu nem iria tão longe. Para mim o tal determinismo de que me fala não é discutível, porque é absurdo. Se me disser que a ideia de um Deus é absurda, eu digo-lhe que a ideia de um Determinismo factual é absurda. Mas desejo-me na companhia do deus absurdo. Entre um mundo asséptico, racional - esquizofrénico - modelar, sem riscos nem dimensões ulteriores, quero-me cego e confuso pela imaginação divina. Ao menos morrerei com esperança. «Os materialistas e os loucos nunca têm dúvidas», diz Chesterton e com razão. Mas a pequena história que narrei sobre uma aldeia de Tendais, nada tem a ver com o Determinismo. Os indivíduos que rodopiaram aqui durante três dias seguidos, ouvindo e olhando embasbacados o estouro e o estrajelar do foguetório, têm tanto respeito, conhecimento ou entendimento sobre um Deus (seja ele bom ou autoritário), como sobre ou um certo Determinismo teórico. A sua teoria é a do vinho e da carne enquanto estimulantes físicos dos sentidos apurados pela música retumbante, repetitiva e lúbrica. Mais nada. E nem é esta ausência de cultura, evangelização ou conhecimento que é desoladora. O quadro maior, e triste, que eu constato, é que é uma vantagem, uma honra do hoje, o querer ser ignorante, estímulo dos novos pedagogos, frente a um quadro desvalorativo do empenho, do sacrifício e da recompensa - tudo coisas que o Determinismo dispensa pois está de mãos e pés atados pela corrente do Facto, que tudo inunda, não deixando espaço para a bóia salvífica. Antes existisse nesta aldeia uma seita de deterministas! Seria mais interessante debater com eles a ausência do divino, do que ser obrigado a fugir das suas sonoras teorias báquicas que se bebem aqui a sôfregos goles. § Sem querer cansar, vou terminar citando novamente G. Chesterton: «Ora, a acusação que fazemos contra as principais deduções do materialista - [e ao "nós", junto a minha convicção] - é a de que, bem ou mal, elas lhe destroem gradualmente a humanidade; não me refiro apenas à simpatia, refiro-me à esperança, à coragem, à poesia, ao espírito de iniciativa, a tudo aquilo que é humano. Por exemplo, se pensarmos que o materialismo arrasta os homens para um fatalismo absoluto (como geralmente acontece), é perfeitamente ocioso fingirmos que esta doutrina é, seja em que sentido for, uma força libertadora. É absurdo afirmar que se está a promover imensamente a liberdade, quando a liberdade de pensamento apenas serve para destruir a liberdade de acção (...) Assim, pois, considerado como personagem, o materialista tem os fantásticos contornos da figura do louco. Ambos assumem uma posição que é, simultaneamente, irresponsável e intolerável.»
Aceite os cumprimentos e os agradecimentos pela leitura (sempre atenta) destes pensamentos possíveis,
Pelo autor d'O Obliviário
P.S2: Para além da sugestão supra referida (CHESTERTON, G.K., - Ortodoxia. Aletheia Editores: [Braga], 2008), sugiro ainda a leitura da Encíclica de SS. Bento XVI, Caritas in veritate, que foi recentemente editada em português pelas edições Paulinas.
30 de agosto de 2009
Apontamentos sobre uma aldeia da serra.
4 de julho de 2009
Um post em dois tempos e meio.
I
Não é por falta de tempo. É por falta de interesse. Este monólogo, umas vezes catártico, outras exercício exorcista, pouco mais alimenta que a necessidade de desenvolver temas que acabam por morrer na praia. Não sou comentador, ou seja, não corro a comentar notícias, nem a alimentar especulações de polémicas frescas. Aliás, se o fosse não teria mãos a medir, tal a torrente, tal a catadupa de casos caricatos ou situações bizarras que este país produz diariamente. Sempre fui um free-lancer, auto-didacta orgulhoso que tem o gosto de mostrar a quem mais gosto aquilo de que gosto. Por isso o Obliviário não aparece entre os primeiros nas estatísticas, nem nos recortes blogosféricos dos jornais. Mas é bom. É bom conquistar um lugar discreto, quase um cantinho aconchegante neste mundo estranho e às vezes distante que é a internet.
II
O que é democracia? - pergunto aos meus alunos. Eles dizem-me que é algo teórico e eu tento convencê-los do contrário. Mas contradigo-me e sinto-o ao seguir atentamente a política portuguesa. Os movimentos de bastidor, os negócios, os subterfúgios, as mentiras. Fala-se em qualidade de democracia e imputa-se aos políticos uma melhoria da mesma, mas esquecem-se do essencial: os cidadãos, a base de uma pirâmide que não se sustenta sem cultura e sem educação. Para mim a democracia pode melhorar se melhorar o sentido de ética, que falta aos jornalistas, que falta aos funcionários e a todos que partilham uma responsabilidade colectiva no dia-a-dia. Aliás, a comunicação social atiça o incêndio da discussão, mas talvez seja ela própria o incendiário e a chama inicial. Como Quarto Poder, (em alguns casos, Poder Único) modela a consciência dos menos afortunados pelo interesse e pela crítica. Como a maioria dos universitários, pouco criativos, menos ainda conscientes e cada vez mais dependentes do oportunismo, os jornalistas são, na sua maioria, medíocres e pouco exigentes. Os restantes, politizados, vão segurando o bastão do poder e manejando esta gente amorfa. Sim, foi o gesto de Manuel Pinho que decidiu a sua própria fortuna, mas é a imagem moldada pela comunicação social que torna o facto mais ou menos relevante. A responsabilidade da democracia deve ser repartida por todos. Ela não é dos políticos, nem dos jornalistas. É nossa.
Uma nota: o facebook e o twitter são as ferramentas do momento e permitem criar espaços mais intimistas de troca de ideias. É um dos motivos pelo qual o Obliviário tem estado mais silencioso e vazio. Não obstante o facto de ter já comentado quer num quer noutro a morte de Michael Jackson não posso deixar de acrescentar algumas linhas a este respeito. Li, num tópico da internet, uma frase grosseira, "proferida" num tom irónico por um psicólogo (!) que dizia "gostar muito de Carlos Cruz mas que este não chegava aos calcanhares de Michael Jackson". É óbvio que a afirmação, um tanto ou quanto rude (e irresponsável, se pensarmos que foi proferida por um cientista) apelava para o facto de ambos serem acusados de crimes semelhantes, relacionados com o abuso sexual de menores. Cá está um exemplo de como, em Portugal, tudo passa pelos media: a política, a cidadania, a democracia, a justiça, começa e esgota-se nos jornais e na televisão. O processo Casa Pia ainda não terminou e já há culpados. É-se acusado, julgado e condenado virtualmente; partidos sobem e descem por estatísticas que, se não são manipuladas, são-o com certeza tendenciosas e aplicadas no "momento certo". Enfim, Michael Jackson, que mais do que ninguém beneficiou da imagem e da sua manipulação, viveu sob o pêndulo dos media. Foi glorificado e crucificado e, na morte, reabilitado a ícone maior. A pedofilia (crime pelo qual não chegou a ser condenado) é um delito abominável. Mas as suas supostas vítimas, como as supostas vítimas de Carlos Cruz, ficarão para sempre anónimas. Esta é a hipocrisia ou a realidade do mundo em que vivemos. Não podemos combater a biologia humana, mas podemos crescer em crítica e valores. E isso é que é importante. As grandes coisas só são grandes se lhes dermos importância.
20 de junho de 2009
Dos Diários.






