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13 de agosto de 2012

Prenda de verão.

Ainda faltam alguns dias para o meu aniversário, mas esta prenda não podia esperar. Chegou hoje. E valeu a pena a espera.

Mas nós, que a nossa idêa e os nossos peitos novos
Trazemos sempre am ancia, á busca de outros céos,
Deixemos que os condemne a maldição dos povos,
E ergamos, toda livre, a fronte para Deus!
Narciso de Lacerda, Elles, 1878

Postais da terra #1

Não creio que nesta terra se fale em demasia. Ou seja, mais do que noutros locais onde os divertimentos existem apenas ocasionalmente, e a vida se regra pela mais absoluta monotonia. É claro que, chegando o verão, o calor abre a boca e as noites quentes propiciam a discussão. Não há, como antigamente, um local para se entregarem ao deleite da maledicência, do diz-que-disse. Podiam fazê-lo em casa (alguns fá-lo-ão com certeza) mas quando se reúnem em grupos maiores que dois desfiam o que consideram ser os males dos outros. O eixo do falatório deslocou-se do largo da capela para o da antiga ramada, que os vizinhos arrancaram por que lhes estorvava a circulação automóvel. Hoje, sem o refresco da sombra, ou a protecção da folhagem, jogam à malha e falam, às vezes baixo (quando o assunto diz respeito a quem mora mais perto) ou alardeiam quando a verbe trata de gabar os do círculo. Essencialmente de Lisboa, mas de outras regiões do país, vão chegando às mancheias velhos e novos desejosos de falar alto. Talvez para afastar o medo das noites silenciosas e pacíficas...

23 de março de 2012

A poesia dos momentos.


O dia em que apresentei (não gosto palavra defendi) a minha tese de doutoramento, o passado dia 21 de Março, coincidiu com a data que celebra a poesia. Nesse mesmo dia morreu Tonino Guerra, poeta e cineasta.
Numa daquelas coincidências que nos deixam a pensar, abri a minha dissertação e fechei uma etapa da minha minha com um poema seu:

Eu abandono Roma
Os camponeses abandonam a terra
As andorinhas abandonam a minha aldeia
Os fiéis abandonam as igrejas
Os moleiros abandonam os moinhos
Os montanheses abandonam os montes
A graça de Deus abandona os homens
Alguém abandona tudo
Tonino Guerra, O livro das igrejas abandonadas
Tudo quer dizer alguma coisa.

5 de setembro de 2011

Vindimas. Régua.



Vindimas. Régua., upload feito originalmente por Nuno Resende.
De visita ao Douro é impossível não reparar na azáfama das vindimas, trabalho alegre de pobres para consolo dos ricos. Na foto: os velhos cestos substituídos pelos assépticos baldes de plástico à venda na Rua dos Camilos. Todos os direitos reservados (c) Nuno Resende.

26 de agosto de 2011

Em

Mourelos, desconhecida aldeia da freguesia de Tendais, concelho de Cinfães, uns patuscos lisboetas inventaram uma festa religiosa para beberem uns copos, comerem umas febras e deitarem uns foguetes. É um faroeste só desculpável porque possível apenas uma vez por ano. E porque em Mourelos. Como já disse aqui, vão-se embora e aldeia fica tristemente pobre como foi e sempre será.

28 de julho de 2010

A morte-memória




Quem pensa que as paredes não sofrem a agonia da morte, nunca viajou ao interior do país. Vive a sujidade das paredes urbanas que se entranha no cidadão como um casaco confortável e quente de inverno. Nas aldeias, as paredes destelhadas, musgosas, sombrias, húmidas e comidas pelos silvados sofrem. E choram. § O processo é invariavelmente comum a todos os edifícios. Primeiro há um som de gonzos e chaves volumosas que trancam tábuas imensas de castanho já descoloradas pela chuva e pelo sol; depois, a erva cresce, as silvas vêm reclamar o seu reino e em poucos meses já o quinteiro outrora movimentado tornou-se um infindo mundo de silêncio. É a morte-memória.

10 de junho de 2010

Viva o 10 de Junho?


Eu gosto de gostar de Portugal pelo que tem de bom e não que, num dia só, me lembrem de tudo o que tem de mau...

6 de fevereiro de 2010

A morte inútil

M.G. de F., onde quer que estejas, estas palavras são a minha homenagem.

Ontem faleceu uma amiga minha, colhida por um condutor desorientado no seguimento de um pequeno acidente em que ela se vira envolvida devido ao piso molhado. Uma morte estúpida, como todas, em que a arbitrariedade nos faz vacilar na fé. De nada adiantaria fazer a apologia, após o óbito, realçando todas as qualidades que tinha - e não eram poucas. Transportava sempre um sorriso franco, daqueles que nos consolam o dia, contrapondo a tristeza e a má vontade de outros que não sabem bem a sorte que têm nem como a podem usar. Não éramos muito próximos, mas o facto de sermos conterrâneos dava-nos uma sensação de cumplicidade que existe entre todos os compatriotas das aldeias. Era uma pessoa boa, daquelas que não precisam de boas acções para entrarem no rol dos honestos. Estamos a perder os melhores e, olhem, não consigo entender a lógica disto...
Só sei que é angustiante.

3 de janeiro de 2010

Um editorial atrasado.

Um pequeno esclarecimento, antes de prosseguir com este blogue.
Eu não vim até aqui para ser objectivo, nem rigoroso, nem imparcial.
Este não é o blogue oficial de um partido, de uma associação ou de um grupo informal.
Este blogue sou eu e as minhas opiniões que são subjectivas, extremamente complexas e muito parciais.
Acontece que fora deste blogue eu sou eu e o meu trabalho, as minhas relações, o meu mundo racional e muito arrumado. Aí sou objectivo e extremamente rigoroso, embora - porque sou humano - nem sempre possa ser tão linear como gostaria.
Mas é só para dizer e sublinhar uma coisa importante: nós, nunca, em tempo algum, conseguiremos ser imparciais. A imparcialidade é, cada vez mais, sinónimo de incompetência, de não-sei-fazer-por-isso-não-me-pronuncio. Ou mesmo de arrogância intelectual. Ora eu que acredito, cada vez mais na democracia participativa, que os políticos somos nós e não aqueles que insistem em nos apresentar para elegermos, quase à força; eu, que acredito que é de dentro de nós que partem as revoluções (se houver necessidade delas) e que nada ou pouco se faz delegando nos outros; ora eu, nunca poderei, nem quero ser imparcial. Quero ser o paradoxo de que falava Agostinho da Silva. Nem ortodoxo, nem heterodoxo. O Paradoxo.
Por isso, e ainda mais por que, não tendo nunca escrito um editorial, quero deixar bem claro que este blogue não é de um simples espectador. É de um interveniente. E sendo de alguém que intervém, não podia ser uma folha de comunicados assépticos.
Não gosto de militâncias, mas nunca me peçam para abdicar dos meus ideais. Essa desistência é, com certeza, uma das causas da tão falada e actual Crise, pois engordámos e entregámos em meia dúzia de oportunistas os nossos direitos e os nossos deveres.
Não contem comigo para isso (*).
Tenho dito.

(*) Ainda para mais sendo 2010 o ano do Centenário da República que nos educou para acreditarmos em algo mascarado e vazio. Eu sou historiador, mas não deixo de ser cidadão e, como tal, tenho o direito e o dever de informar e a ser informado, correctamente. Se ser Historiador é escrever uns artigos, leccionar, ou fazer programas de televisão, apenas para "enfeitar" então devemos reavaliar o sentido da historiografia. História sem utilidade é apenas decoração. A História deve servir a sociedade ou, então, estaremos a dar razão a muitos alunos que não lhe encontram significado nem uso.

1 de janeiro de 2010

A statement.

No primeiro dia de 2010 não desejo nada que não desejasse há 15 dias e que não deseje, talvez, daqui a 22 dias. Há coisas que se desejam todos os dias. Por isso me aborrecem os clichés do tipo mensagem de miss vencedora: paz no mundo, felicidades, blá, blá, festas, copos e o diabo a quatro. O melhor favor que podemos fazer uns aos outros é sermos felizes todos os dias e não apenas em datas marcadas.

29 de dezembro de 2009

Memórias destiladas.

Acontece a todos.
Primeiro as lembranças aquecem-nos de tal forma que exacerbam os sentidos; depois, um a um, os sentidos vão perdendo a ligação com aquelas lembranças e, finalmente, como um depósito no fundo de uma velha garrafa de Porto, ficam pequenos excertos do que fomos e do que sentimos.
De quatro anos passados em Braga, recordo-me hoje do aroma das flores das laranjeira no Largo da Senhora a Branca. Foram anos intensos e não deixa de ser estranho que se resumam a aromas, a um ou outro dia, a uma passagem, a um gesto... No entanto, no final, a única coisa verdadeira é um aroma...
Um destes dias fui a Paris, sem qualquer vontade de o fazer. Não. Risco "sem qualquer vontade de o fazer" e substituo-o por "sem que algum dia tivesse realmente vontade de o fazer". Continua a parecer forte de mais, não é que nunca quisesse ir a Paris, mas a imagem que construí de Paris não era suficientemente sólida para me obrigar ao caminho. Fui, porém.
Dessa "Paris pré-visita" havia mil preconceitos: a divisa atabalhoada da Liberdade, Igualdade e Fraternidade que tantos apregoam mas são capazes de cumprir, a sobranceria (injusta, bem sei) dos franceses e sobretudo dos parisienses, como todos os habitantes de todas as capitais, e, acima de tudo, uma cultura longe da matriz com que me edifiquei.
A primeira imagem da cidade foi de desilusão. Nunca devemos chegar a uma cidade à noite. Devemos fazê-lo preferentemente ao amanhecer, quando as pessoas despertam para um dia de rotina. Desta forma não nos sentimos estranhos. Assim que cheguei enfiei-me pelas entranhas sujas da cidade e atravessei-a em pouco menos de uma hora. Acordei no dia seguinte para uma avenida como as avenidas do meu imaginário parisiense. Fiz, então, uma sondagem arqueológica na minha mente e estava tudo lá: os plátanos, o céu cinzento, - carregado mas, ao mesmo tempo luminoso -, os telhados uniformes e a sobranceria. Mas em tudo havia um apetite voraz que não sentira antes.
Tive muita sorte de não querer para gostar verdadeiramente. E Paris fascinou-me.
Hoje, alguns dias depois do regresso, é óbvio que me lembro do gosto dos quartiers, de Notre Dame ao amanhecer, da linha de metro à superfície assente em pilares de granito e aço, da Torre, das cores e cheiros frios de Montmartre mas, acima de tudo, de algo que ficará como sedimento no fundo da memória: o negro veludo dos corvos. Estavam por todo o lado. Nos umbrais, como no poema de Poe, nas áleas do Pére Lachaise, junto aos jardins dos Inválidos.
Depois, num registo menos inconsciente e mais simbólico, ponho-me a pensar no percurso que Saint Denis terá feito, desde do monte do seu martírio (Montmartre) até ao sítio onde mais tarde repousariam os corpos de Luís XVI e da sua esposa Maria Antonieta. Une-os um comum destino fatídico: a decepação. Não é morbidez, é apenas, e talvez, uma lembrança de como os povos são incapazes de escapar à sua memória.

21 de dezembro de 2009

Votos.


"O Menino Jesus, Salvador do Mundo"
Josefa de Óbidos, 1630 - 1684
1673, óleo sobre tela
95 x 116,5 cm
Igreja Matriz de Cascais


As pessoas têm cada vez mais medo de assumir quem são, o que fazem e o que pensam.
Hesitam. Subterfugiam-se e, em último caso, negam.
- O que faz? -Bom, eu trabalho numa padaria, sou técnico de panificação.
Já não existem padeiros, criadas, patrões, empregados, médicos, advogados, professores, religiosos ou crentes, mulheres ou homens. Hoje somos uma amálgama de exigências: ou somos parte de uma minoria, ou esquecidos da maioria. Estamos a diluirmo-nos numa papa insensível. Já ninguém olha as coisas como elas são, se não como a maioria (ou a minoria) quer que elas sejam.
Por isso, agora, quando o Natal se aproxima, as pessoas já quase evitam dizer que gostam do Natal. Ou "não gostam", ou é-lhes "indiferente". Não é "bom", gostar-se do Natal, não é "bom" assumir-se que o Natal é uma festa religiosa. Mas é. Tenham paciência, mas é. Natal provém de Natividade e aquele que nasceu não foi um simples homem, um acidente da história anónima, se não alguém que há 2009 anos mudou a nossa existência e continua a mudar, todos os dias, queiramo-lo ou não.
Por isso, até uma certa visceralidade ter a coragem de acabar com o Natal, nomeadamente extinguindo o feriado de dia 25 de Dezembro (vamos, tenham a firmeza para exigi-lo/fazê-lo!), o Natal não é comércio, nem compras, nem brilhos eléctricos, nem materialidade. É um sentimento, é um conjunto de ideais que fazem sentido a todos - uma linguagem transversal que, é pena, não se aproveite. Independentemente de sermos católicos, muçulmanos, judeus, hindus, ateus ou agnósticos, etc. A linguagem do bem, do querer ser bom e do Amor é das poucas garantias futuras para um mundo melhor.
Por isso, com o espírito do Natal em mente, porque quero sempre ser melhor e porque desejo o melhor para todos, aqueles de quem mais gosto, aqueles de quem não gosto tanto e todos os que não conheço, venho desejar-lhes, a cada um de vós, sem excepção, um Santo Natal.

18 de dezembro de 2009


Este fim de semana vou estar aqui. É tempo de Confirmação.
Agradeço as vossas orações, que retribuo, a todos, em pensamento.
Até breve, em Paz.

18 de setembro de 2009

"Um post sem título"

Quando comecei no wordpress com O Breviário, fi-lo porque tinha necessidade de comunicar. Comunicar, neste espaço cibernético, é trocar informação, sistematizá-la e processá-la de forma crítica para uso pessoal e para fruição todos os que nos lêem. Ou seja, vir para a internet escrever trivialidades, não. Não contem comigo. Muito menos usando pseudónimos, nicknames, ou que seja. Antes de mais, jogo limpo. E depois, sim, podemos "conversar". Para denunciar, contar histórias de caracácá, ou fazer propaganda, existem outros meios e outros canais. Eu acredito nas palavras proferidas e no seu poder. Desperdiçá-las é perder tempo. E o tempo, nos dias que correm, conta-se em bites.

3 de setembro de 2009

Carta aberta a um amigo leitor.

«A verdade é que já foram mais os que creram e muitos mais os que cumprindo mandamentos e doutrinas não ousavam pôr em causa uma ordem estabelecida pelas Instituições, que servindo-se de um deus qualquer amordaçava as consciências, tornando-as deprimidas, confusas e submissas».
«Tendais como muitas outras localidades plácidas de brandos costumes, embora de forma mais lenta, todas elas sofrerão as marcas de uma evolução que tem como epicentro a "Teoria do Conhecimento"».

Meu caro amigo prof. José Oliveira, muito obrigado pelas palavras que dirigiu ao post "apontamentos sobre uma aldeia da serra". Comecemos pelo princípio, passe a redundância.§ As doutrinas que não ousavam pôr em causa uma ordem estabelecida não morreram, estão aí, com ou sem Igreja Católica. Têm vários nomes: dinheiro, corruptibilidade, ausência de valores, em suma, a biologia humana. Ainda agora mesmo uma televisão nacional sofreu o embate da livre expressão com os ditames de um regime habituado a estratégias censórias. Sem que o Papa ou qualquer padre atirasse com indulgências ou a ameaça de anátemas. Anátema maior, nos dias de hoje, é a ignorância pois através dela se guia o Homem como marioneta presa pelos fios do medo. O caro amigo olhe à sua volta, acha que não há deprimidos, confusos e submissos, não obstante a evidente secularização dos Homens? De quem é a culpa? Da Religião que resta? Não há ateus submissos? Agnósticos deprimidos? A falta de um caminho de transcendência, de espiritualidade tem levado, pelo tal «percurso pesado, incompreendido, inquietante, mas também desafiador», à morte precoce. Lembro Antero de Quental. § Vou-lhe citar Chesterton, que leio presentemente, e cuja obra recomendo (em especial a «Ortodoxia», de onde vou transcrevendo os excertos): «O cristão admite que o universo é variado, admite mesmo que é uma miscelânea; e qualquer homem são sabe que ele próprio é um ser complexo. Eu diria mesmo que um qualquer homem sabe que tem uma parte de animal, uma parte de demónio, uma parte de santo, uma parte de cidadão; mais ainda, um homem que seja de facto são sabe que também tem uma parte de louco. Já o mundo do materialista é totalmente simples e sólido, tal como o louco tem a certeza absoluta de que está são. O materialista tem a certeza de que a história foi, pura e simplesmente, uma cadeia de causas e efeitos (...)». Ora eu nem iria tão longe. Para mim o tal determinismo de que me fala não é discutível, porque é absurdo. Se me disser que a ideia de um Deus é absurda, eu digo-lhe que a ideia de um Determinismo factual é absurda. Mas desejo-me na companhia do deus absurdo. Entre um mundo asséptico, racional - esquizofrénico - modelar, sem riscos nem dimensões ulteriores, quero-me cego e confuso pela imaginação divina. Ao menos morrerei com esperança. «Os materialistas e os loucos nunca têm dúvidas», diz Chesterton e com razão. Mas a pequena história que narrei sobre uma aldeia de Tendais, nada tem a ver com o Determinismo. Os indivíduos que rodopiaram aqui durante três dias seguidos, ouvindo e olhando embasbacados o estouro e o estrajelar do foguetório, têm tanto respeito, conhecimento ou entendimento sobre um Deus (seja ele bom ou autoritário), como sobre ou um certo Determinismo teórico. A sua teoria é a do vinho e da carne enquanto estimulantes físicos dos sentidos apurados pela música retumbante, repetitiva e lúbrica. Mais nada. E nem é esta ausência de cultura, evangelização ou conhecimento que é desoladora. O quadro maior, e triste, que eu constato, é que é uma vantagem, uma honra do hoje, o querer ser ignorante, estímulo dos novos pedagogos, frente a um quadro desvalorativo do empenho, do sacrifício e da recompensa - tudo coisas que o Determinismo dispensa pois está de mãos e pés atados pela corrente do Facto, que tudo inunda, não deixando espaço para a bóia salvífica. Antes existisse nesta aldeia uma seita de deterministas! Seria mais interessante debater com eles a ausência do divino, do que ser obrigado a fugir das suas sonoras teorias báquicas que se bebem aqui a sôfregos goles. § Sem querer cansar, vou terminar citando novamente G. Chesterton: «Ora, a acusação que fazemos contra as principais deduções do materialista - [e ao "nós", junto a minha convicção] - é a de que, bem ou mal, elas lhe destroem gradualmente a humanidade; não me refiro apenas à simpatia, refiro-me à esperança, à coragem, à poesia, ao espírito de iniciativa, a tudo aquilo que é humano. Por exemplo, se pensarmos que o materialismo arrasta os homens para um fatalismo absoluto (como geralmente acontece), é perfeitamente ocioso fingirmos que esta doutrina é, seja em que sentido for, uma força libertadora. É absurdo afirmar que se está a promover imensamente a liberdade, quando a liberdade de pensamento apenas serve para destruir a liberdade de acção (...) Assim, pois, considerado como personagem, o materialista tem os fantásticos contornos da figura do louco. Ambos assumem uma posição que é, simultaneamente, irresponsável e intolerável.»
P.S. A referência ao Prof. José Hermano Saraiva é, creio, uma jovial brincadeira do meu caro amigo, que me fez sorrir. Apesar de reconhecer que o gosto "popular" pelo "antigo" tenha sido espicaçado pelas referências, às vezes ingénuas mas na maioria tolas, daquele senhor Prof., nem a pouca simpatia que nutro pelo senhor (e toda a aura de "determinismo" que dele emana), nem a pouca qualidade científica do seu discurso me levariam a querer tentar um modelo semelhante ao que conduz na televisão. Os meus fracos dotes de oratória matariam de enfado qualquer pobre espectador. E a minúcia que uso como lema conduziria o programa ao fracasso. O dito "provincianismo do interior" só em existe em situações como a que narrei no post anterior. De resto - e tenho podido constatá-lo nas minhas recentes deambulações pela serra de Montemuro - não pode ser qualificado em relação a um cosmopolitismo (que nem sequer existe em Portugal), nem pesado segundo cânones de desenvolvimento que ultrapassem os limites da aldeia. Cada comunidade tem o seu grau de desenvolvimento. Ele não é bom, nem é mau, não é menor, nem maior. E quanto a mim, no meu espírito anti-determinista, o pior é querer avaliar esse grau, ou formatá-lo, que é o que tem acontecido por aqui, por esta pacata e agora (felizmente) serena aldeia da serra.
Aceite os cumprimentos e os agradecimentos pela leitura (sempre atenta) destes pensamentos possíveis,

Pelo autor d'O Obliviário

P.S2: Para além da sugestão supra referida (CHESTERTON, G.K., - Ortodoxia. Aletheia Editores: [Braga], 2008), sugiro ainda a leitura da Encíclica de SS. Bento XVI, Caritas in veritate, que foi recentemente editada em português pelas edições Paulinas.

30 de agosto de 2009

Apontamentos sobre uma aldeia da serra.

Aproxima-se o final do período de Estio "civil" e a aldeia já se vai esvaziando. Escuso-me de referir-lhe o nome, sob pena de cansar a pouca magia que o topónimo ainda acarreta e por respeito a um outro justo que cá vive. Também não adianta escondê-lo, nem fazer segredo disso, todos o sabem, pois não é a primeira vez que escrevo notas à margem da vivência desta povoação. É na freguesia de Tendais, e basta. Aliás, podia bem ser aqui o que narro, ou noutro lugar qualquer, onde a iniquidade e a desmoralização vão abrindo caminho, substituindo velhas noções valorativas por vácuo e frivolidade. A que me refiro? É simples e fácil de descrever. Durante o ano a aldeia repousa sob o manto de uma paz podre. Aqui não há emprego, não há progresso, não há esperança. Os mais jovens vão à escola (cada vez menos escola e mais centro recreativo) e voltam para esperarem sair, um dia, talvez sem regresso à vista; a aldeia como muitas da região não tem as infra-estruturas básicas do mundo dito civilizado, ou seja a água canalizada para todos, o saneamento e as condições básicas de salubridade, que tudo soma com o envelhecimento dos habitantes, o abandono dos campos, a dependência total dos produtos que, podendo cultivar-se aqui, são trazidos de fora. § Os verões, no entanto, são animados. Vem gente de Lisboa, do Porto, de outros lados. Trazem os costumes da cidade e, enquanto cá estão, esses já "enteados da terra", querem a aldeia como o espelho das suas cidades, dos seus subúrbios, dos seus hábitos. Há uns anos reinventaram a festa da padroeira, a Virgem da Livração. Mas para eles, para esses estranhos na própria terra, a espiritualidade não conta. Instalam-se altifalantes no campanário da ermida e, durante três dias, mesmo apesar de poucos dias antes ter falecido uma filha da terra o som estridente e poluente de música "popular" quebra o sossego da aldeia. Para quê? Aparentemente para nada. Ninguém liga aos problemas sociais que os rodeiam durante um mês e, no entanto, os três dias de festas parecem querer congregar as pessoas em volta do adro. Mas este adro, outrora espaço de comunhão é apenas palco de dança. Não há caridade, nem solidariedade, nem empatia pelo próximo. Apenas rodopio, música, comida, bebida, foguetes que estralejam. É a expressão máxima do fútil. A Igreja, a quem cabe a função de esteio moral, colabora. Abre as portas do templo, para a festividade, quando devesse, talvez, abrir os olhos da comunidade para a inutilidade do desperdício, para a compassividade que falta e para a solidariedade que não existe. A aldeia, como todas as povoações dos arredores, está cheia de estradas e estradões que não levam a lado nenhum. Nem ao progresso civilizador, nem ao coração dos Homens. Os daqui, por exemplo, são, em regra, pouco tolerantes e muito pouco respeitadores. Todos fecham os olhos à lei, todos cometem ilegalidades, todos as aceitam naturalmente e praticamente todos as acalentam e estimulam. O lixo é atirado para a propriedade vizinha, casas, garagens, barracos e toda a sorte de estruturas crescem sem licenciamento e sem controlo, derrubes e arranque de árvores alheias são actos comuns. Com os animais que, infelizmente têm o azar de nascer aqui, acontecem as maiores atrocidades, cometidas por gente que desconhece o valor da Vida: tratados ao pontapé, andam esfomeados e cheios de chagas pelos muros, caminhos e campos até alguém os envenenar. Ao fazê-lo, quem o faz, não está a cometer qualquer acto de piedade, está antes a por em marcha um cínico plano de desresponsabilização. Quem não ama os animais, as plantas, o colectivo, não ama o seu semelhante. É mau, é um indigno ser humano. § O Inverno lava algumas chagas, mas não as chagas sociais. Até ao próximo verão ninguém mais quer saber da alguém nem dos "velhos", nem dos "novos" da aldeia. § Acabo de ler a encíclica de Bento XVI "Caritas in veritate". Partilho da preocupação de Sua Santidade: «Sem verdade, sem confiança e amor pelo que é verdadeiro, não há consciência e responsabilidade social, e a actividade social acaba à mercê de interesses privados e lógicas de pode, com efeitos desagregadores na sociedade, sobretudo numa sociedade em vias de globalização, que atravessa momentos difíceis como os actuais» (Caritas in Veritate, Introd., 5). § Ao ver acontecer tais coisas numa aldeia tão pequena como esta, é impossível não temer pelo que se passará no resto do Mundo. Onde está a Caridade, onde está a Verdade que, durante séculos, tem sido apanágio das gentes desta serra?

4 de julho de 2009

Um post em dois tempos e meio.

I

Não é por falta de tempo. É por falta de interesse. Este monólogo, umas vezes catártico, outras exercício exorcista, pouco mais alimenta que a necessidade de desenvolver temas que acabam por morrer na praia. Não sou comentador, ou seja, não corro a comentar notícias, nem a alimentar especulações de polémicas frescas. Aliás, se o fosse não teria mãos a medir, tal a torrente, tal a catadupa de casos caricatos ou situações bizarras que este país produz diariamente. Sempre fui um free-lancer, auto-didacta orgulhoso que tem o gosto de mostrar a quem mais gosto aquilo de que gosto. Por isso  o Obliviário não aparece entre os primeiros nas estatísticas, nem nos recortes blogosféricos dos jornais. Mas é bom. É bom conquistar um lugar discreto, quase um cantinho aconchegante neste mundo estranho e às vezes distante que é a internet. 

II

O que é democracia? - pergunto aos meus alunos. Eles dizem-me que é algo teórico e eu tento convencê-los do contrário. Mas contradigo-me e sinto-o ao seguir atentamente a política portuguesa. Os movimentos de bastidor, os negócios, os subterfúgios, as mentiras. Fala-se em qualidade de democracia e imputa-se aos políticos uma melhoria da mesma, mas esquecem-se do essencial: os cidadãos, a base de uma pirâmide que não se sustenta sem cultura e sem educação. Para mim a democracia pode melhorar se melhorar o sentido de ética, que falta aos jornalistas, que falta aos funcionários e a todos que partilham uma responsabilidade colectiva no dia-a-dia. Aliás, a comunicação social atiça o incêndio da discussão, mas talvez seja ela própria o incendiário e a chama inicial. Como Quarto Poder, (em alguns casos, Poder Único) modela a consciência dos menos afortunados pelo interesse e pela crítica. Como a maioria dos universitários, pouco criativos, menos ainda conscientes e cada vez mais dependentes do oportunismo, os jornalistas são, na sua maioria, medíocres e pouco exigentes. Os restantes, politizados, vão segurando o bastão do poder e manejando esta gente amorfa. Sim, foi o gesto de Manuel Pinho que decidiu a sua própria fortuna, mas é a imagem moldada pela comunicação social que torna o facto mais ou menos relevante. A responsabilidade da democracia deve ser repartida por todos. Ela não é dos políticos, nem dos jornalistas. É nossa.

Uma nota: o facebook e o twitter são as ferramentas do momento e permitem criar espaços mais intimistas de troca de ideias. É um dos motivos pelo qual o Obliviário tem estado mais silencioso e vazio. Não obstante o facto de ter já comentado quer num quer noutro a morte de Michael Jackson não posso deixar de acrescentar algumas linhas a este respeito. Li, num tópico da internet, uma frase grosseira, "proferida" num tom irónico por um psicólogo (!) que dizia "gostar muito de Carlos Cruz mas que este não chegava aos calcanhares de Michael Jackson". É óbvio que a afirmação, um tanto ou quanto rude (e irresponsável, se pensarmos que foi proferida por um cientista) apelava para o facto de ambos serem acusados de crimes semelhantes, relacionados com o abuso sexual de menores. Cá está um exemplo de como, em Portugal, tudo passa pelos media: a política, a cidadania, a democracia, a justiça, começa e esgota-se nos jornais e na televisão. O processo Casa Pia ainda não terminou e já há culpados. É-se acusado, julgado e condenado virtualmente; partidos sobem e descem por estatísticas que, se não são manipuladas, são-o com certeza tendenciosas e aplicadas no "momento certo". Enfim, Michael Jackson, que mais do que ninguém beneficiou da imagem e da sua manipulação, viveu sob o pêndulo dos media. Foi glorificado e crucificado e, na morte, reabilitado a ícone maior. A pedofilia (crime pelo qual não chegou a ser condenado) é um delito abominável. Mas as suas supostas vítimas, como as supostas vítimas de Carlos Cruz, ficarão para sempre anónimas. Esta é a hipocrisia  ou a realidade do mundo em que vivemos. Não podemos combater a biologia humana, mas podemos crescer em crítica e valores. E isso é que é importante. As grandes coisas só são grandes se lhes dermos importância.

20 de junho de 2009

Dos Diários.


Imagem retirada daqui

Para que serve um diário? para adolescentes confusas mapearem o caminho até à libido? para intelectuais dolentes grafitarem frases avulsas de viagens íntimas (escancaradas)? Seja qual for o uso que se lhe dá, um diário é a melhor das armas e o maior dos medos. Saber que alguém conta os seus segredos e os dos outros, com a impunidade de um gesto pelas costas chega a ser delicioso. Obscenamente delicioso. Adoro diários. Sobretudo lê-los (os dos grandes escritores, claro). Não escrevo regularmente anotações pessoais suficientes para chegar a construir a que possa chamar "diário". Mas tenho as minhas notas. E às vezes (confesso, confesso...) penso o quão bom seria se aquelas páginas se soltassem. Porque há pessoas que vivem uma alegre fantasia perante os outros. Julgam que ninguém sabe, julgam que ninguém sonha e, afinal de contas, já todos leram os diários uns dos outros. O diário é apenas um exercício, sem garantia de confidencialidade. Basta ler Sebastião da Gama ou Miguel Torga - nós não somos os voyeurs, eles é que o são.