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20 de junho de 2011

Pilar-José-Saramago



Eu gosto dos livros de Saramago. Regra geral: são bem escritos, imaginativos e bem estruturados. Têm, contudo, dois defeitos notáveis: são ideologicamente repetitivos e francamente pobres em imagens (simbólicas). Ou seja, quer os romances quer os ensaios de José Saramago não são eruditos e talvez seja esse um dos componentes principais da fórmula do seu sucesso. De resto a maioria das pessoas que disser que adora Saramago, pode ter lido antes a National Geographic, 2 Paulos Coelho e, eventualmente, António Lobo Antunes. Compará-lo a Jorge Luís Borges, por exemplo, - autor que o supera largamente em estilo, erudição e gramática - é inútil. Não se comparam estrelas de grandezas tão diferentes. Mesmo apesar de cada um ter tido uma fiel guardadora. Mas, e daí, também não se pode comparar a simplicidade de Maria Kodama, com a boçal extravagância de Pilar del Rio...
Um outro aspecto do seu sucesso foi ter ganho o Prémio Nobel, atribuído, não pelo valor da obra em si, como sabemos, mas pela ideologia do autor e das suas palavras. Saramago foi um cínico. Cínico dos cínicos, príncipe dos cínicos. Não acreditava em Deus, nem na virgem, nem nos anjos e santos, não acreditava nas religiões, mas acreditava menos ainda nos Homens, na humanidade em geral. Depois de ter sido nobelitado, tornou-se semi-deus no mundo e deus no seu país que entretanto tinha abandonado (juntamente com o português, que castelhanizou). Acreditava em si e na Pilar, às vezes.

2 de março de 2009

O fantástico Fantasporto: um apontamento.

Imagem via Fil review


Não sou um assíduo cultista do cartaz do Fantasporto. Por motivos que se prendem, sobretudo, com a falta de tempo. No entanto, "avisado" por uma amiga mais assídua e mais interessada, não deixo de assistir a um ou outro título, cuja sinopse realce temas ou tipos mais do meu interesse. Não gosto, particularmente de terror mórbido, puxa-me muito mais o suspense, do tipo Hitchcock. Acertei, por isso, em Eden Lake, vencedor de dois dos prémios (Melhor Realização e Melhor Actor) do Fantas que terminou ontem. § Eden lake é particularmente bem realizado, de facto, com uma lineariedade narrativa pouco comum ou difícil de obter em filmes do género (excluídos, obviamente, os da cepa de mestres como Hitchcock, Stanley Kubrick ou Stephen King) e deixa-nos colados à cadeira, numa tensão nervosa evidente durante os seus 91 minutos. § Um casal de namorados (ela professora, uma nota a reter) vão passar o fim de semana a um lago que se encontra na eminência de ser urbanizado por empreiteiros patos-bravos (o fenómeno não é só nosso, como é óbvio). A chegada à povoação é logo marcada por alguns distúrbios, onde a violência verbal entre pais e filhos e entre adultos marca já o tópico e não augura, para as personagens, uma escapada calma. Quando se instalam na beira do lago e testemunham uma cena de bullying, seguido de um "confronto" verbal entre o gangue e o casal, o espectador suspeita que vêm problemas. Uma primeira tensão explode numa cena passada à noite, na tenda. (Posso dizer que há muitos anos que um filme não me fazia saltar da cadeira). Depois, toda a sucessão de eventos desenvolve-se numa escalada de violência, pautada por uma autêntica caça ao homem (entretanto caçado e exposto às maiores humilhações e sádicas sevícias) e à mulher que resiste à tortura para sucumbir a um fim mais sinistro que o do próprio namorado. Tudo isto organizado pela mente mais ou menos doentia de um grupo de jovens - arrebatados pelo líder, esse sim, dono de uma complexa atitude e predisposição para a destruição. Não creio que seja um retrato verdadeiro da delinquência infantil e juvenil das sociedades contemporâneas, mas obriga a pensar sobre certas teorias educacionais e sobre o modelo pedagógico e social sobre o qual são moldadas as crianças de hoje. A crítica inglesa chocou-se com este filme e, como a mesma diz, não é para qualquer um (houve pessoas a sair do cinema às primeiras imagens de sangue). Mas confesso que, muito embora a crescente violência e a angústia motivada por cenas extremamente fortes graficamente (mãos amarradas com arame farpado, cortes de navalha e x-acto inflingidos pelos adolescentes no namorado - Michael Fassbender - aleatoriamente, por puro gozo, ou quando a actriz principal - Kelly Reilly - espeta, enquanto corre, um dente de ferro no pé e o tira com as próprias mãos ou ainda o momento em que o gangue rega um dos miúdos com gasolina, ateando-lhe fogo em seguida), ainda que, como dizia, tais cenas sejam extremamente violentas, todo o filme tem uma estrutura dramática consistente que alterna entre uma talvez excessiva demonstração de violência e analogias ou metáforas (mais nuances do que outra coisa) sobre uma sociedade apodrecida, sem valores e sem regras. Prós: o argumento e a realização, a caracterização e o tema. Contras: uma progressiva e excessiva demonstração de violência que inflige no espectador um certo cansaço, banalizando o suspense. Em todo o caso, vale a pena.

15 de fevereiro de 2009

Bowling for Columbine


Ontem à noite, na RTP 2, pude rever o documentário do polémico Michael Moore intitulado Bowling for Columbine sobre o massacre perpretrado em 1999 por dois jovens que assassinaram 12 colegas e um professor num liceu do Colorado. O filme é uma viagem pela demência humana - uma demência apatológica derivada da aplicação do medo para controle da liberdade e da sanidade dos indivíduos. A determinada altura M. Moore, na irreverência que se lhe conhece foi entrevistar o cantor Marily Manson - a quem, pela suas atitudes artística e social, imediatamente foi imputada culpa indirecta no massacre - o qual referiu algo de que nos esquecemos: tudo é medo, hoje em dia. Caso para aplicar o ditado que diz antes temer do que amar, eis o lema dos Estados modernos. § Todos os dias somos bombardeados com violência, com agressividade. Lentamente o nosso organismo vai absorvendo este veneno: doenças, insegurança, morte, sangue, crise. Como referia Marily Manson os jovens crescem num mundo em que o medo comanda: SIDA, desemprego, uma educação cada vez menos cativante, etc. Pura e simplesmente não há esperança. Nem futuro. É difícil enquadrar dois jovens armados e homicidas neste cenário? Não. A culpa não é só de Hollywood e dos filmes sanguinários nem dos artistas irreverentes. É nossa, é dos políticos e dos grande empresários que ganham com o medo e o conduzem para prossecução dos seus objectivos. Daquela América fracturada, de loucos armados, vem agora o desespero do desemprego, das dívidas, da incapacidade para assegurar um futuro às gerações futuras. Talvez se adivinhem novos Columbine, mas o mais preocupante é a incapacidade de parar esta torrente de desgraça que nos impede de lutar contra a corrente. Será que algum dia , por uma hora, por um minuto que seja, não podemos ser felizes e corajosos? Ou, pelo menos, querer sê-lo?

9 de janeiro de 2009

Aforismo # tal: Os estilos nascem dos contextos.

(cena do filme "¿Qué he hecho yo para merecer esto?!", Pedro Almodóvar. 1984)

(excerto do filme "Os Canibais", do realizador português Manoel de Oliveira, 1988)

Em 1980 vivia-se a movida madrilena, que só chegou a Portugal já os anos 90 envelheciam. Eu pedia a vossa atenção, para os textos e contextos de ambos os filmes, separados apenas por 4 anos. É evidente, pelo exposto, que Almodôvar nunca chegará aos 100 anos, nem poderia ter concebido a filmografia que concebeu tendo nascido no Porto e vivido a sua infância à sombra da imagem de crianças descalças a jogar aniki bóbó em plena marginal do Douro. Não, não estou a ser injusto para o "mestre" Manoel de Oliveira, arauto centenário do cinematógrafo luso - sou apreciador dos seus planos obsessivo-compulsivos e dos rasgos de cor. Mas é tão interessante como a representação mostra (seja a p&b, seja a cores) a luminosidade, o desembaraço (ou ausência dele) e o talento imagético de um povo.

17 de novembro de 2008

Ensaio sobre a cegueira ideológica.


Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegámos, penso
que estamos cegos, Cegos que vêem, Cegos que, vendo, não vêem.
"Ensaio sobre a cegueira", José Saramago.

Saramago é um iconoclasta cínico, pedante, ideologicamente cego e cada vez mais velho. Felizmente que a idade vai vergando cada um daqueles defeitos do senhor e, confiamos nós, chegará ao túmulo já completamente redimido de todos os seus pecados que incluem, como bem sabemos, perseguições à boa maneira estalinista, mediocridade q.b. e conversa-ditatorial-em-potência/hipocrisia que esta gente, como Saramago, tem e cultiva com boa vontade para dar e vender. No entanto, mentiria se dissesse que detesto totalmente o que Saramago escreve. Comecei a ler Evangelho segundo Jesus Cristo e parei à décima página. Li Memorial sobre o Convento, mas irrito-me quando fazem propaganda com romances históricos (já ninguém lê Marguerite Yourcenar... ao menos a elogiarmos ou deturparmos, que se faça como ela, deturpe-se em nome de sentimentos e não de bandeiras). Parei aí. Retomei Saramago em Intermitências da Morte. Gostei. Gostei sinceramente. Mas digo-o e repito-o: não merecia o Nobel pelo que escreve, nem pelo que sabe. § Saramago tem boas ideias, quer dar lições de moral à humanidade; confrontá-la com o seu próprio cinismo (o dele e o da humanidade) e consegue-o em Ensaio sobre a Cegueira, mas é demasiado óbvio (não chega aos pés, em talento, mensagem e erudição a um Jorge Luís Borges). Além disso odeia demasiado a Igreja Católica; tanto que passa o tempo a prostrar-se-lhe aos pés. Ensaio sobre a cegueira (filme) é uma obra de arte, um esforço incomparável para retirar das simbolicamente medíocres frases de Saramago um mundo de temores (e se cegássemos todos? por infecção - uma metáfora? o caos! o mundo em ruína - já se vê, cegar não é o mesmo que emudecermos ou ensurdecermos... a imagem resulta francamente bem), mas no meio daquilo tudo (morte, desespero, imagens escatológicas de uma quarentena forçada em que impera a desordem, o nojo, a auto-destruição) sobressai a imagem de uma Julianne Moore, belíssima, alva e nobre. Depois, à força (como Saramago fizera com as palavras), Fernando Meirelles enfia-nos pelos olhos adentro (bonita imagem em contexto próprio) a violência que o texto não deixa sentir tão fortemente: violações em massa, mortes ocasionais e perfeitamente dispensáveis, fezes, gangrena, sangue, fome, etc - como se a própria epidemia de cegueira branca (branco = sufoco) não bastasse. De resto a filmagem com grão, os pretos e brancos contrastantes - cenários de sombra e penumbra - em alguns casos o ecrã quase quase negro (a nossa cegueira) conferem uma certa beleza invulgar ao filme. Se aconselharia a ver? Sim. Não obstante a imagem vendável de destruição de que alimenta a curiosidade mórbida humana vale sempre por deixar algumas consciências ocas a pensar. Não é nem um romance nem filme sobre a cegueira comum, logo nada apologético a quem não vê por patologia (como se pode ver por uma das personagens, cego «de verdade»). É um filme sobre quem não quer ver. Por isso resulta muito bem a imagem medieval associada ao romance "Se puderes olhar, vê. Se podes ver, repara", extraída do Livro de Conselhos de D. Duarte.

31 de agosto de 2008

Filmes imperdíveis: Central do Brasil (1998)

Central do Brasil, Walter Salles, 1998, foto via site oficial.


Não sou daqueles que analisa tudo em função de parâmetros que são, ao mesmo tempo, preconceitos e critérios de quem quer formatar a sua opinião e a dos outros com um certo pedantismo intelectual. Há quem goste só de música clássica (ou se obrigue a gostar) e olhe quem não o faz com um certo ar blasé, como se toda a filosofia se resumisse a um acorde numa pauta de Bach ou de Mozart. Em tudo há filosofia e beleza e existem coisas que podem ser absolutamente perfeitas - ao contrário dos critérios inalcançáveis daqueles para quem o peso dos átomos influi na composição das suas opiniões. Central do Brasil, o filme de Walter Sales, é uma das obras de excelência e perfeição. Acabo de o rever, graças à (ainda) óptima grelha de programação do canal 2. § Partilho, aliás, convosco, no meu perfil, uma mão pequena de filmes que marcaram a minha vida e o meu gosto pessoal - de uma forma ou de outra (através da fotografia, do argumento, da representação ou da soma de todos), mas poucos, ou nenhum mesmo, conseguiu-me tocar-me como Central do Brasil. § A história dos caminhos cruzados entre pessoas solitárias em lugares tão movimentados como uma estação ferroviária, ou uma romaria em pleno sertão, leva-nos a meditar sobre sentimentos com os quais nos confrontamos todos os dias: ódio, amor, amizade, saudade. Nada mais banal, portanto? Puro engano. Colocar frente a frente um menino órfão, que tudo faz para acreditar que a mãe não morreu e o pai o espera para uma reunião sonhada e definitiva, e uma velha professora aposentada cujos objectivos se resumem a viver o dia-a-dia, recusando a encarar um passado tão semelhante ao presente daquela criança, revela-se a maior catarse e o maior lenitivo do espectador. Quem nunca sentiu a solidão na forma de uma presença adiada? Quem nunca perdeu - não na realidade física da morte, mas da distância ou da mágoa - o pai ou a mãe, ou alguém que, num simples momento, nunca mais pode recuperar? § À medida que o filme avança vamos caminhando com eles, entre os comboios que atormentam a vida de Dora (Fernanda Montenegro) - que o pai, ausente, mulherengo e alcoólico conduzia - até aos autocarros moribundos (a Estrela do Norte!) que percorrem estradas infindáveis em pó do sertão brasileiro, onde a solidão tem nomes e rostos. E fala, porém não escreve. Fá-lo então Dora, «escrevedora de cartas», que, mera intermédia de desejos, os regista para depois os guardar ou destruir, sem que o destinatário (que não o Santo, pois a esse o agradecimento pela promessa cumprida faz-se sempre pela felicidade da fé) os receba em tinta e papel - o que seria um paradoxo, uma vez que seria analfabeto como o remetente. Aliás, todo o filme é um tratado filosófico sobre o registo, o testemunho, a veracidade; primeiro através da escrita, depois pela fotografia, que tanto Dora como Josué partilharão como a única lembrança um do outro. No final, quando Dora deixa Josué entregue, não a um pai e a uma mãe, mas aos irmãos, também eles constituídos em família acima dos laços biológicos (mas afectivos), o caminho é o regresso a ela mesma, depois de cumprida a aceitação interior dos fantasmas sobre carris. § Não é, como em Cidade de Deus (Fernando Meirelles, 2002), ou nas novelas que nos impingem todos os dias, um Brasil violento, agressivo, repleto dos estereótipos do costume. É certo que não podia afastar-se muito de uma linha condutora que o mundo ibérico traçou nos trópicos, mas podia passar-se em Portugal, ou em Espanha (e nesse aspecto é impossível não pensar em certos filmes de Almodôvar). É antes, um interior geográfico estranho, que vive à margem das convenções, onde a vida e as relações sociais não são fáceis de encaixar em casas todas iguais, em povoados imensos, sem água nem luz. Central do Brasil é um filme sobre coragem e sobre afectividade - condições que hoje (como sempre?) fizeram laços e construiram pontes entre nós e os outros, algumas mais seguras dos que as ditadas pela consanguinidade. Acima de todas as convenções. § É impossível não deixar de acompanhar Fernanda Montenegro nos momentos finais, que aqui vos deixo como sugestão para um filme imperdível: