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23 de maio de 2017

A Tirania das Redes Sociais

Só quem nunca teve o hábito de ler jornais pode pensar que nas suas páginas se não mente, se não deturpa, se não manipula. A História da Imprensa é uma história de guerrilha, de polémica, de política, de escândalo. Só quem nunca leu Camilo Castelo Branco não sabe que uma das suas primeiras obras foi a reinterpretação da notícia de um crime: «Maria, não me mates que sou tua mãe», ideal para promover a literatura entre aqueles que  só liam as parangonas.
Mas, desde que as redes sociais permitem que o que antigamente era escolhido para ser publicado nas «Cartas ao Director» seja hoje amplamente difundido, passamos de um 4.º poder, para uma tirania de muitos poderes ou, se quisermos, a ascensão de uma 5ª coluna de comentadores, para quem tudo deve ser discutido.
Vem isto a propósito da recente polémica sobre o teor das notícia do Correio da Manhã, jornal e televisão reconhecidos pelo uso de uma violenta estratégia de comunicação em que o importa é espicaçar o voyeurismo dos leitores ante notícias de crimes, boatos ou escândalos morais e sociais. A estratégia funciona, porque se baseia na manipulação de desejos básicos da humanidade, como o sexo. Mas o mesmo canal usado para estimular a observação e a escrutinação do Outro - patologia largamente acalentada pelo Facebook - tornou-se veículo de moralização da Imprensa.
Moralizar a Imprensa é como acreditar em unicórnios. Basta colar um chifre no focinho de um cavalo. Mais tarde ou mais cedo o chifre cai.
O recente caso da publicação de um vídeo de suposta agressão sexual, resultou num coro de crítica da massa facebookiana, acicatada pelos autores da página Truques da Imprensa Portuguesa, coletivo de anónimos justiceiros que pretendem desinfectar o universo mediático português.
A  campanha aumentou de som e perante isso eu, que nem jornalista, sou, resolvi tomar as dores da classe e contactar o Conselho Deontológico do Sindicato dos Jornalistas:

Exm.ºs Senhores
Tenho assistido à evolução dos conteúdos veiculados numa página de Facebook intitulada Truques da Imprensa Portuguesa.
A página, gerida anonimamente, vem constantemente apresentando aquilo que considera ser casos de violação do código deontológico e da ética jornalística, fazendo, assertivamente, acusações e críticas, não poucas vezes sem qualquer respeito pelos intervenientes (sejam os jornalistas directamente visados ou indivíduos de alguma forma associados aos casos «denunciados»).
O anónimo ou colectivo de anónimos que gere a página ufana-se de se substituir às entidades competentes, nomeadamente a ERC e o Conselho deontológico, a que agora me dirijo.
Numa última postagem e vídeo , o autor ou autores, fazendo valer-se do apoio massivo que têm estimulado, sugerem um boicote ao grupo CMTV e CM invocando a ideia de «decência». O tom do vídeo e da mensagem sugere uma espécie de incitamento à violência contra os próprios jornalista ou, pelo menos, um claro apoio à obstrução pública ao seu trabalho.
Como cidadão interessado, sempre crítico com o meu direito à informação e até à não-informação, não posso deixar de deixar aqui o meu protesto.
Se é certo que o jornal, o canal de televisão e os jornalistas em causa têm prestado, quanto a mim, um mau serviço profissional e ético, menos compreendo que um anónimo ou um punhado deles, use de forma cobarde, a incognicidade para alimentar ódio contra-corporativos. E se estes ódios se fundamentam em razões que vão além da informação de qualidade, como parece ser o caso dada a frequência de ataques ciúrgicos a determinados órgãos, temas e jornalistas, mais ainda devo manifestar o meu repúdio.

A resposta não podia ser mais clara:

"A questão que coloca não é assunto que caiba nas competências do CDSJ."

Com jornalistas assim, não se pode pedir muito.

9 de setembro de 2012

Sexo, sangue e futebol.

A RTP nunca foi uma estação de televisão para serviço público. Pelo menos até à abertura do mercado a outros canais, SIC e TVI. A partir dessa data, a RTP começou a prestar o tal serviço público, procurando incluir na sua grelha o que agrada à maioria dos telespectadores: sexo, sangue  e futebol (embora neste último caso já o fizesse com algum brio). É engraçado como a maioria dos comentadores, de esquerda, que aprecia ópera, uns filmes franceses e dissertações literárias em horário nobre acha que de repente a privatização ou concessão da RTP significa o fim do serviço público. Essa irrealidade chamada serviço público é servir bifanas em vez de filet mignon. Só quem vive num aquário de idealismo e ideologia é que não o vê.

4 de agosto de 2012

É óbvio, porque é Siza.

Cada vez me convenço mais que a blogosfera provoca acefalias graves. Como em relação à Casa de Chá da Boa Nova, ao que parece abandonada em Leça da Palmeira. Ninguém discute o projecto em si, que sempre me pareceu um bocado de cimento engastado entre penedos, numa arrumação pouco diferente das casas dos índios da meia praia cantadas por Zeca Afonso. É óbvio, porque é Siza. Ali perto a ermida da Boa Nova sucumbe aos poucos, mas ninguém liga. Provavelmente muito pouco saberão que a magia do local não é o projecto amarfanhado do Siza, mas os versos de António Nobre. Esses, pelo menos, não precisam de concursos públicos para existir. Felizmente.

22 de julho de 2012

Obituário laudatório.

Alguém como José Hermano Saraiva nunca poderia deixar este mundo sem ser notado. É um caso de amor-ódio. Ninguém lhe retira o mérito de educador ou comunicador. Mas é incontestável a sua ligação a Salazar e ao Estado Novo, que ele defendeu com uma sinceridade notória, na última entrevista perante a jornalista Fátima Campos Ferreira. Ora, quando o escudam, com unhas e dentes, fazendo-lhe desmesuradas vénias à entrada no Hades, como o João Gonçalves ou o Pinho Cardão (aqui e aqui), a coisa toma contornos desmesurados.
Lá pela Academia de História o incluir entre os seus pares, isso não faz (bem pelo contrário) o historiador que querem que ele seja. E isto só prova como aqueles e outros autores, comentadores encartados, sabem pela rama. Porque o não elogiam pelo que realmente era: homem culto e camonista encartado? Talvez porque em Portugal, o país onde Camões morreu de fome todos encham a barriga de Camões, como escreveu Almada Negreiros. A elite nacional é um misto de nada e de coisa nenhuma, como os sociólogos chamados à pressa ao estúdio de televisão para comentar um evento de massas.
De facto tresanda a bajulação servil aquilo que hostes de escrevedores - da direita à esquerda - têm feito ao falecido José Hermano Saraiva. Não partilho da choraminguice laudatória e há anos que movo esforços para explicar aos meus alunos o que é escrever história e o que é contá-la frente a uma câmara. Que Hermano Saraiva fosse um simpático ancião contador de estórias, nada contra. Mas, vamos ser realistas: aquilo que José Hermano Saraiva fazia era algo que dezenas de investigadores fizeram durante o Estado Novo: num imenso país marcado pelo pitoresco, pelo rural e pelo folclore, constituído por um auditório analfabeto ou iletrado, chamar a atenção só podia ser pelo sentimento, que a razão dificilmente assiste a esta gente. Curioso como certas elites se deixaram envolver por aquele discurso inócuo, cheio de clichés, de linguagem fácil e fluente. E afirmam que ele criou o gosto pela história! Bem pelo contrário: a História continua a ser aborrecida, cronologicamente aborrecida e inútil. O que é interessante e apelativo é saber como a padeira de Aljubarrota enfornou espanhóis, ou D. Pedro, "aqui mesmo, neste local", arrancou o coração a um dos algozes de Inês de Castro (e o espectador imagina o sangue em golfadas).
Depois, perdoem-me se pareço intolerante, mas um homem que diz abertamente que o doutor Salazar" era um "santo", ou que a polícia política foi uma ténue ilusão é ir atrás de um negacionista que através do seu carisma contribui para a já massiva adesão à supressão da democracia. E, desculpem-me mais uma vez, mas no que toca a este ponto não abro mau da minha inflexibilidade. Porque há muito tempo compreendi que o carácter de um indivíduo não é só a imagem que ele nos impinge pelo ecrã da televisão. Se aceitarmos esta premissa, então temos a porta aberta para aceitarmos que, mais tarde ou mais cedo, nos calem e amordacem. Se já nos não calaram...

P.S. entretanto, J.H.S. deixa um sucessor.

27 de maio de 2012

Morte em efígie.



Em Castro Daire, uma criança deu livre expressão à sua imaginação rebelde: enforcou o primeiro-ministro numa árvore na praça principal da vila. Como o "espantalho" era feito em materiais reciclados e porque resultava da fértil imaginação do petiz, chamou-se àquilo arte. Os tiranetes do costume mandaram (ou, segundo alguns, aconselharam) retirar a efígie que magoava os sentimentos dos camaradas e, talvez, de um ou outro transeunte. Foi notícia nos telejornais. Até parece que os senhores jornalistas não vivem em Portugal. E talvez não vivam mesmo: com certeza a maioria deles nunca viu uma queima do Judas, resquício de anti-semitismos e satirismo político onde o coitado do Judas e ás vezes uma comadre e um compadre - personificando sempre um paladino do poder local ou nacional - é queimado ou arrebentado sob o olhar atento e risonho do Zé Povinho. É óbvio que a criancinha, na sua prematura tendência para a crítica política abusou do tema que lhe era proposto: o de expressar-se com materiais reciclados. Podia tê-lo feito retratando as abelhinhas, as alegres vacas que pastam nos viçosos campos das margens do rio Paiva. Enforcou o primeiro-ministro e leva, por um lado com a palmadinha nas costas de um professor ressabiado e, por outro, com o lápis azul destes autarcas nascidos sob a égide estado-novista. A criancinha, além de precoce, deve ser sobredotada: inspirou-se com certeza no lixo reciclado e a reciclar chamado Imprensa que todos os dias enforca políticos e cidadãos sem o mínimo senso daquilo de diz e faz. Com pais, professores e autarcas assim pode assacar-se-lhe culpa? Com certeza que não.

22 de fevereiro de 2011

Nova História da Porcaria.


Desde que a Nova História veio estabelecer que na historiografia não há barreiras, que alguns historiadores e estoriadores deixaram de se pôr em bicos dos pés e alegremente deram azo aos seus desejos mais íntimos. O voyeurismo histórico está na moda. Espreitar através dos buracos da fechadura é o único método e o único alívio para estes onanistas da cronologia. Mesmo que não interesse absolutamente nada saber a cor ou o material dos cueiros do Colombo, o número de vezes que o nosso D. João VI comia coxas de frango, se D. Carlota Joaquina se amantizava, ou sequer se Napoleão tinha chatos, estes parecem ser os temas em voga. E ainda que a dimensão do nariz de Cleópatra tenha influído na História Universal, (vá lá, compreende-se a pertinência da contra-factualidade), conhecer os pormenores sórdidos da alcova régia ou presidencial a quem serve? A masturbadores compulsivos que pretendem livrar-se ocasionalmente da lascívia que os apoquenta. A maior parte disto é porcaria. História do Sexo? História do Peido? História do Coito? História Queer? Amantes dos Reis de Portugal? Pormenores escabrosos de teor sexual? O que é isto? Nada, é claro. A maioria dos "investigadores" nem se preocupa em relacionar o tema e o objecto de estudo, no Tempo e no Espaço. Vamos analisar a tal história queer ou homossexual. Primeiro, ambos os termos são contemporâneos e, em segundo lugar, a própria consciência de "ser-se" homossexual é também recente. Como conceber isto aos olhos da medievalidade ou do classicismo? Impossível, dada a escassez de relatos na primeira pessoa e fontes credíveis. É, aliás, impossível traçar uma linha verdadeira e honestamente científica da tal "homossexualidade" desde, vamos supor, a Pré-História até hoje, que não seja pela biologia. Mas para isso não é preciso um historiador que nos venha elencar os homossexuais ou as lésbicas "famosas" desde há milhares de anos. Ou fazer história a partir de boatos, de diz que disse, de murmúrios malfazejos. Porque é disso que se trata, "desmascarar" os famosos nas suas "grandezas ou misérias" e expô-los ao ridículo - o que não deixa de ser curioso, quando a ideia inicial da maioria destes articulistas ou historiadores até será fazer a apologia da tal orientação sexual, supostamente errada ontem e correctíssima (aconselhável, diria mesmo) nos dias de hoje. Os livros ou as reportagens que saem todos os dias sobre estas questões só servem para satisfazer as vendas editoriais, o ego de certos autores e o deleite de alguns leitores, desejosos por trocaram a monótona vida sexual que levam, pela garbosa e debochada vida dos mortos. De resto, como é sabido, jornalistas não escrevem História. Só estorietas. Por isso estes já muita gente não leva a sério. O pior é quando cientistas sociais embarcam nesta brincadeira e sujam as mãos com tanta porcaria...

24 de novembro de 2010

19 de agosto de 2010

Este querido mês de Agosto: notas soltas (2)

Ódio, Igreja e Bispos na I República.
Um artigo a ler para que não se pense, como pensam alguns Católicos, leigos e eclesiásticos, que a I República «libertou» a Igreja. A única que coisa que libertou foi o «Inferno» anti-cerical e odioso que hoje regressa em força, mesmo apesar de alguns bispos o consentirem com o seu beneplácito sobre as Comemorações acintosas do Regime. Sic Transit Gloria Ecclesia.

O gosto pela ignorância.

De como nos dias que correm é preferível explicar às crianças que a cena da luta no topo do Monumento às Guerras Peninsulares representa um jogo de futebol entre o Sporting e o Benfica e não a resistência da Ibéria ao invasor francês. De resto, que interessa saber que a Águia é historicamente um símbolo Imperial, se o resultado é o mesmo quando aplicado a um clube desportivo?

A Maçonaria e a Carbonária
A. Balbino Caldeira faz uma incursão pela análise histórica e documental sobre a participação de grupos secretos no derrube da Monarquia e termina com esta conclusão:

Todavia, os regimes não são, nem têm de ser, a sua génese. A República não é um regime iníquo por ter sido o resultado da insurreição maçónica, nem os novos regimes maus, em si, pela origem ou pelo carácter dos grupos ou indivíduos que promovem as revoluções que os criam ou pelos crimes que no seu processo são cometidos. Na mesma perspectiva, os regimes também não são propriedade dos grupos, ou dos homens, que lideram as revoluções que os constituem: devem ser o produto consolidado da vontade popular. A República e a Democracia, tal como o Estado português, não são propriedade da Maçonaria, nem de nenhuma sociedade secreta ou discreta. Portugal é do povo. Todo.

Concordo. Mas se a República nasceu torta, ainda se não endireitou. Primeiro a República Portuguesa não foi consolidada pela vontade popular. A Primeira foi desastrosa e a Segunda uma negação completa da Liberdade Individual e Colectiva. Referendo nunca houve, nem haverá. E quanto ao facto de a República, a Democracia ou o Estado não serem propriedade de grupelhos secretos, não posso concordar. Basta olhar em redor de nós: Justiça, Comunicação Social, etc são geridos por homens e por grupos. Com interesses. Neste caso e cada vez mais o todo é de partes.

A obra gloriosa, bla bla bla da República.

Nesta estória da República, em ano de bambochatas, todos têm algo a dizer e a opinar. Os escaparates estão cheio de novelas, romances, ensaios, reedições, edições vulgares e de luxo. Nunca se escreveu tanto sobre o republicanismo em Portugal. Mas se a maioria vai e vem, existem duas vestais que guardam o fogo sagrado da República Portuguesa no seu coração. São da velha guarda, de pele ressecida, óculo forte e punho cerrado. Não ouso dizer o nome de tais sacerdotisas, mas não posso deixar de louvar-lhes a dedicação. Uma dessas velhas parcas escreve hoje um artigo sobre a qualidade dos chefes suicidas da revolução de Outubro, a outra escreve qualquer coisa amanhã.

A conversa do pobrete e do alegrete
Tristemente hedionda este discurso de Mendes Bota sobre as qualidades popularuchas de Pedro Passos Coelho. Deve ser por isso que o PSD está cada vez mais miserável. Triste sina.

Nota final:
É curioso como os pelos da opinião blogueira se eriçam todos ao mesmo tempo e no mesmo sentido quando surge a grande discussão sobre os escaparates da comunicação social: incêndios, escolas, etc e ninguém pára um bocadinho para pensar que as coisas nem sempre são a preto e branco. Que há incêndios importantes para a renovação de ecossistemas (quando não coloquem a vida de humanos em risco), que há escolas cujo destino é esse, o fecharem por faltam de alunos e por ausência de um planeamento social e urbanístico adequado aos últimos 30 anos. Estou a ser simplista, eu sei. Mas se, em vez de canalizarmos a fúria a quente para os executores, pensarmos um pouco antes, talvez cheguemos a esse estádio que levaria a Humanidade a melhor caminho: o da serenidade.

2 de julho de 2010

O mau serviço da Comunicação Social em Portugal



Não queria acreditar quando vi esta capa. Por momentos pensei que fosse mais uma das inúmeras brincadeiras de montagem que se fazem pelos blogues. Mas é verdade. Foi a última capa do 24 Horas.

O Miguel Marujo, do Cibertertúlias, vem defender o jornal onde trabalhou 1142 dias, comparando o tipo de jornalismo que ali se fazia com o praticado no Público, no Expresso ou no Diário de Notícias. Diz ele que o sensacionalismo não era apanágio do 24 horas e que todos os jornais derrapam para a coscuvilhice e o sensacionalismo. Pois, acredito. E se, em vez de tentar nivelar o 24 horas pelo Público ou pelo Expresso, em vez de tentar comparar o péssimo ao mau, o Miguel Marujo pensasse em elevar os padrões do jornalismo em geral?

Jornalistas mal preparados, pouco profissionais e, sobretudo, desesperados por conseguirem um emprego nestes meandros de exclusividade são às centenas, ou milhares. Resultado: qualquer trabalho, mal pago e sem olhar a questões éticas serve-se frio numa qualquer redacção perto de nós.

O jornalismo é mau, em Portugal. Digo-o como leitor assíduo e como cidadão. Quando pensa que presta serviço público, apenas lança a confusão, rende-se a interesses políticos, mesmo quando julga que o não está a fazer - é o preço da pouca perspicácia e da mediocridade cultural...

E, aliás, acredito piamente que, juntamente com a corrupção, o excessivo peso legislativo e a morosidade da justiça em Portugal, o âmbito tentacular e clientelar dos partidos, o mau e preponderante papel da Comunicação Social em Portugal, são as causas maiores do nosso atraso.

Atraso mental (no sentido de cidadania) e atraso económico, derivados de tantos e tão maus episódios de intromissão dos media na vida pública e privada, sempre com aquela perniciosa desculpa de zelar pelo bem comum....

10 de maio de 2010

A ler:

Entrevista de José Mattoso ao Diário de Notícias (3-4-2010)

[...]
Quando investigou Afonso Henriques, criou a dúvida sobre se o seu nascimento acontecera mesmo em Guimarães ou Viseu.

Não fiz uma investigação pessoal, antes aceitei a tese do historiador Almeida Fernandes e limitei-me a dizer que seria a tese mais segura. No entanto, acabei por concluir que não era tão segura como pensava e considero que é necessário voltar a examinar a questão se ela nos interessar mesmo. Dei essa opinião na biografia sobre Afonso Henriques sem pensar que iria constituir uma base para uma polémica e quando realizaram o congresso invocaram a minha opinião. Parece-me, no entanto, que esta polémica sobre a terra onde o rei nasceu é excessiva, por-que questiono qual é a importância exacta sobre se a terra natal do nascimento do rei é Guimarães ou Viseu? Do ponto de vista histórico, é praticamente nenhum, porque o rei não fez a sua vida em nenhum destes lugares, mas em Coimbra e a partir desta cidade.

Mas foi uma dúvida [o local] que causou bastante polémica.

Concordo, mas não se verifica por razões históricas, mas de rivalidade paroquial entre duas cidades. Diria que é uma espécie de manifestação de incultura histórica.

[...]

Depois de ter sido monge beneditino, como está a sua fé?

Vai bem, obrigado.O mundo assiste a grandes quebras na fé e ao aparecer de outras. São solução para os crentes?Se está a perguntar o que acho da difusão das seitas, ou da influência do pensamento oriental, budista ou islâmico, acho que isso pode provocar em Portugal uma fragmentação quando comparado com a situação de unanimidade que existia antes de 25 de Abril. Mas essa profusão tem aspectos positivos, e um deles, com passos insuficientes mas muito importantes, é o do diálogo entre religiões. Agora, que uma religião proponha aos seus fiéis matar os adversários em nome de Deus é uma blasfémia e um insulto à noção de Deus. A fé verdadeira em Deus é incompatível com a guerra religiosa. É por isso que o trabalho do diálogo entre religiões é importante, até porque as religiões são um factor muito importante para a paz no mundo. Se até aqui foram um factor de luta e de guerra, actualmente é inconcebível devido à própria base da religião que afirma que Deus não pode matar ou mandar matar por razão nenhuma.[...]

O resto, aqui.

1 de março de 2010

Citações #2

«People who believe in the great benefits to having a non -political monarch as our Head of State do not have a certain look or certain political affiliations, they are a diverse bunch.

For the media, however, everyone can, and must, be stereotyped. Monarchists are, to the media, folks who see themselves as part of the aristocracy, drive a Bentley and talk with a plum in their mouths, yet the main vote against a republic in 1999 came from the blue collar Labor electorates! With such a diverse bunch of people supporting the Constitutional Monarchy, a few might fit the media stereotype but that is a very long way from the reality.»*

* As pessoas que acreditam no enorme benefício de ter um monarca não-político como Chefe de Estado não tem visões iguais, ou filiações políticas semelhantes - eles são um grupo diverso.

Para a comunicação social, no entanto, todos podem, e devem, ser estereotipados. Monárquicos são, para a comunicação social, pessoas que se vêem como parte da aristocracia, que conduzem um Bentley e conversam com uma ameixa na boca, mas a votação principal contra a república em 1999 [na Austrália] veio do eleitorado Trabalhista de colarinho azul! Com um grupo tão diverso de pessoas que apoiam a Monarquia Constitucional, algumas podem encaixar-se no estereótipo dos media, mas que está muito longe da realidade.
»

A ler aqui.

26 de outubro de 2009

Síndrome da Bipolaridade Induzida pela Comunicação Social (SBICS)

Há um clima de histeria contida, quando se fala na vacinação contra a Gripe A. Quem é vacinado e quem não é, quem quer ser e quem não quer. Parecem os dias do fim, descritos pelo Apocalipse. Só que paradoxalmente todos querem ter a marca da Besta e os que a não recebem serão lançados no lago de fogo. A Comunicação Social dá uma ajuda neste vai-e-vem de lucidez e loucura. Como na história daquela senhora violentamente agredida numa Marco de Canaveses que há uns meses os media descreveram como um crime horrendo e odioso e hoje desmentem apresentando a verdade dos factos: a vítima fora o  seu próprio carrasco. Vivemos numa sinistra balança que nos embala os dias e as noites. Ora somos injectados com euforia, ou tratados para a depressão. Vivemos numa constante bipolaridade induzida.

4 de julho de 2009

Um post em dois tempos e meio.

I

Não é por falta de tempo. É por falta de interesse. Este monólogo, umas vezes catártico, outras exercício exorcista, pouco mais alimenta que a necessidade de desenvolver temas que acabam por morrer na praia. Não sou comentador, ou seja, não corro a comentar notícias, nem a alimentar especulações de polémicas frescas. Aliás, se o fosse não teria mãos a medir, tal a torrente, tal a catadupa de casos caricatos ou situações bizarras que este país produz diariamente. Sempre fui um free-lancer, auto-didacta orgulhoso que tem o gosto de mostrar a quem mais gosto aquilo de que gosto. Por isso  o Obliviário não aparece entre os primeiros nas estatísticas, nem nos recortes blogosféricos dos jornais. Mas é bom. É bom conquistar um lugar discreto, quase um cantinho aconchegante neste mundo estranho e às vezes distante que é a internet. 

II

O que é democracia? - pergunto aos meus alunos. Eles dizem-me que é algo teórico e eu tento convencê-los do contrário. Mas contradigo-me e sinto-o ao seguir atentamente a política portuguesa. Os movimentos de bastidor, os negócios, os subterfúgios, as mentiras. Fala-se em qualidade de democracia e imputa-se aos políticos uma melhoria da mesma, mas esquecem-se do essencial: os cidadãos, a base de uma pirâmide que não se sustenta sem cultura e sem educação. Para mim a democracia pode melhorar se melhorar o sentido de ética, que falta aos jornalistas, que falta aos funcionários e a todos que partilham uma responsabilidade colectiva no dia-a-dia. Aliás, a comunicação social atiça o incêndio da discussão, mas talvez seja ela própria o incendiário e a chama inicial. Como Quarto Poder, (em alguns casos, Poder Único) modela a consciência dos menos afortunados pelo interesse e pela crítica. Como a maioria dos universitários, pouco criativos, menos ainda conscientes e cada vez mais dependentes do oportunismo, os jornalistas são, na sua maioria, medíocres e pouco exigentes. Os restantes, politizados, vão segurando o bastão do poder e manejando esta gente amorfa. Sim, foi o gesto de Manuel Pinho que decidiu a sua própria fortuna, mas é a imagem moldada pela comunicação social que torna o facto mais ou menos relevante. A responsabilidade da democracia deve ser repartida por todos. Ela não é dos políticos, nem dos jornalistas. É nossa.

Uma nota: o facebook e o twitter são as ferramentas do momento e permitem criar espaços mais intimistas de troca de ideias. É um dos motivos pelo qual o Obliviário tem estado mais silencioso e vazio. Não obstante o facto de ter já comentado quer num quer noutro a morte de Michael Jackson não posso deixar de acrescentar algumas linhas a este respeito. Li, num tópico da internet, uma frase grosseira, "proferida" num tom irónico por um psicólogo (!) que dizia "gostar muito de Carlos Cruz mas que este não chegava aos calcanhares de Michael Jackson". É óbvio que a afirmação, um tanto ou quanto rude (e irresponsável, se pensarmos que foi proferida por um cientista) apelava para o facto de ambos serem acusados de crimes semelhantes, relacionados com o abuso sexual de menores. Cá está um exemplo de como, em Portugal, tudo passa pelos media: a política, a cidadania, a democracia, a justiça, começa e esgota-se nos jornais e na televisão. O processo Casa Pia ainda não terminou e já há culpados. É-se acusado, julgado e condenado virtualmente; partidos sobem e descem por estatísticas que, se não são manipuladas, são-o com certeza tendenciosas e aplicadas no "momento certo". Enfim, Michael Jackson, que mais do que ninguém beneficiou da imagem e da sua manipulação, viveu sob o pêndulo dos media. Foi glorificado e crucificado e, na morte, reabilitado a ícone maior. A pedofilia (crime pelo qual não chegou a ser condenado) é um delito abominável. Mas as suas supostas vítimas, como as supostas vítimas de Carlos Cruz, ficarão para sempre anónimas. Esta é a hipocrisia  ou a realidade do mundo em que vivemos. Não podemos combater a biologia humana, mas podemos crescer em crítica e valores. E isso é que é importante. As grandes coisas só são grandes se lhes dermos importância.

17 de janeiro de 2009

A ocidente nada de novo.

Caíram, como zangões num ataque eminente, sobre o Cardeal Patriarca de Lisboa a propósito das declarações que proferiu no Casino da Figueira da Foz. Efectivamente, o que ele disse foi claramente descontextualizado pela Comunicação Social que aproveitou para atear o rastilho. Falar no Islão, hoje em dia, como todos sabemos, é provocar reacções desesperadas e esquizofrénicas, de tal forma que a banalidade de toda a intervenção ocasionou um chorrilho de notícias estrangeiras (cf. aqui). O José Adelino Maltez, refugiando-se no seu jacobinismo, aponta mais o rídiculo do que propriamente a gravidade dos ditos, algo que eu gostaria de sublinhar. Há muito que um certo sentido do decoro se perdeu em alguns sectores da Igreja Católica. Padres que esquecem a obediência ao antístite, bispos pouco "iluminados" e, pelo meio, leigos mais ou menos deseperados por ocupar o lugar de destaque da paróquia ou da diocese fazendo tudo para lá chegar. Este é o estado da arte na ICP. Excluídas Lisboa, Porto ou Braga, as outras dioceses são incapazes de catalisar ou congregar elites culturais e de pensamento social. Por isso fiquei chocado com as declarações, por virem de quem vieram. Não fiquei indignado, como os falsos moralistas da praça que vieram pedir a cabeça do Cardeal Patriarca - pretenso arauto de novas Cruzadas -, mas tão-só, e apenas, indignado. § Como é possível que alguém se apresse a criticar as afirmações de D. José Policarpo, mas viva alegremente com a consciência de milhares de mulheres silenciadas, escondidas atrás de panos e paredes apenas por caprichos masculinos que buscam num deus a desculpa para a sua apetência sem limites? É óbvio que embora impulsivas e impensadas, as declarações do Cardeal têm a sua razão e são, na generalidade, verdadeiras. Não estava na conferência e não assisti em que contexto foram proferidas, limito-me a analisar o que a imprensa me deixa analisar. A plateia riu várias vezes com os tais comentários - o riso é uma forma de escape e conivência. Mais graves foram os comentários sobre a homossexualidade (onde se viu um D. José atrapalhado e pouco à vontade) e quanto a isso muito pouco se disse - nisto está a distância e a importância aos, e de conteúdos. A comunicação social não se pauta por cumprir uma função de interesse público, se não a lógica de políticas empresariais e ideológicas. E quando os ventos correm de feição a jacobinismos primários, a Igreja é sempre o primeiro alvo a abater. § P.S. Não me cabe defender a instituição-Igreja. Sabe Deus (fina ironia) a pouca consideração que alguns homens da Igreja terão por mim e pelo meu trabalho. Mas não há dúvida que o grande passo a dar não é modernizar o aparelho, se não cultivar os homens que o regem. Foi assim que se fizeram grandes, doutos e proventura santos, Agostinho de Hipona e Teresa de Ávila. Eles e outros são o exemplo de abnegação, tolerância, interculturidade e todos os palavrões compostos que hoje se usam para justificar uniões precárias entre mundos diversos.

17 de junho de 2008

Isto é notícia?

(C) foto via flickr Miguel A. Lopes "Migufu"


Vou ser sincero - como, de resto, sempre gosto de o ser. § Nunca tive grande consideração pelo Jornal de Notícias. Pronto. Não me peçam para por paninhos quentes. Ou se gosta ou não. E eu, no caso deste jornal, sempre torci o nariz: raramente passo os olhos pelas suas páginas e muito raramente o compro. Mas claro, há muito boa gente que o faz e política editorial e lucros, cada um toma os que quer. Meus caros, o que nós vemos mais no dia-a-dia da comunicação social é lixo e, perdoe-me a classe, maus jornalistas e maus profissionais. Sim, porque quem escreve e autoriza a publicação de noticías como esta


deve precisar mesmo muito de trabalhar ou tem um chefe editorial com uma visão muito curta, (ou as duas coisas). § Sim, bem sei, dirão vocês: mas «notícias» destas é que o povo gosta. Se o povo gosta, o chefe escolhe e logo o povo delira. Não é bem assim. Aqui para nós que ninguém nos ouve: mais de metade das escolhas políticas deste país são ditadas pelo 4.º poder. Se os jornalistas, que o detêm, começassem por dar o exemplo, abolindo dos jornais estas piroseiras desnecessárias (para isso existe a Caras, a Nova Gente e a Tertúlia Cor-de-rosa), podiam contribuir para a educação das pessoas deste país. A quem interessa verdadeiramente que o Cristiano Ronaldo tenha recebido uma pulseira ou a Nereida não-sei-das-quantas tenha feito uma tatuagem?? § Eu não vou dizer como alguns reformados que eu encontro por aqui pelo Porto a vociferar que este país precisava de um novo Salazar (que de salazarinhos já estamos bem servidos), mas não tenho qualquer problema em dizer, como Almada Negreiros que o problema de Portugal são os portugueses. Não é possível colonizar esta terra com suecos ou noruegueses? Ah o multiculturalismo! Venha ele, para ver se nos livramos desta raça!