Depois de uma carta e dois emeiles resolvi telefonar ao presidente de junta de uma freguesia ribeirinha da região do Douro. Indagando-o sobre o assunto veiculado na carta e nos emeiles enviados há meses, respondeu-me que a junta não estava disponível para anuir ao requisitado. Agradeci e fiz notar que bastava uma linha para responder por carta ou emeile o que acabara de proferir via telefone. Fez-se agressivo e disse que não era funcionário público e que a junta em causa não era como as das freguesias urbanas, sarcasticamente fazendo notar que eu devia estar mal habituado (ao atendimento célere a que tenho direito, suponho?) O país está repleto destas criaturas iletradas e prepotentes. É óbvio que não é a régua e esquadro dos técnicos geógrafos que transformará o país num lugar melhor onde o Estado se faça representar convenientemente por representantes à altura de um país do século XXI. Mas convenhamos: um imbecil a menos é uma ajuda muito grande. Se reduzirmos o número de imbecis em centenas, só ganharemos com isso.
Mostrar mensagens com a etiqueta Cinfães. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Cinfães. Mostrar todas as mensagens
24 de junho de 2012
25 de setembro de 2011
A doença do igualitarismo
já chegou a Cinfães. Ao que parece nas escolas primárias do concelho reinstituiu-se o uso de bata para não haver pruridos de classe entre as crianças. Era, pelo menos, essa a justificação de uma professora e do director do agrupamento. Com batas não haverá distinção de classe (nem género). Apenas crianças a brincar alegremente num mundo sem barreiras sociais.
Não sei se ria, se chore. Parece uma fábula bolchevique mal contada.
Se me dissessem que a bata era indumentária útil, para não sujar a pouca roupa disponível que algumas crianças têm, a notícia passaria despercebida, tudo bem. Mas justificar com a diferença ou o estatuto social, não só é de uma imbecilidade atroz, como revela uma miopia ideológica há muito fora de moda.
Se o que querem é arrumar a pobreza para debaixo da bata, vão ter que arranjar muitos pares delas.
E se querem uniformizar as crianças à condição de indivíduo totalmente asséptico e não diferençável, sugiro que comprem uma daquelas máscaras brancas que os anónimos usam nos programas da tarde. Assim esconderão também as crianças menos bonitas.
20 de outubro de 2010
Conversa de táxi.
Na viagem de táxi de estação até à vila, a conversa do costume: que as cunhas dominam no já escasso mercado local de emprego; que o executivo municipal, de uma forma ou de outra, premeia e pune os que são (ou fingem ser) da sua cor política ou os que, pelo contrário (poucos) teimam em remar contra a corrente. Por outro lado, que há quem não queira trabalhar, que se passeie ao domingo com a melhor roupinha da semana, que frequente sítios públicos para afirmar estatuto que não possui e gastar dinheiro que não tem. Vim o caminho todo a ouvir esta conversa politicamente incorrecta. O género de afirmações que, em Lisboa, os tecno-socratas negariam, benzendo-se três vezes. A bem ver, no interior a crise nunca deixou de existir, pelo simples facto de que, aqui, nunca deixou de haver crise. É um modo de vida, perfeitamente ajustado às comunidades que se habituaram a viver com pouco, fingindo muito.
16 de outubro de 2009

Nasceu um novo blogue/portal. Chama-se "História de Cinfães" e destina-se à promoção e divulgação de materiais e estudos sobre a História daquele município duriense. Um contributo para, através da internet - espaço privilegiado para a pesquisa dos nossos estudantes, - melhorar o espaço historiográfico local, tão depauperado por estoriadores e comentadores que sabem sempre mais sobre a estória da sua terra, mas muito pouco de História. E porque a História não é exclusiva é quase um dever partilhá-la e discuti-la. Porque conhecer o passado não é um favor que se faz à educação e ao conhecimento ou à cultura, mas um dever enquanto cidadãos plenos que, seguros do dia de ontem, mais confiantes construirão o amanhã.
17 de setembro de 2009
Em Cinfães, depois de não sei quantas negociatas, e de não sei quantos olhos fechados, e de não sei quantos assobios para o lado, ardeu o chalet do Paço, uma das últimas residências, ainda que temporária, do explorador e africanista, Alexandre Alberto de Serpa Pinto. Desde a sua alienação pela família, nos anos 80, que a casa andava em bolandas e o recheio foi sendo depredado sem dó nem piedade, não obstante o espaço ter sido adquirido pelo Município. Em 20 anos, pensou-se em tudo e não se fez nada. Até que recentemente, o actual executivo, resolveu ceder aquilo por tuta e meia, durante 50 anos, a uma empresa imobiliária que pretende (pretendia?) transformar o local em resort turístico. Tudo nas barbas de quem diz e faz e acontece. Porquê? Porque aqui o dinheiro e os interesses falam sempre mais alto do que as convicções. Entretanto, não muito longe de Cinfães, a Câmara de Sabrosa gastou 2,5 milhões de euros a recuperar um espaço para dinamizar o nome de Miguel Torga.
9 de setembro de 2009
O povo é sereno...
...e pouco ambicioso.
Numa altura em que se fala de caciquismo nas Câmaras Municipais, as quais são efectivamente e cada mais, pólos de concentração de poder ilimitado, esta lápide é o epítome de uma gestão municipal que pouco mudou desde o Estado Novo (embora o modelo seja anterior). Os caminhos rurais, os fontanários e lavadouros, representam o microcosmos das populações dos municípios rurais que aspiram a pouco mais do que um sítio público para lavar e, hoje, um empedrado ou um estradão de terra batida por onde possam levar o seu carro até à porta de casa. Tudo o resto é dispensável. Excepto o folclore, claro.
3 de setembro de 2009
Carta aberta a um amigo leitor.
«A verdade é que já foram mais os que creram e muitos mais os que cumprindo mandamentos e doutrinas não ousavam pôr em causa uma ordem estabelecida pelas Instituições, que servindo-se de um deus qualquer amordaçava as consciências, tornando-as deprimidas, confusas e submissas».
«Tendais como muitas outras localidades plácidas de brandos costumes, embora de forma mais lenta, todas elas sofrerão as marcas de uma evolução que tem como epicentro a "Teoria do Conhecimento"».
Meu caro amigo prof. José Oliveira, muito obrigado pelas palavras que dirigiu ao post "apontamentos sobre uma aldeia da serra". Comecemos pelo princípio, passe a redundância.§ As doutrinas que não ousavam pôr em causa uma ordem estabelecida não morreram, estão aí, com ou sem Igreja Católica. Têm vários nomes: dinheiro, corruptibilidade, ausência de valores, em suma, a biologia humana. Ainda agora mesmo uma televisão nacional sofreu o embate da livre expressão com os ditames de um regime habituado a estratégias censórias. Sem que o Papa ou qualquer padre atirasse com indulgências ou a ameaça de anátemas. Anátema maior, nos dias de hoje, é a ignorância pois através dela se guia o Homem como marioneta presa pelos fios do medo. O caro amigo olhe à sua volta, acha que não há deprimidos, confusos e submissos, não obstante a evidente secularização dos Homens? De quem é a culpa? Da Religião que resta? Não há ateus submissos? Agnósticos deprimidos? A falta de um caminho de transcendência, de espiritualidade tem levado, pelo tal «percurso pesado, incompreendido, inquietante, mas também desafiador», à morte precoce. Lembro Antero de Quental. § Vou-lhe citar Chesterton, que leio presentemente, e cuja obra recomendo (em especial a «Ortodoxia», de onde vou transcrevendo os excertos): «O cristão admite que o universo é variado, admite mesmo que é uma miscelânea; e qualquer homem são sabe que ele próprio é um ser complexo. Eu diria mesmo que um qualquer homem sabe que tem uma parte de animal, uma parte de demónio, uma parte de santo, uma parte de cidadão; mais ainda, um homem que seja de facto são sabe que também tem uma parte de louco. Já o mundo do materialista é totalmente simples e sólido, tal como o louco tem a certeza absoluta de que está são. O materialista tem a certeza de que a história foi, pura e simplesmente, uma cadeia de causas e efeitos (...)». Ora eu nem iria tão longe. Para mim o tal determinismo de que me fala não é discutível, porque é absurdo. Se me disser que a ideia de um Deus é absurda, eu digo-lhe que a ideia de um Determinismo factual é absurda. Mas desejo-me na companhia do deus absurdo. Entre um mundo asséptico, racional - esquizofrénico - modelar, sem riscos nem dimensões ulteriores, quero-me cego e confuso pela imaginação divina. Ao menos morrerei com esperança. «Os materialistas e os loucos nunca têm dúvidas», diz Chesterton e com razão. Mas a pequena história que narrei sobre uma aldeia de Tendais, nada tem a ver com o Determinismo. Os indivíduos que rodopiaram aqui durante três dias seguidos, ouvindo e olhando embasbacados o estouro e o estrajelar do foguetório, têm tanto respeito, conhecimento ou entendimento sobre um Deus (seja ele bom ou autoritário), como sobre ou um certo Determinismo teórico. A sua teoria é a do vinho e da carne enquanto estimulantes físicos dos sentidos apurados pela música retumbante, repetitiva e lúbrica. Mais nada. E nem é esta ausência de cultura, evangelização ou conhecimento que é desoladora. O quadro maior, e triste, que eu constato, é que é uma vantagem, uma honra do hoje, o querer ser ignorante, estímulo dos novos pedagogos, frente a um quadro desvalorativo do empenho, do sacrifício e da recompensa - tudo coisas que o Determinismo dispensa pois está de mãos e pés atados pela corrente do Facto, que tudo inunda, não deixando espaço para a bóia salvífica. Antes existisse nesta aldeia uma seita de deterministas! Seria mais interessante debater com eles a ausência do divino, do que ser obrigado a fugir das suas sonoras teorias báquicas que se bebem aqui a sôfregos goles. § Sem querer cansar, vou terminar citando novamente G. Chesterton: «Ora, a acusação que fazemos contra as principais deduções do materialista - [e ao "nós", junto a minha convicção] - é a de que, bem ou mal, elas lhe destroem gradualmente a humanidade; não me refiro apenas à simpatia, refiro-me à esperança, à coragem, à poesia, ao espírito de iniciativa, a tudo aquilo que é humano. Por exemplo, se pensarmos que o materialismo arrasta os homens para um fatalismo absoluto (como geralmente acontece), é perfeitamente ocioso fingirmos que esta doutrina é, seja em que sentido for, uma força libertadora. É absurdo afirmar que se está a promover imensamente a liberdade, quando a liberdade de pensamento apenas serve para destruir a liberdade de acção (...) Assim, pois, considerado como personagem, o materialista tem os fantásticos contornos da figura do louco. Ambos assumem uma posição que é, simultaneamente, irresponsável e intolerável.»
P.S. A referência ao Prof. José Hermano Saraiva é, creio, uma jovial brincadeira do meu caro amigo, que me fez sorrir. Apesar de reconhecer que o gosto "popular" pelo "antigo" tenha sido espicaçado pelas referências, às vezes ingénuas mas na maioria tolas, daquele senhor Prof., nem a pouca simpatia que nutro pelo senhor (e toda a aura de "determinismo" que dele emana), nem a pouca qualidade científica do seu discurso me levariam a querer tentar um modelo semelhante ao que conduz na televisão. Os meus fracos dotes de oratória matariam de enfado qualquer pobre espectador. E a minúcia que uso como lema conduziria o programa ao fracasso. O dito "provincianismo do interior" só em existe em situações como a que narrei no post anterior. De resto - e tenho podido constatá-lo nas minhas recentes deambulações pela serra de Montemuro - não pode ser qualificado em relação a um cosmopolitismo (que nem sequer existe em Portugal), nem pesado segundo cânones de desenvolvimento que ultrapassem os limites da aldeia. Cada comunidade tem o seu grau de desenvolvimento. Ele não é bom, nem é mau, não é menor, nem maior. E quanto a mim, no meu espírito anti-determinista, o pior é querer avaliar esse grau, ou formatá-lo, que é o que tem acontecido por aqui, por esta pacata e agora (felizmente) serena aldeia da serra.
Aceite os cumprimentos e os agradecimentos pela leitura (sempre atenta) destes pensamentos possíveis,
Pelo autor d'O Obliviário
P.S2: Para além da sugestão supra referida (CHESTERTON, G.K., - Ortodoxia. Aletheia Editores: [Braga], 2008), sugiro ainda a leitura da Encíclica de SS. Bento XVI, Caritas in veritate, que foi recentemente editada em português pelas edições Paulinas.
Aceite os cumprimentos e os agradecimentos pela leitura (sempre atenta) destes pensamentos possíveis,
Pelo autor d'O Obliviário
P.S2: Para além da sugestão supra referida (CHESTERTON, G.K., - Ortodoxia. Aletheia Editores: [Braga], 2008), sugiro ainda a leitura da Encíclica de SS. Bento XVI, Caritas in veritate, que foi recentemente editada em português pelas edições Paulinas.
30 de agosto de 2009
Apontamentos sobre uma aldeia da serra.
Aproxima-se o final do período de Estio "civil" e a aldeia já se vai esvaziando. Escuso-me de referir-lhe o nome, sob pena de cansar a pouca magia que o topónimo ainda acarreta e por respeito a um outro justo que cá vive. Também não adianta escondê-lo, nem fazer segredo disso, todos o sabem, pois não é a primeira vez que escrevo notas à margem da vivência desta povoação. É na freguesia de Tendais, e basta. Aliás, podia bem ser aqui o que narro, ou noutro lugar qualquer, onde a iniquidade e a desmoralização vão abrindo caminho, substituindo velhas noções valorativas por vácuo e frivolidade. A que me refiro? É simples e fácil de descrever. Durante o ano a aldeia repousa sob o manto de uma paz podre. Aqui não há emprego, não há progresso, não há esperança. Os mais jovens vão à escola (cada vez menos escola e mais centro recreativo) e voltam para esperarem sair, um dia, talvez sem regresso à vista; a aldeia como muitas da região não tem as infra-estruturas básicas do mundo dito civilizado, ou seja a água canalizada para todos, o saneamento e as condições básicas de salubridade, que tudo soma com o envelhecimento dos habitantes, o abandono dos campos, a dependência total dos produtos que, podendo cultivar-se aqui, são trazidos de fora. § Os verões, no entanto, são animados. Vem gente de Lisboa, do Porto, de outros lados. Trazem os costumes da cidade e, enquanto cá estão, esses já "enteados da terra", querem a aldeia como o espelho das suas cidades, dos seus subúrbios, dos seus hábitos. Há uns anos reinventaram a festa da padroeira, a Virgem da Livração. Mas para eles, para esses estranhos na própria terra, a espiritualidade não conta. Instalam-se altifalantes no campanário da ermida e, durante três dias, mesmo apesar de poucos dias antes ter falecido uma filha da terra o som estridente e poluente de música "popular" quebra o sossego da aldeia. Para quê? Aparentemente para nada. Ninguém liga aos problemas sociais que os rodeiam durante um mês e, no entanto, os três dias de festas parecem querer congregar as pessoas em volta do adro. Mas este adro, outrora espaço de comunhão é apenas palco de dança. Não há caridade, nem solidariedade, nem empatia pelo próximo. Apenas rodopio, música, comida, bebida, foguetes que estralejam. É a expressão máxima do fútil. A Igreja, a quem cabe a função de esteio moral, colabora. Abre as portas do templo, para a festividade, quando devesse, talvez, abrir os olhos da comunidade para a inutilidade do desperdício, para a compassividade que falta e para a solidariedade que não existe. A aldeia, como todas as povoações dos arredores, está cheia de estradas e estradões que não levam a lado nenhum. Nem ao progresso civilizador, nem ao coração dos Homens. Os daqui, por exemplo, são, em regra, pouco tolerantes e muito pouco respeitadores. Todos fecham os olhos à lei, todos cometem ilegalidades, todos as aceitam naturalmente e praticamente todos as acalentam e estimulam. O lixo é atirado para a propriedade vizinha, casas, garagens, barracos e toda a sorte de estruturas crescem sem licenciamento e sem controlo, derrubes e arranque de árvores alheias são actos comuns. Com os animais que, infelizmente têm o azar de nascer aqui, acontecem as maiores atrocidades, cometidas por gente que desconhece o valor da Vida: tratados ao pontapé, andam esfomeados e cheios de chagas pelos muros, caminhos e campos até alguém os envenenar. Ao fazê-lo, quem o faz, não está a cometer qualquer acto de piedade, está antes a por em marcha um cínico plano de desresponsabilização. Quem não ama os animais, as plantas, o colectivo, não ama o seu semelhante. É mau, é um indigno ser humano. § O Inverno lava algumas chagas, mas não as chagas sociais. Até ao próximo verão ninguém mais quer saber da alguém nem dos "velhos", nem dos "novos" da aldeia. § Acabo de ler a encíclica de Bento XVI "Caritas in veritate". Partilho da preocupação de Sua Santidade: «Sem verdade, sem confiança e amor pelo que é verdadeiro, não há consciência e responsabilidade social, e a actividade social acaba à mercê de interesses privados e lógicas de pode, com efeitos desagregadores na sociedade, sobretudo numa sociedade em vias de globalização, que atravessa momentos difíceis como os actuais» (Caritas in Veritate, Introd., 5). § Ao ver acontecer tais coisas numa aldeia tão pequena como esta, é impossível não temer pelo que se passará no resto do Mundo. Onde está a Caridade, onde está a Verdade que, durante séculos, tem sido apanágio das gentes desta serra?
23 de maio de 2009
Cinfães: o latejo da ancestralidade.
A origem do nome parece ter sido Cynfanes. A vila de Cintiles procederá de nome pessoal, no genitivo Cintilanis ou seja "Cinfilanis villa". A meio da vertente, que se empina do Montemuro ao rio Douro, surge o burgo, ufano dos seus ínclitos horizontes. Com seu ar bucólico, os cheiros campesinos e toda a sua graça campesina, com casas trajando o rio, eiras amedondadas, canastros de tabuado com pés graníticos. Castanheiros a testar a correnteza do espaço.
O terreno é retalhado por minifúndios, em que cada um possuiu o seu campo. Propriedades com a respectiva casa, riais ou menos patriarcal, o que transmite ao concelho uns latejos de ancestralidade. Quase todas as casas estão viradas para o rio Douro, e enquanto umas se apresentam com fachadas nuas, outras carregam, com dignidade os respectivos brasões. Da multiplicidade de casas, quintas e solares, destacam-se: Santa Bárbara (Sequeiro Longo). Casal (Casal de Civliies), Soalheiro (Cidadelhe), Chieira (Teixeiró), Bouças, Bouça, Paço (Travassos), Tintureiros, Fervença (vila de Cintiles), também conhecida por "Paço". Na área da freguesia aparecem topónimos que podem funcionar como interessantes pistas de pesquisa, como Contença, Travassos, Lagarelhos, Pedra Escrita (em Vila Viçosa), Pias (este talvez derivado de sepulturas abertas na rocha e, por ventura, ali existentes). Dos romanos ficaram as vilas de Cidadelhe.
Este texto, extraído do novo site da Câmara Municipal de Cinfães, multiplica-se por páginas e páginas da internet. Por ter sido colocado num espaço oficial, os leitores tomam-no por verdadeiro, e reproduzem-no. Mas não passa de lixo. O mais leigo pode considerá-lo obra literária de um erudito maior. Porém, quem tenha dois dedos de testa ao lê-lo perguntará: que algaraviada é esta? É afinal isto a história de Cinfães, meia dúzia de adjectivos e substantivos ou mal escritos ou mal aplicados: "burgo ufano dos seus ínclitos horizontes?"; "empina?"; "O terreno é retalhado por minifúndios, em que cada um possuiu o seu campo?". Quem é que escreve estas parvoíces? Ao que parece Eistein e a Bíblia teriam concordado numa coisa: o número de estúpidos é infinito. Infelizmente concentram-se mais em alguns lugares do que noutros. § Já era tempo para os governantes de certos municípios compreenderem que o turismo, outrora sustentado por clichés mal alivanhados de sol, praia e paisagem, já não convence o auditório, sedento por cultura e informação concisa, mas educativa. É isso que faz o sucesso de Serralves, que leva milhares de pessoas à feira medieval de Santa Maria da Feira, ou que atrai visitantes ao fluviário de Mora, em pleno alentejo. Agora os "latejos de ancestralidade" assustam até o mais ignorante.
24 de março de 2009
Tendais (ao centro a torre sineira da igreja matriz)
(c) N.R.
Nestes dias, por força do meu ofício, têm passado pelos meus olhos centenas, se não mesmo milhares, de nomes de indivíduos que outrora habitaram casas, lugares, quintas e casais de uma extensa região entre o Porto e Lamego. Nesse percurso de folhas que eu já percorri de comboio tantas vezes, de carro em incontáveis idas e voltas e em pensamento sempre que posso, ocorreu lembrar-me do meu quinto avô, Félix Pereira, que foi enjeitado na roda do Porto por volta de 1730. Calculei esta data a partir do seu casamento que ocorreu na paróquia de Santa Cristina de Tendais a 25 de Janeiro de 1762. Teria, portanto, cerca de 30 anos quando desposou Maria da Mouta, do lugarejo de Vila de Muros. Fui à procura do seu nascimento, crente que, sendo o seu nome pouco comum por terras de Cinfães, o encontraria rapidamente. Os livros da Misericórdia que eu corri durante um dia numa cave bafienta de um arquivo do Porto, foram muito claros quanto à identificação do meu longínquo avô: se Félix era nome raro nas serranias de Tendais, era-o menos no burgo portuense de setecentos. Sem uma pista concreta, apontei o nome de todos os Félix enjeitados na primeira metade do século XVIII aguardando o dia em que o acaso me traga uma pista para resgate da memória do seu nascimento. § Dentre todos os meus avós devidamente identificados, ascendentes legítimos e ilegítimos, fidalgos e plebeus, este é um dos que mais me faz pensar. Muito embora não saiba em que circunstâncias nasceu, nem quem foram os seus pais (muito menos porque foi abandonado à sorte de rodeiras e amas), sempre me perguntei por que razão, tendo ele nascido no Porto, foi terminar os seus dias a Tendais. No século XVIII, porém, a relação entre a zona ribeirinha de Cinfães e o Porto, derivada do florescente tráfego comercial, era mais evidente do que nos dias de hoje. Das margens do Douro escoava-se vinho e sumagre, castanha, carqueja e urze ou carvão feito a partir das raízes deste arbusto. A fluidez do intercâmbio comercial ditava a dinâmica das relações sociais. Não admira, pois, que entre negócios, caminhos de foros e rendas, Félix Pereira, enjeitado da roda do Porto, viesse, por vias travessas, casar com uma senhora de Tendais. E não casou mal. Num universo marginal de filhos ilegítimos, espúrios e (ou) bastardos, engeitados e órfãos, onde o estigma de não pertencer a qualquer estatuto poderia prejudicar a ascensão social, é possível encontrar muitos casos destes, de «bons» casamentos ou matrimónios morganáticos. Maria da Mouta (1742-1809) pertencia à elite da governança municipal de Tendais. Era bisneta de um Capitão-mor e descendia, dentre vários avoengos ilustres, de um tal Francisco Maldonado, por alcunha o castelhano, nobre de Salamanca cuja filha casou em Portugal. Teria sido o casamento de Félix e Maria um casamento de amor? É provável. Seja como for, Félix Pereira devia ser homem aplicado na gestão do seu património e do da sua mulher. Em três gerações os « Pereira Félix» tornaram-se maiores proprietários em Tendais, consorciando os seus filhos com «boa gente» do concelho. E «regressaram» ao Porto: um neto, José Pereira Félix, casou com Augusta de Sousa, cuja filha Vitória Augusta de Adelaide e Sousa fundou o Café Brasil, no Passeio de São Lázaro, frequentado, primeiro pela burguesia oriental da cidade e depois por republicanos e resistentes à ditadura de Salazar. O tio materno desta fora um dos Abades de Miragaia. O café passou ao sobrinho Tibúrcio de Resende e Sousa, inflamado republicano que renegara os costados paternos, repleto de miguelistas e morgados conservadores. § Ainda conheci a sua filha, prima direita do meu avô, estimada escritora e poetisa, que muito contribuiu para que pudesse conhecer estas ligações familiares tantas vezes ocultas nos documentos e pelas fotografias. § Onde o meu quinto avô me levou....as nossas memórias nem sempre se perdem por caminhos que conhecemos, mas por outros que desejamos conhecer. É por isto que gosto da genealogia, pelo seu lado humano e dinâmico do conhecimento de nós próprios e de quem nos rodeia.
1 de novembro de 2008
A minha terra é melhor do que a da minha vizinha (I).
As Câmaras Municipais são, como todos nós sabemos, pequenos universos onde astros gravitam em redor de micro-poderes, servindo como placa giratória de todo o tipo de favores e clientelismos. Eu sou já muito complacente com estas coisas de tanto me encherem a cabeça com expressões como "tens que fazer o jogo", "estamos em Portugal", a "cunha é património nacional", "já não há remédio", etc, etc. Contudo, a jogar por jogar, ao menos joguemos a capital e não a feijões. § Está certo que o uso da "cunha" para aceder a um lugar numa Câmara municipal significa menos um desempregado, o que é bom e cumpre o requisito dos 150000 mil novos empregos prometidos pelo nosso Sócrates. Mas cada apaniguado destes devia receber um manual de instruções à entrada do seu novo gabinete que, para além do itinerário mais rápido para o café mais próximo, incluiria esta regra: delegue. Isso mesmo, delegar - devia ser o 1º mandamento do funcionário público. Porque - está visto - quem faz a carreira pela via da "cunha", deve perceber muito pouco do ofício. Muito de relações interpessoais, com certeza - mas pouquíssimo ou praticamente nada de tudo o resto. § Delegar é importante para todos. Primeiro confere ao apaniguado a impressão de pertencer a um estatuto superior, - apenas destinado aos que mandam - e depois porque serve para que os trabalhos sejam distribuídos por indivíduos mais competentes mas que nunca chegaram a lugares de chefia por serem completos falhados nas ditas relações interpessoais ou na aplicação dos pressupostos metodológicos da cunha. E é aqui que entra o tal "capital" a que me referia atrás. Não se trata de dinheiro, mas tão-só de imaginação. O nosso funcionalismo público é cinzentão, mortiço, rabugento e indolente, naturalmente derivado da pouca vontade em empreender, em querer mais do que a rotina do pica-o-ponto. Falta-lhe em imaginação o que lhe sobra em estratégias de promoção pessoal ou política. Mircea Elíade refere que "ter imaginação - tanto para um indivíduo, como para um povo - é gozar de uma riqueza interior, de um fluxo ininterrupto e espontâneo de imagens" (ELIADE, Mircea, Imagens e Símbolos. São Paulo: Martins Fontes, 2002, p. 16) - num mundo em que fluxo tende a secar (em Portugal já quase não existe) o capital de pensamento e de acções vai definhando e, consequentemente, arrastando consigo os indivíduos para crises (como a que atravessamos agora). Se os indivíduos medíocres que abundam nos recursos humanos nas nossas câmaras e dos gabinetes de Lisboa ao menos delegassem, talvez se salvasse a honra do convento. Mas andamos a atirar fora a água do banho junto com o bebé. § Dou-vos como exemplo o vídeo acima. É um daqueles panegíricos nos quais os municípios investem, não tanto para promoção turística do concelho, mas para glorificação dos partidos e dos homens, onde o discurso alterna entre as tradições, o folclore e os monumentos. Este monólogo é tão pobre, tão fraco e pouco imaginativo que bem pode ser uma prova da decadência da Civilização tal qual a conhecemos.
26 de outubro de 2008
O espírito associativo? (I)
Diz a máxima clássica que o sol quando nasce, é para todos (embora saibamos que, na prática, não é bem assim). E as associações, quando se constituem, para quem se constituem? Bom, cada vez menos uma associação parece ser sinónimo de união, ou porque é fruto de orientações menos cuidadas, em que o objecto social não é pensado e pesado convenientemente para acudir a problemas emergentes ou prementes, ou porque se revela tantas vezes uma simples desculpa para a ascensão social, política e académica deste ou aquele indivíduo. Não obstante, participo e sempre participei no movimento associativo, convicto da sua utilidade social. Com 16 anos apenas fundei uma associação para a defesa do património numa freguesia de Cinfães, numa época em que este concelho despertava (alguma vez despertou?) para a importância da cultura, do ambiente e do património no desenvolvimento local. Depois, já durante a universidade pugnei por estar sempre envolvido, quer individual, quer conjuntamente, na «luta» (não confundir a expressão com clichés do movimento marxista, pf.) pela preservação de ideias, valores, etc. Quem sabe do que falo, sabe que falo de chatices. Sim, verdadeiros aborrecimentos porque passamos demasiado tempo a ocuparmo-nos com questões a que todos dizem respeito, mas das quais ninguém quer saber ou porque mesmo estes, - os que não querem saber -, fazem tudo para que quem faz, enfrente todo o tipo de barreiras - a tradicional postura do cidadão português face à iniciativa do «outro». Em suma, nestes anos todo de participação no movimento associativo só me trouxe dissabores. Se valeu a pena? Valeu. Em todos os aspectos: pela aprendizagem no relacionamento interpessoal, pelo fortalecimento de percepções e dinâmicas, pelo ganho obtido no conhecimento de técnicas e estratégias. E falo em estratégias propositadamente pois tenho uma amiga (a quem daqui envio o meu abraço) que abomina "estratégias", com tudo o que de pior envolve esta palavra: maquinações, conjuras, tramas. Mas, cara amiga, o que me aborrece verdadeiramente não é a estratégia em si, sinónimo de percursos que conduziram o organismos unicelular da sopa primordial até à criatura complexa que somos; o que me encanita verdadeiramente é uso da estratégia para a prossecução de determinados fins que impliquem a destruição de segundos e terceiros.
2 de julho de 2008
Maus ventos: a energia eólica e a serra de Montemuro.
Gradiente paciência, Tendais, Cinfães (c) N.R., 2007
Ouvi há dias o discurso de um presidente de câmara, sobre as desvantagens da construção das torres eólicas. Que a sua necessidade era indiscutível, claro, num mundo preso aos malefícios do petróleo, mas que se os ditos aerogeradores pudessem ser instalados nas serras sem que a paisagem fosse arroteada por aqueles moinhos de vento diabólicos, seria ouro sobre azul. Tudo aquilo soou a hipocrisia sem limites, dado que as instituições municipais, têm o seu ganha-pão à conta daquelas pás em movimento. Ganha a Câmara Municipal, as juntas e as paróquias em rendas, avenças e sabe Deus mais o quê; e os particulares não hesitam em vender, alugar e escambar a terra e o que for preciso desde que lhes corra o maná, vindo de tão saudáveis ventos. § O que aquele presidente não entende, ou não quer entender porque lhe convém, é que não é de mais formas de energia renovável ou não poluente que nós precisamos. É de uma política de contenção, de educação pela parcimónia e pelo reaproveitamento. Não precisamos de novos magnatas das energias renováveis, para substituir os dos cartéis do petróleo. Não precisamos de destruir mais, para termos mais. Precisamos, isso sim, de preservar o que temos e consumir menos, muito menos. Esta é a verdadeira política de salvaguarda do património e do ambiente a que ainda não se renderam certas associações ambientalistas, nem os nossos governantes. § Mas num mundo em que o que se estraga não se conserta - antes substitui-se por outro objecto novo; ou numa mentalidade em que destruir a paisagem é um meio para atingir um fim razoável, como o semear indiscriminadamente a serra com aerogeradores porque estamos demasiado presos ao petróleo - fazer passar a mensagem de parcimónia, de sobriedade e de contenção é como pregar aos peixes, ou fazer passar um camelo pelo buraco de uma agulha...Estamos presos aos derivados do petróleo? Andemos mais a pé, ou de bicicleta, ou de transportes públicos; compremos menos plásticos, evitemos enfardar as crianças com comida plástica ou presenteá-los com objectos desnecessários! § Já o disse (aqui e aqui), e volto a dizê-lo: não acredito na mensagem limpa, ecológica e humanista da energia eólica. Muita gente enche os bolsos à sua custa. Pode ser (hoje) politicamente correcto, mas é imoral que à conta de poucos percamos o que durante séculos muitos, juntos, lutaram para manter: a autenticidade e o património humano de uma serra, tão bonita como é (ou era) o Montemuro...
10 de maio de 2008
Serpa Pinto (1846-1900)

Edward Bulwer-Lytton (1803-1873)
Alexandre Alberto da Rocha de Serpa Pinto nasceu em Cinfães, na freguesia de Tendais, a 20 de Abril de 1846. A este propósito e a pedido da Associação Cultural Serpa Pinto e do Rotary Club de Cinfães, apresentei numa palestra sobre a Obra e o Legado do conhecido explorador africanista. Fi-lo, com todo o gosto, até porque o local se proporcionava a tal dissertação: foi na estalagem Porto Antigo, outrora a casa onde Serpa Pinto passou a sua adolescência e parte da vida adulta, depois residência do seu irmão. Perante uma assistência tão atenta quanto nobre - entre os ilustres membros e representantes de vários Clubes Rotários da região, estavam o major Simões Duarte e Mestre Joaquim Gonçalves Guimarães, ambos da Confraria Queirosiana e o Dr. Alexandre de Serpa Pinto Burmester, ilustre representante do título e da família do explorador - fiz por desconstruir o mito e trazer até hoje uma imagem mais adequada e honesta de A.A. de Serpa Pinto. Bem sei que, para muitas pessoas é ainda difícil despir preconceitos - grande parte deles cimentados durante essa «longa noite radiofónica» (como alguém a designou) chamada Estado Novo. Parecia, pois, improvável que se pudesse livrar o explorador desse lastro mitográfico que é a sua travessia de Angola a Pretória (1877-1879), como feito único, exclusivo e extraordinário da sua vida. Se não deixa de ser uma realização quase sobre-humana, também não pode servir para caracterizar este homem tão multifacetado que influenciou de maneira decisiva o final do século XIX português e contribui mesmo para a construção do século seguinte. Quis, pois, deixar claro que muito há ainda a conhecer na vida de Serpa Pinto e que a sua obra se destaca, sobretudo, pela fidelidade a valores e conceitos hoje praticamente desconhecidos ou arredados do nosso quotidiano.
24 de março de 2008
Em Cinfães, nada de novo...
«(...) os concelhos de Resende e Cinfães, os dois que as estatísticas colocam logo a seguir a Felgueiras no “top” nacional de concelhos em que o rácio de desemprego mais subiu nos últimos cinco anos.» (in jornal Público de 21-03-2008).
O município de Cinfães não é uma porção de terra dividida pelos rios Douro, Paiva e Cabrum. É gente. E gente que parte significa a morte da terra. Nem a Câmara Municipal com os seus cofres recheados ou livres de dívidas, e as suas técnicas clientelares têm conseguido inverter a sangria. Ou então, os que saem não têm cartão partidário... É que curiosamente (ou não), os dois municípios que ganharam lugar de destaque no ranking de desemprego são municipíos governados por edis socialistas. Sim, esses mesmos, os do partido que prometia 150.000 novos empregos (ou seria em pregos?).
27 de janeiro de 2008
Uma exposição de «Arte Sacra» em Cinfães
Aspectos da exposição de «arte sacra» no Museu Serpa Pinto, em Cinfães.
Um dos primeiros municípios a manifestar interesse pela continuação do programa de inventário do património religioso na diocese de Lamego foi Cinfães. Em Outubro tomámos a iniciativa de ofertar ao senhor Presidente da Câmara um exemplar dos catálogos produzidos para Lamego e Tarouca e aquela edilidade não perdeu tempo: em pouco menos de 2 meses levou a cabo uma iniciativa que convencionou chamar: «arte sacra do arciprestado de Cinfães». São, aliás, expressivas as palavras do senhor Prof. José Manuel Pereira Pinto no prefácio que redigiu para o roteiro da referida mostra: «[esta exposição] é como que um ponto de partida para uma reflexão acerca das potencialidades do concelho e do arciprestado no que se reporta à eventual inventariação e estudo deste património religioso». Aproveitando a época e porque se trata de uma região e de um tema que me são especialmente caros, fui até ao Museu Serpa Pinto visitar a referida exposição. O que vi deixou-me francamente desiludido. Sem qualquer linha de orientação temática, estilística ou histórica amontoam-se ao longo de um corredor, - ora sobre plintos cobertos por um pano de flanela vermelha (!), ora no chão (!) -,19 peças que de maneira alguma caracterizam o «riquíssimo património religioso» de Cinfães, se não o «pior» que se exibe nas nossas igrejas. Falo de imagens sujas, não intervencionadas a nível conservativo, sem qualquer qualidade de execução, profundamente repintadas, cheias de cores garridas e visivelmente retocadas por mãos pouco conscientes - objectos que que exibem pregos, ferros de andor, coroas e outros componentes desajustados ou ao valor ou à integridade visual e artística das peças. Não irei, sequer, alongar-me ao referir o pobre conteúdo do catálogo, cuja leitura nos remete para as análises pouco cuidadas dos «Santos padroeiros do concelho de Cinfães», obra que a C.M. de Cinfães editou em 2000… Para além da imagem representando a Virgem amamentando (dita de Santa Maria Maior de Tarouquela) e de uma Santa Marinha, calcária, proveniente de Ferreiros de Tendais, todos os demais objectos foram recolhidos, dir-se-ia aleatoriamente, sem qualquer preocupação de apresentar uma mostra criteriosa, apelativa e pedagógica (as fotos, acima, falam por si). Aliás, a imagem que referi, a de Santa Maria Maior, - que representou Cinfães na exposição do Jubileu «Cristo fonte de esperança» (em 2000) - avaliada como uma das mais expressivas peças de imaginária sacra de importação, em Portugal, foi simplesmente «encostada» a um degrau de uma «tribuna» improvisada, retirando-lhe toda a aura de valor sagrado e artístico. Depois dos louvores manifestados junto da Diocese a propósito da intervenção na defesa, conservação, estudo e promoção do património em Lamego e Tarouca, esta exposição de «arte sacra» cinfanense constitui um inquietante revés na política de administração do património diocesano - que é, canonicamente, o património do Sumo Pontífice, pela sua condição de administrador e distribuidor de todos os bens eclesiásticos (Can. 1273). Preocupa-me, pois, que tais iniciativas possam ser realizadas de forma tão leviana, como o foram em Cinfães, sem o conhecimento da Cúria Diocesana, apenas com a coordenação e organização da Câmara Municipal (Pelouros da Acção Social, Cultura, Educação e Turismo). Os organismos civis, governamentais, regionais e locais, são os primeiros a terem interesse na conservação, estudo e divulgação do património religioso mas não podem, nem devem, sobrepor-se ao primado da Igreja que deve implementar esforços no sentido de, continuadamente, manter conservado e íntegro o histórico pecúlio que recebeu das gerações precedentes. A exposição «arte sacra» no arciprestado de Cinfães não é, pois, um ponto de partida se não um lamentável retrocesso no trabalho iniciado em Foz Côa, em 1997, e recentemente continuado em Lamego-Tarouca. Consciencializar os senhores párocos, que são os primeiros responsáveis pela administração do património dos nossos templos, e os paroquianos para a preservação do património local não passa por apresentar exposições deste teor. Conhecer (inventariar) e preservar deverão constituir os primeiros passos. Só depois se seguem as iniciativas de promoção e educação, com a consequente publicação de catálogos e a realização de exposições. A Câmara Municipal de Cinfães, a cuja instituição se deve louvar o súbito interesse demonstrado no património religioso, começou pelo fim. Esperemos que, para louvor a Deus, a Cristo, à Virgem e aos Santos, bem como à fidelidade história e artística do arciprestado de Cinfães, possa, a seu tempo, corrigir esta inusitada e infeliz acção.
16 de dezembro de 2007
Há poesias que caem como mel na sopa.
Longe de ti são ermos os caminhos
Longe de ti não há luar nem rosas,
Longe de ti há noites silenciosas,
Há dias sem calor, beirais sem ninhos!
Florbela Espanca
Longe de ti não há luar nem rosas,
Longe de ti há noites silenciosas,
Há dias sem calor, beirais sem ninhos!
Florbela Espanca
Subscrever:
Mensagens (Atom)

