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9 de novembro de 2011

"Enfins"

Só quem não trabalha em História, quem não tem de se deparar com empregos precários, quem não sente o que é ser-se desprezado quando se apresenta a alguém com uma licenciatura que não em gestão, direito, engenharia ou medicina, enfim, só quem não vive no fio da navalha para ser reconhecido ou respeitado é que não fica indignado ou mesmo enjoado com o que foi gasto nos últimos 2 anos em propaganda ideológica a propósito do Centenário da República.
Quando, por um lado, se fecham os centros de investigação das Universidade, se reduzem bolsas de estudos e se cortam nos apoios às edições científicas e por outro se gastam somas incontáveis de dinheiro em sinecuras, edições de luxo, exposições, tudo acrescido de um design de primeira água, apresentações sumptuosas pontuadas por cocktails e brindes, é que percebemos o quanto este país se revolve em interesses de grupelhos que pretendem e atingem o poder, manejando a seu bel prazer o erário público.
Nunca fui contra as comemorações do regime, embora as considere provincianas e bacocas tal como as de 1940, quando Salazar mostrava à Europa um país pobre mas alegre e virtuoso no seu Império de pacotilha. Compreendo que Portugal de 2010 se queira por em bicos dos pés para mostrar mais do que é, pretendendo enganar as agências económicas com a ideia de uma república centenária, cheia de valores e ideais que nunca cumpriu, não cumpre, e dificilmente cumprirá. Mas não aceito que se gaste sem olhar a meios, desviando do absolutamente necessário para outra áreas o dispensável. Que se celebre o regime e que alguns se orgulhem dele, pois empregou mais gente nestes 100 anos do que empregará nos próximos. Mas que se lembre de que a História não começou em 1910 e que os historiadores são pagos para escrevê-la e torná-la inteligível e não para mascará-la. 
Quando pensava que este regabofe acabar, ei-lo em jorro diário de eventos pagos e patrocinados por organismos públicos ou se não por estes, por Fundações como a de Mário Soares, generosamente subsidiada pelo Estado.
Vamos ser sinceros: já chega. Acabou. Não há mais nada para exaltar, comemorar ou louvar. Este "enfim,a república", bem podia ser o suspiro de cansaço de um regime que, para além de falido, está perfeitamente esquecido.

18 de abril de 2011

1911: a igreja liberta-se!


Mesmo apesar da bancarrota do país e do Estado dos últimos 100 anos ser o pior da História deste país, como bem resume o Prof. Álvaro Santos Pereira, continua a  inaugurar-se exposições e a laudar o regime centenário.
Agora é a altura para relembrar como a República Portuguesa "libertou" a Igreja Católica dos seus bens. A Igreja Católica tem participado nestas comemorações e sente-se libertada (com a benção da Concordata de 1940, claro). Aqui está a Lei da Separação para ler e reler e perceber como foi esse momento  tão aguardado do corte das grilhetas.

28 de março de 2011

A relatividade do amor aos regimes.





Às vezes, para me espicaçar, ou simplesmente por ignorância, algumas pessoas falam-me nas "desvantagens" da monarquia: certas derrotas e certos desaires, de reis que "fugiram", etc. Até nessas coisas se revela a nossa admiração e o nosso amor pela nossa monarquia, pois amar algo ou alguém é, acima de tudo, conhecer - mesmo os pequenos e tristes pormenores, da vivência da pessoa ou do objecto (e, neste caso, do Passado). Da República Portuguesa pouco sabemos, é-nos indiferente. Talvez, nestes 100 anos, tivéssemos aprendido a amar o regime se soubéssemos que a entrada na I Guerra Mundial também foi um desaire semelhante a Alcácer Quibir, ou que Afonso Costa muitas vezes fugiu dos seus inimigos, algumas delas em condições pouco edificantes para um homem de Estado...

7 de janeiro de 2011

Recortes: MEC


Como sempre, MEC põe os pontos nos ii. Com calma, sabedoria e timing. Pena que grande parte do país se reparta entre um fanatismo (e o fanatismo é sempre ignorante) e a lassidão. Embora estes atributos não sejam a causa do nosso atraso (sobre esse devem pedir-se contas às elites), é difícil preparar este país para um bom rumo sem uma educação fundamentada e crítica. Peço esperança para as próximas gerações. Eu já não a tenho.

20 de dezembro de 2010

Como amar a República em 10 passos.



Quase no final deste ano de frenesi comemorativo, que resultou em centenas de laudatórios livros de luxo (repare-se que a diferença entre luxo e lixo é apenas de uma vogal), julgamos ser já possível atribuir o prémio da pior edição pró-republicana. Trata-se, segundo a nossa opinião, de Tudo o que sempre quis saber sobre a Primeira República em 37 mil palavras, do sociólogo Luís Salgado de Matos. A obra foi editada pelo Instituto de Ciências Sociais, com o patrocínio da Comissão do Centenário. É um pequeno manual sobre como amar a I República em 10 passos. Lidas as 37 mil palavras, concluímos que a Primeira República foi um dos piores períodos pelo qual já passaram Portugal e os Portugueses, mas é isso que torna aqueles dezasseis anos tão especiais e tão importantes. A um determinado momento, o autor presenteia-nos com esta pérola justificativa: segundo ele havia violência entre 1910 e 1926 porque toda a gente era violenta, porque os pais batiam nos filhos e isso era normal. Para Luís Salgado de Matos, a bandalheira é um estado de espírito republicano, portanto. Bem haja às cátedras em que se sentam autores como este. Desconfio que depois do Estado do Estado, do Estado da Justiça, e do Estado da Democracia, a Sociologia deve ser um dos caminhos mais rápidos para a ruína deste país.

Também publicado aqui.

12 de dezembro de 2010

A História escreve-se com fontes, não com opiniões.

Há alguns anos atrás comprei, num alfarrabista do Porto, este Catálogo de Inverno dos extintos Armazéns Grandela. É um documento extraordinário a todos os níveis sobre o quotidiano em Lisboa e em Portugal nas vésperas da Grande Guerra. Testemunho publicitário da capacidade para ultrapassar a crise económica e social motivada por uma cidade em permanente sobressalto, - entre greves, atentados da púrria e golpes de gabinete com que o novo regime republicano brindou os lisboetas (estes, em particular, que viveram de perto a implantação da república, enquanto o resto do país apenas o seguia pelos jornais...) - este catálogo, dizia eu, é um repositório infindável de informações.  Verdadeira fonte histórica e iconográfica sobre vestuário masculino, feminino e de criança, de móveis e todo o tipo de adereços, preços e materiais utilizados na confecção de milhares de peças - muitas delas (julgaríamos nós o contrário) perfeitamente actuais. Por considerá-la uma fonte primárias e rara para a compreensão dos ditames da moda e do gosto no primeiro quartel do século XX e para variar um pouco da quantidade de informação que, quer pelos republicanos, quer pelos monárquicos tem sido enfiada pelos olhos dentro dos ledores, vou colocar à disposição, muito em breve, a digitalização integral deste documento via flickr. Fazer algo que os senhores dos Centenário republicano têm evitado fazer: publicar FONTES em vez de editar livros e livros repletos de blá-blá laudatório, escrito por um um pequeno e muito restrito grupo de historiadores de Lisboa e Coimbra.

19 de novembro de 2010

Nada de novo debaixo do sol.

"A Justiça ao arbítrio da Política, torcendo-lhe a vara a ponto de fazer dela um saca-rolhas.

"Dois partidos monárquicos, sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes, na hora do desastre, de sacrificar à monarquia ou meia libra ou uma gota de sangue, vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se amalgamando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento, - de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar.
"Um partido republicano, quase circunscrito a Lisboa, avolumando ou diminuindo segundo os erros da monarquia, hoje aparentemente forte e numeroso, amanhã exaurido e letárgico, - água de poça inerte, transbordando se há chuva, tumultuando se há vento, furiosa um instante, imóvel em seguida, e evaporada logo, em lhe batendo dois dias a fio o sol ardente; um partido composto sobretudo de pequenos burgueses da capital, adstritos ao sedentarismo crónico do metro e da balança, gente de balcão, não de barricada, com um estado maior pacífico e desconexo de velhos doutrinários, moços positivistas, românticos, jacobinos e declamadores, homens de boa-fé, alguns de valia mas nenhum a valer; um partido, enfim, de índole estreita, acanhadamente político-eleitoral, mais negativo que afirmativo, mais de demolição que de reconstrução, faltando-lhe um chefe de autoridade abrupta, uma dessas cabeças firmes e superiores, olhos para alumiar e boca para mandar, - um desses homens predestinados, que são em crises históricas o ponto de intercepção de milhões de almas e vontades, acumuladores eléctricos da vitalidade duma raça, cérebros omnímodos, compreendendo tudo, adivinhando tudo, - livro de cifras, livro de arte, livro de história, simultaneamente humanos e patriotas, do globo e da rua, do tempo e do minuto, forcas supremas, forças invencíveis, que levam um povo de abalada, como quem leva ao colo uma criança."

Guerra Junqueiro, A Pátria, 1896.

31 de outubro de 2010

Santificada seja a vossa República!



No último ano temos sido bombardeados com propaganda massiva sobre as vantagens de termos uma República. De como o regime, neste centénio, levou o país ao progresso, elevando Portugal, entre todas as  nações, ao modelo paradigmático de supra-desenvolvimento. E, muito embora, todos os dias a comunicação social contradiga este paradigma, certo é que muitos milhões foram gastos para refundar a ideia e a própria República passando uma esponja sobre o conflituoso e quase anárquico período de 1910 a 1926, e obliterando a memória do Estado Novo, já não considerada II República (mesmo apesar da Constituição de 1933 assim a designar), mas um triste parêntesis ditatorial de apenas ...48 anos! Talvez, se vivêssemos numa monarquia, a mesma quantia fosse gasta em exaltações. Mas para um regime que se arroga a uma sobriedade que os reinos não possuem, tais comemorações não são apenas censuráveis, são um acto criminoso.
Por outro lado, uma certa historiografia e um certo jornalismo têm colaborado nesta exaltação republicana. A RTP não faz mais do que o seu serviço. Tem-no feito desde a sua existência, ou seja agradar a quem está no poder, mais ou menos controlada politicamente pelo regime e pelos governos que por ele vão passando. Os seus funcionários são marionetas dos governantes. Nesse aspecto, as séries romanceadas que a televisão pública lançou sobre a pretensa "História" da República foram bem o testemunho da manipulação dos factos e a exaltação de alguns actores dessa épocas, ou seja, em resumo: os monárquicos eram os maus e os republicanos, claro, os bons. Segundo guionistas e alguns historiadores é impossível de fugir a esta trama. Não contentes, depois da republicanice  viral aguda que contanimou a nossa historiografia, a nossa política e os media faltava convencer-nos que a Igreja Católica era, afinal, uma peça essencial desse enorme puzzle chamado república portuguesa. Com o documentário Republicanos, graças a Deus! a RTP desembaraçou-nos, finalmente, desse pesado preconceito ideológico que opunha republicanismo a clericalismo e ficamos a saber que a separação entre a Igreja e o Estado foi uma libertação e que nunca as relações entre a Santa Sé e Portugal foram tão cordiais como depois de 1910. E obreiros do regime libertador alguns padres, quais arautos da liberdade, que odiavam o trono e urdiam desejos para beijar o barrete frígio. Isto é uma boutade, claro, para quem conhece um mínimo de História Religiosa e História Contemporânea de Portugal. Mas ainda assim, a RTP e os Rosas &; C.ª Lda., vão fazendo dos portugueses burros e de alguns pobres, vendidos. A Igreja, claro, faz como sempre fez: mudam-se os regimes, mudam-se os amigos. E talvez compreendamos que à Igreja agradasse andar de mãos dadas com a República Portuguesa. Sobretudo com a Segunda. Afinal as confiscações de 1911 foram quase todas devolvidas pelo Estado Novo e o catolicismo continua a ser largamente apoiado pelo regime. Com tão cimentada amizade talvez até um dia destes, numa eventual reforma do catecismo, venha uma nova oração ao Padre Novo, dirigido não ao Seu Reino, mas à Sua República.

23 de outubro de 2010

Citação do dia.

[Público]: Um adulto pode chegar [ao Programa Novas Oportunidades] com o 6.º ano e sair, em poucos meses, com o 12.º?


Pode acontecer. Há uma ruptura com a lógica de disciplinas, das metodologias de ensino e aprendizagem para uma lógica mais abrangente de evidenciar o que o adulto sabe e integrar a sua experiência. Um autarca com o 6.º ano não tem experiência e competências que lhe permita terminar o secundário? Não tem mais do que um jovem de 18 anos que conclui o secundário? Não vou preocupar-me com o tempo que as pessoas levam a adquirir um certificado. Eu preocupo-me se o mecanismo da avaliação está a ser cumprido com rigor. Quem passar pela INO tem que passar por todos os saberes. Os nossos alunos têm que demonstrar competências. [Luís Capucha, director da Agência Nacional para a Qualificação]

Está tudo dito.

12 de outubro de 2010

De ontem já ninguém se lembra.

O Centenário da República Portuguesa já passou.

A própria República passou, com grande indiferença, por Portugal e pelos portugueses que nunca a sentiram como sua, verdadeiramente. A revolução de 1910 foi (convençamo-nos) só, e apenas, um golpe de elites descontentes com o a dificuldade de acederem ao poder por via democrática. E nunca houve um verdadeiro sentimento popular de adesão aos ideais republicanos propalados entre a segunda metade do século XIX e início do século XX. A maioria da população, analfabeta, supersticiosa, pacata era incapaz de entender os ideais francófilos que a força bruta dos carbonários urbanos e a filosofia de alguns estrangeirados lhes tentava impingir. E foi de facto, por isso, pela incapacidade das instituições liberais em reformar, a tempo, o ensino e fomentá-lo entre todos, que a República tão rapidamente arrebatou para si cérebros vazios, tornando Portugal não um país de republicanos, mas um país de obedientes e clientes que o regime abastecia com conezias e prebendas a gosto.

O mandatário das Comemorações, banqueiro de uma dinastia de burgueses, avisou que é preciso mudar de vida, como a letra da canção de António Variações, mas esqueceu-se que mesmo após três repúblicas, três constituições, o próprio regime nunca conseguiu renovar-se e mudar de vida. Mesmo apesar de tentar refundar o país ao impingir-lhe uma bandeira de ideais que não eram os seus e a forçá-lo a aceitar políticos e dirigentes completamente alheados da "coisa pública", renegando uma estrutura de séculos que podia ter sido modelada para caber no novo caminho histórico (em vez de parti-la em pedaços e cuspir-lhe em cima), o regime republicano falhou. E o Passado nunca foi tão manipulado para servir um ideal de política, como nos últimos 100 anos. A prova maior foram as Comemorações que, pelo preço de 10 milhões de euros, celebraram não os acontecimentos, não os factos, mas uma ideia, um ideal que muitos não conhecem. Por isso, de ontem, do dia 5 de Outubro, já ninguém se lembra.

Mas algum dia lembraram?

Esta pobre república, pobre economicamente, pobre socialmente, pobre educacionalmente, porém rica em demagogia, se quisesse mesmo regenerar-se tinha aproveitado o Centenário da República para mostrar que o Passado, que a Memória se reconciliava aqui, com um Presente mais tolerante, mais comedido e mais fraterno. Ao invés disso, apostou no esbanjamento, na mais clara manipulação da História e, pior, na deseducação dos seus jovens que hoje têm apenas ideias parcelares do passado do seu país, de repente elevado ao glorioso estatuto de nação centenária, fazendo tábua rasa da memória anterior a 5-10-1910.  
Porém, se o país é, sobretudo, constituído por indiferentes, não podemos negar a existência de duas espécies de republicanos, os que confundem nação com regime e agitam a bandeira verde-rubra nos futebóis e os republicanos de velha cepa que vão de mão no peito ao 31 de Janeiro e ao 5 de Outubro. Grupo pequeno, envelhecido, constituído por indivíduos que confundem democracia e república, da velha cepa dos homens de 1910-1926: cientes das prerrogativas senatoriais dos líderes, machistas lusitanos para quem mulher e sufrágio são realidades incompatíveis e velhos marxistas de punho cerrado a recordar sindicalistas de outrora (mais brandos, porém, menos dados à pólvora e mais ao vinho). É o caso do "historiador" Armando Carvalho Homem que, mesmo apesar de académico insiste em lixiviar a história da República,  varrendo o Estado Novo para debaixo de um tapete fictício, transformando o que é efectivamente uma res publica em res nihilo, quando o bom senso (já para não falar a ciência) reconhece o regime ditatorial de Salazar como herdeiro dos republicanos e das condições do regime antes de 1933.

Honra seja feita a estes republicanos empedernidos, porém, os quais, pelo menos, lá se vão batendo com ardor pela causa, gritando viva a democracia e afastando os demónios que estes 100 anos criaram, amamentados sofregamente no peito da Dona República. Mais tristes são os que não apresentam soluções e se dizem apartidários ou sem ideologia, que clamam contra a república, contra a monarquia e contra tudo no meio, o que quer que tal seja, sem soluções, sem destino, sem visão. E no final desta triste procissão fúnebre, os admiradores dos regicidas que clamam por mais sangue, como se o que desde 1908 até hoje não fosse suficiente. Para estes vampiros, nunca a liberdade é o bastante, só a morte.

No final, a política de campanário: escolas inauguradas, placas descerradas, reafirmação da toponimização republicana do país, com homenagens a suicidas e a figuras apagadas cuja única obra foi estar do lado certo na hora certa,  propaganda e muito dinheiro ganho em edições de luxo (que, como disse Pinho Leal, às vezes se confunde com lixo), tudo isto para levantar, não o esplendor de Portugal, mas as peles caídas da centenária senhora cujos seios, outrora entumescidos, são hoje pingentes de fonte seca. Em 2010, Portugal, mas sobretudo Lisboa foram de novo um país e uma cidade dos anos 40 do século passado.

Nesta república de poucos homens não é como Camões augurava: mudam-se os tempos...

9 de outubro de 2010

Tem a palavra António Sérgio.


"Fez-se então uma verdadeira República? Não se fez."

António Sérgio
Breve interpretação da História de Portugal, 11.ª edição, 1983
Livraria Sá Costa

26 de setembro de 2010

A Igreja grita: Viva a República!


Sempre teve razões para isso, afinal: FREIRE, João Paulo (Mário) - Homens do meu tempo. Impressões psychopathologicas. Notas ineditas e dados bibliograhicos. Porto: Livraria Civilização, [1924], pp. 71-72.

19 de setembro de 2010

O parto republicano.



A História de uma nação apresenta momentos-chave em que o seu destino colectivo se vê perante dilemas ou aporias que é necessário enfrentar ou resolver. Foi assim com Alcácer Quibir, a Restauração de 1640 e o Ultimatum de 1890. A República nunca foi um turning point no percurso de Portugal enquanto nação, enquanto desejo colectivo ou ansiedade conjunta. É necessário que exista um Outro e que o Outro nos agrida ou nos subjugue para ocorrer no espírito colectivo (se é que ele efectivamente existe) uma "vontade de querer". Pelo contrário a República fez regredir o país em quase 100 anos, até às lutas entre Liberais e Miguelistas colocando, de novo, portugueses contra portugueses, em nome de um ideal que era de pouquíssimos. Como qualquer organismo infectado, o corpo reagiu com anticorpos e a República, aos poucos, entranhou-se, primeiro como uma constipação, depois já gripe (como a de 1918) que por pouco não matava o hospedeiro se não fossem as mezinhas salazaristas que pugnaram por um Estado Republicano forte e opressivo. Mas esta opressão não ocasionou uma reacção instintiva à doença e o corpo acomodou-se a achaques periódicos, até 1974 quando, de novo, não o país, mas o regime tentou uma refundação. Hoje, tenta-se construir a imagem laudatória e idílica da chegada do novo regime, em 1910. E o papel dos Historiadores nesse campo é fulcral. Num campo historiográfico praticamente inexplorado (quando comparado, por exemplo, com o da  vizinha Espanha), sem background quanto a estudos Políticos, Económicos e Sociais do país contemporâneo, foi entrada fácil a um pequeno grupo de historiadores tendencialmente ligados a correntes ideológicas de Esquerda que tomou de assalto esta área de estudo. De facto, o nosso corpus de historiadores, voltado ora para a medievalidade e para a Expansão, ora para temas avessos à Idade Contemporânea permitiu uma manipulação muito mais vincada dos factos ocorridos nos últimos 150/100 anos. E as Comemorações do Centenário da República, ainda que incipientes na sua programação pró-populi, consagraram o estudo de poucos, com conferências e livros de toda a espécie que não escondem a sua posição nitidamente sectarista. A Primeira República deixou de ser diabolizada para constituir um modelo de virtudes onde, diga-se, até se podem encontrar pontos de ligação entre o actual regime. E esta "Segunda República" passou a regime democrático, saltando sobre o Estado Novo que foi arrumado na secção de não-República. Traçou-se assim um ponto de vista inflexível e irrefutável: antes de 1910 não existia democracia em Portugal. Esta chegou a 5 de Outubro daquele ano. Foi suspensa com o golpe de Maio de 1926 e regressou a 25 de Abril de 1974. Ao percorrer a vasta bibliografia subsidiada, em grande parte, pelo erário público, (como era a propaganda nacionalista nas décadas de 1940 a 1970), constatamos o súbito interesse pelo papel da Maçonaria na implantação da República e no Regícidio, com uma clara desculpabilização desses dois actos em detrimento de um ideal  maior, a Liberdade, supostamente inexistente durante a Monarquia, ainda que esta fosse Constitucional e assegurasse, desde 1834, amplas liberdades que são hoje apanágio das maioria das democracias  ocidentais. Esta refundação de Portugal pela historiografia é preocupante e recorda o movimento surgido durante a 2ª República, não tão claro na sua catequização como a cartilha estado-novista, mas nem por isso menos gritante, sobretudo quando pretensos trabalhos históricos intitulam uma obra com o título "Viva a República". Aproximando-se o dia 5 de Outubro de 2010 e conhecendo já o programa das celebrações podemos, para já, asseverar algo: a propaganda erudita é vasta mas não chega para alimentar o espírito colectivo. No último século, apenas o totalitarismo do Estado Novo conseguiu mobilizar a opinião pública para se legitimar enquanto regime intrinsecamente nacional. Embora se espalhem mensagens de participação, em que tudo, hoje em dia, gira à volta de República (até relógios...) dificilmente se verão manifestações espontâneas de Viva a República! ou marchas populosas de apoio ao regime. Como em 1910, a ideia republicana de hoje é, ainda, uma ideia de poucos, a de uma classe oligárquica que deseja manter o poder, não para servir o "Povo", mas para se servir a si mesma. A República Portuguesa é como Saturno devorando o seu filho: fá-lo ciclicamente e em 2010 ocorre apenas mais um parto.

2 de setembro de 2010

oh! a sabedoria popular!


Ladrão que rouba ladrão, tem cem anos de perdão.

Ladroagem é a palavra mais adequada para qualificar a República Portuguesa. Meu Deus! Eu, às vezes, até fico com pena desta gente... é que é tão fácil, mas tão fácil ,desmontar esta propaganda republicana tonta. A República lá vai enganando os portugueses há 100 anos, porque os tem mantido na ignorância e no paternalismo da sua partidocracia dita democrática. Mas é um gigante com pés de barro. É porcaria varrida para debaixo do tapete. Mil anos que venham não conseguem sustentar semelhante trapalhada. Entretanto vão-se contando estórias de ladrões. Não é assim há um século?

19 de agosto de 2010

Este querido mês de Agosto: notas soltas (2)

Ódio, Igreja e Bispos na I República.
Um artigo a ler para que não se pense, como pensam alguns Católicos, leigos e eclesiásticos, que a I República «libertou» a Igreja. A única que coisa que libertou foi o «Inferno» anti-cerical e odioso que hoje regressa em força, mesmo apesar de alguns bispos o consentirem com o seu beneplácito sobre as Comemorações acintosas do Regime. Sic Transit Gloria Ecclesia.

O gosto pela ignorância.

De como nos dias que correm é preferível explicar às crianças que a cena da luta no topo do Monumento às Guerras Peninsulares representa um jogo de futebol entre o Sporting e o Benfica e não a resistência da Ibéria ao invasor francês. De resto, que interessa saber que a Águia é historicamente um símbolo Imperial, se o resultado é o mesmo quando aplicado a um clube desportivo?

A Maçonaria e a Carbonária
A. Balbino Caldeira faz uma incursão pela análise histórica e documental sobre a participação de grupos secretos no derrube da Monarquia e termina com esta conclusão:

Todavia, os regimes não são, nem têm de ser, a sua génese. A República não é um regime iníquo por ter sido o resultado da insurreição maçónica, nem os novos regimes maus, em si, pela origem ou pelo carácter dos grupos ou indivíduos que promovem as revoluções que os criam ou pelos crimes que no seu processo são cometidos. Na mesma perspectiva, os regimes também não são propriedade dos grupos, ou dos homens, que lideram as revoluções que os constituem: devem ser o produto consolidado da vontade popular. A República e a Democracia, tal como o Estado português, não são propriedade da Maçonaria, nem de nenhuma sociedade secreta ou discreta. Portugal é do povo. Todo.

Concordo. Mas se a República nasceu torta, ainda se não endireitou. Primeiro a República Portuguesa não foi consolidada pela vontade popular. A Primeira foi desastrosa e a Segunda uma negação completa da Liberdade Individual e Colectiva. Referendo nunca houve, nem haverá. E quanto ao facto de a República, a Democracia ou o Estado não serem propriedade de grupelhos secretos, não posso concordar. Basta olhar em redor de nós: Justiça, Comunicação Social, etc são geridos por homens e por grupos. Com interesses. Neste caso e cada vez mais o todo é de partes.

A obra gloriosa, bla bla bla da República.

Nesta estória da República, em ano de bambochatas, todos têm algo a dizer e a opinar. Os escaparates estão cheio de novelas, romances, ensaios, reedições, edições vulgares e de luxo. Nunca se escreveu tanto sobre o republicanismo em Portugal. Mas se a maioria vai e vem, existem duas vestais que guardam o fogo sagrado da República Portuguesa no seu coração. São da velha guarda, de pele ressecida, óculo forte e punho cerrado. Não ouso dizer o nome de tais sacerdotisas, mas não posso deixar de louvar-lhes a dedicação. Uma dessas velhas parcas escreve hoje um artigo sobre a qualidade dos chefes suicidas da revolução de Outubro, a outra escreve qualquer coisa amanhã.

A conversa do pobrete e do alegrete
Tristemente hedionda este discurso de Mendes Bota sobre as qualidades popularuchas de Pedro Passos Coelho. Deve ser por isso que o PSD está cada vez mais miserável. Triste sina.

Nota final:
É curioso como os pelos da opinião blogueira se eriçam todos ao mesmo tempo e no mesmo sentido quando surge a grande discussão sobre os escaparates da comunicação social: incêndios, escolas, etc e ninguém pára um bocadinho para pensar que as coisas nem sempre são a preto e branco. Que há incêndios importantes para a renovação de ecossistemas (quando não coloquem a vida de humanos em risco), que há escolas cujo destino é esse, o fecharem por faltam de alunos e por ausência de um planeamento social e urbanístico adequado aos últimos 30 anos. Estou a ser simplista, eu sei. Mas se, em vez de canalizarmos a fúria a quente para os executores, pensarmos um pouco antes, talvez cheguemos a esse estádio que levaria a Humanidade a melhor caminho: o da serenidade.

12 de maio de 2010

Uma Igreja Republicana?




O Almanaque Republicano, num inaudito momento de pirrice, veio sublinhar as palavras recentes de Bento XVI: "Nos cem anos da República, as minhas felicitações e a minha bênção a Portugal inteiro, país rico em humanidade e cristianismo". Parece-me que a mensagem é clara e tanto os republicanos como os monárquicos devem entende-lâ: a «César o que é de César e a Deus o que é de Deus» (Mateus 22:21).
A Igreja tem, desde o início das Comemorações oficiais deste Centenário da I República, deixado passar uma mensagem que se torna agora mais forte: a de que o 5 de Outubro de 1910 foi, para o seu corpo institucional, uma libertação. E, em certa medida, foi-o, mas é necessário contextualizar tal afirmação, compreendendo o antes e o depois.
O antes é um Liberalismo que sequestrou a Igreja tornando-a uma Secretaria de Estado. Não era o Regalismo do Absolutismo, era antes o Burocratismo Mação a laicizar a Igreja e a utilizá-la como extensão do seu domínio subterrâneo.
O depois é humilhação, a perseguição e a espoliação. Se isto é liberdade, bem, sê-lo-á pelo fogo. A Igreja não pode, nem deve esquecer que a I República constituiu uma hecatombe que dura até aos dias de hoje: o estado do património religioso das nossas catedrais, igrejas e ermidas em ruínas, assenta sobre o sequestro e a nacionalização dos bens eclesiásticos, em 1911.
Porém, o mais preocupante, quanto a mim, como Católico que sou, é que sob a Concordata de 1940, se tente passar uma esponja sobre os 30 anos antes e se transforme a II República (1933-1974) no paradigma dessa tal libertação e de uma sã convivência.
E hoje, nesta III República que tem como porta voz, de novo, a Maçonaria, espanta-me que a Igreja reclame liberdade quando volta a ser refém do Estado, através dos seus às suas IPSS, católicas, às obras de cariz paroquial, da tutela conjunta de património, etc.
Espanta-me mais: que a Igreja se esqueça, como em graça referia, há uns anos atrás, o escritor iguel Esteves Cardoso, que o Pai Nosso começa com a frase: «santificado seja o Vosso Reino» e não «santificada seja a Vossa República».

Também publicado aqui.

6 de fevereiro de 2010

O republicanismo em Portugal: uma análise.


Um dos factos que as actuais comemorações do Centenário permite esclarecer é que existem pouquíssimos republicanos, ou seja, portugueses que se identificam com o regime e nele acreditam, que sabem destrinçar entre os símbolos identitários nacionais e a iconografia da república portuguesa, por exemplo. Uma viagem pela internet oferece-nos uma leitura proveitosa, a que alguns chamariam sociológica.
Por um lado, um pequeno punhado de literatos, na maioria ligados ao ensino (universitário ou liceal) inauguraram blogues cujo objectivo é veicular informações sumárias de carácter histórico, biográfico e bibliográfico sobre o regime e a sua ideologia. São discretos. Exaltam, embora de forma velada, a maçonaria (a cuja instituição pertencem) e outros instrumentos do republicanismo português. O seu projecto é anónimo ou quase (assinam o trabalho com iniciais e, ou, pseudónimos) e constituem um movimento silencioso que conquista através da publicação de um conjunto de imagens fortes que aliam a iconografia nacionalista à ideia de república como entidade indissociável de pátria. É o caso do Almanaque Republicano e do "República 100 anos 1910-2010".
Por outro lado, destaca-se um conjunto mais activo e interventivo de blogues que, embora assumindo a sua posição republicana são, essencialmente, espaços de discussão política, onde se comentam os assuntos cadentes e onde a República é apenas símbolo, como a Esquerda Republicana. Dentro desta categoria podemos incluir, ainda, os blogues de opinião pessoal. Conhecemos poucos republicanos dispostos a lutar pela república no espaço da internet, mas devemos destacar o sítio do Prof. Carvalho Homem, defensor acérrimo dos valores republicanos que não se coíbe de promover em entrevistas, conferências e estudos históricos que executa ou dirige.
Finalmente os blogues ou sítios que apresentam conteúdos propedêuticos, para além de propaganda ideológica, são em maior número por força das circunstâncias comemorativas, mas ficam aquém do que se suporia. O facto é que o número de investigadores sobre a República Portuguesa é extremamente diminuto e está concentrado, sobretudo, na Universidade Nova de Lisboa (Faculdade de Ciências Sociais e Humanas), tendo à cabeça o Dr. Fernando Rosas, cuja formação de base até é o Direito. É uma historiografia tendenciosa, herdeira do pensamento do falecido Prof. Doutor A. H. de Oliveira Marques, grande historiador que nunca se coibiu de manifestar a sua protecção e predilecção pela obra republicana. Como tal, cabe aquele grupo de investigação fazer as honras do regime, que se desdobra em iniciativas e apoios para acalentá-lo. Em Coimbra, um núcleo menor, constituído por alguns moderados, fica com a restante fatia de investigação e influência historiográfica que, ainda assim, não tem força para ultrapassar o forte lobby lisboeta. Basta percorrer os escaparates das livrarias para aquilatar da dimensão e força deste grupo: todas as semanas são publicadas luxuosas edições sobre temas (pró-)republicanos e História Contemporânea de Portugal.
Devemos assinalar, ainda que, recentemente, foi constituído na internet um grupo intitulado Republicanos Portugueses. A ele pertencem cerca de 500 pessoas. É um campo interessantíssimo de estudo. Constituído na sua maioria por emigrantes, são reveladoras as mensagens nacionalistas deixadas pelos seus elementos. Para eles, a ideia de republicanismo existe apenas na consagração de pátria, ou dos seus símbolos e ídolos (onde se destacam os futebolistas). Não há antítese possível a esta ideia, ou seja, a ideia de monarquia ou outro qualquer tipo de regime nem sequer é ali discutido. Apenas a anulação da pátria, pela supressão da nacionalidade. Neste sentido, a doutrinação republicana iniciada em 1910 falhou e mesmo que uma parte dos dez milhões de euros despendidos nestas comemorações se destinem à veiculação de “valores” republicanos pelas escolas do país (no fundo uma forma de catequese ideológica), julgamos que será necessário um orçamento semelhante, doravante anual, para criar alunos conscientes dos ideais de República.
Não há um movimento global de defesa da República, nem movimentos menores, que permitam identificar o apoio colectivo ao regime e à “ideologia”. Pontualmente, como no caso do 31 de Janeiro, pequenas colectividades, associam República e Resistência, confundido noções como democracia, fascismo, ditadura, etc. Mas essas associações não são republicanas: exaltam o espírito de liberdade e cidadania – uma análise do vocabulário utilizado na elaboração dos seus objectivos exclui a República e os seus “valores”. A “ética republicana”, expressão que nada significa e atenta contra a própria noção de ética, que se quer universal e plural, recusando ideologias e crenças, não tem raízes no republicanismo que herdámos da primeira república. É que apesar do período entre 1926 e 1974 constituir parte destas comemorações, contra a vontade de muitos dos seus corifeus, a doutrinação republicana foi suspensa nesse período, (a qual, em abono da verdade, resistiu em alguns indivíduos como forma de oposição, de resto elemento comum entre republicanos, monárquicos integralistas ou constitucionais, anarquistas, socialistas, marxistas, etc) para reintegrar-se, mais fraca, menos consistente, depois do 25 de Abril de 1974.
Por isso, e infelizmente, não pode a Comissão do Centenário senão ir beber nas fontes da Primeira República, profundamente exclusiva, nada moderada e fortemente autoritária. Mas, dado o tempo que atravessamos, tal colagem até pode fazer sentido…