
Há coisas que só compreendemos se as experimentarmos. São como os sentimentos. Só seremos adultos depois de termos conhecido a alegria, a tristeza, a saudade, a amizade verdadeira, o amor e o ódio. Porque é que à medida que vamos envelhecendo, nos vergamos a um certo silêncio? Por que experimentámos já o sabor doce ou amargo de tantas palavras de tal forma que nos recusamos a dialogar com aqueles que o não fizeram. Por isso, depois de ter percorrido pela primeira vez o Caminho de Santiago, em 2004, voltei silencioso. Durante muito tempo quis deixar em letra de forma a minha experiência, narrar os dias e as noites passados naquele percurso de sete dias, mas nunca, até hoje, e mesmo depois de ter repetido o trilho, consegui voltar a ele com a vivacidade que desejava. E no entanto poucas ocasiões terei na minha (nossa) tão curta existência terrena que se comparem à experiência de nos superarmos dia após dia, percorrendo locais que nos são estranhos, caminhos que nos magoam, para chegar a um ponto do espaço que é, tão-só, um reflexo do nosso lugar interior. Por isso talvez não seja tão tolerante como desejaria quando ouço falar (de forma tão leviana) de fé e de espiritualidade. Não se trata do vociferar contra Deus e os deuses usados, afinal, como bodes expiatórios da culpa de uma humanidade essa sim é má, rancorosa e na qual não nos podemos fiar. Mas por mil e uma razões gostava que Saramago, todos os saramagos do mundo, nós, eu e tu, pudéssemos caminhar a todas as Compostelas do mundo. Não há nada como um esforço, como o desejo de prosseguir para efectivamente compreender o valor da nossa existência. Gostava de, um dia, escrever sobre a minha experiência, a do Caminho Português, e sobre a que tenciono cumprir no Caminho Francês. Mas dificilmente vos explicarei, por palavras, a partilha, a comunhão, a sensação inigualável de, no Caminho, sermos todos iguais. E, por muito que tente, acho que não consigo descrever-vos a impressão de atravessar uma montanha com o corpo encharcado de tal forma que a roupa não faça sentido, ou entrar no Obradoiro, repleto de gente, pensando que nunca, desde o meu nascimento - e provavelmente na hora na minha morte -, nunca estivera nem nunca estarei tão sozinho. Às vezes volto a essa memória como a um bálsamo.


