Mas nós, que a nossa idêa e os nossos peitos novos
Trazemos sempre am ancia, á busca de outros céos,
Deixemos que os condemne a maldição dos povos,
E ergamos, toda livre, a fronte para Deus!
Narciso de Lacerda, Elles, 1878
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13 de agosto de 2012
Prenda de verão.
Ainda faltam alguns dias para o meu aniversário, mas esta prenda não podia esperar. Chegou hoje. E valeu a pena a espera.
14 de maio de 2012
O riso.
É preciso ter chorado para imortalizar o riso no livro, na estrofe, na sentença, na palavra:
O riso que escava, mina e alui teogonias;
O riso que desfaz religiões, cujo berço boiou embalado sobre as ondas de sangue;
O riso que abate a abóbada do templo sobre as ossadas dos mártires;
O riso que revoluteia as tormentas dos impérios, e abisma tronos, e espuma espadanas de lama - lama com que as gerações erigem os seus marcos milenários, as suas cronologias gloriosas.
Camilo Castelo Branco, A Mulher fatal, c. 1870.
14 de junho de 2011
25 de dezembro de 2010
O céu de Portugal.
"Tinha ele vindo de Castela a Portugal, sob pretexto honesto, a tratar cousas suspeitas e indignas do seu hábito e profissão. Como era sagaz e astuto, soube encobrir-se com arte e fingir-se com ardil, por feição que se fez lugar entre os portugueses. O que não admira. Pois é costume desta nação venerar o de fora, e desprezar o de casa. Parece que como Deus criou esta nação para descobrir terras, lhe influiu inclinar-se para estrangeiros. Pelo que, se lhes pega o que vem de fora como se fosse natural, e tratam o natural como se fosse estranho. Um perpétuo milagre se vê no céu de Portugal: e é que têm nele melhor estrela os estrangeiros que os naturais. Estima-se em Portugal como raro e amável, o que é estranho e peregrino.[...]
Diogo César de Meneses, falando de frei Nicolau de Velasco, pela pena de Camilo Castelo Branco em "Luta de gigantes", 6.ª edição, de 1976, da Parceria A. M. Pereira, p. 80-81
5 de agosto de 2010
Da felicidade na ignorância, segundo Camilo.
«[...] A cada canto de jornal se insinua que o saber soletrar uma página de letra de imprensa e escrever sem ideias nem ortografia uma carta, melhora a condição do sujeito, civiliza e corrige o instinto do vício e do crime. Seria bom argumentar com os factos. Vila Nova de Famalicão é a mais estúpida comarca da província do Minho, a seguir ao Soajo. Na aldeia em que vivo há vinte anos, não há um aluno de escola. Nas outras do concelho, de longe a longe, aparece um mestre de primeiras letras, sem discípulos. Pois em todo o Minho, exceptuado Soajo, não há comarca em que a estatística da criminalidade seja menor, e mais significativa de uma avançada civilização. O mais notável crime aqui perpretado, nos últimos dez anos, foi um fraticídio, não praticado por um analfabeto, mas por um regressado do Brasil com bastante leitura de almanaques e uma caligrafia muito regular.»
Camilo Castelo Branco, 1886, Serões de São Miguel de Seide.
12 de julho de 2010
Da extinção das espécies.
Dito isto, o doutor Duarte Madeira Arrais ergueu-se e acrescentou:
- Quer alguma cousa de mim?
- Desejava que me receitasse alguma cousa para a dor do fígado.
- Tome um caldo de víboras.
- De víboras? O doutor cuida que as víboras se vendem na praça como as frangas?!
- Eu apliquei muitas vezes a meu amo o senhor D. João IV o caldo de víbora. No meu tempo apareciam em barda, quando eram necessárias.
- Agora não há víboras.
- Então que sumiço levaram elas?
- Provavelmente esconderam-se no coração das damas.
O douto alisou as meias de seda preta, simetrizou as fivelas das ligas e despediu-se, murmurando:
- Ainda bem que eu deixei de amar há cento e oitenta anos. No meu tempo o coração da mulher era ninho de rolas, e não lura de víboras.
Camilo Castelo Branco, Cousas leves e pesadas (A Hidroterapia)
- Quer alguma cousa de mim?
- Desejava que me receitasse alguma cousa para a dor do fígado.
- Tome um caldo de víboras.
- De víboras? O doutor cuida que as víboras se vendem na praça como as frangas?!
- Eu apliquei muitas vezes a meu amo o senhor D. João IV o caldo de víbora. No meu tempo apareciam em barda, quando eram necessárias.
- Agora não há víboras.
- Então que sumiço levaram elas?
- Provavelmente esconderam-se no coração das damas.
O douto alisou as meias de seda preta, simetrizou as fivelas das ligas e despediu-se, murmurando:
- Ainda bem que eu deixei de amar há cento e oitenta anos. No meu tempo o coração da mulher era ninho de rolas, e não lura de víboras.
Camilo Castelo Branco, Cousas leves e pesadas (A Hidroterapia)
16 de novembro de 2009
A arte de gastar II.

(...)
Chegou enfim o dia da repartição da terça. Eram cerca de oitocentos os pobres dados na lista, e duzentos contos a terça dos três milhões. Orçou por sessenta moedas de ouro a esmola de cada um. (...)
Sumariando os males que imediatamente à distribuição do dinheiro se experimentaram, não houve no decurso do ano seguinte jornaleira nem oficial de alguma arte que aceitasse trabalho. As filhas dos lavradores equipadas de grilhões e arrecadas de ouro, afligiam os pais com rogos de iguais enfeites; e, se lhos negavam, fugiam da labutação dos campos, compelindo os pais a premiarem-lhes a desmoralização da desobediência.
Convergiram àqueles sítios jogadores de longe, sendo a esquineta o jogo mais na voga e livremente exercido em público.(...)
Duas especialidades de luxo, de algum modo ridículas, se manifestaram naquele gentio de oitocentas pessoas, apostadas a dissiparem algumas centenas de contos: uma era que todo o herdeiro comprou seu garrano; a outra era regular cada qual o seu tempo por dois relógios à feição dos «incríveis» do Directório em França. Em dia de romagem, cada freguesia regorgitava uma caravana de romeiros, cavalgados em garranos, gritando à desgarrada: «Viva Londres!» e, à porta de cada taberna, se algum ébrio bastante cínico bebia à saúde do defunto Manuel Vieira, a chusma gargalhava, babujando com a espuma do vinho uns chascos vilanazes como eles esvurmavam desta ralé do Minho, a mais bestial raça que estanceia na Europa.»
Camilo Castelo Branco, O demónio de ouro, vol. II.
A Arte de Gastar I.
Família que ganhou 600 mil euros no totoloto vive hoje de rendimento mínimo atribuído pelo Estado português.
«(...) três milhões. Esta quantia em 1799 era um colosso de ouro, uma fábula oriental, o sonho de um avarento, o mais que poderiam dar de si as fábricas de moeda que cabiam na imaginação de Lacalprenéde e Redacliffe.
(...)
Agora abramos a lista dos co-herdeiros dos três milhões de herança de Manuel e Eulália Vieira.
Determinaram ambos os testadores que a terça fosse distribuída pelos pobres de Rendufinho, onde Manuel havia nascido, e pelos de Vilar e Geraz, donde eram os pais de Eulália. (...)
Na cobrança dos legados contravieram estorvos e trapaças de toda a espécie, desde a justa precaução da lei até à ladroeira desbragada.
Por parte dos pobres, contemplados com a terça, saíram com procuração uns solicitadores que já se haviam enriquecido, mancomunados com as justiças inglesas, antes que os herdeiros pusessem as vistas nas pilhas nos soberanos. (...)
Na repartição da terça pelos pobres de Vilar e Rendufinho ressaltaram novos impedimentos. As outras freguesias do concelho destacaram moradores provisórios para as duas contempladas. Cada lavrador encheu as suas cortes de criados gratuitos, sob condição de os arrolar na lista dos pobres. (...) Lavradores remediados apresentaram certidão de pobreza com grande escândalo dos verdadeiros pobres que umas vezes espancavam os adventícios, e algumas vezes os seus próprios vizinhos, de quem haviam recebido mercês.
Na expectativa da herança, que em Lanhoso sofrera grossa sangria dos agentes emparceirados com a justiça, os jornaleiros recusavam pegar na enxada, e as mulheres olhavam para as rocas e sarilhos com entojo. Faltaram braços para as ceifas; a colheita de dois anos foi mesquinha; e, primeiro que se emborcasse a cornucópia das peças, houve fome. (...)»
Camilo Castelo Branco, O demónio de ouro, Vol. II.
«(...) três milhões. Esta quantia em 1799 era um colosso de ouro, uma fábula oriental, o sonho de um avarento, o mais que poderiam dar de si as fábricas de moeda que cabiam na imaginação de Lacalprenéde e Redacliffe.
(...)
Agora abramos a lista dos co-herdeiros dos três milhões de herança de Manuel e Eulália Vieira.
Determinaram ambos os testadores que a terça fosse distribuída pelos pobres de Rendufinho, onde Manuel havia nascido, e pelos de Vilar e Geraz, donde eram os pais de Eulália. (...)
Na cobrança dos legados contravieram estorvos e trapaças de toda a espécie, desde a justa precaução da lei até à ladroeira desbragada.
Por parte dos pobres, contemplados com a terça, saíram com procuração uns solicitadores que já se haviam enriquecido, mancomunados com as justiças inglesas, antes que os herdeiros pusessem as vistas nas pilhas nos soberanos. (...)
Na repartição da terça pelos pobres de Vilar e Rendufinho ressaltaram novos impedimentos. As outras freguesias do concelho destacaram moradores provisórios para as duas contempladas. Cada lavrador encheu as suas cortes de criados gratuitos, sob condição de os arrolar na lista dos pobres. (...) Lavradores remediados apresentaram certidão de pobreza com grande escândalo dos verdadeiros pobres que umas vezes espancavam os adventícios, e algumas vezes os seus próprios vizinhos, de quem haviam recebido mercês.
Na expectativa da herança, que em Lanhoso sofrera grossa sangria dos agentes emparceirados com a justiça, os jornaleiros recusavam pegar na enxada, e as mulheres olhavam para as rocas e sarilhos com entojo. Faltaram braços para as ceifas; a colheita de dois anos foi mesquinha; e, primeiro que se emborcasse a cornucópia das peças, houve fome. (...)»
Camilo Castelo Branco, O demónio de ouro, Vol. II.
30 de outubro de 2009
Do Amor.
«Duas enfermidades há por aí cujos sintomas não descobrem as pessoas inexpertas: uma é o amor, a outra é a ténia. Os sintomas do amor, em muitos indivíduos enfermos, confundem-se com os sintomas do idiotismo. É mister muito acume de vista e longa prática para discriminá-los. Passa o mesmo com a ténia, lombriga por excelência. O aspecto mórbido das vítimas daquele parasita, que é para os intestinos baixos, o que o amor é para os intestinos altos, confunde-se com os sintomas de graves achaques, desde o hidrotórax até à espinhela caída.»
Camilo Castelo Branco, A queda de um anjo.
Camilo Castelo Branco, A queda de um anjo.
20 de outubro de 2009
Genialidades.
«Ó país das grandes cabeças, porque não és tu feliz? É por que o insígne diplomático padre António Vieira disse um dia:
"Os mais felizes reinos não são aqueles que tem as mais bem entendidas cabeças, se não aqueles que tem as mais bem entendidas mãos".
Quanto a mãos, veja-se uma certa Arte... ou não se veja nada, que é o melhor.»
Camilo Castelo Branco, O Demónio de ouro, P.A.M., vol. I, 5ª ed., p. 100.
"Os mais felizes reinos não são aqueles que tem as mais bem entendidas cabeças, se não aqueles que tem as mais bem entendidas mãos".
Quanto a mãos, veja-se uma certa Arte... ou não se veja nada, que é o melhor.»
Camilo Castelo Branco, O Demónio de ouro, P.A.M., vol. I, 5ª ed., p. 100.
11 de outubro de 2009
Já não há presidentes como Calisto...
Em suma, Calisto era legitimista quieto, calado, e incapaz de empecer a
roda do progresso, com tanto que ele não lhe entrasse em casa, nem o
quisesse levar consigo.
Prova cabal de sua tolerância foi ele aceitar em 1840 a presidência
municipal de Miranda. Na primeira sessão camarária falou de feitio e
jeito, que os ouvintes cuidavam estar escutando um alcaide do século XV
levantado do seu jazigo da catedral. Queria ele que se restaurassem as
leis do foral dado a Miranda pelo monarca fundador. Este requerimento
gelou de espanto os vereadores; destes, os que puderam degelar-se,
riram na cara do seu presidente, e emendaram a galhofa dizendo que a
humanidade havia já caminhado sete séculos depois que Miranda tivera
foral.
-Pois se caminhou, replicou o presidente, não caminhou direita. Os
homens são sempre os mesmos e quejandos; as leis devem ser sempre as
mesmas.
-Mas... retorquiu a oposição ilustrada, o regime municipal expirou
em 1211, sr. presidente! V. ex.a não ignora que há hoje um código de
leis comuns de todo o território português, e que desde Afonso II se
estatuiram leis gerais. V. ex.a de certo leu isto...
-Li, atalhou Calisto de Barbuda, mas reprovo!
-Pois seria útil e racional que v. ex.a aprovasse.
-Útil a quem? perguntou o presidente.
-Ao município, responderam.
-Aprovem os srs. vereadores, e façam obra por essas leis, que eu
despeço-me disto. Tenho o governo de minha casa, onde sou rei e
governo, segundo os forais da antiga honra portuguesa.
Disse, saiu, e nunca mais voltou à câmara.
roda do progresso, com tanto que ele não lhe entrasse em casa, nem o
quisesse levar consigo.
Prova cabal de sua tolerância foi ele aceitar em 1840 a presidência
municipal de Miranda. Na primeira sessão camarária falou de feitio e
jeito, que os ouvintes cuidavam estar escutando um alcaide do século XV
levantado do seu jazigo da catedral. Queria ele que se restaurassem as
leis do foral dado a Miranda pelo monarca fundador. Este requerimento
gelou de espanto os vereadores; destes, os que puderam degelar-se,
riram na cara do seu presidente, e emendaram a galhofa dizendo que a
humanidade havia já caminhado sete séculos depois que Miranda tivera
foral.
-Pois se caminhou, replicou o presidente, não caminhou direita. Os
homens são sempre os mesmos e quejandos; as leis devem ser sempre as
mesmas.
-Mas... retorquiu a oposição ilustrada, o regime municipal expirou
em 1211, sr. presidente! V. ex.a não ignora que há hoje um código de
leis comuns de todo o território português, e que desde Afonso II se
estatuiram leis gerais. V. ex.a de certo leu isto...
-Li, atalhou Calisto de Barbuda, mas reprovo!
-Pois seria útil e racional que v. ex.a aprovasse.
-Útil a quem? perguntou o presidente.
-Ao município, responderam.
-Aprovem os srs. vereadores, e façam obra por essas leis, que eu
despeço-me disto. Tenho o governo de minha casa, onde sou rei e
governo, segundo os forais da antiga honra portuguesa.
Disse, saiu, e nunca mais voltou à câmara.
Camilo Castelo Branco, A queda de um anjo, 1866
1 de junho de 2009
Camiliana I

Eis a recente aquisição para a minha Camiliana. Bom negócio, como o são todos os livros de Camilo Castelo Branco. De resto, esta segunda edição (que no fundo é a primeira, pois foi aumentada com dois contos que não integravam a publicação de 1857) é um hino à ironia crítica e hilariante de CCB. Sigo para Espanha e deixo-vos com algumas palavras desta obra. Até breve.
«O demonio para a convivencia é muito melhor sugeito que o
homem. Se não crêem, leiam o que o padre Vieira prégou no quarto sabbado da
quaresma de 1652:"Hão de vêr que Deus Nosso Senhor, tentado pelo demonio,
venceu o inimigo sem grande esforço; tentado pelo homem, viu-se em apêrtos de
que o salvou a sua divina coragem." Julgaes que o demonio não tenha uma
consummada litteratura com que vos enriqueça o espirito? "O demonio é mais
letrado, mais theologo, mais phylosofo, mais agudo, e mais subtil que todos os
homens". Isto diz o Bossuet portuguez, só não lhe chama "poeta": mais uma razão
para confiarmos no bom-siso do demonio posto que eu muitas vezes pensei que elle
trazia, pelo menos, a pontinha da cauda em algumas brochuras do meu
conhecimento.»
Nota bene: O Obliviário volta a ter comentários e, não sei se alguém reparou, mas no final da página pode aceder a breves linhas que vou enviando do twitter. Estando em viagem usarei um ou outro (blogue ou twitter) para dar notícias do périplo. Uma boa semana a todos.
14 de maio de 2009
24 de fevereiro de 2009
Minha pátria é a língua portuguesa (Fernando Pessoa)
Duas coisas (entre muitas) me entristecem neste país:
- Que estraguem a língua portuguesa, preterindo-a pelas modas;
- Que a vendam para pagar a ignorância dos políticos, que pouco sabem de línguística, nada de cultura e menos ainda de honra. § Como é possível que um dicionário normal, dos mais acessíveis a estudantes, não sirva para ajudar a compreender um texto de Camilo Castelo Branco, mas se prepare para o Acordo Ortográfico? Tomemos atenção, de uma vez por todas, que não existe Português Europeu - existe Português. No Brasil fala-se português, em Angola, fala-se Português etecetera. Ponto. Nada mais. O resto são devaneios de bur(r)ocratas que retalham a pátria de Fernando Pessoa para gáudio da sua ascenção social e política. § Razão tinha Calisto Elói:
"Assim se ergeu, cuidou em aformosear a saleta, cuja decoração era menos de modesta. Saiu açodado ao armazém dos mais elegantes estofos, e comprou alfaias magnifícas. O homem pasmava dos nomes daqueles objectos, nenhum dos quais soava portuguesmente. - Porque chamam a isto chaise longue ? - perguntava Calisto Elói ao engenheiro Margoteau.
- Porque chamam?!
- Sim; eu creio que se não ofende a França no caso de chamarmos a este móvel uma cadeira longa, ou uma preguiceira, que soa melhor. E etágere e console e onaise? E é caríssimo tudo isto! A gente, pelos modos, de fora parte os objectos, também paga a lição de francês do samblador, que vem aqui aprender?"
Camilo Castelo Branco, A queda de um anjo.
- Que estraguem a língua portuguesa, preterindo-a pelas modas;
- Que a vendam para pagar a ignorância dos políticos, que pouco sabem de línguística, nada de cultura e menos ainda de honra. § Como é possível que um dicionário normal, dos mais acessíveis a estudantes, não sirva para ajudar a compreender um texto de Camilo Castelo Branco, mas se prepare para o Acordo Ortográfico? Tomemos atenção, de uma vez por todas, que não existe Português Europeu - existe Português. No Brasil fala-se português, em Angola, fala-se Português etecetera. Ponto. Nada mais. O resto são devaneios de bur(r)ocratas que retalham a pátria de Fernando Pessoa para gáudio da sua ascenção social e política. § Razão tinha Calisto Elói:
"Assim se ergeu, cuidou em aformosear a saleta, cuja decoração era menos de modesta. Saiu açodado ao armazém dos mais elegantes estofos, e comprou alfaias magnifícas. O homem pasmava dos nomes daqueles objectos, nenhum dos quais soava portuguesmente. - Porque chamam a isto chaise longue ? - perguntava Calisto Elói ao engenheiro Margoteau.
- Porque chamam?!
- Sim; eu creio que se não ofende a França no caso de chamarmos a este móvel uma cadeira longa, ou uma preguiceira, que soa melhor. E etágere e console e onaise? E é caríssimo tudo isto! A gente, pelos modos, de fora parte os objectos, também paga a lição de francês do samblador, que vem aqui aprender?"
Camilo Castelo Branco, A queda de um anjo.
10 de junho de 2008
Language for dummies.
Há muito que o inglês destronou as línguas universais - clássicas e modernamente criadas - para tornar-se, ele próprio, governante do mundo falante e escrito, qual senhor absoluto de todos os anéis. As mitologias gregas e romanas liquefizeram-se em imagens cinematográficas passadas, já não no Olimpo, mas em Hollywood. Não me espanta, pois, que o latim esteja a morrer. Moribundo ficou logo quando quem o podia ressuscitar o apunhalou durante as sessões do Vaticano II e hoje, a «pérfida Albion», ri-se às bandeiras despregadas uma vez que se sabe que há quem melhor fale esta língua de bárbaros do que a sua própria. § Eu, que não gosto particularmente da cultura britânica nem das suas filhas e enteadas, gostava de ressuscitar a obra intitulada «Vinho do Porto», onde o autor, Camilo Castelo Branco, pôs a nú as indecências dos nossos velhos aliados - os mesmos que, emborcando tanto quanto podiam o nosso vinho fino duriense iam de fininho a Inglaterra cuspir no copo onde bebiam, chamando-nos mimosos nomes de javardos para baixo. «A morte desastrosa do barão de Forrester, em 12 de Maio de 1861, é uma das mais notáveis vinganças que o rio Douro tem exercido sobre os detractores dos seus vinhos», anotou o notável escritor. Anotou e bem que do rio tenha partido semelhante atitude, que não tivesse (compreensivelmente) partido dos seus humanos vizinhos, habituados ao servilismo e aos desmandos estrangeiros. Ainda agora os descendentes desses anglófilos e estrangeirófilos se puseram a jeito para que o Brasil nos substitua o recto pelo reto.
2 de junho de 2008
Camilo Castelo Branco (1825-1890)
N.R. (c) Seide, 1998
“Sou o cadáver representante dum nome que teve alguma reputação gloriosa neste país, durante quarenta anos de trabalho… Chamo-me Camilo Castelo Branco e estou cego”.
Passaram ontem cento e dezoito ano sobre o suicídio de Camilo. Na foto, a casa de São Miguel de Seide, onde fui pela primeira vez em 1998, quando estudava em Braga. É um dos locais mais belos, mais calmos e mais especiais que conheço em todo o Minho. Escrevinha lá o espírito de Camilo e o único som que se ouve é o do atrito da sua pena sobre o papel. A morte do escritor sucede pouco tempo depois do Ultimatum Inglês - vejo-a como uma morte ritual, simbólica, depois de um lento agonizar de um lento fechar de olhos. Camilo Castelo Branco acabou com a sua vida a 1 de Junho de 1890. Esse ano foi também o início do fim de uma ideia de Portugal.
12 de março de 2008
A inveja é uma coisa feia...
Mas foi isso mesmo que eu senti ao percorrer estes sites sobre Camilo Castelo Branco:
Camilo 2.0
Flickr de Luísa Alvim
Coisas óptimas!
E eu a pensar que o Camilo era só meu...
1 de março de 2008
Velhos títulos para tempos de hoje.

"- Mateus, estes senhores vão arranjar votos para ti com a condição de tu lá em Lisboa lhe arranjares umas coisitas que eles querem do governo.
- Tudo o que humanamente se puder fazer - disse o bacharel. - Diga cada um dos meus nobres amigos o que pretende.
O mais grave dos seis, falou assim:
- Eu queria que o sr. doutor arranjasse uma comenda, ou uma coisa assim para o meu primo António, que tem a loja da esquina da praça de Carlos Alberto, e já na outra eleição andei a trabalhar pelos históricos, ou que diabo são, e por fim de contas a comenda não veio.
- Conte seu primo António com a comenda; e V. Ex.ª não quer nada? - disse o candidato.
Eu só queria que o sr. doutor dissesse lá ao governo que mandasse cortar as árvores que plantaram na praça e me tiram a vista à minha casa.
- Serão cortadas as árvores.
- Eu - disse o segundo - tenho um filho formado a comer-me há doze anos as meninas dos olhos, e queria que o sr. doutor lhe arranjasse um despacho para delegado.
- Pode dizer ao seu filho que está despachado.
Falou o terceiro:
- Queria eu que V. Ex.ª fizesse com que a estrada em vez de passar em Guinfães, fizesse uma curva por trás da igreja de Ranhados, que me ia passar mesmo à porta.
- Nada mais fácil. Terá v. Ex.ª a estrada mesmo à porta. E o meu amigo o que quer?
- Eu queria que se botasse a terra o conselho de saúde, sendo possível.
É possível: logo que eu chegue a Lisboa o conselho de saúde há-de cair para nunca mais se levantar.
O quinto disse que tinha uma questão de grande importância no supremo tribunal, depois que a perdera em todas as instâncias. O bacharel teve a paciência de escutar os direitos do demandista, e lavrou o acórdão.
Finalmente o sexto eleitor pediu a bagatela de um caminho de ferro a Mirandela, por Murça, onde ele tinha uma herdade e parentela que nunca vira por falta de comunicações.
Maravilhou-se Mateus da parcimónia das pretensões e animou-os a exigirem mais alguma cousa. Tomou assentos na sua carteira, e deu um abraço em cada um, quando todo à uma lhe disseram: - Está deputado o sr. dr. Mateus."
CASTELO BRANCO Camilo - Cenas inocentes da comédia humana, 5.ª edição. Lisboa: Parceria A.M.Pereira, 1972, pp. 225-226.
- Tudo o que humanamente se puder fazer - disse o bacharel. - Diga cada um dos meus nobres amigos o que pretende.
O mais grave dos seis, falou assim:
- Eu queria que o sr. doutor arranjasse uma comenda, ou uma coisa assim para o meu primo António, que tem a loja da esquina da praça de Carlos Alberto, e já na outra eleição andei a trabalhar pelos históricos, ou que diabo são, e por fim de contas a comenda não veio.
- Conte seu primo António com a comenda; e V. Ex.ª não quer nada? - disse o candidato.
Eu só queria que o sr. doutor dissesse lá ao governo que mandasse cortar as árvores que plantaram na praça e me tiram a vista à minha casa.
- Serão cortadas as árvores.
- Eu - disse o segundo - tenho um filho formado a comer-me há doze anos as meninas dos olhos, e queria que o sr. doutor lhe arranjasse um despacho para delegado.
- Pode dizer ao seu filho que está despachado.
Falou o terceiro:
- Queria eu que V. Ex.ª fizesse com que a estrada em vez de passar em Guinfães, fizesse uma curva por trás da igreja de Ranhados, que me ia passar mesmo à porta.
- Nada mais fácil. Terá v. Ex.ª a estrada mesmo à porta. E o meu amigo o que quer?
- Eu queria que se botasse a terra o conselho de saúde, sendo possível.
É possível: logo que eu chegue a Lisboa o conselho de saúde há-de cair para nunca mais se levantar.
O quinto disse que tinha uma questão de grande importância no supremo tribunal, depois que a perdera em todas as instâncias. O bacharel teve a paciência de escutar os direitos do demandista, e lavrou o acórdão.
Finalmente o sexto eleitor pediu a bagatela de um caminho de ferro a Mirandela, por Murça, onde ele tinha uma herdade e parentela que nunca vira por falta de comunicações.
Maravilhou-se Mateus da parcimónia das pretensões e animou-os a exigirem mais alguma cousa. Tomou assentos na sua carteira, e deu um abraço em cada um, quando todo à uma lhe disseram: - Está deputado o sr. dr. Mateus."
CASTELO BRANCO Camilo - Cenas inocentes da comédia humana, 5.ª edição. Lisboa: Parceria A.M.Pereira, 1972, pp. 225-226.
12 de dezembro de 2007
Ela vai para Lamego?
“-Ela vai para Lamego?
-Sim, vai para o Convento das Chagas.”
Camilo Castelo Branco, O retrato de Ricardina
Eu também vou, estarei por lá até sexta-feira.
Na foto o «velho» Rossio: “A românica torre da Sé projectava uma sombra torva sobre o Rossio, que era o coração da cidade. Ali desembocavam as diligências das longas estradas reais, em número que permitia às malvas e à relva crescer e atapetar o largo. O Seminário, o Paço, a Sé com pórticos de arquivoltas múltiplas, de fina lavra, um solar, destituído, soberbo de cantaria, e os muros vão de um palácio delimitavam-no como a um claustro” escreveu Aquilino Ribeiro em Via sinuosa.
11 de dezembro de 2007
A terra de Nod.

Comprei há um par de semanas a Boémia do Espírito (4.ª edição, de 1959 - a 1.ª é de 1886, Lello & Irmãos, brochado, 504 pp.) do meu muito amado Camilo. Trata-se de uma selecta de crónicas várias (históricas e jornalísticas) que o autor engendrou ao longo da sua vida recheada de polémicas e descrições picarescas. Quanto a mim Camilo Castelo Branco é génio, não porque alinhou no snobismo do país para poder conquistá-lo, como fez Eça de Queirós, mas por que se riu dele - do país e dele próprio. É o segredo da alquimia do bem viver em Portugal: rir. E, nesse aspecto, melhor do que ninguém Camilo soube distanciar-se da irracionalidade ao, no trágico da sua vida e do país onde nasceu, espicaçar a condição humana e social de um país que muito pouco mudou em pouco mais de século e meio.
Alexandre Dumas, Filho quer que Caim casasse com uma macaca, natural do país de Nod, terra desconhecida a Estrabão. É lógicamente rigoroso que um país desconhecido a Ptolomeu e outros geógrafos antigos seja país de macacas. Se V. S.ª não achar no mapa de Portugal a terra onde fui criado e educado, a Samardan, fica autorizado a decidir que eu, em pequeno, andava lá pelos bosques a brincar com as caudas dos cinocéfalos, meus mestres de ginástica e gesticulação.
- De onde és tu, meu amor? - pergunto, na praia da Foz, á mulher que adoro.
- Sou de S. Gonhedo - respondeu ela.
- De S. Gonhedo? Espera aí.
Abro o «Dicionário geográfico» de que ando munido depois dos últimos acontecimentos. Procuro S. Gonhedo, e não acho.
Começo a suspeitar que o meu amor é de Nod - que é, pelo menos, amacacada. Disfarço, acendo o meu charuto, e safo-me. É o mais prudente.
C.C.B. in «A Espada de Alexandre», na colectânea Boémia do Espírito.
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