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2 de agosto de 2010

Ultimatum e germanofilia (Portugal, 1941)


Adquiri recentemente este pequeno opúsculo, escrito sob um pseudónimo (Viriato d'Entremontes) datado de 1941, um ano depois de passarem 50 anos sobre o Ultimatum, episódio considerado por muitos como o turning point no percurso da monarquia constitucional representada na pessoa de D. Carlos, que se tornou o bode expiatório de um processo muito mais vasto no longo relacionamento entre Portugal e a Inglaterra. O opúsculo é particularmente enfático e crítico ao abordar as relações Luso-Britânicas, cumulando a «poderosa Albion» de epítetos como «hipócrita», «sobranceira», «arrogante», etc. O Ultimatum constituiu o aríete dos republicanos para abrir brechas irreparáveis na monarquia portuguesa, mas como todos os orgulhos nacionalistas que são transversais a partidarismos e ideologias, converteu-se, mais tarde, num sentimento abrangente em que o outro já não é o regime, mas qualquer inimigo que ousa afrontar. De resto os republicanos que a coberto do Ultimatum ou do 31 de Janeiro vociferaram contra o Reino Britânico, não hesitaram em pedir-lhe ajuda para estabelecer o novo regime ou aliar-se na inglória incursão pela I Grande Guerra. Em plena II Grande Guerra, apesar da neutralidade portuguesa, não podemos descurar a corrente germanófila, nacionalista e profundamente anti-britânica. Cremos que o autor deste opúsculo integraria as fileiras desses apoiantes, tendo aproveitado a efeméride cinquentenária do Ultimatum para manifestar uma um pensamento claro, sublinhada, aliás, pelas várias expressões anti-semitas associadas a posições de extremista repugnância em relação ao «jugo inglês». Um curioso documento sobre o Nacionalismo e da Propaganda Pró-germânica no Portugal diplomaticamente neutro de 1940.

31 de julho de 2010

Um Portugal tão próximo.




Zebreira a 13 de abril 1935
minha bôa e sempre lembráda
amiga a sua bôa saude e do L.º
Doutor e da Senhora D. Maria. É esse
o meu maior desejo, tenho recebido
as suas cartas o qual lhe peço desculpa
da minha demóra, mas eu queria
lhe mandar dizêr como correu
ajuda da I. Barrôca éla mostrou-me
a carta que lhe escrevêram a éla
e cumpre até ôje como déve
já meter a cantaria tôda mas
lá a tem n arua dela, nem
cá vêm a erijir que lá deixá-sse
passár náda, nem pelo mênos
me disse náda, até agora está bem
agóra em descubrindo o telhado é que //

ca pôe a telha e mais o que não
puder dispensár, estejamos discançádos
que eu cá repáro e lhe vou dizendo
para vocemecês o que se pássa,
o jenrro da Locádia diz êle agora que
comprar não póde que lhe convinha
arrendádo, mas tál rendeiro não pode
sêr;...
Tenho muito agradecêr-lhe os parabens
da escritura do Marráfa, assim como
tambem agradeço os ilogios que o
L.º Doutor deu ao meu Jose na outra
cárta foi quando êle ca estáve da
outra vêz e êle gostou dos concêlhos
do L.º Doutor Mais uma vêz lhe digo
que já cá está e viéram oje as //

notas dêle Português 13 Matemática 12
Sciencias 11 instrução Morál 12 Desenho 13
Francês 10, as nótas são bem bôas e
vém com saude graças a deus estamos
satisfeitos.
Sou a dizêr-lhe que sua comádre
muito mál, disse-me éla ontem
que vai ir agora com o filho antes
de fésta que vem êles a buscá-la,
Sou a dizer-lhe que se afogou a
Luiza do Bartolomeu a mais vélha
o L.º P. José Bazilio está tôdo pesarôzo
foi pena mas então éla que se deitou
afogar algum jeito lhe encontrou
a respeito desta carta fala-me na
venda d'azeitona muida cá a eide
vender eu já disse algumas que em
querendo comprar que as vêndo //

ca falei com a Chóva que se queria
ficár com o trigo para o verão ou
pagar agóra?... E éla respondeu que
agóra tem a vida espalháda mas
por todo este mês a vêr se o
arranja que não o quer para o verão,
e que o paga a 15$00, quando ela
pagár eu logo envio o dinheiro.
tremino por enviar comprimentos de
meus pais e do meu Francisco e um
abraço do meu Jose e dos outros filhos
tive os dois mais nóvos com o sarampo
mas ficaram rijos, o João estev mais
mal ainda anda móle, minha mãe tráz
uma vista muito mál já ha 10 dias
envio os meus comprimentos para o L. Doutor
e vai um abráço para a Lª D. maria e L.ª D.
Quitas, comprimentos ao L.º Doutor Silverio e à Gracinda //

e para vocemecê envio um grande abraço désta que é muito sua amiga
e nunca a esquéce Emília....

Carta adquirida num alfarrabista de Lisboa a 30-7-2010.