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5 de agosto de 2010

Da felicidade na ignorância, segundo Camilo.

«[...] A cada canto de jornal se insinua que o saber soletrar uma página de letra de imprensa e escrever sem ideias nem ortografia uma carta, melhora a condição do sujeito, civiliza e corrige o instinto do vício e do crime. Seria bom argumentar com os factos. Vila Nova de Famalicão é a mais estúpida comarca da província do Minho, a seguir ao Soajo. Na aldeia em que vivo há vinte anos, não há um aluno de escola. Nas outras do concelho, de longe a longe, aparece um mestre de primeiras letras, sem discípulos. Pois em todo o Minho, exceptuado Soajo, não há comarca em que a estatística da criminalidade seja menor, e mais significativa de uma avançada civilização. O mais notável crime aqui perpretado, nos últimos dez anos, foi um fraticídio, não praticado por um analfabeto, mas por um regressado do Brasil com bastante leitura de almanaques e uma caligrafia muito regular.»

Camilo Castelo Branco, 1886, Serões de São Miguel de Seide.

12 de julho de 2010

Da extinção das espécies.

Dito isto, o doutor Duarte Madeira Arrais ergueu-se e acrescentou:
- Quer alguma cousa de mim?
- Desejava que me receitasse alguma cousa para a dor do fígado.
- Tome um caldo de víboras.
- De víboras? O doutor cuida que as víboras se vendem na praça como as frangas?!
- Eu apliquei muitas vezes a meu amo o senhor D. João IV o caldo de víbora. No meu tempo apareciam em barda, quando eram necessárias.
- Agora não há víboras.
- Então que sumiço levaram elas?
- Provavelmente esconderam-se no coração das damas.
O douto alisou as meias de seda preta, simetrizou as fivelas das ligas e despediu-se, murmurando:
- Ainda bem que eu deixei de amar há cento e oitenta anos. No meu tempo o coração da mulher era ninho de rolas, e não lura de víboras.

Camilo Castelo Branco, Cousas leves e pesadas (A Hidroterapia)

19 de março de 2010

Qualquer semelhança é mera coincidência.

«Havia na Arábia um pequeno povo chamado Troglodita, que descendia daqueles antigos trogloditas que, se acreditarmos em historiadores, se pareciam mais com animais que com homens. Estes não eram assim não eram assim tão disformes: não eram peludos como ursos; não silvavam; tinham dois olhos; porém, eram maus e tão ferozes, que não existia entre eles um princípio algum de equidade e de justiça.

Tinham um rei de origem estrangeira, que, querendo corrigir a maldade da sua natureza, os tratava severamente. Porém, eles conjuraram contra ele, mataram-no e exterminaram toda a família real.

Tendo sido dado o golpe, reuniram-se para escolher um governo, e, depois de muitas dissensões, criaram magistrados. Porém, mal eles foram eleitos, logo se lhes tornaram insuportáveis e mais uma vez os massacraram.

Este povo, liberto deste novo jugo, já só consultou o seu natural selvagem; todos os particulares concordaram que não obedeceriam a mais ninguém; que cada um olharia apenas pelos seus interesses, sem consultar os outros.

Esta resolução unânime seduzia extremamente todos os particulares. Diziam "Para que vou eu matar-me a trabalhar para gente que não me interessa Só pensarei em mim; viverei feliz.
O que me importa que os outros o sejam? Satisfarei todas as minhas necessidades e, uma vez que as satisfaça, não me preocupa que todos os trogloditas sejam miseráveis."

Estava-se no mês em que se semeiam as terras. Todos disseram: "Só lavrarei o meu campo para que ele me forneça o trigo de que preciso para me alimentar; uma maior quantidade seria inútil para mim; não vou ter trabalho sem motivo."

As terras deste pequeno reino não eram da mesma natureza: havia terras áridas e montanhosas e outras que, num terreno baixo, eram banhadas por vários regatos. Nesse ano, a seca foi muito grande, de maneira que as terras que estavam nos locais elevados não produziam absolutamente nada, enquanto que as que puderam ser regadas foram muito férteis. Assim, os povos das montanhas pereceram quase todos de fome pela dureza dos outros, que recusaram partilhar com eles a colheita.

O ano seguinte foi muito pluvioso; os lugares elevados foram de uma fertilidade extraordinária, e as terras baixas ficaram submersas. Metade do povo passou um segunda vez fome; porém, estes miseráveis encontraram pessoas tão duras quanto eles próprios o tinham sido.»

Montesquieu, Cartas Persas

18 de fevereiro de 2010

"Portugal Enfermo", 1819

Eu vejo, nestes tempos desditosos
Povos empobrecidos, e chorosos ;
Pois quando vem hum mal, outros se seguem,
Que os Mortaes atenuão, e perseguem. '
Mas apezar da falta de dinheiro,
Apparece nos bairros o gaiteiro,

As bandeiras nas cordas penduradas
Por onde as festas sao annunciadas,'
Tudo feito com lustre , e com grandeza
Foi Juíza a Senhora Dona Andreza.
Os festeiros não tem nada de seu;
Mas a festa da rua tudo deu.
Anda o velho engraçado co' os Leilões
Dos cargos, que custarão bons tostões.
Temos fogo de vistas, vistas raras,
N'hum beco, que de Largo tem três varas

Que huma roda, que salta era fogo ardendo;
Vem desordens fazer nos que estão vendo;
E póde muito bem a propriedade
Com fogo reduzir-se em ametade.
Estes p'rigos não são muito pequenos,
E já tem succedido mais, ou menos.
Nunca vi de dinheiro tanta fome,
Nem tantas festas de despeza, e nome.
Eu louvo, e não crimino a devoção;
Haja festa de Igreja, e bom Sermão;
Tenha a festividade do arrayal
Cousas, que facão bera, e nunca mal.
O dinheiro de máscaras, e fogo
Vá gastar-se com outro desafogo
Mais útil, mais vistoso, mais louvável
Em acudir a tanto miserável.
Dem rações á pobreza dessa rua,
E a festa christãmente se conclua.
No lugar, era que o fogo armar se havia,
Haja comprida meza neste dia;
Hum, ou dois caldeirões de mantimento,
Que sirvão aos mendigos de sustento,
Ministrados por esses bons festeiros.
Que se facão da meza dispenseiros,
Sem tumulto, em socego, e com cuidado
No cégo, na criança, no aleijado.
Isto he que dá exemplo, he que edifica;
Deste modo a função completa fica [...]

Portugal Enfermo, José Luís Guerner, 1819

22 de novembro de 2009

«Outro se querendo navegar pola rota do seu exórdio deles, pedindo a V.A. favor & emparo, pera que minha enferma escritura não seja ferida de línguas danosas. Parece-me injusta oração pedir tão alto esteio pera tão baixo edifício, quanto mais ainda que dino foram de tão nobre emparo, tenho considerado que Cristo filho de Deus sob emparo de poderio eternal do Padre & todos os seus bem aventurados santos não passaram por esta vida tão livres, que dos malditos detratores não fossem julgadas suas divinas obras, por humanas leviandades: sua santa doctrina, por máxima ignorância; sua manifesta bondade, por falsa malícia; sua santíssima graça, por sorretício engano; sua excelsa abstinência, por vil hipocrisia; sua celeste pobreza, por terreno vício

Gil Vicente

11 de outubro de 2009

Já não há presidentes como Calisto...

Em suma, Calisto era legitimista quieto, calado, e incapaz de empecer a
roda do progresso, com tanto que ele não lhe entrasse em casa, nem o
quisesse levar consigo.

Prova cabal de sua tolerância foi ele aceitar em 1840 a presidência
municipal de Miranda. Na primeira sessão camarária falou de feitio e
jeito, que os ouvintes cuidavam estar escutando um alcaide do século XV
levantado do seu jazigo da catedral. Queria ele que se restaurassem as
leis do foral dado a Miranda pelo monarca fundador. Este requerimento
gelou de espanto os vereadores; destes, os que puderam degelar-se,
riram na cara do seu presidente, e emendaram a galhofa dizendo que a
humanidade havia já caminhado sete séculos depois que Miranda tivera
foral.

-Pois se caminhou, replicou o presidente, não caminhou direita. Os
homens são sempre os mesmos e quejandos; as leis devem ser sempre as
mesmas.

-Mas... retorquiu a oposição ilustrada, o regime municipal expirou
em 1211, sr. presidente! V. ex.a não ignora que há hoje um código de
leis comuns de todo o território português, e que desde Afonso II se
estatuiram leis gerais. V. ex.a de certo leu isto...

-Li, atalhou Calisto de Barbuda, mas reprovo!

-Pois seria útil e racional que v. ex.a aprovasse.

-Útil a quem? perguntou o presidente.

-Ao município, responderam.

-Aprovem os srs. vereadores, e façam obra por essas leis, que eu
despeço-me disto. Tenho o governo de minha casa, onde sou rei e
governo, segundo os forais da antiga honra portuguesa.

Disse, saiu, e nunca mais voltou à câmara.

Camilo Castelo Branco, A queda de um anjo, 1866

20 de setembro de 2009

A pureza original...

«Não, não aconselharei a viagem a Arouca. Além do mais, ainda lá não há nenhum grande centro comercial, nem nenhum hotel, embora a sua residencial seja melhor que muitos. nem nenhuma grande indústria, dessas que poluem rios e ares, embora a terra abunde como poucas em produtos agrícolas de qualidade insuperável.
E se muitos descobrirem as maravilhas do maciço da Gralheira, quase ignorado por geógrafos e viajantes ilustres, ou fizerem como o renomado actor lisboeta que todos os Verões abanca em Arouca, é certo e seguro que dentro de breve algum mamarracho desafiará as linhas sóbrias do mosteiro, o puré de batata entrará na composição dos doces, os frangos de aviário tomarão conta das mesas, o lixo e as barracas povorão a serra da Freita ou Arada, e até o conjunto etnográfico de Moldes virará grupo de rock, ou os redactores da Rurália escreverão em economês.
Por favor, ignorem ou evitem Arouca. (...)

ARNALDO SARAIVA, «O Sotaque do Porto», Edições Afrontamento, 1995

11 de agosto de 2009

Lembrança aos navegantes.

"As pessoas mais rotineiras, para quem a vida é uma especulação perspicaz dependente de grande cuidado no cálculo dos caminhos e meios, sabem sempre para onde se dirigem e vão lá ter. Partem com o desejo de ser o sacristão da paróquia: conseguem-no, mas nada mais.. Um homem cujo destino é ser qualquer coisa diferente daquilo que é, um membro do Parlamento, um merceeiro próspero, um advogado proeminente, um juiz, uma qualquer outra coisa igualmente fastidiosa, invariavelmente conseguem ser aquilo que queriam ser. Esse é o seu castigo. Todos os que querem uma máscara têm de usá-la." 

"Carta a Bosie", Oscar Wilde

5 de agosto de 2009

O Desnorte.

(...)
Uma primeira característica da retórica de José Sócrates: quando inaugura uma escola, um tribunal, quando celebra as virtudes de uma iniciativa do Governo ou premeia os resultados de tal grupo da sociedade civil, uma ideia surge sempre, reiterada até à exaustão - a ideia de que aquela "é a obra necessária, que vem na hora certa para a modernização do país"; era daquilo "que nós precisávamos, e de que vamos precisar"; e que toda a acção do Governo "vai naquele sentido, porque é o sentido certo, e devemos insistir cada vez mais em acções e iniciativas daquela natureza". E assim por diante batendo sempre na mesma tecla, de tal maneira que ali, a propósito daquele pequeno acontecimento (ou grande, como a inauguração de uma barragem, por exemplo) se concentra todo o sentido da governação socialista.
(...)
Talvez seja esta uma das grandes originalidades de um discurso que, por outro lado, repete sempre as mesma ideias, quase com as mesmas frases, literalmente medíocre, lexicamente pobre, sem rasgos nem surpresas: é o que está constantemente no presente mítico, transformando a obra mais banal num acontecimento de relevância mítica, exemplar, modelar.
(...)
Rejeitando o passado degrado, integrando nele o futuro, o discurso socrático do presente dirige-se a um auditor que suspendeu as suas ideias políticas, as suas escolhas partidárias, os seus conflitos sociais, que neutralizou o seu ser ideológico para se ligar directamente ao chefe, enquanto simples cidadão abstracto.


José Gil - Em busca da identidade - o desnorte.

É realmente uma pena que poucos leiam e entendam José Gil.

16 de abril de 2009

Olhares da fé


N.R. (2005)
Muito antes de descobrir que Miguel Torga se interessara por este extraordinário Cristo crucificado, tive a oportunidade de lhe dedicar um breve estudo histórico e iconográfico. À sua memória acrescenta-se hoje a impressão da memória de outrem. Os objectos, e as pessoas, também se constroem com as memórias das memórias. E estas são, muitas vezes, tudo o que resta.
"Um Cristo rústico, gótico, quase em tamanho natural, de saiote e cabeleira postiça, tão humano que esteve para ser enterrado um dia destes. O povo, cansado de não encontrar sentido na presença passiva e física de uma divindade mal amanhada, resolveu liquidar o caso numa cova. Queimá-lo, era sacrílego; dá-lo para o museu, não solucionava o problema; metê-lo debaixo da terra é que tinha todas as vantagens morais e materiais. § Um homem morto, sepulta-se. Infelizmente, entrou a casuística em acção, e a escultura foi apodrecer para um canto discreto. § O bom povo, embora às cegas e aos repelões, acaba sempre por encontrar a expressão exacta dos seus sentimentos e a soma dos sete palmos de lama no final de cada conta. Mas aparece-lhe um teólogo e dá com tudo em pantanas. Por cada arrazoado que faz um desses sofistas, é mais um paradoxo do mundo. § O daqui, é este deus com pernas e braços de cavador, mas que não cava, acolhido á sombra de telhas sagradas, mas discretamente escondido no fundo de uma sacristia." Miguel Torga, Diário IV (4.ª edição), p. 93 [Arneirós, Lamego, 1 de Abril]

Conselho do dia para todos os dias: o elogio da moderação e do silêncio.

"O pior e mais danoso membro, que há no homem é a língua. Nenhuma coisa há mais branda, nem mais áspera, nenhuma mais aparelhada para danar, nem mais dificultosa de refrear. Muitos bens e muitos males nos veio da língua. Portanto pedia David a Deus, que pusesse guarda na sua boca, que ferrolhasse seus beiços, pera que não soltasse mais palavras. É o homem templo de Deus, cuja porta é a boca, que convém estar trancada para não ser roubado o tesouro da moderação de sua língua. Deve-se esconder, e guardar a língua como tesouro, e por isso acercou Deus de beiços, e dentes, como valos e muros, que a segurassem. O muito falar é lodo, e o pouco é ouro. Fala derradeiro e entende primeiro; fala pouco e bem, e ter-te-ão por alguém. O sábio falando se faz néscio, e o néscio calando se faz sábio." Frei Amador de Arrais, Diálogos, I.

27 de novembro de 2008

Nos tempos que correm...

"O Rei surge como a única força que no País ainda vive e opera."
Eça de Queirós, referindo-se a Dom Carlos I, um vencido da vida. Quem vive e opera, hoje?



...sabe bem recolhermo-nos na leitura dos pensamentos dos Vencidos da Vida. A razão estava e está do lado deles.


Combater apenas o analfabetismo do povo por meio de escolas primárias e de escolas infantis sem religião e sem Deus, não é salvar uma civilização, é derruí-la pela base por meio do pedantismo da incompetência, da materialização dos sentimentos e do envenenamento das ideias. Quem ignora hoje que foi a perseguição religiosa e o domínio mental da escola laica o que retalhou e fraccionou em França a alma da nação? Quem é que nesse tão amado, tão generoso e tão atribulado país não está vendo hoje objectivar-se praticamente o profético aforismo de Le Bon: «É sobretudo depois de destruídos os deuses que se reconhece a utilidade deles»!

12 de junho de 2008

Raça & república ou de como Pascoaes seria apedrejado.

«Neste momento genesíaco e caótico da nossa Pátria, é necessário que todas as forças reconstrutivas se organizem e trabalhem, para que ela atinja rapidamente a sonhada e desejada harmonia.
«O fim desta Revista [Águia], como orgão da "Renascença Portuguesa", será portanto, dar um sentido às energias intelectuais que a nossa Raça possui; isto é, colocá-las em condições de se tornarem fecundas, de poderem realizar o ideal que, neste momento histórico, abrasa todas as almas sinceramente portuguesas: - Criar um novo Portugal, ou melhor ressuscitar a Pátria Portuguesa, arrancá-la do túmulo onde a sepultaram alguns séculos de escuridade física e moral, em que os corpos definharam e as almas amorteceram. (...)
«É preciso, portanto, chamar a nossa Raça desperta à sua própria realidade essencial, ao sentido da sua própria vida, para que ela saiba quem é e o que deseja. (...)
«Ora, esta obra sagrada compete ao espírito português, a todos os portugueses que encerrem no seu ser uma parcela viva da alma da nossa Pátria. (...)
«Se não existisse uma alma portuguesa, teríamos de evolucionar conforme as almas estranhas, teríamos que nos fundir nessa massa amorfa da Europa; mas a alma portuguesa existe, vem desde a origem da Nacionalidade: de mais longe, da confusão de povos heterógeneos que, em tempos remotos, disputaram a posse da Ibéria. Houve um momento em que, no meio dessa confusão rumurosa e guerreira, se destacou uma voz proclamando um Povo, gritando a Alma de uma Raça: foi a Voz de Viriato; foi o verbo criador que encarnou em Afonso Henriques e se tornou acção e vitória.

Teixeira de Pascoaes, Revista A Águia, n.º 1, 1912.

11 de junho de 2008

Mensagem de Eça a alguns clérigos incautos, devotos néscios e ateus ignorantes.

A arte é tudo porque só ela tem a duração - e tudo o resto é nada! As sociedades, os impérios são varridos da terra, com os seus costumes, as suas glórias, as suas riquezas: e se não passam da memória fugitiva dos homens, se ainda para eles se voltam piedosamente as curiosidades, é porque deles ficou algum vestígio de Arte, a coluna tombada dum palácio, ou quatro versos num pergaminho. As Religiões só sobrevivem pela arte, só ela torna os deuses verdadeiramente imortais - dando-lhes forma. A divindade só fica absolutamente divina - quando um cinzel de génio a fixa em mármore; inspira então o grande culto intelectual, que é o único desinteressado e o único consciente; já nada tem a sofrer do livre exame: entra na serena região dos Incontestáveis e só então deixa de ter ateus. O mais austero católico é ainda pagão, como se era em Cítera, diante da Vénus de Milo. E a Nossa Senhora do Céu só tem adorações unânimes e louvores sem contestação, quando é o pincel de Murillo que a ergue sobre o Orbe, loura e toucada de estrelas.
Eça de Queirós, em Notas contemporâneas.

9 de fevereiro de 2008

Recordemos.

«Nesse final de século [XIX] a própria ideologia republicana se alimentou do ultranacionalismo da impotência gerada pelo Ultimatum. A república, conjunto de proposições políticas de subersivo teor ideológico mas de reduzidíssimo âmbito social, aparece então como a forma de apropriação de um destino colectivo confiscado, como então se escrevia, pela casa de Bragança, a monarquia liberal onde se enxertara bem a pouco burguesia nacional (e internacional). Poucos períodos da nossa História foram tão "patrióticos" como aquele que a República Portuguesa inagurou (...) Escusado será dizer que uma vez mais este patriotismo mascarava, com muita intensidade, a consciência sempre viva de uma "desvalia" nacional que o espectáculo político do parlamentarismo demagógico só podia confirmar».

Eduardo Lourenço
- O labirinto da saudade. Lisboa: D. Quixote, 1992, p. 25.