Duas coisas (entre muitas) me entristecem neste país:
- Que estraguem a língua portuguesa, preterindo-a pelas modas;
- Que a vendam para pagar a ignorância dos políticos, que pouco sabem de línguística, nada de cultura e menos ainda de honra. § Como é possível que um dicionário normal, dos mais acessíveis a estudantes, não sirva para ajudar a compreender um texto de Camilo Castelo Branco, mas se prepare para o Acordo Ortográfico? Tomemos atenção, de uma vez por todas, que não existe Português Europeu - existe Português. No Brasil fala-se português, em Angola, fala-se Português etecetera. Ponto. Nada mais. O resto são devaneios de bur(r)ocratas que retalham a pátria de Fernando Pessoa para gáudio da sua ascenção social e política. § Razão tinha Calisto Elói:
"Assim se ergeu, cuidou em aformosear a saleta, cuja decoração era menos de modesta. Saiu açodado ao armazém dos mais elegantes estofos, e comprou alfaias magnifícas. O homem pasmava dos nomes daqueles objectos, nenhum dos quais soava portuguesmente. - Porque chamam a isto chaise longue ? - perguntava Calisto Elói ao engenheiro Margoteau.
- Porque chamam?!
- Sim; eu creio que se não ofende a França no caso de chamarmos a este móvel uma cadeira longa, ou uma preguiceira, que soa melhor. E etágere e console e onaise? E é caríssimo tudo isto! A gente, pelos modos, de fora parte os objectos, também paga a lição de francês do samblador, que vem aqui aprender?"
Camilo Castelo Branco, A queda de um anjo.