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14 de setembro de 2011

«Cinto que estou cético»: Camilo e o Acordo Ortográfico.

Era no baile natalício do barão de ***. Festejava ele os anos de sua formosa Etelvina, que se morria de amores de um jovem que tinha diferentes gravatas, várias bengalinhas, e um pé muito pequeno, cujo calcanhar assentava num supedâneo, quatro dedos acima do botão da bota. Chamava-se Porfírio, e era céptico, e rico.
Etelvina queria-lhe da alma, e escrevia-lhe pela posta interna cartas, que eram modelo, afora a ortografia. E ele, o céptico, para dizer que o era, escrevia «cinto que estou cético». Corriam parelhas em ortografia, e com parelha que eram, escouceavam a prosódia.
Camilo Castelo Branco, Noites de Lamego, 5.ª edição, 1958, p. 15.

14 de julho de 2011

Resprivada.

Não sou linguista.
Não apoio o Acordo Ortográfico.
Passo a explicar. Como cidadão crítico e informado não aceito que, a nível ético, seja obrigado a fazer algo que não compreenda. O Estado, essa entidade abstracta gerida por sisudos técnicos e burrocráticos amanuenses que veneram contas, gráficos e quadros, não me pode obrigar a executar funções que não me são devidamente explicadas.
Como cidadão letrado e minimamente informado também sei que o Acordo Ortográfico na sua essência teórica está mal explicado. Que vem quase 20 anos depois de ter começado a ser delineado, que a sua utilidade educacional é quase nula e que no seu teor existem inúmeras contradições ao nível da linguagem e da gramática. Mas nem vou por aí. De resto há opiniões mais abalizadas que a minha para discutir estas questões científicas.
Mas o que irrita verdadeiramente é que coisas como a Língua, a Saúde, a Educação, a gestão do Território e do Tesouro público sejam alvo de decreto sem que os cidadãos sejam ouvidos. Num referendo, por exemplo.

10 de janeiro de 2010

Hua das cousas (discreto & curioso lector) que me pareceo ser muy necessaria & conveniente a toda pessoa que escreve, saber bem guardar a ortographia, ponde em seu lugar as letras & e os accentos necessarios que se requerem no discurso das escripturas. E por que nesta parte os mais dos Portugueses são muy estragados e viciosos, & com innmueraveis erros que cometem, corrompem a verdadeira pronunciação desta nossa linguagem Portuguesa, quis fazer estas regras da ortografia a rogo de alguns amigos [...]

GANDAVO, Pero de Magalhães, ?-1579
Regras que ensinam a maneira de escreuer a orthographia da lingua portuguesa : com hum Dialogo que adiante se segue em defensam da mesma lingua / autor Pero de Magalhães de Gandauo. - Em Lisboa : na officina de Antonio Gonsaluez, 1574 (disponível integralmente aqui)


O que teria a dizer Pero de Magalhães Gândavo sobre o actual estado da nossa ortografia?

30 de dezembro de 2009

Não diga «tolisses».

"Não deixa de ser curioso que alguns dos mais ferrenhos detractores do Acordo sejam bloggers que se distinguem pelos pontapés que todos os dias dão na gramática. O tipo de gente que começou a ler traduções de Robert Walser sem nunca ter lido João de Deus". Eduardo Pitta, em «Da Literatura»

Pena é que o Acordo Ortográfico, em vez de estimular a leitura de João de Deus, Camilo, ou mesmo Eça de Queirós, só sirva para massificar as novas escritas de Paulo Coelho e afins.

Outras opiniões:
http://portugaldospequeninos.blogspot.com/2009/12/lingua.html
http://blog.criticanarede.com/2009/12/jornal-publico-nao-adopta-acordo.html

24 de fevereiro de 2009

Minha pátria é a língua portuguesa (Fernando Pessoa)

Duas coisas (entre muitas) me entristecem neste país:
- Que estraguem a língua portuguesa, preterindo-a pelas modas;
- Que a vendam para pagar a ignorância dos políticos, que pouco sabem de línguística, nada de cultura e menos ainda de honra. § Como é possível que um dicionário normal, dos mais acessíveis a estudantes, não sirva para ajudar a compreender um texto de Camilo Castelo Branco, mas se prepare para o Acordo Ortográfico? Tomemos atenção, de uma vez por todas, que não existe Português Europeu - existe Português. No Brasil fala-se português, em Angola, fala-se Português etecetera. Ponto. Nada mais. O resto são devaneios de bur(r)ocratas que retalham a pátria de Fernando Pessoa para gáudio da sua ascenção social e política. § Razão tinha Calisto Elói:

"Assim se ergeu, cuidou em aformosear a saleta, cuja decoração era menos de modesta. Saiu açodado ao armazém dos mais elegantes estofos, e comprou alfaias magnifícas. O homem pasmava dos nomes daqueles objectos, nenhum dos quais soava portuguesmente. - Porque chamam a isto chaise longue ? - perguntava Calisto Elói ao engenheiro Margoteau.
- Porque chamam?!
- Sim; eu creio que se não ofende a França no caso de chamarmos a este móvel uma cadeira longa, ou uma preguiceira, que soa melhor. E etágere e console e onaise? E é caríssimo tudo isto! A gente, pelos modos, de fora parte os objectos, também paga a lição de francês do samblador, que vem aqui aprender?"

Camilo Castelo Branco, A queda de um anjo.