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10 de julho de 2017

Incongruências de ontem e ...de hoje.

«Veja-se os republicanos no seu periodo de força sympathica, venho a dizer quando ainda não tinham mostrado essa ancia do poder sem escrupulos que lhes trouxe aos annaes o regicidio, e quantos hymnos á gloria do Buissa depois revelaram esse «partido» avançado, adversário da pena de morte [...]»

Fialho de Almeida, 1909.
(Em prefácio a Chouzal, Bernardo, cónego - «Regícidio e Regnicídio: o crime do Terreiro do Paço». Lisboa: [Livraria Ferreira editora], 1909.

8 de abril de 2017

O sarro salazarista.


O sarro salazarista é muito difícil de tirar. Nem com a pedra pomes democrática se raspa do corpo cansado desta república portuguesa.
Se não veja-se o recente concurso das 7 Maravilhas de Portugal - Aldeias. A filosofia subjacente à escolha é semelhante ao Concurso de 1938, organizado pelo então recém criado SNI - Secretariado Nacional de Informação, obra de António Ferro para dar expressão à política do espírito acalentada por Salazar. Aí se procurava o pitoresco, o etnográfico, o popular. Hoje, os mesmos recortes, só que com mais plástico, alumínio e festas desbragadas.
Até o conceito Aldeias de Portugal promove o típico e o fachadístico e pasme-se (ou não), até o logótipo do projecto lembra a iconografia de 1938, exibida na portada do folheto em cima.
Esta coisa das aldeias bonitas, very tipical, não só é uma forma deprimente de interpretar a ideia fadística da Casa Portuguesa, pobre, humilde e honrada, como escamoteia o facto de que as aldeias são as suas pessoas. Ora, sem pessoas não há vida. Apenas paredes caiadas e de vez em quando nem um cheirinho a alecrim.
Por muitos banhos que esta gente tome, - esta, das Câmaras Municipais, das Comissões de Coordenação e dos próprios governos - dificilmente consegue tirar aquele sarro salazarista.

12 de janeiro de 2012

Deixem-me falar-lhes sobre o clientelismo.

Clientelismo é, segundo os dicionários: maneira de agir que consiste numa troca de favores, benefícios ou serviços políticos ou relacionados com a vida política. Ora todas as discussões, em Portugal, sobre a vida política, deviam começar por esta definição. É claro que generalizaríamos se enfiássemos o Carmo na Betesga, ou seja, Portugal no clube exclusivo de países onde o clientelismo impera. Não é assim, mas é certo que o nosso país integra o pelotão dos países onde a corrupção é maior, sendo o clientelismo uma expressão da corrupção.
Quando há meses se formaram movimentos de cidadãos indignados, precários e acampados, todos eles se esqueceram deste pequeno pormenor: não é o voto que manda, é o clientelismo que tem última palavra. Percebê-lo é o primeiro passo para mudar as coisas que alguns queriam mudar, embora muitos quisessem apenas... mudar. O quê, era irrelevante.
Durante os últimos séculos os portugueses viram com bons olhos o clientelismo, cultivaram-no com gosto. Desde o jeitinho à cunha, passando pela manutenção de vínculos familiares como força de manter certos feudos (mesmo apesar do republicanismo primário), o português, qual feitor analfabeto, sempre se sujeitou a ir de chapéu na mão à caso do doutor, pedir emprego para a filha ou filho. O facto de os colocar na universidade não mudou nada esta mentalidade. Se não era, agora, o pai a pedir emprego, era o filho que conhece bem o valor do factor C [vulgo para cunha].

17 de dezembro de 2011

O casal Silva


não tem uma árvore. Tem três. Para mostrar quem manda.
A que figuras se prestam algumas pessoas, em nome de coisas nas quais nem sequer acreditam...
Nota: chamo atenção para as sugestões do youtube a quem visualiza este vídeo institucional.

23 de novembro de 2011

A doutrina da má-lingua, segundo Eça.

"A pobre realeza, que a Carta tanto honra, não é mais bem sucedida. É a perpétua escarnecida. É escarnecida pelos jornais de oposição, e pelos governos demitidos. É escarnecida nos teatros, onde o tipo do Rei Bobeche teve o triunfo de um panfleto. É escarnecida nas conversações dos cafés, e na maledicência do Grémio.
Segundo a Carta, a realeza é irresponsável. Mas não há partido que não lance a sua inépcia à conta da realeza. – Se não fosse o Rei! – é a desculpa invariável dos ministros que não governam, dos oradores que não falam, dos jornalistas que não escrevem, dos intrigantes que não alcançam.
A realeza é acusada por tudo: pelas despesas que faz e pela pobreza em que vive; pela sua acção e pela sua inacção; por dar bailes e por não dar bailes. O público está para com ela num estado enervado, como com um importuno a quem não lhe convém dizer: vai-te embora!
No entanto a opinião liberal continua a declarar que existe um trono. Existe para ela como um efeito de Quintiliano – como um movimento de eloquência para os discursos de grande gala!
Apesar disso, a esta política infiel aos seus princípios, vivendo num perpétuo desmentido de si mesma, desautorizada, apupada, pede ainda, a uma multidão inumerável de simples, a salvação da coisa pública. É trágico, como se se pedisse, a um palhaço de pernas quebradas, mais uma cambalhota ou mais um chiste.
O orgulho da política nacional é ser doutrinária. Ser doutrinário é ser um tanto ou quanto de todos os partidos; é ter deles por consequência o mínimo; é não ser de partido nenhum – ou ser cada um apenas do partido do seu egoísmo.
De modo que todos estes monárquicos, bem no íntimo, votariam por uma república. Todos estes republicanos terminam por concordar que é indispensável a monarquia!
Quer-se geralmente o prestígio da realeza e a majestade do poder; mas deseja-se que el-Rei se exiba numa sege de aluguel e que Sua Majestade a Rainha não tenha mais que dois pares de botinas.
Chega-se a admirar Luís Blanc, mas prefere-se a tudo isso uma terra de semeadura obrigada à côngrua para o pároco e aos tantos por cento para a viação. A burguesia invejosa e desempregada fala na federação, na república federativa, na extinção do funcionalismo, na emancipação das classes operárias; mas entende que o País pode esperar por estes benefícios todos, se no entanto lhe derem a ela lugares de governadores civis ou de chefes de secretaria. Uma plebe ardente fala em beber o sangue da nobreza; mas ficaria satisfeita se a nobreza, em vez de oferecer a veia, mandasse abrir Cartaxo.
Tanto se conciliam todos! E assim que o egoísmo domina. Cada um se abaixa avidamente sobre o seu prato.
– Mas tudo se equilibra, diz a opinião constitucional, não há comoções, não há lutas!
Sim, tudo se equilibra – no desprezo, por desprezo.
Nas sociedades corrompidas a ordem chega assim às vezes a reinar.
E a ordem pelo desdém. Outros diriam pela imbecilidade!"

Eça de Queirós, Uma campanha alegre I (1890-1891).

7 de novembro de 2011

O seu a seu dono.

O Almanaque Republicano faz 5 anos. Não podia deixar passar a efeméride e felicitar os autores deste blogue pela tenacidade e pelo empenho. Efectivamente creio que em Portugal existem 5 republicanos na velha acepção do termo. Quase todos moram na região de Coimbra. Talvez o professor Cavaco Silva integre esse punhado de homens e acredite na república, pelo menos menos até ao final do seu mandato. Mas ninguém, em Portugal, como os senhores A.A.B.M. e J.M.M., acredita tanto neste regime. E só por isso, por esse abnegado remar contra a corrente, merecem todo o respeito. Por isso, e mais uma vez, os meus parabéns. Que continuem por muitos e bons anos! «Saúde e Fraternidade»!

5 de outubro de 2011

Viva a república, abaixo a república!

Nunca, em Portugal, se falou tanto em república. Pelo menos desde Outubro de 1910. Fala-se no regime, porque o regime paga. É justo. A propaganda ideológica refinou-se ao longo do século XIX, definiu a ascensão dos grandes e mortíferos regimes do século XX e é usada no século XXI para distrair dos problemas económicos e sociais. Enquanto se alimenta o mito do regime igualitário e fraterno, mina-se a liberdade amordaçada entre acrisia e conformismo. Salazar e António Ferro sabiam-no bem e, nesse aspecto, as comemorações do Centenário da República são herdeiras directas dos grandes festejos de 1940 sobre a Nação e o novo regime.

Muito antes de Cromwell e da Revolução Francesa, muito antes do marxismo modelar a ideia de república como o melhor de todos os regimes, já república constituía a designação para a coisa pública. Não a coisa do povo, - essa entidade abstracta onde todos se incluem e onde ninguém deseja incluir-se-, mas a gestão do lugar público. Nas praças e nos caminhos, onde sempre se decidiram os desígnios comunais, fazia-se política. Com a Revolução e o Liberalismo a política passou a fazer-se em casas parlamentares e as eleições que dantes se realizavam inter pares, hoje fazem-se intra grupos. A política deixou de ser para todos. Estava porém aberto o caminho para que a ideia de república se transformasse no ideal que é hoje: o de um suposto absoluto nivelamento e igualdade entre cidadãos (mas só entre os que fazem política).

O republicanismo português, que se aproveitou da ignorância e do analfabetismo grassante em 1910, construiu-se sobre a noção de que qualquer pessoa podia tornar-se chefe de estado, contrariando a ideia de que aquele lugar pertencia a uma família de priviligiados. Nunca conseguiu explicar, contudo, que apenas mudavam os privilegiados e não os privilégios.

23 de maio de 2011

O DNA dos principais partidos políticos portugueses.

O "DNA" dos partidos políticos portugueses a partir da análise vocabular dos seus memorandos e programas políticos

Durante a vida política, fora e dentro do Parlamento, antes, durante e depois das eleições, há sempre um discurso muito semelhante entre os partidos: todos se culpam e ninguém tem a culpa. Nesse sentido, a classe política, da Esquerda à Direita, acaba por acoitar-se sob um manto de desresponsabilização que caracteriza a Partidocracia. Numa democracia especificamente controlada por partidos, é natural que os partidos se defendam entre si, depois os seus clientes e eleitores e só depois, no final, os cidadãos, votantes e não votantes.
Para perceber até que ponto o discurso político-partidário não só é inócuo como semelhante, elaborei uma análise vocabular dos programas e compromissos eleitoral para as eleições que se aproximam. Recorrendo a um programa informático muito simples (o Polaris word count), contei os 20 substantivos mais vezes referidos pelos 5 partidos com assento parlamentar: BE / CDU / PS / PSD e CDS-PP. O resultado foi muito interessante e revela, de certa forma, como o discurso partidário se aproxima em forma e estilo de uma ponta à outra do espectro parlamentar nacional. É esquemático, pobre em conteúdo e pouco imaginativo.

13 de abril de 2011

Nacionalidade sem nacionalismos.

Londres, Covent Garden, 2011, NR (c).

Visito Londres durante a preparação para o casamento do século, o do Príncipe Guilherme de Windsor com Katherine Middletton. O acontecimento é um estado febril. Por todo o lado lojas oficiais e não oficiais desdobram-se em merchandising: canecas, pratos, bandeiras, bules, etc, etc, tudo com a efígie do casal. Não há mãos nem braços que cheguem para abarcar a publicidade que se faz à cerimónia, ao cortejo e a toda a preparação para o real enlace. Na rua, a somar às incontáveis Union Jack que edifícios públicos e privados exibem com brio, várias pessoas transportam consigo pequenos estandartes e bandeirinhas. De resto, nas exposições que se multiplicam sobre a Monarquia, ouvia as crianças perfeitamente familiarizadas com o nome de cada um dos seus monarcas e uma ou outra característica sobre a sua vida, por mais desinteressante que seja.
O símbolo da Coroa está por todo o lado, desde as obras dedicadas ao Jubileu da Rainha, à lembrança de Diana de Gales, e aos príncipes Guilherme e Harry. O turismo vive, afinal, destas "futilidades" de castelos, reis, princesas, como se vê pelas filas intermináveis para entrar na Torre de Londres e ver as jóias reais. (Quantos pagariam para ver o guarda roupa da primeira-dama de Portugal?) E quanto mais difíceis estão os tempos, mais estas figuras (que alguns consideram vazias) significam algo para o povo que as exaltam. Que  (a maioria) as trata com respeito e reverência, como o capitão do barco que fez a visita guiada e que nunca se dirigiu à monarca pelo nome, mas por Her Majesty The Queen.
Volto a Portugal. Os jornais tratam, desde o presidente ao primeiro-ministro por tu, os políticos tratam-se uns aos outros por ladrões e, nos cafés e na rua, todos se tratam mal. Não é uma questão de respeito, é uma questão de auto-estima. Um país que não gosta da sua História, que não acredita nela nem nos seus intervenientes, que não se agrega em redor dos seus símbolos em tempo de crise, dificilmente conseguirá chegar a ser um país.
Somos como muitas das bandeiras republicanas espalhadas por edifícios públicos: cheias de surro, esfarrapadas e mal representadas.

16 de março de 2011

Basta! Revolução ou renovação?

Circulam, na internet, vários textos que salientam o exemplo da Islândia como um caso de sucesso no turbilhão da crise económica. Porém, à parte de nos esclarecer sobre a redacção de uma nova Constituição ou, antes, sobre uma reescritura do documento constitucional ad fundamentis (por um grupo de cidadãos extra-partidários), os textos em causa pouco mais nos informam sobre a verdadeira situação social islandesa, rematando, contudo, que aquele país insular saiu da bancarrota pelo seu pé. Ora isto não é verdade: as contas estão por pagar, as ruínas bancárias por reedificar e o futuro não parece brilhante para os cidadãos da pequena república.
Porém, devo assinalar uma coisa que me parece sobremodo importante: a forma como os islandeses sacudiram o jugo partidário da sua governação é a pedra de toque desta renovação. Repare-se, não falo em revolução, pois não a houve, mas de uma transição pacífica de uma partidocracia, até aqui gerida por partidos de Direita e de Esquerda que deixaram a Islândia de rastos. Cansados do jogo e pressionados pela grave situação, os islandeses resolveram deixar de contribuir para o engrandecimento partidário e resolveram tomar nas mãos as rédeas da Democracia e participar no desenvolvimento nacional. Têm a seu favor o facto de serem uma ilha e de nela morarem pouco mais de 300 mil habitantes.
Conter uma crise e resolvê-la com recurso a uma administração directa neste caso, dirão, é mais fácil, e eu concordo. Mas num país como Portugal, em que tanto a Esquerda como a Direita têm, com voracidade, feitos os possíveis e os impossíveis para, sob a desculpa da ética republicana deglutir o Bem Comum sem ouvir os seus habitantes, existem muitas "ilhas" que facilmente poderiam ser geridas directamente pelos cidadãos, sem passar pelos partidos. Apenas um "senão": a nossa Constituição assenta numa perspectiva multipartidária da democracia; favorece o jogo partidocrático e transforma o cidadão num mero peão de xadrez.
É preciso mudá-la e, efectivamente, transformar a democracia num exercício de intervenção pessoal e colectiva directa. Alterar a lei eleitoral para que possam existir candidaturas individuais por círculo, limitar o número de deputados partidários e estimular a participação associativa municipal nas edilidades são alguns dos caminhos a seguir. Creio que Basta! sim, mas de partidos.

12 de março de 2011

O "baptismo" da presidência?



Eu já me envergonho mais do que me espanto com algumas pessoas deste país. Como é possível que os comentadeiros de serviço e demais politógos, tudólogos e opiniosos venham elogiar, ou sequer dar crédito às palavras do discurso inaugural do novo, e felizmente último, mandato de Cavaco Silva? A memória não é assim tão curta que ninguém se lembre das manigâncias daquele senhor enquanto Primeiro-Ministro? Basta ir buscar as capas do Independente para resgatar dum passado bem presente as estratégias de poder do cavaquismo. Mérito em vez de apartidarismo? Diz muito bem o senhor presidente, mas quando esteve à frente do governo, encheu ministérios e serviços públicos com boys e simpatizantes do PSD. Durante a sua governação parte do país, bem agarrada à fina camada de "ouropeu", distribuiu benesses a torto e direito, beneficiou determinadas classes, criando polvos com tentáculos bem extensos e cujas ramificações, lá se vão desgrilhoando, aos poucos, mas para dar lugar a ventosas de outra cor política. Esta coisa do Presidente da República emergir do passado das trevas ou do lamaçal político, novo e puro, é uma figura muito bonita, mas pouco credível. O ar sinistro do senhor Cavaco Silva, misto de Salazar e de Américo Tomás, lembra tudo menos a juventude e a mudança. Lembra-me uma década de desperdício, de destruição e de progresso insustentável. Infelizmente, o cargo de presidente da república, não confere o perdão dos pecados, nem a entrada no reino dos justos. O senhor Cavaco Silva NÃO TEM moral suficiente para tecer as considerações que teceu. É só mais um dos políticos que ajudou ao enterro económico e social deste país. Qualquer bênção ou lição que este senhor dê não deve ser tomada a sério.

26 de fevereiro de 2011

A República explicada às crianças

A monarquia é uma forma de regime em que o chefe de Estado é um rei ou uma rainha. Ao contrário do regime republicano, o rei não é eleito, e a representação do país está numa pessoa cujos antepassados participaram na construção e na História do país. Por isso não são estranhos ao povo e como os príncipes criados para reinar não precisam de ter uma carreira política, conhecemo-los desde a infância, até à idade adulta, quando assumem o cargo de Chefe de Estado.
Já viste o que seria se tivesses de escolher os teus pais, ou os teus pais dissessem: eu tenho o direito a escolher o filho que quero? Passa-se o mesmo em República. O nosso Chefe de Estado, em vez de ser alguém que conhecemos e gostamos desde pequenino, é apenas um político que quer um emprego. Representa o país durante 5 ou 10 anos e depois vai-se embora...
A nossa monarquia durou 771 anos como sabes, pois em 1910 um golpe de estado expulsou o rei D. Manuel II, a sua mãe e a sua avó para fora do país. Isso foi bom ou foi mau? Deve caber a ti estudares para compreenderes as alterações dessa época, mas gostava de te explicar que a República instaurada em 5 de Outubro de 1910 não veio trazer a democracia a Portugal. Nessa altura o nosso país já tinha liberdade. As pessoas podiam votar e a Imprensa publicava todas as críticas que queria.
Ao contrário do que a propaganda republicana tem dito, a democracia foi introduzida em Portugal em 1834, suspensa algumas vezes até 1926  e neste ano definitivamente silenciada, dando origem a uma das mais longas ditaduras de sempre, em todo o mundo! Foi o Estado Novo ou Segunda República, que durou de 1933 até 1974! Neste ano a Democracia voltou a Portugal, pela Revolução de 25 de Abril, como decerto já ouviste falar.
Em 771 anos tivemos 33 monarcas, o que perfaz uma média de cerca de 22 anos por reinado. Compreendes a importância desta estabilidade? Em 100 anos de República, de 1910 a 2010 tivemos 19 presidentes, o que se traduz numa média de 5 anos por mandato...  alguns deles conflituosos, pois o presidente procura fazer os possíveis para agradar aos eleitores e ao partido ou partidos que o apoiam. Não está ali simplesmente para representar o país, mas para se representar a si mesmo e a quem vota nele...
Também tivemos algumas rainhas e regentes, mais ainda não tivemos nenhuma mulher presidente da República!
Mas, então, perguntarás, se a monarquia tinha vantagens, porque terminou? Bem, como tens visto na televisão, em relação às revoluções no estrangeiro, nem sempre estas revoluções são populares. Muitas vezes, um grupo pequeno, bem relacionado e que recorra à violência pode derrubar regimes. Foi o que aconteceu em Portugal. Os republicanos estavam em menor número, mas:
- aproveitaram-se do desgaste partidário, ocasionado pela alternância constante entre 2 partidos no poder;
- aproveitaram-se das ideias nacionalistas de pátria e de herói para fazer passar a sua mensagem;
- fizeram ataques ferozes ao Rei D. Carlos e à sua família, espalhando boatos e criando uma imagem negativa da monarquia que diziam despesista e ostensiva;
- recorreram à violência através de uma organização terrorista e chamada Carbonária que assassinou o Rei e o seu filho, de 21 anos, D. Luís Filipe, em 1908 (foi o Regicídio) e através de uma organização secreta que ainda hoje existe, a Maçonaria, conseguiram controlar o exército e alguns políticos;
-e, finalmente, como o país, infelizmente, ainda era constituído essencialmente por pessoas iletradas, culturalmente pouco informadas, facilmente o Partido Republicano pode controlar os cidadãos, com mensagens demagógicas e inflamadas. (É por isso que deves estudar e questionar tudo para seres um adulto com consciência cívica!)
Depois de instaurada a República, sucederam-se imensos atropelos à liberdade que o novo regime tinha prometido. Pessoas foram perseguidas por serem católicas, monárquicas ou simplesmente por não colaborarem com o novo regime. E os próprios republicanos lutaram entre si para conquistar e aguentar o poder. Em 1914 a república levou milhares de jovens a entrar na I Grande Guerra. Muitos morreram e o país desmoralizava perante uma crise económica, social e política. Todos os dias havia atentados em Lisboa, o governo caía, os presidentes demitiam-se ou eram demitidos por golpes de estado. Entre 1911 e 1926 houve quase 50 governos!
Porém, a monarquia sempre foi uma alternativa democrática em Portugal, tanto durante a Primeira República, como durante o Estado Novo e mesmo hoje.
A Europa, como deves saber é praticamente constituída por Monarquias Constitucionais, como Portugal o era antes de 1910. Monarquias Constitucionais e (ou) Parlamentares são aquelas em que o rei não governa (para isso existe o Primeiro-Ministro e o seu Conselho de Ministros que nós elegemos), cabendo-lhe apenas a representação e a regulação das instituições do seu país. Por isso países desenvolvidos como a Noruega, Suécia, Dinamarca, Holanda, Bélgica, Luxemburgo, e aqui ao lado Espanha são monarquias. E fora da Europa encontramos muitas mais: Japão, Marrocos, Jordânia, etc. o Reino Unido, por exemplo, e a Comonwealth que estende pelo Canadá e pela Austrália, entre outros países, cuja chefe de Estado é a rainha Isabel II.
Não há regimes perfeitos. Nem pessoas. Acima de tudo deves procurar saber o que melhor serve a tua nação e pensar por ti. Não grites Viva a República! sem perguntares a quem to manda fazer, se existe uma alternativa e se essa alternativa é melhor ou pior. Acima de tudo sê um cidadão informado pois só assim podes construir um país melhor e contribuir para um futuro mais sorridente a quem viver em Portugal nos próximos anos. E que estes anos sejam mais pacíficos e prósperos do que foram os últimos 100.

9 de fevereiro de 2011

CG_002

[S.a.] - Armazens Grandela. Catálogo Geral das Novidades para Inverno. Porto: [Emprêsa Gráfica "A Universal"], [1913?]; 97 páginas, impressão tipográfica sobre papel; 25,8 x 18,5 cm. Colecção de Nuno Resende.

Como prometido, já está disponível, via flickr, o Catálogo Geral das Novidades para o Inverno dos Armazéns Grandela para o inverno de 1913-1914. Escusado será desenvolver, com pormenor, as vantagens desta fonte histórica. Para os Historiadores da Arte do século XX é um repositório fundamental de termos e imagens, fornecendo dados sobre a moda, mobiliário, fotografia, etc; outrossim, para os linguistas e escritores, a própria denominação dos objectos, a influência dos galicismos e outros estrangeirismos, etc; e para os Historiadores, um manancial de dados económicos, sociais e mentais, na véspera da Grande Guerra. De resto, folhear este catálogo é uma delícia para os olhos. Esta é uma das minhas contribuições para compreender a vivência lisboeta durante a Primeira República, longe dos discursos laudatórios sobre figuras e ideologias. Porque a História também se escreve com imagens.

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