8 de abril de 2017

O sarro salazarista.


O sarro salazarista é muito difícil de tirar. Nem com a pedra pomes democrática se raspa do corpo cansado desta república portuguesa.
Se não veja-se o recente concurso das 7 Maravilhas de Portugal - Aldeias. A filosofia subjacente à escolha é semelhante ao Concurso de 1938, organizado pelo então recém criado SNI - Secretariado Nacional de Informação, obra de António Ferro para dar expressão à política do espírito acalentada por Salazar. Aí se procurava o pitoresco, o etnográfico, o popular. Hoje, os mesmos recortes, só que com mais plástico, alumínio e festas desbragadas.
Até o conceito Aldeias de Portugal promove o típico e o fachadístico e pasme-se (ou não), até o logótipo do projecto lembra a iconografia de 1938, exibida na portada do folheto em cima.
Esta coisa das aldeias bonitas, very tipical, não só é uma forma deprimente de interpretar a ideia fadística da Casa Portuguesa, pobre, humilde e honrada, como escamoteia o facto de que as aldeias são as suas pessoas. Ora, sem pessoas não há vida. Apenas paredes caiadas e de vez em quando nem um cheirinho a alecrim.
Por muitos banhos que esta gente tome, - esta, das Câmaras Municipais, das Comissões de Coordenação e dos próprios governos - dificilmente consegue tirar aquele sarro salazarista.

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