5 de abril de 2017

Micro-mecenato e microhomens

Tem surtido efeito aquilo a que se chama na redes sociais e na comunicação social, pomposamente, crowfunding mas que existe uma palavra portuguesa para o definir: micro-mecenato. Dizem os dicionários que é uma forma de financiamento colectivo. Ora, pensei que isso já definisse a carga tributária que nós pagamos e que, entre outras coisas, deveria servir para manter o bem ou a coisa pública, isso a que vulgarmente se chama república.
Desde a iniciativa do MNAA para aquisição da pintura do Domingos Sequeira que um pouco por todo o país se tem convocado o cidadão a contribuir para compras e restauros de objectos e edifícios, como se o património fosse uma espécie de pobre pedinte, a quem se vai dando uns trocos, aqui e ali, para remendo da sua roupagem.
É óbvio que o micro-mecenato é uma estratégia louvável das sociedades contemporânea que funciona bem em países que já garantiram um estádio civilizacional acima da média; em países que possuem arquivos e bibliotecas com condições e estruturas modernas, que têm as suas colecções museológicas estudadas, conservadas e em depósitos adequados ou que contemplam o acesso gratuito à educação, à arte e à cultura em geral. O caso do Reino Unido por exemplo em que, mediante o acesso gratuito e universal aos excelentes museus, o visitante pode oferecer o que desejar para projectos paralelos dessas instituições, tornando-se, assim, um entre milhares ou milhões de mecenas.
Pedir, ou melhor, pedinchar, em Portugal, trocos para aquisições e restauros pontuais, quando tudo o resto falta é como revestir as paredes de uma casa em ruínas com tecidos: durante algum tempo pode parecer aconchegante mas sem telhado, com a chuva, com o vento e com o frio, lá se vai a roupagem
Mas é óbvio que lançar campanhas mediáticas de micro-mecenato condiz mais com a figura dos nossos governantes e dirigentes, sempre mais interessados em promover-se do que promover o colectivo. Aparecer na televisão implica reconhecimento mediático, condição indispensável para se construir uma fulgurante carreira nos dias de hoje.
Criticar a falta de verbas, a inexistência de recursos materiais e humanos, apontar os erros e as estratégias dos sucessivos governos, há 40 anos, é um convite à morte académica, social e política. Poucos são, na vasta massa funcionalista portuguesa, os corajosos que se atrevem a fazê-lo.
A maioria dessa massa é constituída por micro-homens.

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