27 de agosto de 2012

A era da anti-arte.



No meu trabalho tenho conhecido muitas donas Cecílias Gimenez, pessoas bem intencionadas, que entram livremente em igrejas e ermidas com a pretensão de restaurar o património o qual, porque afecto ao culto não integra a categoria de acervo musealizado e representa historica e artisticamente uma comunidade, uma fé e as aspirações dos homens, artífices e encomendadores. No início chocavam-me os altares totalmente despojados do ouro e da policromia original e repintados a tinta plástica, como o paradigmático exemplo acima, exposto numa capela da região do Paiva. Considerei sempre criminoso o trabalho dos santeiros e outros amadores que chamam restauro a reconstituições e alteração dos materiais e técnicas inicialmente utilizados nas realização de peças religiosas e devocionais. Mas, apesar de ainda hoje defender o uso e conservação litúrgica e cultual destes objectos, afastando da ideia dos mais puristas a transformação das igrejas em museus, não posso deixar de repudiar o caso do Ecce Homo de Borja, em Espanha, como tantos outros que conheço em território português.
Em primeiro lugar ninguém tem direito a transformar património público, detido por uma comunidade, a seu bel-prazer, ainda que as suas intenções sejam as melhores. A Igreja, como detentora deste património, deve pugnar para que o mesmo espólio persista, íntegro e respeitando as funções originais para que foi concebido, sejam elas estéticas, catequéticas, devocionais ou litúrgicas. Se a cada de um de nós fosse permitido pegar numa pintura ou escultura religiosa e expressar nela a nossa própria ideia do que lá está representado, deixariam de existir exemplos de estilos e escolas, e passaríamos a acumular igrejas e museus com rabiscos pessoais. Isso não é arte é vaidade.
Teóricos de bancada e oportunistas vieram em defesa de D. Cecília, elevando-a à condição de visionária. A pobre mulher, que nada desejava criar que não fosse aprimorar e refazer o traço do verdadeiro artista, justificou-se com a obra incompleta a qual, segundo ela, devolveria a imagem tal qual era e como, efectivamente, deveria ser.
Os tais teóricos, uma maioria barulhenta que, aposto, nunca põe ou pôs os pés numa igreja, considera o novo Ecce Homo a 8.ª maravilha do mundo, mesmo apesar das advertências da D. Cecília. Volto a repetir o que disse há poucos dias sobre o caso pussy riot: o mundo aplaude tudo o que faça ruído e tenha cor. Neste caso, aplaudiu o feio, o esquizófrenico, o tétrico.
Basta olhar para o restauro incompleto e para a reprodução ad nauseam que dele se tem feito para compreender parte deste fenómeno que os sociólogos, esses cartomantes da ciências, já estudam: não interessa o valor original, estético, simbólico, artístico e iconográfico daquele Ecce Homo. Tudo isso é suplantado pela vulgaridade de um engano, de uma nódoa. O mundo que tem acesso às redes sociais e à televisão adora cumular-se de vulgaridade. Não poderia ser de outra forma. Dificilmente entende ideias mais complexas do que a de um pitoresco borrão saído da paleta de uma velhinha beata.

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