11 de fevereiro de 2012

Os 80 magriços do calendário.

Primeiro hesitei: existirão, realmente, 80 historiadores em Portugal? Depois, reflecti e, embora contente com a descoberta, pensei melhor: Portugal tem apenas 80 historiadores ? Como não tinha a certeza do rácio entre historiadores e população no resto da Europa quedei-me reflexivo sobre o assunto. Não obstante este meu monólogo, discerni que a movimentação dos 80 historiadores portugueses quanto à abolição dos feriados 5 de Outubro e 1 de Dezembro só podia ser uma cartada de mau gosto neste jogo político em que o nacionalismo é o Ás de copas que estimula desde as bancadas parlamentares do Bloco ao CDS e o cidadão comum. Se existem 80 historiadores em Portugal capazes de defender algo tão puramente simbólico e bairrista como dois dias do calendário nacional, onde estavam eles quando foi necessário defender a qualidade da investigação histórica, falar alto contra a diminuição do ensino da História no plano educativo nacional ou, mais recentemente, tomar atitude enérgica contra a perda de autonomia dos Museus Portugueses que muito em breve serão entregues a comissões de gestão regionais dirigidas por bur(r)ocratas de chinelo? Enfim, onde se escondem estes 80 historiadores nos restantes 363 dias do ano?
Depois, fui com atenção ler os nomes dos ilustres magriços do calendário litúrgico português e dei-me conta do propósito do manifesto. Para o comum dos mortais estava perante 80 ilustres anónimos, mas quem conhece minimamente os meandros da historiografia portuguesa, um ou outro nome soava familiar. Entre todos, parecia haver em comum a apetência pela rive gauche: os republicaníssimos Carvalho Homem que têm espirrado ódio contra o fim das comemorações outubrinas, o António Reis, mação e historiador consagrado pelo aparelho socialista, Catroga, autor do Ensaio Republicano, Fernando Rosas, que dispensa apresentações, etc. A lista é respeitável, embora a maioria rejeite o título de historiador ou historiadora, mercê do peso da responsabilidade de afrontar alguns sáuricos lugares, como os que atrás referi.
Se dúvidas houvesse sobre a tendência ideológica deste protesto, bastaria ouvir o porta voz do mesmo, Fernando Rosas. Ou consultar o dito manifesto na página do Jugular, arauto maior da inteligenttia esquerdista nacional e nacionaleira. É óbvio que o que está aqui em causa não é o fim do patriótico 1.º de Dezembro, mas que a já fraca matriz republicana das liturgia cívicas a cargo do Estado se liquidifique ralo abaixo sem a evocação do 5 de Outubro. Estes 80 senhores e senhoras, ufanados da sua repentina importância, vêm agora considerar as hipóteses de vergar políticos que nunca leram um livro de História até ao fim ou educar cidadãos que dificilmente sabem para que serve um historiador.
É sempre assim em Portugal. O desfazamento cultural e social entre elites e as zangas entre pares são os únicos momentos em que se afloram os papéis de uns e outros. Aconteceu recentemente com a maçonaria e agora com os historiadores. O resto do tempo vive-se um clima muito semelhante ao da Segunda República: um conjunto muito fluído de elites fundada em laços clientelistas, domina uma vasta rede amorfa de passivos que acatam sem questionar o valor daqueles indivíduos, na sua maior parte pura e simplesmente dependentes da força dos vínculos que os une.

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