19 de dezembro de 2011

O estradismo: uma crónica sobre as últimas três décadas de asfalto.

Com o estradismo veio o lixismo: 
aspecto de uma lixeira ilegal junto a uma estrada municipal em Cinfães.

Nos últimos 30 anos (e mesmo durante a longa noite do Estado Novo) os senhores governantes do concelho de onde sou natural debitaram um extenso relambório eleitoralista cujo tópico principal era a estrada. Segundo eles, eram necessárias estradas. Estradas em todos os sentidos, a ligar todos os pontos: A a B, B a C, BB a CC, etc etc. Com a chegada dos fundos comunitários construiu-se, então, um número ilimitado de estradas, estradinhas e estradões para todo o lado, mesmo antes de existir uma rede de saneamento, da própria electricidade e de água potável para todos. Onde havia uma casa, podia o seu proprietário contar com uma estrada à porta, apesar de não ter esgotos nem água canalizada. Entre asfalto e paralelepípedos de granito, o investimento em vias suplantou o da educação, da cultura e do apoio ao comércio e à indústria locais. A grande justificação era a de que as estradas trariam progresso, aproximavam pessoas, tornavam as distâncias longas em percurso reduzidos e, portanto, geravam progresso. Tempo é dinheiro e, como tal, as estradas iriam supostamente constituir autênticas caixas multibanco do interior. Ao mesmo tempo que as câmaras municipais e os seus feudos distribuíam empreitadas a construtores "da sua confiança", o Estado central gizava auto estradas para transformar Portugal num reticulado de asfalto e cimento. Foi o “estradismo”.
Hoje Portugal está à beira do colapso económico, o município onde nasci entre os três mais pobres a nível nacional e as estradas quase sem carros. É que, entre autarcas corruptíveis, empreiteiros sem escrúpulos e banqueiros ávidos que durante anos alimentaram o consumo desenfreado, o resultado está à vista e é catastrófico: há quem não possa pagar os carros que comprou, a especulação dos preços do combustível inibe as deslocações e, quer o Estado, quer as Câmaras Municipais investiram em demasiadas vias que agora poderão manter nem sequer assegurar a conclusão de alguns projectos. Este investimento criminoso em vias de comunicação sob o pretexto de um progresso fácil (como se as estradas apenas trouxessem as pessoas e não as levassem, também...) transformou um país num cemitério de projectos inacabados e desfasados da realidade. Lembro-me que durante os anos 90 se calcetaram quase todos os caminhos das aldeias da minha freguesia, mesmo que dentro de algumas casas não houvesse condições sanitárias. E muito proprietários, os mais sabidolas – da velha cepa do chico-espertismo português – aproveitaram os dinheiros públicos para calcetar os seus pátios e garagens. Em certas casas o asfalto ou o empedrado chega à soleira da porta. Casas vazias todo o ano, em aldeias desertificadas.
Numa entrevista recente, Gonçalo Ribeiro Telles, o homem que há anos alerta para destruição social, cultural e urbanística do nosso país disse «Temos auto-estradas, mas não temos caminhos locais de relação com a vida local. Vê-se a vida passar na auto-estrada, mas não se sente. Desprezamos as aldeias porque não fazem parte desse modelo. O próprio povoamento do país não faz parte desse modelo e portanto não há que tratar sequer da sua dignidade como pessoas.». E acrescenta: talvez os governantes queiram destruir o país (GRT, ao jornal i, de 17-12-2011).
A descrição pode aplicar-se a qualquer município do interior do país, ao interior em geral onde, durante os últimos 30 anos se gastou dinheiro em estradas, rotundas e chafarizes e hoje, mais do que nunca, se sente o peso da desertificação, da deterioração do ambiente e, pior do que tudo, da fome.
Já não peço a criminalização daqueles autarcas e políticos que nos conduziram a este estado. A esses, se a consciência lhes não pesar, irão com certeza provar do próprio fado que traçaram para os seus munícipes e eleitores. Mas espero que esta crise ajude os portugueses a tornarem-se, de uma vez por todas, cidadãos de pleno direito, intervindo e tomando nas suas mãos o controlo que os políticos de carreira lhes têm vindo a tirar.
Durante muitos anos tenho ouvido pessoas mais velhas dizer com saudosismo saloio que Salazar os salvou da fome. Pois os políticos que lhe sucederam, não só os trouxeram à fome, como parece os lançarão numa guerra económica difícil de travar. A lição devia ter sido aprendida à primeira. Não foi. Esperemos que não seja tarde de mais.

Publicado em Aventar (http://aventar.eu/)

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