14 de setembro de 2011

«Cinto que estou cético»: Camilo e o Acordo Ortográfico.

Era no baile natalício do barão de ***. Festejava ele os anos de sua formosa Etelvina, que se morria de amores de um jovem que tinha diferentes gravatas, várias bengalinhas, e um pé muito pequeno, cujo calcanhar assentava num supedâneo, quatro dedos acima do botão da bota. Chamava-se Porfírio, e era céptico, e rico.
Etelvina queria-lhe da alma, e escrevia-lhe pela posta interna cartas, que eram modelo, afora a ortografia. E ele, o céptico, para dizer que o era, escrevia «cinto que estou cético». Corriam parelhas em ortografia, e com parelha que eram, escouceavam a prosódia.
Camilo Castelo Branco, Noites de Lamego, 5.ª edição, 1958, p. 15.

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