14 de julho de 2011

Resprivada.

Não sou linguista.
Não apoio o Acordo Ortográfico.
Passo a explicar. Como cidadão crítico e informado não aceito que, a nível ético, seja obrigado a fazer algo que não compreenda. O Estado, essa entidade abstracta gerida por sisudos técnicos e burrocráticos amanuenses que veneram contas, gráficos e quadros, não me pode obrigar a executar funções que não me são devidamente explicadas.
Como cidadão letrado e minimamente informado também sei que o Acordo Ortográfico na sua essência teórica está mal explicado. Que vem quase 20 anos depois de ter começado a ser delineado, que a sua utilidade educacional é quase nula e que no seu teor existem inúmeras contradições ao nível da linguagem e da gramática. Mas nem vou por aí. De resto há opiniões mais abalizadas que a minha para discutir estas questões científicas.
Mas o que irrita verdadeiramente é que coisas como a Língua, a Saúde, a Educação, a gestão do Território e do Tesouro público sejam alvo de decreto sem que os cidadãos sejam ouvidos. Num referendo, por exemplo.
A República já há muito que não é a res publica é a res privada - coutada de legisladores e políticos amaciados por interesses corporativos.
O que me deixa solenemente irritado é esta gente acéfala do Estado, dos Jornais, da Cultura que vai logo a correr comprar o manualzinho para aprender a "nova" Língua; estudar o novo Acordo para amanhã de manhã cedinho escreverem as suas merdices de sempre, para educar novos burrocratas que (felizmente) amanhã se rebeliarão contra estes patos-bravos da nova literatura e dos jornais.
Entretanto, Camilo Castelo Branco - o mais fecundo escritor português - foi erradicado dos programas escolares. Por um lado entende-se. Nenhum dicionário actual, segundo a revisão do AO, regista vocabulário suficiente para analisar um texto de Camilo. A língua empobrece, mas "moderniza-se".
Sabem que mais? Espero que um dia o Estado promulgue mais uma destas leias acéfalas que diga: "ide atirar-vos de uma ponte". E os que logo, logo aceitaram o Acordo Ortográfico como se fosse a coisa mais natural do mundo, irão com certeza numa longa fila, ordeiramente, até à ponte mais próxima esborrachar-se no chão.

"Ser tolo é má coisa; ser mau é coisa pior", escreveu Camilo. Esta geração de políticos parece ter conseguido a obra impossível de juntar os dois qualificativos nos indivíduos que produz e que, infelizmente, têm gerido os destinos dos portugueses.

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