20 de junho de 2011

Pilar-José-Saramago



Eu gosto dos livros de Saramago. Regra geral: são bem escritos, imaginativos e bem estruturados. Têm, contudo, dois defeitos notáveis: são ideologicamente repetitivos e francamente pobres em imagens (simbólicas). Ou seja, quer os romances quer os ensaios de José Saramago não são eruditos e talvez seja esse um dos componentes principais da fórmula do seu sucesso. De resto a maioria das pessoas que disser que adora Saramago, pode ter lido antes a National Geographic, 2 Paulos Coelho e, eventualmente, António Lobo Antunes. Compará-lo a Jorge Luís Borges, por exemplo, - autor que o supera largamente em estilo, erudição e gramática - é inútil. Não se comparam estrelas de grandezas tão diferentes. Mesmo apesar de cada um ter tido uma fiel guardadora. Mas, e daí, também não se pode comparar a simplicidade de Maria Kodama, com a boçal extravagância de Pilar del Rio...
Um outro aspecto do seu sucesso foi ter ganho o Prémio Nobel, atribuído, não pelo valor da obra em si, como sabemos, mas pela ideologia do autor e das suas palavras. Saramago foi um cínico. Cínico dos cínicos, príncipe dos cínicos. Não acreditava em Deus, nem na virgem, nem nos anjos e santos, não acreditava nas religiões, mas acreditava menos ainda nos Homens, na humanidade em geral. Depois de ter sido nobelitado, tornou-se semi-deus no mundo e deus no seu país que entretanto tinha abandonado (juntamente com o português, que castelhanizou). Acreditava em si e na Pilar, às vezes.

O documentário que acidentalmente vi ontem na SIC pareceu o coroar desse cinismo. Aliás, documentário, não. A novela. Certos lances, certos planos, eram cuidadosamente pensados por aquele Cérebro (atenção à grafia!) chamado Pilar, cão de fó do templo imaculado do asséptico Saramago, conservado até ao final numa cápsula de éter ideológico.
Todo o filme transparecia falsidade. Desde a ideia de mostrar uma história de amor onde não existia (apenas simbiose e mesmo assim desequilibrada) até à glória de um homem mais odiado que amado, mais temido do que respeitado. E pelo meio os comentários daquela terrível mulher - alguns desculpados pela menopausa - pareciam impercações, histerismos, loucuras numa espécie de anel de fogo que continha o escorpião. No final Saramago viaja, diz o realizador. E nós também, dando graças pelo fim.
Sem menosprezo pela fotografia e pela produção da El Deseo que, como sabemos, tem tratado de forma excelente os filmes de Almodôvar, há muito tempo que não tinha visto algo tão postiço, tão francamente mau. Imagino que tenha sido isto, ou algo semelhante, que Almada Negreiros sentiu depois de ver a peça de Júlio Dantas, sendo a peça não o filme em si, que se desculpa pela realização, mas os últimos anos de Saramago.
Morra o Dantas, morra. Pim! (ou Plof!)

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