7 de junho de 2011

A História não é do Povo, nem de Moscovo.

Não existe História asséptica, nem imparcial. Existe coerência, interpretação e bom senso. Infelizmente ainda não possuímos um código deontológico para Historiadores, pelo simples facto de que não existe, também, qualquer instituição que superintenda a escrita da História ou (superintender é capaz de ser inadequado) zele pela boa historiografia em Portugal. O panorama é comum a muitos países, embora em Portugal seja mais confrangedor, dado que a facilidade com que qualquer um toma para si a denominação de historiador, desacredita a boa história, a História com H grande, escrita segundo o método científico que esta disciplina exige. Por outro lado, como a História é pedagogia e a escola tornou-se um laboratório de conceitos fúteis, aplicados a pressupostos de progresso social e meta-social (o que quer que isso seja), o lugar das humanidades foi sendo substituído por «ciências» realmente «verdadeiras», por «números», por «conceitos» galicistas e anglo-saxónicos inventados por alguém, num gabinete esterilizado mas pouco ventilado, lá longe, em Bruxelas. A História tornou-se um adereço difícil de justificar. De tal forma que o Passado se torna, dia após dia, uma montra de clichés que perduram enquanto existirem a wikipédia e os humoristas.
Mas há algo de muito perigoso na História: o facto de, uma vez caída na rua, ela ser reduzida a um simples pedaço de plasticina que qualquer um molda, com a voracidade de uma criança. Foi o que aconteceu recentemente em Espanha com o novo Dicionário Biográfico editado pela Real Academia de História. Na esteira da desumanização e da socialização das ciências, a História passou a ser um entretenimento e, como tal, quando não entretém, está mal. Está errada. Bem sei que sempre foi apologia dos «ismos» a manipulação da historiografia e que neste período do demagogismo, são os movimentos colectivos que tomam a seu cargo, pela pressão mediática, a condução da censura que outrora cabia a certos condottieri. Mas começa a tornar-se um hábito, conduzir a formatação ideológica da História e da historiografia ao extremo. Começa, aliás, a tornar-se um hábito, o vulgar cidadão considerar-se um super-homem, dotado com o conhecimento de astro-físico e de político, passando pelo domínio absoluto da História ou da medicina, entre outras muitas áreas. Mas se a minha avó costumava dizer que «de médico e de louco todos temos uma pouco», também replicava, de vez em quando, que «cada macaco no seu galho». E estava certíssima.
Por isso, não discutirei se a entrada ou o verbete biográfico de Franco está ou não incorrecta e (ou) contém apreciações parciais sobre a sua via pessoal e política. Ainda não o li e de Franco sei apenas o que aprendi em História Contemporânea da Europa, complementado com um trabalho que então apresentei à mesma cadeira sobre a Guerra Civil de Espanha. Mas creio ser muito pouco para abalizar sobre os erros do historiador que redigiu o artigo. Uma coisa é certa. Se difícilmente um médico discutirá com o doente o diagnóstico e a terapêutica, também o historiador não deve deixar-se intimidar por bandeiras vermelhas ou republicanas. Pelo menos se vieram na mão de não historiadores. E mesmo assim...
A história não é como a comunicação social que na sua incapacidade de produzir pensamento, se vende por um prato de comida ideológica. A História tem um objectivo muito simples: conhecer e interpretar o Passado para contribuir na construção colectiva de um Presente e um Futuro melhores.
Não existe para agradar às multidões.

1 comentário:

  1. Felizmente ainda há historiadores independentes das cores e que acreditam na verdadeira missão da História. Têm é o trabalho dificultado pela maioria que vê na História mais uma oportunidade de lucro ou de projecção pessoal.

    ResponderEliminar

A Democracia exige Responsabilidade individual. Nicks, anónimos ou mensagens insultuosas demonstram faltam de auto-estima, comportamentos associais e incapacidade de lidar com a opinião alheia e, como tal, não serão publicados.