28 de abril de 2011

O Historiador.

V. Magalhães Godinho (C) José Ventura / Expresso
 

O ofício de Historiador já foi respeitado em Portugal.
Alexandre Herculano era ouvido pelos políticos, Oliveira Martins constituiu uma espécie de decano da sabedoria oitocentista e, mais recentemente, a perda de A. H. de Oliveira Marques originou um irremediável vazio na cultura portuguesa. Bem sei que José Mattoso assume ainda o papel de uma mítica figura, a que se recorre, de quando a quando, para questionar sobre o esplendor do Passado e honrar a intelectualidade a partir da ideia do velho sábio, entretido entre alfarrábios, a compilar dados inúteis que ninguém lê ou lerá a não ser ele próprio. Mas os últimos anos têm levado o resto do valor da figura do Historiador. E agora mesmo desaparece Vitorino Magalhães Godinho, um homem inconformado, como todos o deveriam ser.
Vendo bem, o grande problema na forma como se olha para o ofício de Historiador é o de nunca o considerarmos como um inadaptado, como alguém que ousa falar contra. O Historiador, para o público comum, é um ser inerte, acomodado, bibelot decorativo de arquivos e bibliotecas. Em último caso, um animador de palestras ou de comemorações de centenários, às vezes agitador de intelectuais ou entretenimento ligeiro para telespectadores curiosos. E a culpa deste cliché acaba por ser dos próprios.
Primeiro, porque os Historiadores, aqueles que acreditam que fazem ciência, que escrevem para o desenvolvimento do conhecimento colectivo, admitem que a História seja mal tratada. Todos os dias as Câmaras Municipais publicam "monografias" redigidas a título gratuito por amadores. Desde logo, o Historiador passa a ser um estoriador, um carola que vive de ar e vento e escreve uns artiguelhos por simples diversão. Aliás, qualquer indivíduo minimamente instruído parece mais do que qualificado para escrever História, desde o comentador político ao jornalista. E para um Presidente de Câmara cujo objectivo maior é encher o seu município com rotundas, chafarizes e sinais de trânsito, e exaltar estas hediondas obras, qualquer livro com fotografias e alguns textos laudatórios é passível de constituir edição maior da História Local.
Pois nenhum historiador clama contra isto. Nem a Academia Portuguesa da História, cujo objectivo principal devia ser o de zelar pela preservação da Memória nacional é capaz de se insurgir contra esta "deseducação" massiva que alimenta bibliotecas escolares, como se fosse possível levar a sério a prosa de um médico ou de um operário só porque leram meia dúzia de verbetes no dicionários do Pinho Leal!
Depois, o Historiador escreve quase sempre de si para si.
Muitas vezes, dou comigo a pensar que aquilo que redijo na minha actividade como investigador, pode ser muito interessante, mas apenas para mim mesmo, ou para um grupo muito restrito de pares. Então, para que serve o que escrevo? O que é feito do historiador humanista? Daquele homem que através do Passado conseguia ver o Futuro?
É extremamente revelador que um anónimo, destes mesquinhos que percorrem a internet a destilar frustrações, tenha deixado esta mensagem como nota à última entrevista de Vitorino Magalhães Godinho: "O Historiador não prevê, o Historiador relata factos passados". De facto, o Historiador não prevê, se o fizesse seria bruxo. Mas só o simples facto de caracterizar o aquele ofício como o de alguém que relata factos passados revela bem o entendimento comum sobre seu papel na sociedade: um marginal, despercebido, cujo objectivo é compilar dados aparentemente irrelevantes. [De resto agora ninguém quer ser Historiador, são todos medievalistas, modernistas, etc].
Não digo que os historiadores se tornem comentadores profissionais, tudólogos e especialistas em política do presente e do futuro, como o Rui Tavares, o Pacheco Pereira, ou a Irene Pimentel.
Mas começar a intervir publicamente, deixando os estrados das universidades e dos auditórios e marcando posição numa sociedade cada vez menos letrada, interessada e civicamente atenta, seria uma forma de reivindicar o papel, privilegiado aliás, do Historiador nas sociedades contemporâneas: o de guardião da memória e o garante da progresso intelectual e educativo das sociedades.
Foi, afinal, o que fez Vitorino Magalhães Godinho ao longo da sua vida.
Que a terra lhe seja leve.

2 comentários:

  1. "O Historiador, para o público comum, é um ser inerte, acomodado, bibelot decorativo de arquivos e bibliotecas. Em último caso, um animador de palestras ou de comemorações de centenários, às vezes agitador de intelectuais ou entretenimento ligeiro para telespectadores curiosos. E a culpa deste cliché acaba por ser dos próprios."

    Tem muita razão, Nuno, infelizmente.
    Como amante da História e atento que estou à percepção que as gerações mais novas vão formando de algumas das questões mais críticas tomadas em mãos pela historiografia nacional e d'além-Portugal, creio que o problema mais severo e negligenciado pelas academias hoje, se prende com a transmissão aos comuns da importância e da utilidade da História enquanto ciência.
    Na Faculdade de Direito de Lisboa, que frequentei até ao último ano de curso, na menção de Ciências Histórico-Jurídicas da licenciatura em Direito, cheguei a ser o único aluno desta opção disciplinar, e por vezes, quando dizia a alguém que estava na menção de 'históricas', não rareava quem me olhasse como um excêntrico, uma espécie de quase-embaraço para a casa... E no entanto, alguns dos mais brilhantes, notáveis e carismáticos Professores que tive a honra de conhecer e ter como Mestres eram docentes de cadeiras eminentemente 'não-jurídicas' mas sim 'histórico-filosóficas' — recorrendo aqui a uma expressão há muito em desuso e à falta de melhor — na sua essência — caso dos Professores Eduardo Vera-Cruz e Adelino Maltez.

    Este constante relegar da História e sua relevância para um certo 'sub-mundo' de presumidas ociosidades contemplativas, é sem dúvida um grave problema do nosso tempo. E no entanto, algo me diz que se trata de um mal propositadamente protelado, e isto tão-só porque, como tão bem sintetizava Orwell: "Who controls the past controls the future. Who controls the present controls the past." e 'eles' o bem sabem...

    Abraço de Longe,

    Luís Afonso

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  2. Bom dia. Ao divulgar o meu blog vou encontrando pelo caminho outros igualmente interessantes. Parabéns gostei muito. Convido a ver a minha galeria e se poder divulgar pelos amigos agradeço.

    Cumprimentos

    Francisco

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