13 de março de 2011

Foi bonita a festa, pá!

 

diria Chico Buarque. E foi. Havia berimbaus e liras, touros e forcados, desfolhadas, megafones e homens da luta. O protesto era apartidário mas a propaganda estava por todo o lado. E o laico e pacífico eram expressões menores para um desfile encenado, numa espécie de palco pop-culture-retro, onde só faltaram as calças à boca de sino e a floral chita.

Estas manifestações ritualísticas de contra-poder, encenações de revolução, ainda que anacrónicas, são catárticas e, de certa forma, desinibem franjas da população para a intervenção. Eu sugiro que se aproveite a força anímica para começar a trabalhar, mas a sério. Para começar a revolução de dentro, aproveitando recursos, em vez de pedir mais; recusar superficialidades, em vez de exigir que um Estado impessoal e pesado as alimente.

Por que não reclamar um governo menos interventivo, e iniciar um processo de intervenção individual? Recusar o partidarismo, por exemplo, e dar força aos movimentos cívicos? Compreender que, quer o BE, quer o CDS-PP, quer o PS, o PSD ou a CDU pensam primeiro nos seus eleitores e só depois nos cidadãos; que Democracia não rima com Partidocracia? Ou que tal dar uso às palavras activismo e cidadania? E, finalmente, concluir que "manifestarmo-nos" todos os dias, ainda que isolados, também é uma forma de luta? Porque a grande conquista da democracia, quanto a mim, não é a voz da multidão (que se ouve bem), mas que uma só pessoa consiga fazer a diferença. Perceber isto é importante. E abdicar de certos luxos também.

Estas manifestações estavam repletas de gadgets da última geração: foram fotografadas, filmadas e comentadas em telemóveis, laptops e ipads. A geração à rasca é também a geração dos telemóveis de última geração. Os protestos foram combinados e geridos a partir do facebook, mas "curiosamente", ainda há quem não saiba o que é um teclado, não tenha dinheiro para googlar, ou não possua a distante e cosmopolita e complexa consciência cultural desta juventude burguesa que vai desfilar, em roupa de marca, na avenida da Liberdade em Lisboa.

Dizem que foram cerca de 300 mil pessoas em todo o país. É significativo. Ainda assim o número de desempregados ultrapassa o número dos 500 mil. E pobres, serão 2 milhões. E esta gente, pá? (*)

(*) Esta "gente" vive à rasca há dezenas de anos, no interior, nas cidades, sem ou com pouquíssimos recursos e, se calhar (e felizmente), sem a superficialidade da juventude licenciada que reclama por um emprego - não um emprego qualquer, mas um emprego à altura. § Por outro lado extrapolações e comparações feitas a partir destas manifestações são, no mínimo ridículas. Em 1975 (até em 1985, vá!), fazia sentido o protesto, hoje não faz. E muita gente que o comparou ao 25-4, esquece-se de algo muito importante: a Revolução dos Cravos aconteceu porque uma classe o desejou. Não foi o povo de megafone que derrubou o regime. Foi um militar, politizado, que de megafone em punho exigiu a sua queda. Hoje, não existem militares interessados nessa mudança, e o tal "povo", despolitizado, que durante 30 anos bocejou e engordou quanto passou o poder, de mão beijada, para a mão dos os políticos devia saber que é muito difícil contestar o usucapião...

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