20 de fevereiro de 2011

Palavras ditas.


Desconheço a amplitude do espanto que estas cartas provocaram em 1905, mas a avaliar pelo seu conteúdo corresponderam, com certeza, a uma revolta mental. Tal revolta, num país em que, mais do que a iliteracia geral, causa(va) dó a pequenez e a estreiteza literária das suas elites, esta edição deve ter correspondido a um terremoto de pequena escala. Em mim, hoje, passados mais de 100 anos sobre a primeira publicação, o impacto desta leitura foi o de uma implosão interior. Palavras cínicas, de Albino Forjaz de Sampaio, obscuro publicista e bibliófilo de que apenas conhecia de umas modestas crónicas de viagem e um tratado de biblioteconomia, é o mais duro golpe na essência humana que alguém ousou proferir em Portugal, ao nível dos primeiros filósofos existencialistas e dos pensadores mais honestos. Para quem, como eu, não acredita na Humanidade, Palavras cínicas é um pequeno manual, uma espécie de perfume concentrado da cupidez humana, destilado em fel. A. Forjaz de Sampaio fez justiça. Esqueceu o que diferencia todos os homens e mulheres e concentrou-se, apenas, no que os torna tão iguais: a maldade. "Que me importa que a imagem desta libra seja a duma rainha ou a de uma prostituta se com ela eu posso comprá-las ambas?" Para Forjaz Sampaio, a fórmula de Lavoisier adapta-se à condição humana: todos se vendem, todos se compram, ninguém se perde neste câmbio. E pior, aqueles que foram bafejados pela ajuda de outrem, não passam de ingratos: "acredita que todos aqueles a quem fazemos bem, nutrem lá dentro a secreta esperança de um dia nos correrem a pontapé." O egoísmo da dor, a inevitabilidade do ódio, o lenitivo da morte podem parecer chavões, e chavões demasiado cruéis para quem acredita na bondade e na esperança. Mas, como refere o autor e bem, convinha que todos lessem estas cartas quando o mundo nos fizer chorar. Parece-me bem por isso que, nos dias correntes, as tenhamos por perto...

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