21 de fevereiro de 2011

Os Brilhantes do Brasileiro.



Os Brilhantes do Brasileiro, novela de costumes passada entre o Porto, Viana do Castelo e terras de Vera Cruz é um dos exercícios de crítica social mais violentos de Camilo Castelo Branco. A história de amores corrompidos, ligações subitamente cortadas e coincidências providenciais, eleva ao expoente a mordacidade do escritor ante a conveniência, o estatuto, e a obrigação moral. Ângela, filha ilegítima de dois fidalgos unidos por dores sentimentais e deveres familiares, conhece desde pequena o estigma da união ilícita dos pais e  como remediá-la aos olhos sempre abertos da sociedade: casar para nivelar o estatuto e corrigir a infâmia da sua criação. Incorre, porém, no pecado paterno: ama por amor e, como o pai, que a renega como renegara a sua mãe (mulher que nunca amara), cai num turbilhão de maldições. Conhece a pobreza, a impercação da tia honesta e íntegra e a fuga, que a desgraçará para sempre, por cortar com a ordem estabelecida. Sem o amor mecânico, entretanto enlaçado da triste sina de ser pobre e, portanto, presa fácil dos arremedos dos grandes, Ângela, algo tontinha (sendo isto por vezes confundido com a inocência) entrega-se nas mãos papudas e sabujas de um brasileiro, Hermenegildo, que regressado de além do Atlântico procurava criar na sua rotunda personagem, o que odiava nos outros: o prestígio e a respeitabilidade do sangue, agora já não conquistados pela espada, mas pelo dinheiro. Tudo metal, enfim. Esta figura é, aliás, de todas no romance a mais interessante. Hermenegildo e os seus três amigos da praça do Porto representam aquela trupe imbecil, hipócrita, mesquinha e fútil que o dinheiro ajuda a polir e a lavar, mas que mantém o mesmo goto sujo e vil de onde surgiram, seres unicelular a formarem-se na sopa primordial. No Brasil fizera-se rico e estúpido, vagamente republicano e totalmente avesso à Igreja, que usa, porém, como lhe aprouva. Este gordo retornado, consciente da sua má figura, sabe que Ângela o despreza e quando esta vende as jóias do dote para pagar a sobrevivência e a formação da irmã e do homem que ama, dói-lhe mais a bolsa do que a consciência. Regressa ao Brasil com uma das suas amantes e move mundos e fundos para arruinar economicamente a bela mulher que, de bom grado, o troca por umas águas-furtadas no largo do Moinho de Vento. Volta o oficial mecânico, já cirurgião, morre Hermenegildo, cura-se o pai de Ângela e faz-se luz para todos. Sobretudo porque este romance é um abrir de olhos para todos aqueles que apontam o dedo. Camilo apontou-o várias vezes e foi apontado outras tantas. Sabia do que falava, portanto.

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