22 de fevereiro de 2011

Nova História da Porcaria.


Desde que a Nova História veio estabelecer que na historiografia não há barreiras, que alguns historiadores e estoriadores deixaram de se pôr em bicos dos pés e alegremente deram azo aos seus desejos mais íntimos. O voyeurismo histórico está na moda. Espreitar através dos buracos da fechadura é o único método e o único alívio para estes onanistas da cronologia. Mesmo que não interesse absolutamente nada saber a cor ou o material dos cueiros do Colombo, o número de vezes que o nosso D. João VI comia coxas de frango, se D. Carlota Joaquina se amantizava, ou sequer se Napoleão tinha chatos, estes parecem ser os temas em voga. E ainda que a dimensão do nariz de Cleópatra tenha influído na História Universal, (vá lá, compreende-se a pertinência da contra-factualidade), conhecer os pormenores sórdidos da alcova régia ou presidencial a quem serve? A masturbadores compulsivos que pretendem livrar-se ocasionalmente da lascívia que os apoquenta. A maior parte disto é porcaria. História do Sexo? História do Peido? História do Coito? História Queer? Amantes dos Reis de Portugal? Pormenores escabrosos de teor sexual? O que é isto? Nada, é claro. A maioria dos "investigadores" nem se preocupa em relacionar o tema e o objecto de estudo, no Tempo e no Espaço. Vamos analisar a tal história queer ou homossexual. Primeiro, ambos os termos são contemporâneos e, em segundo lugar, a própria consciência de "ser-se" homossexual é também recente. Como conceber isto aos olhos da medievalidade ou do classicismo? Impossível, dada a escassez de relatos na primeira pessoa e fontes credíveis. É, aliás, impossível traçar uma linha verdadeira e honestamente científica da tal "homossexualidade" desde, vamos supor, a Pré-História até hoje, que não seja pela biologia. Mas para isso não é preciso um historiador que nos venha elencar os homossexuais ou as lésbicas "famosas" desde há milhares de anos. Ou fazer história a partir de boatos, de diz que disse, de murmúrios malfazejos. Porque é disso que se trata, "desmascarar" os famosos nas suas "grandezas ou misérias" e expô-los ao ridículo - o que não deixa de ser curioso, quando a ideia inicial da maioria destes articulistas ou historiadores até será fazer a apologia da tal orientação sexual, supostamente errada ontem e correctíssima (aconselhável, diria mesmo) nos dias de hoje. Os livros ou as reportagens que saem todos os dias sobre estas questões só servem para satisfazer as vendas editoriais, o ego de certos autores e o deleite de alguns leitores, desejosos por trocaram a monótona vida sexual que levam, pela garbosa e debochada vida dos mortos. De resto, como é sabido, jornalistas não escrevem História. Só estorietas. Por isso estes já muita gente não leva a sério. O pior é quando cientistas sociais embarcam nesta brincadeira e sujam as mãos com tanta porcaria...

3 comentários:

  1. E ficamos sempre sem a indicação de uma única fonte credível, a não ser o "dizia-se que", "constava", "ouviu-se dizer", etc.

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  2. Nuno sei que este post tem meses mas não resisto a comentar porque é um tema que me interessa. Tem razão em muitos aspectos: há sem dúvida uma banalização da História (Estou a preparar uma série de posts para o Aventar sobre este tema e com este nome) e ela é levada a cabo constantemente não só por revistas mas por filmes, séries e romances. Inclusive recentemente surgiu, como deverá saber, surgir um livro intitulado "os enigmas da História de Portugal" que vai mais ou menos nesta linha, disfarçado com uma cortina de seriedade.

    Agora não posso concordar consigo quando diz que não se pode fazer História da Homossexualidade. Quer dizer, é óbvio que não se deve cair no erro de escrever um livro sobre isso, contando, como já foi feito, as personagens históricas que tinham ou não tendências homossexuais. Agora, fazer estudos sobre a Homossexualidade (ou sobre comportamentos sexuais desviantes como seriam entendidos na altura - sodomia para usar a palavra) seria legítimo. No Volume da Nova História de Portugal do João Alves Dias, há uma análise, ainda que breve, desse tipo de comportamentos no Portugal Moderno. E penso que ninguém disputa a idoniedade do Alves Dias.

    Seria também importante, por exemplo no caso de D. Sebastião analisar-se isso. Os embaixadores espanhóis nas suas cartas ao Rei de Espanha fartavam-se de incluir remates sobre as preferências sexuais de D. Sebastião, relatando por vezes rumores de corte para justificar o argumento de que o rei português teria uma aversão ás mulheres.

    Também no caso de James I de Inglaterra é importante analisar as suas preferências especialmente se tivermos em conta que o Duque de Buckhingham era um dos visados. E o Buckhingham tinha uma grande influência na Corte.

    Felipe II chegou a discutir as tendências sexuais de António Perez.

    Isto para dizer o quê? Que tudo na História pode ser alvo de estudo, mas tem que ser feito de maneira séria, entendida no seu próprio tempo e lugar. Não desta maneira sensionalista e fora do contexto. Se me pergunta se a sexualidade é importante para perceber determinadas personagens históricas? É, como é evidente desde que haja fontes sobre isso. Geoffrey Parker diz claramente, ainda que eu esteja plenamente convencida que não é verdade, que Felipe II não se interessava por mulheres. Usa isto para argumentar que Felipe tinha um comportamento obcessivo compulsivo.

    Igualmente, os Historiadores utilizam os relatos do embaixador francês na Corte de Felipe para dizer que no principio do casamento Felipe e Isabel de Valois tiveram alguns problemas de entendimento: Razão? A composição física do Rei provocava imensas dores à Rainha que fazia o possível para o evitar.

    Agora é uma questão de se enquadrar tudo isto, de se perceber que quando falamos de sexo, seja homossexual ou não, temos que entender como ele eram encarado no passado.

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  3. Não discuto os seus argumentos, Daniela. Mas mantenho tudo o que digo. A metodologia, os conceitos, os termos são mal aplicados nas obras que refiro e, pior do que isso, não se destinam a lançar luz sobre assuntos que poderíamos considerar pertinentes do ponto de vista social ou diplomático. São assuntos de alcova. Especulação com intuito meramente propagandista ou sensacionalista.

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