14 de outubro de 2010

Tráfico.




Agora que estreia o novo filme de João Botelho (Lamego, 1949), "O Filme do Desassossego", convém recordar aquele que considero ser, juntamente com "Vai e vem", a mais completa descrição cinematográfica dos costumes portugueses: Tráfico. Um Presidente que ouve  constantemente o som de balidos e a sua amante, dois padres alentejanos que vendem as imagens religiosas da igreja e partem de mochila às costas para Lisboa, um casal de um bairro social de Lisboa que encontra droga numa praia e enriquece, a high-society alimentada a sardinhas cocaínadas, a tonta mulher do general envolvido em negócios obscuros, uma vernissage no Centro Cultural de Belém com Bagão Félix, etc etc. Todo o filme é um delírio visual e os diálogos são pérolas deliciosas que se dissolvem na boca de um excelente naipe de actores, como Canto e Castro, Rosa Lobato Faria, Ria Blanco, Alexandra Lencastre, São José Lapa, etc etc.  É certo que enferma de uma arritmia de que, quase endemicamente, caracteriza a realização e a produção cinematográfica portuguesa, mas supera-o a boa fotografia, os planos e o enredo. Foi apresentado em 1998, nas vésperas do último esgar imperialista deste país, mas é hoje tão actual como o será daqui a 20 anos.

Alguns momentos inesquecíveis:


"Antigamente, quando não tinham talento para exercer uma profissão iam para artistas plásticos. Hoje vão para deputados, comentadores políticos e jornalistas; e, segundo parece, ganham bastante bem."

"Tenho a cultura média de um europeu."

"Para mim isto é obra de um desempregado."

"- Pobreza não é crime.
- É incompetência."

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