Agora que estreia o novo filme de João Botelho (Lamego, 1949), "O Filme do Desassossego", convém recordar aquele que considero ser, juntamente com "Vai e vem", a mais completa descrição cinematográfica dos costumes portugueses: Tráfico. Um Presidente que ouve constantemente o som de balidos e a sua amante, dois padres alentejanos que vendem as imagens religiosas da igreja e partem de mochila às costas para Lisboa, um casal de um bairro social de Lisboa que encontra droga numa praia e enriquece, a high-society alimentada a sardinhas cocaínadas, a tonta mulher do general envolvido em negócios obscuros, uma vernissage no Centro Cultural de Belém com Bagão Félix, etc etc. Todo o filme é um delírio visual e os diálogos são pérolas deliciosas que se dissolvem na boca de um excelente naipe de actores, como Canto e Castro, Rosa Lobato Faria, Ria Blanco, Alexandra Lencastre, São José Lapa, etc etc. É certo que enferma de uma arritmia de que, quase endemicamente, caracteriza a realização e a produção cinematográfica portuguesa, mas supera-o a boa fotografia, os planos e o enredo. Foi apresentado em 1998, nas vésperas do último esgar imperialista deste país, mas é hoje tão actual como o será daqui a 20 anos.
Alguns momentos inesquecíveis:
"Antigamente, quando não tinham talento para exercer uma profissão iam para artistas plásticos. Hoje vão para deputados, comentadores políticos e jornalistas; e, segundo parece, ganham bastante bem."
"Tenho a cultura média de um europeu."
"Para mim isto é obra de um desempregado."
"- Pobreza não é crime.
- É incompetência."
Sem comentários:
Enviar um comentário
A Democracia exige Responsabilidade individual. Nicks, anónimos ou mensagens insultuosas demonstram faltam de auto-estima, comportamentos associais e incapacidade de lidar com a opinião alheia e, como tal, não serão publicados.