12 de outubro de 2010

De ontem já ninguém se lembra.

O Centenário da República Portuguesa já passou.

A própria República passou, com grande indiferença, por Portugal e pelos portugueses que nunca a sentiram como sua, verdadeiramente. A revolução de 1910 foi (convençamo-nos) só, e apenas, um golpe de elites descontentes com o a dificuldade de acederem ao poder por via democrática. E nunca houve um verdadeiro sentimento popular de adesão aos ideais republicanos propalados entre a segunda metade do século XIX e início do século XX. A maioria da população, analfabeta, supersticiosa, pacata era incapaz de entender os ideais francófilos que a força bruta dos carbonários urbanos e a filosofia de alguns estrangeirados lhes tentava impingir. E foi de facto, por isso, pela incapacidade das instituições liberais em reformar, a tempo, o ensino e fomentá-lo entre todos, que a República tão rapidamente arrebatou para si cérebros vazios, tornando Portugal não um país de republicanos, mas um país de obedientes e clientes que o regime abastecia com conezias e prebendas a gosto.

O mandatário das Comemorações, banqueiro de uma dinastia de burgueses, avisou que é preciso mudar de vida, como a letra da canção de António Variações, mas esqueceu-se que mesmo após três repúblicas, três constituições, o próprio regime nunca conseguiu renovar-se e mudar de vida. Mesmo apesar de tentar refundar o país ao impingir-lhe uma bandeira de ideais que não eram os seus e a forçá-lo a aceitar políticos e dirigentes completamente alheados da "coisa pública", renegando uma estrutura de séculos que podia ter sido modelada para caber no novo caminho histórico (em vez de parti-la em pedaços e cuspir-lhe em cima), o regime republicano falhou. E o Passado nunca foi tão manipulado para servir um ideal de política, como nos últimos 100 anos. A prova maior foram as Comemorações que, pelo preço de 10 milhões de euros, celebraram não os acontecimentos, não os factos, mas uma ideia, um ideal que muitos não conhecem. Por isso, de ontem, do dia 5 de Outubro, já ninguém se lembra.

Mas algum dia lembraram?

Esta pobre república, pobre economicamente, pobre socialmente, pobre educacionalmente, porém rica em demagogia, se quisesse mesmo regenerar-se tinha aproveitado o Centenário da República para mostrar que o Passado, que a Memória se reconciliava aqui, com um Presente mais tolerante, mais comedido e mais fraterno. Ao invés disso, apostou no esbanjamento, na mais clara manipulação da História e, pior, na deseducação dos seus jovens que hoje têm apenas ideias parcelares do passado do seu país, de repente elevado ao glorioso estatuto de nação centenária, fazendo tábua rasa da memória anterior a 5-10-1910.  
Porém, se o país é, sobretudo, constituído por indiferentes, não podemos negar a existência de duas espécies de republicanos, os que confundem nação com regime e agitam a bandeira verde-rubra nos futebóis e os republicanos de velha cepa que vão de mão no peito ao 31 de Janeiro e ao 5 de Outubro. Grupo pequeno, envelhecido, constituído por indivíduos que confundem democracia e república, da velha cepa dos homens de 1910-1926: cientes das prerrogativas senatoriais dos líderes, machistas lusitanos para quem mulher e sufrágio são realidades incompatíveis e velhos marxistas de punho cerrado a recordar sindicalistas de outrora (mais brandos, porém, menos dados à pólvora e mais ao vinho). É o caso do "historiador" Armando Carvalho Homem que, mesmo apesar de académico insiste em lixiviar a história da República,  varrendo o Estado Novo para debaixo de um tapete fictício, transformando o que é efectivamente uma res publica em res nihilo, quando o bom senso (já para não falar a ciência) reconhece o regime ditatorial de Salazar como herdeiro dos republicanos e das condições do regime antes de 1933.

Honra seja feita a estes republicanos empedernidos, porém, os quais, pelo menos, lá se vão batendo com ardor pela causa, gritando viva a democracia e afastando os demónios que estes 100 anos criaram, amamentados sofregamente no peito da Dona República. Mais tristes são os que não apresentam soluções e se dizem apartidários ou sem ideologia, que clamam contra a república, contra a monarquia e contra tudo no meio, o que quer que tal seja, sem soluções, sem destino, sem visão. E no final desta triste procissão fúnebre, os admiradores dos regicidas que clamam por mais sangue, como se o que desde 1908 até hoje não fosse suficiente. Para estes vampiros, nunca a liberdade é o bastante, só a morte.

No final, a política de campanário: escolas inauguradas, placas descerradas, reafirmação da toponimização republicana do país, com homenagens a suicidas e a figuras apagadas cuja única obra foi estar do lado certo na hora certa,  propaganda e muito dinheiro ganho em edições de luxo (que, como disse Pinho Leal, às vezes se confunde com lixo), tudo isto para levantar, não o esplendor de Portugal, mas as peles caídas da centenária senhora cujos seios, outrora entumescidos, são hoje pingentes de fonte seca. Em 2010, Portugal, mas sobretudo Lisboa foram de novo um país e uma cidade dos anos 40 do século passado.

Nesta república de poucos homens não é como Camões augurava: mudam-se os tempos...

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