30 de setembro de 2010

Um certo Douro em 1909.

MENDES, Adelino - Terras malditas. Porto: Magalhães&Moniz, 1909.


Adelino Mendes, que J. Paulo Freire definiu, em 1924, como a «mais alta expressão do jornalismo de paysagem» (1) foi um dos repórteres da República. Nos anos conturbados imediatamente antes e depois de 5 de Outubro de 1910, A. Mendes nunca deixou de, quer nas páginas do Século, quer nas páginas d'A Capital, de debitar crónicas de um jornalismo «realista», extremamente tendencioso que pintava a cores fortes os quadros sociais, técnica tão ao agrado da luta política e ideológica daquela época. § Em Janeiro de 1909 Adelino Mendes foi encarregado de deslocar-se ao Douro para fazer uma reportagem sobre as condições de vida das gentes daquela região. O estilo posto nas descrições, pungentes relatos «em directo» de uma certa desgraça que equivaleriam hoje ao sensacionalismo de certas redacções, causou impacto em Lisboa. Entre 18 de Janeiro e 1 de Março de 1909, A. Mendes percorreu praticamente todas as freguesias de Peso da Régua e algumas freguesias de Sabrosa, Alijó, Lamego e São João da Pesqueira traçando, num melodramático e monocórdico tom de desgraça, um certo viver do Douro. O tom das suas crónicas, separadas por dias, viagens e destinos, é sempre o mesmo: dirigindo-se aos casebres mais pobres, lá encontra material para a sua análise. Segue-se uma breve entrevista. O interlocutor, seja uma mulher vestida como uma vagabunda, um petiz descalço e esfomeado ou homem velho ressequido pela indigência confessa-lhe invariavelmente o mesmo: uma vida miserabilíssima de fome e desemprego. De vez em quando um pequeno proprietário dá a voz ao entrevistador. E o discurso é, vocabular e gramaticalmente semelhante, do pobre ao morgado: a pobreza, a desgraça, a miséria. Um certo Aires, fidalgote de Lobrigos, terá mesmo afirmado: «A monarchia [...] já nada póde dar». E acrescenta, falando pelo morgado decaído: «Só tem esperança no triumpho da democracia. E se, para ella vingar, fôr preciso subir aos alcantillados cêrros da sua provincia, ele, apesar dos seus quarenta anos bem puxados, não será dos ultimos a trepar». § Apesar da fraqueza derivada da miséria, A. Mendes não hesita em imaginar o povo duriense, qual fronda armada, a ir a Lisboa para...(as reticências são o autor)e acrescenta: «a revolta que o domina [ao povo] é latente». Para o jornalista, que apenas procura a pobreza, a sociedade nem chega a ser maniqueísta. Não há ricos, apenas pobres e embora seja benevolente com o poder clerical (de salientar longa a exortação à acção do abade de Sedielos) não hesita em criticar a devoção dos pobres, ridiculizarizando os recentes «enfeites» da igreja de Favaios, douramento que custara 3 contos de réis: «Quantas casas rasoaveis se construiriam para os pobres operarios de Favaios com essa avultada somma?», questiona. § Embora farto em acusações, o texto de Adelino Mendes é menos rico em razões para a elevada taxa emigração, para o desemprego e para a fome endémica. Culpa os os caciques locais, os políticos e o governo, mas pouco diz sobre os negócios do vinho, a especulação dos preços e a conjuntura económica nacional e internacional. Em Lamego fala do crédito e das penhoras, porém, o vocabulário económico não faz parte das suas crónicas. Adelino Mendes é um repórter, mas podia ser um romancista, Realista ou Naturalista, como Abel Botelho, o republicano nascido em Tabuaço que na sua colectânea de Contos «Mulheres da Beira», traça imagens muito semelhantes de um certo Douro.

(1) FREIRE, João Paulo - Homens do meu tempo. Porto: Livraria Civilização, 1924, p. 13.

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