1 de setembro de 2010

Teenage dream




"É uma certeza que o demónio apresenta-se por vezes na forma de pessoas não apenas inocentes, mas também muito virtuosas".
Rev. John Richards, século XVII


Eu tiro fotografias a pessoas. A conhecidos ou anónimos, o que inclui adultos e crianças. Faço-o, claro, sem implicar identificações não consentidas. E gosto, especialmente, de fotografar crianças pela sua espontaneidade, pela vivacidade, pelos sorrisos. É óbvio que a fotografia implica uma captação, a fixação daquele instante (parafraseando M. de Sá Carneiro) que é sempre tão íntimo e tão pessoal e por cuja razão o seu uso deve ser ponderado e correcto. Mas não posso deixar de ficar preocupado com as recentes notícias que dão conta de certas detenções ocorridas em Vilamoura e Moledo. Dois fotógrafos foram detidos após queixa de alguns pais. Segundo estes, os indivíduos actuavam de forma "estranha" e tinham na sua posse várias centenas de fotografias de crianças. Parece notório o crime, porém não posso deixar de considerar censurável que se actue perante este problema (o da exposição pública de crianças) com dois pesos e duas medidas. Todos os dias milhões de fotografias são despejadas na internet por crianças e adolescentes. A maioria delas apela para a exaltação da nudez e da sexualidade. Sites como o hi5, o netlog, o flickr e mesmo o facebook têm acessíveis fotografias francamente explícitas e não foram colocadas por terceiros, se não pelos menores nelas apresentados. E não sei se têm reparado como os videoclipes musicais sexualizam cada vez mais a criança/adolescente (um dos últimos vídeos de Katy Perry, intitulado Teenage Dream, é francamente paradigmático). Então, quem responsabilizamos? Doravante terei mais cuidado com as fotografias que executar. Talvez erradique a figura humana e volte ao abstraccionismo puro. Parece-me que neste novo tempo de caça às bruxas é cada vez mais complicado distinguir entre inocentes e virtuosos...

2 comentários:

  1. A desculpa para o veiculo de fotos impuras sempre o foi a forma de arte, e outros argumentos identicos.

    Recordo uma vez, pelos meus 12 anos, certo individuo de mais de 50 anos andar assediar rapazes da escola nas ruas oferecendo fotos porno. E recordo historias de um homem que oferecia boleias para mexer no sexo dos rapazes.

    Todos sao alvos suspeitos. Paga o justo pelo pecador.

    Quem tem filhos, tem preocupaçoes e os tempos de hoje nao sao os da passado. Eu brinquei na rua sem haver perigo, e mesmo assim, como relatei elas aconteciam e nesse tempo havia tranquilidade.

    Bem haja

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  2. «A desculpa para o veiculo de fotos impuras sempre o foi a forma de arte, e outros argumentos identicos.»
    Fotos impuras? eu não sei cá o que isso seja. Sei que antes da fotografia já se representavam nus, infantis ou de adultos. O que eu quero dizer é que estamos a alimentar um mercado de pornografia com uma mão e a puni-lo com outra. Ou as preocupações dos pais são diferentes na praia do que em casa? Ou seja, na praia pode haver predadores, mas não há qualquer mal que a mesma criança se exponha (sim, ela própria) a outros predadores, mas na internet? É isso que não compreendo. Só isso.

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