19 de setembro de 2010

O parto republicano.



A História de uma nação apresenta momentos-chave em que o seu destino colectivo se vê perante dilemas ou aporias que é necessário enfrentar ou resolver. Foi assim com Alcácer Quibir, a Restauração de 1640 e o Ultimatum de 1890. A República nunca foi um turning point no percurso de Portugal enquanto nação, enquanto desejo colectivo ou ansiedade conjunta. É necessário que exista um Outro e que o Outro nos agrida ou nos subjugue para ocorrer no espírito colectivo (se é que ele efectivamente existe) uma "vontade de querer". Pelo contrário a República fez regredir o país em quase 100 anos, até às lutas entre Liberais e Miguelistas colocando, de novo, portugueses contra portugueses, em nome de um ideal que era de pouquíssimos. Como qualquer organismo infectado, o corpo reagiu com anticorpos e a República, aos poucos, entranhou-se, primeiro como uma constipação, depois já gripe (como a de 1918) que por pouco não matava o hospedeiro se não fossem as mezinhas salazaristas que pugnaram por um Estado Republicano forte e opressivo. Mas esta opressão não ocasionou uma reacção instintiva à doença e o corpo acomodou-se a achaques periódicos, até 1974 quando, de novo, não o país, mas o regime tentou uma refundação. Hoje, tenta-se construir a imagem laudatória e idílica da chegada do novo regime, em 1910. E o papel dos Historiadores nesse campo é fulcral. Num campo historiográfico praticamente inexplorado (quando comparado, por exemplo, com o da  vizinha Espanha), sem background quanto a estudos Políticos, Económicos e Sociais do país contemporâneo, foi entrada fácil a um pequeno grupo de historiadores tendencialmente ligados a correntes ideológicas de Esquerda que tomou de assalto esta área de estudo. De facto, o nosso corpus de historiadores, voltado ora para a medievalidade e para a Expansão, ora para temas avessos à Idade Contemporânea permitiu uma manipulação muito mais vincada dos factos ocorridos nos últimos 150/100 anos. E as Comemorações do Centenário da República, ainda que incipientes na sua programação pró-populi, consagraram o estudo de poucos, com conferências e livros de toda a espécie que não escondem a sua posição nitidamente sectarista. A Primeira República deixou de ser diabolizada para constituir um modelo de virtudes onde, diga-se, até se podem encontrar pontos de ligação entre o actual regime. E esta "Segunda República" passou a regime democrático, saltando sobre o Estado Novo que foi arrumado na secção de não-República. Traçou-se assim um ponto de vista inflexível e irrefutável: antes de 1910 não existia democracia em Portugal. Esta chegou a 5 de Outubro daquele ano. Foi suspensa com o golpe de Maio de 1926 e regressou a 25 de Abril de 1974. Ao percorrer a vasta bibliografia subsidiada, em grande parte, pelo erário público, (como era a propaganda nacionalista nas décadas de 1940 a 1970), constatamos o súbito interesse pelo papel da Maçonaria na implantação da República e no Regícidio, com uma clara desculpabilização desses dois actos em detrimento de um ideal  maior, a Liberdade, supostamente inexistente durante a Monarquia, ainda que esta fosse Constitucional e assegurasse, desde 1834, amplas liberdades que são hoje apanágio das maioria das democracias  ocidentais. Esta refundação de Portugal pela historiografia é preocupante e recorda o movimento surgido durante a 2ª República, não tão claro na sua catequização como a cartilha estado-novista, mas nem por isso menos gritante, sobretudo quando pretensos trabalhos históricos intitulam uma obra com o título "Viva a República". Aproximando-se o dia 5 de Outubro de 2010 e conhecendo já o programa das celebrações podemos, para já, asseverar algo: a propaganda erudita é vasta mas não chega para alimentar o espírito colectivo. No último século, apenas o totalitarismo do Estado Novo conseguiu mobilizar a opinião pública para se legitimar enquanto regime intrinsecamente nacional. Embora se espalhem mensagens de participação, em que tudo, hoje em dia, gira à volta de República (até relógios...) dificilmente se verão manifestações espontâneas de Viva a República! ou marchas populosas de apoio ao regime. Como em 1910, a ideia republicana de hoje é, ainda, uma ideia de poucos, a de uma classe oligárquica que deseja manter o poder, não para servir o "Povo", mas para se servir a si mesma. A República Portuguesa é como Saturno devorando o seu filho: fá-lo ciclicamente e em 2010 ocorre apenas mais um parto.

2 comentários:

  1. Este, sim, é um artigo sectário, demagógico e falacioso. Comento apenas o seu final: a tal classe oligárquica que governou as Repúblicas apenas mudou as suas caras e nome: Passou a chamar-se Elite, em vez de Corte... Opiniões... E, já agora, Viva a República!

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  2. Elite é um termo intemporal, não confunda as coisas, por favor. De resto, é a sua opinião. Eu fundamento a minha.

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