26 de agosto de 2010

Uma discussão a retomar.



DA NECESSIDADE PREMENTE DA ORDEM DOS HISTORIADORES


A importância da História e da Arqueologia na sociedade contemporânea são por demais evidentes. Diremos mesmo que à constante agressão de uma tecnologia desumanizada e mediocremente niveladora que transforma os cidadãos em seres cinzentos, vegetativos e abúlicos, estas Ciências são mesmo capazes de dar a razão da permanência de valores humanos e o impulso necessário para a criatividade no quotidiano.


Daí a preocupação generalizada com o passado, a preservação dos seus traços materiais, o estudo do seus problemas e das suas crenças, na tentativa de responder às de hoje e às de amanhã. Contudo, do ponto de vista de organização, definição e âmbito de actuação, nenhuma classe estará tão pouco organizada, definida ou protegida como a dos historiadores. Enquanto que todos os detentores de cursos superiores têm os seus órgãos de classe, vulgarmente designados por ordens, tal não existe neste sector. Apenas algumas associações que visam divulgar o seu trabalho, mas nada mais. Não há uma entidade que os defenda no exercício das suas funções, quer públicas quer liberais. E mais: enquanto que nunca passaria pela cabeça de ninguém contratar quem não fosse médico para exercer medicina, advogado para trabalhar as leis ou engenheiro para construir pontes, há entidades públicas, para não falar das privadas, que entregam a resolução de problemas de História ou Arqueologia a médicos que nunca escreveram nada sobre medicina, a advogados que nunca especularam sobre direito, ou a outros licenciados que sobre a sua área de saber se mantêm mudos e quedos mas que se abalançam a meter foice na seara que os historiadores tão mal guardada trazem para assim ser invadida.


Sem querermos ser classistas, elitistas ou coisa que o valha, mas solidários com todo aqueles que se dedicam à investigação e divulgação da história e que se sentem muito mais historiadores do que qualquer outra coisa; com aqueles que não confundem a sua função social com a categoria de funcionário público ou com o quadro do ministério a que pertencem; com aqueles que aplicam realmente os conhecimentos que adquiriram nas Faculdades, ou que pelo menos lá foram saber como os adquirir e não apenas buscar um papel que lhes deu expediente para um modo de vida cuja problemática não lhes interessa; com aqueles que trabalham em história e arqueologia, que publicam, debatem e repensam o que escrevem; em suma, com todos os que estão fartos de pertencer a coisas que não são carne nem peixe, reclamamos a urgente criação da Ordem dos Histo¬riadores que defina quem o é ou pode ser, que intervenha na defesa dos nossos direitos e que delimite os nossos deveres para com a sociedade que os solicita. Que defina os aspectos deontológicos do historiador, que intervenha na sua preparação de base e pós-graduação, de modo a acabar com alguns pseudo-cursos de especialização que por aí pululam dando positivamente uma má imagem do nosso exercício profissional.


Este apelo e esta proposta queria deixar ficar nestas Actas das Jornadas de História Local e Regional de Vila Nova de Gaia até porque me parece que encontrarão eco naqueles que nelas participaram e porque considero que o Gabinete de História e Arqueologia de Vila Nova de Gaia é uma entidade que pode ajudar a dar corpo à Ordem dos Historiadores.


Vila Nova de Gaia, 20 de Novembro de 1983
Gonçalves Guimarães


Nota: Este texto foi publicado em 1983, na Revista Gaia, mas apenas o conheci recentemente, já muito depois de escrever isto e isto. É sempre reconfortante constatar que há quem pense como nós, sobretudo alguém da craveira do Prof. J. Gonçalves Guimarães, de quem sou amigo e fiel admirador. E é preciso retomar a discussão. Que em tempos de estórias todos querem ser historiadores.

3 comentários:

  1. Não sou Historiadora mas tenho para mim que um mundo sem Historiadores é um MUNDO sem História sem ordem e sem passado que reclame do presente a continuidade na evolução natural do pensamento...
    Pasme quem pensar que ( neste País)a cair aos bocados, haja CÉREBRO que exigisse por na ordem do dia, a ORDEM DOS HISTORIADORES o facto de se ter na mão um diploma de doutoramento já chega ao GOVERNO e a sede própria para discussão e defesa dos valores culturais e patrimoniais...os mais deles a carecer urgentemente de atenção, não fossem um legado que devemos ao futuro!

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  2. Sou licenciado em História da Arte e mestre em História Medieval e do Renascimento e adoraria pertencer, se existisse, à Ordem dos Historiadores que promovesse encontros, seminários e ajuda científica a todos os que quisessem continuar a investigar sobre os temas das suas teses que de mestrado quer de doutoramente.Creio que conforme os outros licenciados tem a sua Ordem nós também poderíamos e deveríamos ter a nossa.

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  3. Caro João,
    A vontade é de todos nós, Historiadores.
    Volte sempre.

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